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Simpósio 81

SIMPÓSIO 81 – A LÍNGUA PORTUGUESA E AS SUAS LITERATURAS: CONCEPTUALIZAÇÕES E ENSINO EM TEMPOS PÓS-COLONIAIS, SUPERDIVERSOS E GLOBALIZADOS 

 

Coordenadores:

Roberval Teixeira e Silva | Universidade de Macau |  robts@umac.mo

Inocência Mata | Universidade de Macau/Universidade de Lisboa | InocenciaMata@umac.mo

 

Resumo:

O simpósio tem como proposta constituir-se em um espaço de reflexão interdisciplinar para discutir, num mundo pensado sob o prisma do pós-colonialismo, da superdiversidade e da globalização,  i) a conceptualização e ii) o ensino tanto das diversas variedades da língua portuguesa quanto das suas literaturas.   Novos contextos socioculturais têm levado a enfrentamentos que nos obrigam a redimensionar abordagens teóricas anteriores ao que se tem chamado de uma era pós-colonial, superdiversa e globalizada, uma vez que, em grande medida, são parcial ou totalmente inadequadas para lidar com as contemporâneas formas de estar e pensar no mundo. Outras perspectivas epistemológicas estão sendo anunciadas e também sendo exigidas.  Língua e literatura são construídas por – e construtoras de –  sujeitos que, na materialidade da língua, revelam e elaboram realidades locais e globais em português. A ideia é aproximar estudos perspectivados sob uma mesma teia de reflexões de âmbito sócio-antropológico e estético a partir dessa interconectada tríplice contemporânea. Estas conceptualizações teóricas constituem  o lugar  para engendrar  um ensino de língua e de literatura tendo em conta essas perspectivas recentes dos estudos das humanidades e das ciências sociais. Assim, dois pontos fundamentais poderão ser o foco dos trabalhos a serem apresentados:

  1. O debate sobre como conceituar/situar as variedades da língua portuguesa e as literaturas em português no mundo: para esta reflexão, esperamos receber pesquisas interdisciplinares em linguística, sociologia, antropologia e estudos literários e culturais que considerem contextos de deslocamentos vários, de ensino, de línguas em contato, de línguas estrangeiras, segundas, de herança, de acolhimento.
  2. A discussão mais especificamente do ensino do português e das suas literaturas como acima perspectivados: neste âmbito, esperamos contar com investigações que tomem como objeto de análise aspectos relacionados com as interações de sala de aula, o material didático, o discurso dos sujeitos envolvidos nas práticas pedagógicas,  as estratégias e as políticas de ensino, o planejamento e a organização curricular.

 

Palavras-chave: língua portuguesa, literaturas em português, pós-colonialismo, superdiversidade, globalização.   

 

Minibiografias:

Roberval TEIXEIRA E SILVA é professor e pesquisador do Departamento de Português da Universidade de Macau. Seus interesses de pesquisa assentam-se na abordagem sociointeracional do discurso. Tem se dedicado a i) estudos identitários, a ii) projetos que envolvem a difusão do Português no mundo, com ênfase nos contextos de mobilidade das comunidades diaspóricas chinesa e brasileira,  e a iii) investigações da interação no processo de ensino-aprendizagem do português como língua não-materna na China.

Inocência MATA é doutora em Letras pela Universidade de Lisboa e com pós-doutoramento em Estudos Pós-coloniais pela  Universidade de Califórnia, Berkeley,  é professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) na área de Literaturas, Artes e Culturas. Foi Directora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Português Língua Estrangeira/Língua Segunda da FLUL, sendo actualmente professora no Deparatamento de Português da Universidade de Macau, onde é vice-diretora.  As suas áreas de interesse são Literaturas em Português, Literaturas Africanas em Português, Literatura Comparada, Pedagogia Intercultural, Estudos Culturais e Estudos Pós-coloniais.

 

Resumos dos trabalhos aprovados

Comunicação 1

Letramento glocal em uma língua portuguesa pluricêntrica: notas para a construção de uma aprendizagem linguística e cidadã

Autor:

Roberval Teixeira e Silva – Universidade de Macau – robts@umac.mo

 

Resumo:

Esta comunicação discute, a partir do contexto da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), o que chamaremos de um “letramento glocal em português”, no qual o ensino de uma língua portuguesa é considerado sob a perspectiva do pluricêntrismo, da globalização e da superdiversidade. Neste novo contexto sociolinguístico, parece ser um direito dos aprendentes ter a oportunidade de serem letrados em português sob uma abordagem que leva em conta as línguas como construtos produtores e produtos de mobilidades físicas e virtuais, e de intensos contatos translinguísticos e culturais. Isto significa que os contextos e processos de ensino precisam levar em conta a linguagem como um lugar dinâmico, constituído sobretudo pela transitoriedade e pelas diferenças: diferentes culturas, diferentes identidades e ideologias, diferentes variantes, diferentes sujeitos, diferentes contextos. Para esta reflexão, consideramos os discursos de sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem da língua em Macau assim como os discursos oficiais colhidos em órgãos do governo e na mídia da RAEM. Preliminarmente, o estudo sublinha o impacto social que a sala de aula tem no contexto de Macau, uma vez que contribui para criar, no imaginário social, uma concepção de língua portuguesa como uma entidade estática, homogénea, geofisicamente restrita e uni-referencial e não como um lugar de diversidade, de processos e de mudanças. Para este trabalho, adotamos a perspectiva da sociolinguística interacional, portanto, tocamos em perspectivas políticas, sociais, culturais e linguísticas na análise desses discursos.

Palavras-chave: letramento; glocalização; Macau; língua portugues; pluricentrismo.

 

Minibiografia:

Roberval Teixeira e Silva é professor e pesquisador do Departamento de Português da Universidade de Macau. Seus interesses de pesquisa assentam-se na abordagem sociointeracional do discurso. Tem se dedicado a i) estudos identitários, a ii) projetos que envolvem a difusão do Português no mundo, com ênfase nos contextos de mobilidade das comunidades diaspóricas chinesa e brasileira,  e a iii) investigações da interação no processo de ensino-aprendizagem do português como língua não-materna na China.


Comunicação 2

  Uma interrogação sobre o ensino das literaturas em português: entre o “cânone lusófono” e  a “emoção estético-patriótica”

Autora:

Inocência Mata – Universidade de Macau/Universidade de Lisboa –  inocenciaMata@umac.mo

 

Resumo:

Parece ser, para muitos “empresários da memória” dos países de língua portuguesa, politicamente correcto declarar que a língua comum funciona no “nosso caso”, mais do que em outros casos em que a língua europeia é idioma oficial, como um elo sólido fundamentado numa “história original”. Creio que há uma razão para tal pressuposição, ou desiderato, ainda que ela possa ser mais ideológica do que histórica. Os países de língua portuguesa, quando “chegaram” à arena internacional, encontraram blocos de solidariedade, com base nos mais diversos elementos, já constituídos num mundo globalizado e superdiverso em que, paradoxalmente, a reivindicação da diferença é uma das marcas mais impositivas. Temos que nos defender, parece ser o lema dessa convição.

Um dos itens deste pressuposto elo é a literatura. Aqui, a ideologia (e, até, a emoção) prevalece sobre uma qualquer epistemologia. Por um lado, alguns escritores africanos podem aparecer no acervo da literatura portuguesa, reivindicados como “escritores de língua portuguesa”, num discurso de inclusão e constitutivo de uma “literatura lusófona” e, portanto, de rasura da sua nacionalidade; por outro, tem-se assistido à exclusão de determinados escritores do “cânone lusófono”, sobretudo quando a escritura contextual e história dessoutros escritores é menos “pastoral” (Ella Shohat). A questão que se levanta é: no estudo da literatura, a um nível genérico – por exemplo, uma unidade curricular como Literaturas Pós-coloniais Comparadas, leccionada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (e, até, a nível secundário, no programa da disciplina de Português) – como “resolver a questão” da nacionalidade dos escritores que escrevem em português? O que ensinar: literaturas em português (ou “lusófonas”, designação muito disseminada já, na esteira da “literatura francófona”, expressão que, embora recusada por muitos intelectuais africanos, continua a fazer o seu percurso) ou na perspectiva de “literatura nacional” entendida como “emoción estético-patriótica” (José-Carlos Mainer), isto é, autores consoante a sua origem geocultural, convocando,  para o efeito, uma pedagogia  intercultural que dê conta da diversidade literária de expressões culturais em português?

Palavras-chave: ideologia; literaturas em português; cânone lusófono; nacionalismos; pedagogia intercultural.

 

Minibiografia:

 Inocência MATA é doutora em Letras pela Universidade de Lisbo, com pós-doutoramento em Estudos Pós-coloniais pela  Universidade de Califórnia, Berkeley. É professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) na área de Literaturas, Artes e Culturas. Foi Directora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Português Língua Estrangeira/Língua Segunda da FLUL, sendo actualmente professora no Deparatamento de Português da Universidade de Macau, onde é vice-diretora.  As suas áreas de interesse são Literaturas em Português, Literaturas Africanas em Português, Literatura Comparada, Pedagogia Intercultural, Estudos Culturais e Estudos Pós-coloniais.


Comunicação 3

Reflexões sobre a formação de professores de língua portuguesa e de suas literaturas em contextos de minoria linguística no Brasil

Autora:

Alessandra Gomes da Silva – Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) –

aletrasufrj@yahoo.com.br

 

Resumo:

O Brasil é país plurilingue. Somos, de fato, reconhecidos por nossa diversidade linguística e cultural. Nesse contexto, muitas minorias buscam a legitimação de sua língua e cultura, ao mesmo tempo, têm o direito à aprendizagem da língua portuguesa. Alguns segmentos conseguiram, inclusive, o direito a uma escolarização bilíngue, com a manutenção de sua L1 e o ensino de língua portuguesa como L2. Esses segmentos vêm conseguindo reconhecimento político e começam a integrar a grade curricular das escolas, como a inclusão da literatura indígena e das literaturas africanas, além das referências culturais desses povos. Nesse sentido, também é direito dessa população aprender as referências literárias e culturais dos países lusófonos.

No bojo das diversas lutas por políticas linguísticas que envolvem minorias e os dispositivos relacionados a elas, pensamos em abordar o ensino de língua portuguesa como segunda língua para esses grupos e a formação de professores de língua portuguesa para contexto bilíngue, envolvendo línguas minoritárias e Língua Portuguesa escrita.  Tendo como base Maher (2007), podemos afirmar que tais lutas ocorrem principalmente quando se têm línguas que não possuem o mesmo prestígio social, como é o caso dos índios, surdos ou imigrantes, que devem aprender a língua portuguesa. Tal condição bilíngue, além de compulsória para esses grupos, quase sempre, é considerada como ‘um problema’ a ser ‘erradicado’, um entrave para o aprendizado da língua oficial do país. Diversas pesquisas, no entanto, apontam que, ao contrário, o bilinguismo deveria ser sempre visto com algo positivo, indiferentemente das línguas em questão, com um investimento no desenvolvimento da língua minoritária durante todo o processo de escolarização.

Buscamos, assim, compreender os contextos e enfoques que caracterizam as necessidades desses públicos, como discutir políticas linguísticas implicadas para que haja condições básicas ao desenvolvimento do trabalho docente e uma efetiva apropriação da Língua Portuguesa escrita pelos diferentes sujeitos.

Palavras-chave: Língua portuguesa; minoria; literatura; formação de professores.

 

Minibiografia:

Possui graduação pela UFRJ, bacharelado e licenciatura em Letras (português-francês) e suas respectivas Literaturas. É mestre em Letras – Literatura (2016), pelo programa de pós-graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da Puc-Rio, defendendo dissertação intitulada “Por uma poética dos sentidos: a literatura no contexto da surdez”. Desde 2006, é professora de Educação Básica do Instituto Nacional de Educação de Surdos, atuando nas áreas de Ensino, Pesquisa e Extensão.


Comunicação 4

Descolonizar é preciso: a introdução das literaturas africanas de língua portuguesa em materiais didáticos brasileiros

Autora:

Ana Paula dos Santos de Sá – IEL/UNICAMP, CNPq –  anapss.unicamp@gmail.com

 

Resumo:

Pesquisadores interessados pelos contornos do ensino de literatura no Brasil têm demonstrado certo consenso em relação à imutabilidade do cânone literário escolar, sobretudo no que concerne à recorrente predileção por um repertório de viés eurocêntrico em detrimento de uma seleção de textos atenta à diversidade sociocultural dos estudantes. Buscando romper com esse modelo de ensino herdado das primeiras antologias literárias nacionais, as quais atendiam à necessidade de formação escolar de uma pequena parcela da população após a Proclamação da República (1889), e atendendo às lutas historicamente orquestradas pelo Movimento Negro, o Brasil instituiu nos últimos anos um número crescente de políticas voltadas à promoção da interculturalidade na educação, com destaque para as leis federais 10.639/03 e 11.645/08, que tornaram obrigatório o ensino de história, cultura e literatura de matriz afro-brasileira, africana e indígena em todos os ciclos da educação básica. Com base nesse contexto, o objetivo deste trabalho é analisar os efeitos dessas medidas em três coleções de Língua Portuguesa aprovadas e distribuídas pelo governo federal em 2013, com atenção à introdução das literaturas africanas. Considerando as particularidades desse recorte frente às demandas interpretativas dos clássicos escolares europeus, interessa-nos observar – à luz dos aportes teóricos fornecidos por Inocência Mata, Paulo Freire, Walter Mignolo, entre outros nomes dos Estudos Literários e da Educação – se e em que medida esses materiais recorrem às teorias pós-coloniais para promoverem a reformulação exigida pela nova legislação. Buscar-se-á mapear quais são os autores, textos e países africanos privilegiados nesse processo, bem como qual é o teor das instruções fornecidas aos professores. Em uma análise preliminar, foi possível perceber que os pressupostos da Literatura Comparada têm embasado produtivas estratégias pedagógicas, visto que, ao explorar as proximidades entre Brasil e África lusófona, as coleções afastam-se de imagens estereotipadas, ampliando, assim, as habilidades de leitura dos estudantes.

Palavras-chave: Literaturas Africanas; Ensino de Literatura; Interculturalidade e Educação; Políticas Educacionais; Currículo.

 

Minibiografia:

Doutoranda do programa de Linguística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), bolsista CNPq. Licenciada em Letras e Mestra em Teoria e História Literária pela mesma instituição. Interessa-se pelo ensino de literatura na educação básica brasileira (materiais didáticos, legislação, metodologias de ensino, currículo etc.), em especial no que concerne à interculturalidade na educação, com ênfase no ensino das literaturas de matriz afro-brasileira, africana e indígena.


Comunicação 5

O estudo da literatura periférica no brasil sob a égide do cânone

Autor:

Dante Gatto – Universidade do Estado de Mato Grosso, UNEMAT  – gattod@gmail.com

 

Resumo:

Esta comunicação apresenta reflexões preliminares que justificam o estudo da experiência das literaturas periféricas no contexto nacional brasileiro para além da contingência do que entendemos por regionalismo. Afirmação de poder passou por especificidades históricas muito particulares. No que se refere à literatura brasileira, pode-se afirmar que o Brasil não conhece o Brasil, literariamente. O que está na base do fenômeno é uma velha mentalidade de se utilizar teorias hegemônicas em detrimento ao posicionamento como sujeito. A pós-modernidade representa condições propícias para refletir a exclusão e dar vez e voz aos excluídos. No que se refere às relações internacionais houve um rearranjo entre nações para pôr frente ao eurocentrismo do qual o Estados Unidos também faz parte. A dialética das reflexões passa pelos novos paradigmas ao estudo da literatura, não condicionado unicamente às perspectivas estéticas, mas considerando práticas discursivas, isto é, nos cabe refletir experiências literárias das textualidades contemporâneas. Está-se dando continuidade às transformações nos estudos comparados: da busca da unidade, da perspectiva tradicional, entendida como universal, passou-se às preocupações com a diferença. A fonte luminosa, nesse processo, perde o brilho em função do amadurecimento psicológico à consciência da inevitabilidade da influência. Reflexões acerca do nacionalismo enquanto prerrogativa da literatura brasileira, a história das historiografias literárias e a contingência do cânone tem lugar nas reflexões para demonstrar que o que entendemos por literatura brasileira comportou exclusão das periferias, notadamente Norte, Centro-Oeste e Sul em detrimentos do sudeste e nordeste que foram privilegiados pelos momentos econômicos que deram sustentação à superestrutura literária. Precisa-se, pois, abraçar a causa de estudar as experiências literárias das periferias brasileiras, já mencionadas, no sentido de construir a totalidade possível do indefinível Brasil.

Palavras-chave: literatura comparada; literatura brasileira; historiografias literárias; nacionalismo; cânone.

 

Minibiografia:

Possui graduação em Letras pela Universidade do Oeste Paulista, UNOESTE (1994), mestrado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP, Assis (1999), doutorado em Letras (2004) pela mesma Universidade e pós-doutorado pela USP (2011). É professor adjunto da Universidade do Estado de Mato Grosso, UNEMAT, campus de Tangará da Serra. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira e o trágico na contemporaneidade. Atuou, até 2004, com aspectos da tragédia (Nietzsche) na ficção de Mário de Andrade, voltando-se posteriormente à literatura brasileira mato-grossense e reflexões em torno das perspectivas para o estudo da literatura na pós-modernidade e a questão do cânone literário. Pertenceu ao grupo de pesquisa ESTUDOS DE LITERATURA: PERIFERIA E CÂNONE de 2006 até 2011, quando priorizou os estudos do trágico na contemporaneidade e criou o grupo de pesquisa TRANCO – o trágico na contemporaneidade.


 Comunicação 6

Por uma revisão do cânone em perspectiva de gênero: ensino de literatura e autoria feminina

Autora:

Luciana Borges – Universidade Federal de Goiás – Brasil – borgeslucianab@gmail.com

 

Resumo:

O presente trabalho discute alguns aspectos do ensino de literatura em nível superior, em especial nos cursos de Letras de universidade públicas brasileiras, tendo em vista uma perspectiva de gênero na constituição de programas de disciplina e escolhas de autores e autoras indicados para leitura. A discussão proposta por Ria Lemaire (1994) para uma revisão da história da literatura considera a história literária não como uma linha sucessiva e totalmente preenchida, mas com momentos de ruptura e vazios, nos quais quebras e contradições indicariam a artificialidade de uma ideia de tradição e unidade. Se pensarmos esse princípio em relação à autoria feminina poderíamos perceber justamente essas lacunas nas quais o apagamento da produção não hegemônica se faz presente. No caso da literatura brasileira, parâmetros como regionalidade/ universalidade; feminino/ masculino; periferia/ centro, e outros, resultam em exclusão ou invisibilidade histórica de obras, autores e autoras. Nota-se que não se trata, simplesmente, de forçar a abertura do cânone para a inserção de um ou outro autor/a fora de circuito, mas de repensar os parâmetros de valoração. Em relação à autoria feminina, antes de se apontar a ausência sistemática ou uma suposta incapacidade das mulheres em produzir textos de referência nacional ou universal, propõe-se pensar as circunstâncias em que se formam os conjuntos de intelectuais e artistas femininas. O trabalho apresenta algumas autoras brasileiras cujas obras exploram temas relacionados ao erotismo e ao feminismo como itens de empoderamento e transgressão no contexto arcaico regional ou no contexto urbano contemporâneo como Clarice Lispector, Augusta Faro e Maria Helena Chein e outras. As obras dessas escritoras indicam a percepção da condição feminina e os modos pelos quais o erotismo e o tensionamento das relações de gênero estabelecem a singularidade dessa ficção potencialmente capaz de desafiar o cânone.

Palavras-chave: Literatura Brasileira; Autoria feminina; Cânone; Gênero; Erotismo.

 

Minibiografia:

É doutora em Letras – Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás (2009) e Professora da Universidade Federal de Goiás, Regional Catalão. Autora do livro O erotismo como ruptura na ficção brasileira de autoria feminina (Ed. Mulheres, 2013). Integrante do grupo de pesquisa Dialogus – Estudos Interdisciplinares em Gênero, Cultura e Trabalho e membro do GT ANPOLL – A mulher na literatura, tem atuado nos seguintes temas: autoria feminina brasileira, gênero, erotismo e pornografia.


Comunicação 7

Arte na docência de literatura: uma política necessária

Autora:

Nilma Lacerda – Universidade Federal Fluminense – nilmalacerda@hotmail.com

 

Resumo:

O desafio pouco visível de formar leitores parece ser um dos problemas a considerar na educação das línguas vernáculas, no período pós-colonização. Produzir  literaturas nacionais vincula-se  a um público leitor, à presença de um sistema de recepção de textos  e discussões, em que a troca entre os diversos atuantes alimente uma rede literária, como observa Candido, em Literatura e sociedade. Candido postula, mais tarde, que a literatura é um direito humano, conceito que se torna pilar das melhores ações de formação de leitores, no Brasil. Bartolomeu Campos de Queirós, autor do “Manifesto do Movimento por um Brasil Literário”, enfatiza a vivência política inerente ao ato de ler.  Esses referenciais básicos encaminham o projeto de curso da docente e pesquisadora, nas disciplinas de Pesquisa e Prática de Ensino na licenciatura de Letras de uma universidade federal, voltada para a leitura de literatura, tomada, de forma primordial, em seus aspectos sensíveis e emotivos. Os conceitos de Bosi, em Literatura e resistência, e no artigo “Ler com a alma”, além dos que expõe a pesquisadora Heidrun Kriger Olinto em “Emoção e literatura”, confirmam práticas em que a leitura é um fim para a consciência da perplexidade humana  e fruição estética. A biblioteca escolar, considerada como espaço de docência, propicia experiências de contato direto entre  licenciados e leitores em formação, e possibilita responder à pergunta de Gianotti, “O que é ser leitor?” Como  pano de fundo a essas práticas, em um leque de literaturas lusófonas, estão Infância, de Graciliano Ramos, Para ler em silêncio, de Queirós, Os anjos, de Teolinda Gersao, e Terra sonâmbula, de Mia Couto.

Palavras-chave: literatura; docência; fruiçao; biblioteca escolar; lusofonia.

 

Minibiografia:

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de TapeçariaSortes de VillamorPena de GansoCartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, dentre outras obras, além de ensaios e artigos científicos. Recebeu os prêmios Rio de Literatura, Jabuti, Brasília de Literatura, Cecília Meireles, Orígenes Lessa e Monteiro Lobato da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), seção brasileira do International Board on Books for Young People (IBBY). Figura na Lista de Honra IBBY 2012, por sua tradução de O Arminho Dorme, do autor galego Xosé Neira Cruz. Professora associada da Universidade Federal Fluminense, doutora em Letras Vernáculas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, realizou pesquisas de pós-doutorado em História Cultural na École des Hautes Études en Sciences Sociales e no Collège de France, sob a supervisão de Roger Chartier. Na pesquisa, dedica-se à criação literária, literatura para crianças e jovens e escrita na América Latina; deverá publicar em breve o Diário de Navegação da Palavra Escrita na América Latina. É membro do conselho consultivo do Movimento por um Brasil Literário, colunista da Revista Pessoa de Literatura Lusófona.


Comunicação 8

A (Des)Construção das Imagens e Representações dos PLP no Ensino de Português na China

Autor:

Júlio Reis Jatobá – Universidade de Macau – juliojatoba@umac.mo

 

Resumo:

No ano de 2000, apenas 70 alunos ingressaram em cursos de graduação em português em universidades da República Popular China, porém, no ano de 2016, o número de alunos que ingressaram em cursos universitários de português chegou a quase 800. Entre 2005 e 2016, o número de instituições superiores com cursos de língua portuguesa na China saltou 03 para 33 instituições. Este crescimento exponencial foi impulsionado, entre diversos fatores, pela demanda comercial entre a China e os PLP e às políticas da China de aproximação com os PLP, economias emergentes e países fornecedores de commodities. Levando em conta que aproximadamente 90% dos cursos de PLE na China tem no máximo 10 anos de existência e, ainda, a necessidade de repensar o espaço do ensino da língua portuguesa na China como um universo peculiar onde os sujeitos envolvidos nas práticas pedagógicas manifestam e (re)(des)constroem as imagens e representações sobre o Outro, a presente comunicação propõe-se a apresentar e debater alguns dos resultados preliminares de uma investigação sobre a construção de imagens e representações dos PLP e como essas estão inseridas na organização curricular, programas e materiais didáticos dos principais cursos de português na China.

Palavras-chave: português língua estrangeira na China; planejamento linguístico; imagens e representações; material didático.

 

Minibiografia:

Julio dos Reis Jatobá é graduado em Letras pela Universidade de Brasília,  mestre em Linguística Aplicada pela Universidade de Macau e doutorando em Linguística por esta mesma instituição. Dedica-se desde 2006 à docência de PLE na China e tem como objetos de investigação e interesse pessoal o ensino da Língua Portuguesa na China em contexto universitário, Políticas Linguísticas para o PLE e Tradução Poética mandarim-português.


Comunicação 9

Cartografias literárias: a antologia e o ensino


Autora:

Analice de Oliveira Martins – IFF e UENF – analice.martins@terra.com.br

 

Resumo:

Esta comunicação pretende avaliar alguns impactos dos Estudos Culturais sobre os Estudos Literários e suas repercussões e desdobramentos no Ensino de literatura, em particular, da literatura brasileira. A politização do discurso literário é consequência do fértil diálogo entre a Antropologia, a Sociologia e a Literatura.  Nesse sentido, será discutido, do ponto de vista teórico, o “boom” de antologias centradas em uma das variantes do processo mais complexo da identidade cultural pós-moderna e suas implicações para o Ensino, buscando avaliar vantagens e desvantagens ocasionadas por tal tendência do mercado editorial brasileiro. Entre as antologias a serem analisadas, destacam-se 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (2004), + 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (2005), Entre nós: contos sobre homossexualidade (2007), Questão de pele: contos sobre preconceito racial (2009), de Luiz Ruffato; Primos: história da herança árabe e judaica (2010), de Tatiana Salem Levy e Adriana Armony; Literatura marginal: talentos da escrita periférica (2005), de Ferréz, e Profundanças: antologia literária e fotográfica (2014), de Daniela Galdino.

Palavras-chave: Antologia; Ensino; Estudos Culturais.

 

Minibiografia:

Sou professora titular da Pós-Graduação em “Literatura, Memória Cultural e Sociedade” do IFFluminense e professora colaboradora do Programa de Mestrado e Doutorado em Cognição e Linguagem da UENF. Doutora em Letras, pela PUC-Rio, minhas áreas prioritárias de interesse e pesquisa são a literatura brasileira contemporânea; a relação entre estudos literários e culturais e novas condições de leitura, produção e circulação da literatura em ambientes virtuais.


Comunicação 10

Formação de Leitores e de Professores  do Ensino Básico no Brasil: Experiências de Letramento Literário

Autoras:

Aracy Alves MartinsGPELL/Ceale-NERA/FAE/UFMG – BRASIL – aracymartins60@gmail.com

Míria Gomes de Oliveira Coordenadora do Projeto CAPES/AULP GPELL/Ceale-NERA/FAE/UFMG – BRASIL  – miriagomes@hotmail.com

 

Resumo:

A Pesquisa em Rede CNPq, “Língua e Literatura: relações raciais, diversidade sociocultural e interculturalidade em países de língua portuguesa”, desenvolvida por pesquisadores do Centro de Alfabetização Leitura e Escrita/Ceale e do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Ações Afirmativas/NERA, analisa, pelo viés da Análise Crítica do Discurso (DIJK, 2008), obras literárias (PAULINO; COSSON, 2009), manuais escolares (DIONÍSIO, 2000), (COSTA VAL; MARCUSCHI, 2005) e documentos oficiais, relacionados a políticas linguísticas e culturais (CALVET, 2007). Dessa forma, enfatiza diálogos sul/sul (SANTOS; MENESES, 2010), (MUNANGA; GOMES, 2006) e cooperação horizontal entre países de língua portuguesa, partindo de orientações das Leis brasileiras 10.639/2003 e 11.645/2008, que instituem o estudo da História e Cultura dos africanos e indígenas nas escolas brasileiras – destacando “a cultura negra e indígena brasileira na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil” –, nas áreas de Arte, História, e Literatura. Esta comunicação analisa duas experiências de Letramento Literário que contribuem para a Formação de Leitores e Formação de Professores do Ensino Básico, no Brasil: a primeira se constitui em resenhas literárias produzidas por  estudantes jovens, no interior do Projeto “De leitor para leitor: letramento literário, diversidade e relações étnico-raciais no 2o Ciclo de formação do Ensino Fundamental”, com  o objetivo de divulgar literatura de qualidade sobre essa temática para crianças e jovens; a segunda apresenta a estudantes e docentes, em interações escolares e não escolares, um estudo da Pesquisa em Rede para leitores da mesma faixa etária sobre produções literárias e literatura oral – “oratura” –, em diálogo com as línguas maternas/nacionais dos diversos países africanos de língua portuguesa, em tempos pós-coloniais, sobretudo em relação ao Projeto Mobilidade CAPES/AULP, “Ensinar qual Língua, Ler qual Literatura? Interculturalidade e relações étnico-raciais no Brasil e em Cabo Verde”.

Palavras-chave: Letramento Literário; Formação de Leitores; Formação de Professores; “Oratura”; Línguas Maternas.

 

Minibiografias:

Aracy Alves Martins – Doutora em Educação, Professora Associada Aposentada da Faculdade de Educação, da Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG. Pesquisadora do GPELL-Grupo de Pesquisa do Letramento Literário/Ceale e do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Ações Afirmativas/NERA. Coordenadora do NEPEHLA-Diretório CNPq, da área da Linguagem, sobre os temas: letramento literário, formação de professores e de leitores, manuais escolares, relações raciais, tensões entre línguas. 

Míria Gomes de Oliveira – Doutora em Estudos Lingüísticos pela Universidade Federal de Minas Gerais, professora na FAE-UFMG. Desenvolve pesquisas junto ao CEALE/GPELL/FAE/UFMG e ao Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Ações Afirmativas/NERA a partir da perspectiva da  Análise Critica do Discurso. Tem especial interesse pelo estudo da formação inicial de professores no que tange às relações raciais.


 Comunicação 11

Uma pequena África na Baixada Fluminense:  experiências formativas e pedagógicas com as  literaturas africanas de língua portuguesa

Autora:

Claudia Fabiana de Oliveira Cardoso – UFF/FAETEC – RJ. – claubiacardoso@gmail.com

 

Resumo:

A Baixada Fluminense pode ser considerada uma “pequena África” na periferia do Rio de Janeiro. É uma região que concentra grande número de famílias de origem afro-brasileira e onde a exclusão está relacionada à etnia, ao poder aquisitivo e ao nível educacional. Por outro lado, é possível perceber também movimentos identitários de resistência centrados na memória local, na tradição e na religião. Considerando que a identidade é (trans)formada constantemente em relação às formas como somos representados nos sistemas culturais ao nosso redor (HALL, 2001), podemos dizer que as identidades culturais da Baixada Fluminense também constroem-se e atualizam-se nessa dinâmica moderna. Neste trabalho, pretendemos discutir de que forma a disciplina de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, incorporada ao projeto político pedagógico do curso de licenciatura em Letras do Centro Universitário Uniabeu, contribuiu, no período de dez anos, para a formação de docentes de Língua Portuguesa e de Literatura da educação básica no que tange à transposição didática de saberes africanos em diálogo com as identidades culturais das comunidades locais.  Nosso objetivo é problematizar a ideia de que, ao propiciar ao estudante de licenciatura em Letras reflexões sobre a história e a cultura africanas, o estudo das literaturas africanas de língua portuguesa pode nortear ações efetivas na esfera da educação básica, no sentido da inclusão social, pois a percepção do modo como as identidades são construídas, bem como os parâmetros para a produção da memória coletiva dos grupos, permite a ressignificação das diferenças e a elaboração de novas estratégias de inserção social. Para isso, buscamos apoio nas teorias pós-colonias e nos estudos culturais, além de utilizarmos a entrevista a egressos do referido curso de licenciatura como mais uma metodologia de pesquisa.

Palavras-chave: formação de professores; identidade cultural; ensino de língua portuguesa e de literatura.

 

Minibiografia:

Claudia Fabiana de Oliveira Cardoso possui graduação em Letras, Português – Literaturas, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1998), mestrado em Letras – Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense (2003) e doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (2013). Exerceu a função de professor titular por 14 anos no UNIABEU – Centro Universitário, na Baixada Fluminense, tendo atuado também como Coordenadora do Curso de Letras e Coordenadora da área de Letras do PIBID. É membro do conselho editorial da Revista e-scrita, do curso de Letras do UNIABEU e do Identidade na Diferença – Laboratório Multidisciplinar de Estudos de Memória e Identidade, projeto financiado pela FAPERJ. Suas pesquisas e publicações relacionam-se aos temas de interesse: literatura comparada, literaturas africanas de língua portuguesa e ensino de língua portuguesa e literaturas. Atualmente, é professora da Fundação de Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro e do Centro Universitário Augusto Mota – UNISUAM.


Comunicação 12

A obra “Meus Vários Quinze Anos” de Sylvia Orthof e a formação de leitores

Autora:

Elizete Dall´Comune Hunhoff  – UNEMAT –Campus Universitário de Tangará da Serra, MT – elizetedh@gmail.com

 

Resumo:

Neste texto, visamos a apresentar um estudo sobre a importância da leitura e da literatura infantojuvenil na formação intelectual de jovens leitores. Para tanto, baseamo-nos em referenciais bibliográficos de autores que publicaram nessa área de interesse, de forma engajada, tais como: Coelho (2000), Lajolo (2006), Orthof (1997), Zilberman (2005), dentre outros, que trazem as propostas de mudanças sociais que o mundo contemporâneo exige. Constituímos um corpus para análise, com a obra “Meus Vários Quinze Anos”, de Sylvia Orthof, na qual pudemos vislumbrar objetivos da narradora em relação ao contexto social de meados do Século XX. Esperamos que o leitor possa refletir sobre a sua ação literária em relação à literatura, à leitura e ao seu possível compromisso na formação de leitores.

Palavras-chave: Literatura infantojuvenil; Leitura; Ensino.

 

Minibiografia:

Professora do Programa de Pós-Graduação – Mestrado Profissional em Letras – Profletras, Campus de Cáceres, MT. Possui graduação em Letras Português/Inglês e Literaturas, mestrado em Letras (Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa) pela Universidade de São Paulo (2002) e doutorado em Letras (Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa) pela Universidade de São Paulo-USP (2008). Atuou como professora adjunta (efetiva) da Universidade do Estado de Mato Grosso, aposentada. Tem experiência na área de Letras, com ênfases em Literatura e Língua Portuguesa. Lançou a obra “Tempo e identidade – estudo da poética de Florbela Espanca e Cecília Meireles”, em 2010. Possui publicações em revistas e periódicos nacionais. Coordena o Grupo de Pesquisa “Literatura infantojuvenil: poesia e prosa”. Participa do grupo de pesquisa: “Maria de Arruda Müller e Dunga Rodrigues: agentes culturais pioneiras em Mato Grosso”. Editora da Revista Moinhos (ISSN 2317- 4080). Foi coordenadora de área/Letras, do projeto PIBID-CAPES, código 3045/2011, “Ressignificando a Licenciatura: vale a pena ser professor (2011-2014).


Comunicação 13

Letramento afroliterário – pressupostos para o ensino das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa no Brasil

Autora:

Iris Maria da Costa Amâncio Kamwa – Universidade Federal Fluminense –irisamancio@hotmail.com

 

Resumo:

Esta reflexão aborda a noção de “letramento afroliterário”, necessária à problematização do ensino das literaturas de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Analisam-se os pressupostos para o trato dessas literaturas no âmbito das Leis Educacionais 10.639/2003, 11.645/2008 e 12.796/2013 que preveem as africanidades como conteúdos interculturais obrigatórios no Brasil. Considerando os desafios para a efetivação de práticas pedagógicas que atendam a essas exigências legais, entende-se que as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, em seus processamentos estético-discursivos, sejam loci estratégicos de interação, revisão, atualização e circulação de saberes diversos, que envolvem tensões teórico-críticas diante da inadequação de certos conceitos ocidentais. Estes, dissimulados em formulações contemporâneas das culturalidades e pós-colonialidades, ainda desconsideram as especificidades das ontologias, autorias e epistemologias veiculados nas/pelas escritas literárias em relação aos funcionamentos de textos poéticos e ficcionais africanos, o que pouco colabora com a ressignificação do imaginário brasileiro sobre África. Portanto, as diferentes raízes, matrizes, experiências e vivências étnico-raciais, político-ideológicas e estético-literárias que subsidiam os processos de configuração de sujeitos poético-ficcionais revelam-se como desafios para o ensino das literaturas angolana, cabo-verdiana, guineense, moçambicana e santomense na contemporaneidade, especialmente quando considerados os horizontes de expectativas de leitores brasileiros.

Palavras-chave: Letramento literário; Literaturas Africanas; Ensino; Diversidades.

 

Minibiografia:

Iris Maria da Costa Amâncio Kamwa é professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, de Literatura Portuguesa e de Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Federal Fluminense – UFF. Doutora em Estudos Literários/Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (2001), desenvolveu Estágio Pós-doutoral (2014) sobre o Ensino de Literaturas Africanas. Coordena o LICAFRO – Laboratório de Literaturas e Culturas Africanas e da Diáspora Negra da UFF (CNPq).


Comunicação 14

A relação entre o sujeito e objeto de conhecimento: a formação do professor de línguas

 

Autora:

Leticia Marcondes Rezende – FCL –Unesp-Araraquara –  lm.rezende@terra.com.br

 

Resumo:

Apresentaremos uma proposta de ensino de línguas por um viés construtivista, no qual o sujeito que aprende e o objeto do conhecimento não se polarizam mas se articulam. Isso significa que ninguém e nada saem incólumes de um processo formativo: há transformação no sujeito (aprendiz) e no objeto (línguas). Criticamos, em consequência, a concepção de linguagem e, consequentemente, de línguas como um instrumento de comunicação.

Palavras-chave: ensino de línguas; formação de professor de línguas; construtivismo; autonomia.

 

Minibiografia:

Professora titular aposentada da FCL da Unesp de Araraquara, São Paulo, Brasil. Doutora pela Universidade de Paris 7 em 1980 sob a orientação de A.Culioli. Áreas de interesse: articulação léxicogramatical, enunciação, ensino de línguas materna e estrangeiras.


Comunicação 15

A “literatura dos outros” nos Programas Curriculares de Português: o diálogo entre Os Lusíadas e A Ilha de Próspero

Autora:

Mafalda Moço – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa –  mafaldamoco1@gmail.com

 

Resumo:

A configuração da sociedade contemporânea exige uma aposta, por parte das escolas, no desenvolvimento de uma educação intercultural que fomente o diálogo com o outro. O texto literário, considerado como universo privilegiado de reinvenção da diferença, pode potenciar esse contacto. A dimensão plural da língua portuguesa e o facto de esta ser um veículo de expressão de outras culturas justifica que sejam incluídas nos Programas Curriculares de Português obras pertencentes à “literatura dos outros”. O seu estudo, em paralelo com obras da literatura portuguesa com a mesma temática, colocará o aluno em contacto com outras e diferentes visões do mundo, favorecendo uma reflexão sobre a sua identidade e potenciando um diálogo com uma identidade diferente que imana do texto. Nesse sentido, incluir no currículo oficial do ensino do Português, nomeadamente no ensino secundário, o estudo de obras de autores de língua portuguesa de temática equivalente às que se encontram previstas no Programa e Metas Curriculares de Português para o Ensino Secundário, poderá contribuir para potenciar o questionamento do saber já construído e consciencializar os alunos do perigo de olhar o mundo a partir de uma visão etnocêntrica, desafiando-os a incluir novas possibilidades de entendimento e análise do mundo a partir das suas leituras, abrindo caminho para a construção de uma identidade dinâmica e pluricultural. Assim, seria muito interessante que no 10º ano de escolaridade, por exemplo, ao estudarem Os Lusíadas de Luís de Camões, os alunos conhecessem e analisassem alguns aspetos d’A Ilha de Próspero do moçambicano Rui Knopfli, já que esta é uma obra que continua o tom épico de Camões, mas na qual este deixa de ser celebrativo, para passar a cantar e repensar o colonialismo e a decadência do Império, a partir do olhar dos vencidos, do outro.

Palavras-chave: educação intercultural; texto literário; literatura dos outros.

 

Minibiografia:

Mafalda Moço, natural Mira de Aire – Leiria, Portugal, é Mestre em Língua e Cultura Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e doutoranda no Programa de Língua e Cultura Portuguesa (Língua estrangeira/Língua segunda), tendo como orientadoras a Prof.ª Dr.ª Helena Buescu e a Prof.ª Dr.ª Inocência Mata. É professora de Português Língua Estrangeira e, atualmente, exerce funções de docente no Curso de Língua e Cultura Portuguesa (curso semestral e curso de verão) na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.


Comunicação 16

Literaturas de Língua Portuguesa e interculturalidade: a formação do leitor literário

Autoras:

Maria Auxiliadora Fontana Baseio – UNISA – mbaseio@uol.com.br

Maria Zilda da Cunha – USP – mariazildacunha@hotmail.com

 

Resumo:

Nesse contexto globalizado em que vivemos, cujas raízes se demarcam a partir dos processos de colonização dos séculos XV e XVI, temos assistido a intercâmbios de toda ordem entre os diversos continentes, povos, culturas, e constatamos fortes disjunções que têm produzido violências identitárias, étnicas, culturais – atitudes desumanizadoras e prejudiciais à convivência humana. Os estudos pós-coloniais têm se ampliado nos últimos anos, trazendo importantes contribuições para a leitura e para a escrita de uma nova história de forma a vislumbrar a dinâmica da interculturalidade. Teorias críticas têm provocado reflexões sobre as produções culturais e estéticas em países africanos de Língua Portuguesa e estas, cada vez mais, ganham força e valor à medida que criam campos de interlocução capazes de intensificar trocas culturais. A Literatura Comparada, nesse sentido, mostra-se como possibilidade de mediação intercultural e interdisciplinar, ao agenciar estudos reflexivos para compreensão crítica dos fenômenos estéticos e de cultura. Sua marca epistemológica mediadora pode providenciar o encontro, ainda que simbólico, com o outro e com outras formas de expressão cultural. Ao dialogar com a Educação, é capaz de valorizar novas maneiras de ver, ouvir e acolher o humano. É com esse desígnio que nos movemos a discutir comparativamente dois projetos estéticos – um brasileiro e um africano – assinalando caminhos para a construção de novos conceitos de inteligibilidade a partir do trabalho de leitura criativa e crítica em sala de aula.

Palavras-chave: Interculturalidade; literatura comparada; educação.

 

Minibiografias:

Maria Auxiliadora Fontana Baseio – Doutora em Literatura Comparada (USP); professora do Mestrado Interdisciplinar em Ciências Humanas na Universidade de Santo Amaro- UNISA – São Paulo; líder do grupo Arte, Cultura e Imaginário e do GEITE – Grupo de Estudos Interdisciplinares em Educação, ambos vinculados à Universidade de Santo Amaro; pesquisadora do grupo Produções Literárias e Culturais para crianças e jovens, filiado à Universidade de São Paulo.

Maria Zilda da Cunha – Doutora em Literatura Comparada (USP); professora da Graduação e Pós-graduação na área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade de São Paulo; líder do grupo de pesquisa Produções Literárias e Culturais para crianças e jovens, filiado à USP. Autora do livro Na tessitura dos signos contemporâneos.


Comunicação 17

Atividade de linguagem: processos linguístico-cognitivos no exercício da produção textual

 

Autoras:

Marilia Blundi Onofre – Universidade Federal de São Carlos – UFSCAR (São Carlos-SP-Brasil) – blundi@uol.com.br

Cássia Regina Coutinho Sossolote – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Araraquara-SP-Brasil) – sosso@fclar.unesp.br

 

Resumo:

A comunicação proposta tem como temática central processos linguístico-cognitivos observados no ensino-aprendizagem de línguas. Referenciamo-nos, para tanto, em Antoine Culioli (1990), autor da Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas, quadro teórico-metodológico que se fundamenta na articulação entre a linguagem e as línguas naturais. Nesse contexto, a linguagem é concebida como atividade de construção de significação, resultante do diálogo entre sujeitos que se materializa por meio da língua. A compreensão de Culioli para essa atividade sustenta-se nas operações de representação mental, referenciação linguística e regulação intersubjetiva, que correspondem, respectivamente, a processos de ordem psicológica, sociológica e psicossociológica, à medida que o sujeito ao se constituir como tal põe em jogo as suas experiências nas relações sociais.  Trata-se, assim, de um modelo que articula o linguístico ao cognitivo, abrindo um possível diálogo com princípios construtivistas. Tais pressupostos teóricos aplicados ao ensino-aprendizagem de língua levam-nos a propor o desenvolvimento de um trabalho pelo qual se exploram as atividades linguísticas, epilinguísticas e metalinguísticas, a exemplo da linguista Letícia Rezende. O diferencial dessa proposta está em explicitar a atividade epilinguística, entendida, conforme Culioli, como uma atividade linguística não consciente. Segundo Rezende (2008), operar com o nível epilinguístico no ensino implica levar o aluno a “pensar o seu pensar”.  Por meio de tal atividade operatória, o aprendiz observa os movimentos discursivos resultantes de diferentes possíveis modulações léxico-gramaticais. Observa, portanto, a estabilidade e a plasticidade linguística, características da linguagem. Nesse exercício, o objetivo do ensino passa a ser a formação do aluno em relação à produção de textos quer quando ouve ou lê quer quando fala ou escreve. Postas essas questões, as nossas reflexões pretendem pôr em pauta, mais especificamente, o conceito de sujeito e de criatividade que se delineiam nesse quadro, divulgando pesquisas sobre a escrita de alunos em contexto escolar.

Palavras-chave: Processos linguístico-cognitivos; Intrasubjetividade; Intersubjetividade; Criatividade; Produção textual.

 

Minibiografias:

Marilia Blundi Onofre – Professora Associada junto ao Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Atua como docente e pesquisadora na área de Enunciação Linguística e Ensino-Aprendizagem de língua, com ênfase aos estudos relativos ao quadro da Teoria das Operações Enunciativas (TOE) em sua possível relação com o ensino de língua.

Cássia Regina Coutinho Sossolote – Professora Doutora junto ao Departamento de Didática, da Faculdade de Ciências e Letras (FCL), da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), do Câmpus de Araraquara, desde 1998. Graduada em Letras pelo Instituto de Letras, Ciências Sociais e Educação, da UNESP, obteve o título de Mestre em Linguística junto à UNICAMP. A professora é Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela FCL/UNESP/CAr, tendo sido credenciada, desde 2013, neste mesmo Programa de Pós-Graduação, na linha de pesquisa Ensino/Aprendizagem de Línguas: análise dos procedimentos linguísticos desenvolvidos pelos falantes na ensino/aquisição da língua materna.


Comunicação 18

Literaruras de Macau e literatura-mundo

Autora:

Fernanda Gil Costa – Centro de Estudos Comparatistas/Universidade de Lisboa – fernanda.gilcosta@gmail.com

 

Resumo:

O propósito desta comunicação é chamar a atenção para a importância da literatura de Macau em língua chinesa dos séculos XX e XXI, antes e depois do Handover (1999) e para a urgência da sua tradução para português e inglês a fim de tornar possível a revelação das marcas coloniais e pós-coloniais na memória e consciência da cidade. A integração das literaturas de Macau no contexto do projecto literatura-mundo, (Worldliterature) num momento em que o mesmo avança e cresce a nível mundial, é cada vez mais oportuno, sobretudo porque a história da literatura de Macau em língua portuguesa contribui apenas parcialmente para o conhecimento profundo da cultura intercultural da cidade-porto.

Palavras-chave: literatura de Macau; tradução; literatura-mundo; memória.

 

Minibiografia:

Fernanda Gil Costa é professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 1999. Doutorou-se na mesma instituição em Estudos Alemães em 1987.  Recentemente foi directora do Departamento de Língua e Cultura Portuguesa da Faculdade de Letras de Lisboa (2005-2012) e do Departamento de Português da Universidade de Macau (2012-2016).  As suas últimas publicações são sobre autores de língua portuguesa de várias nacionalidades.


Comunicação 19

A literatura em português de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe: encruzilhadas epistemológicas

Autora:

Inara de Oliveira Rodrigues – Universidade Estadual de Santa Cruz – Ilhéus-BA/Brasil – inarabr@uol.com.br

 

Resumo:

Apresentam-se os principais resultados da pesquisa de estágio pós-doutoral “A literatura em português de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe: encruzilhadas epistemológicas”, que teve por objetivo central problematizar diferentes perspectivas teórico-críticas nos embates entre literatura, história e cultura, com enfoque sobre processos identitários. A investigação examinou os principais casos fundadores dos Estudos Culturais, bem como do pensamento pós-colonial, passando por sua crítica atual (não homogênea e altamente polêmica), na esteira da perspectiva decolonial. A partir do mapeamento dessas linhas reflexivas, foram analisadas narrativas literárias contemporâneas dos países africanos de língua portuguesa respectivamente referidos, com destaque para A palavra e os dias (2013), de Vera Duarte, e A morte do ouvidor (2010), de Germano Almeida, no caso do primeiro; e No dia de São Lourenço (2013), de Goretti Pina, Léveléngue – as gravanas de Gabriela (2015), de Rafael Branco, Os meninos judeus desterrados (2014), de Orlando Piedade, no caso do segundo. Entende-se que reconhecer outros saberes e outras perspectivas teóricas que venham a se somar às prerrogativas dos saberes hegemônicos no atual mundo globalizado constitui-se em desafio sempre atualizado para as agendas críticas que compreendem o fenômeno literário como espaço privilegiado de questionamento do mundo da vida e, desse modo, como caminho de emancipação.

Palavras-chave: Saberes contra-hegemônicos; Narrativas literárias contemporâneas; Literaturas em português de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe; Identidade.

 

Minibiografia:

Doutora em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2001), é Professora Titular da Universidade Estadual de Santa Cruz, onde atua no Curso de Letras e no Mestrado em Letras: Linguagens e Representações. Coordena o Grupo de Pesquisa “Literatura, História e Cultura: Encruzilhadas Epistemológicas” (CNPq/UESC).


Comunicação 20

Leitura, desconstrução e descentramento do saber nas margens da representação do trauma na literatura lobantuniana em tempos pós-coloniais

Autor:

Romilton Batista de Oliveira – Universidade Federal da Bahia – romilton.oliveira@bol.com.br

 

Resumo:

Este artigo tem como objetivo analisar o trauma a partir dos primeiros romances escritos pelo consagrado romancista português António Lobo Antunes. O autor, por meio de romances e crônicas apresenta uma narrativa tecida por um contexto proveniente de sua experiência com a guerra colonial em Angola. Desta forma, podemos dizer que em romances como Os Cus de Judas, Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno, entre outros, Lobo Antunes consegue dar seu testemunho, trazendo à tona, por meio da representação literária, o que em outro gênero seria mais difícil de mostrar, contrariando o pensamento adorniano de que é impossível falar de poesia depois de Auschwitz. A língua atravessa o evento traumático “muda”, e depois de um certo tempo, ela rompe com o silêncio e se materializa verbalmente, sendo descrita por meio de um imaginário fictício e simbólico. Esta pesquisa dialoga com autores como Stuart Hall, Sigmund Freud, Beatriz Sarlo, Seligmann-Silva, Aleida Assmann, Jeane Marie Gagnebin, Michel Foucault, Walter Benjamin, Primo Levi e Theodor Adorno, entre outros, numa perspectiva bibliográfica, crítico-reflexiva e interdisciplinar. Entendemos que por meio deste artigo, oriundo da tese de doutoramento em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia – UFBA, a literatura torna-se um importante veículo de comunicação capaz de desconstruir costumes, valores culturais, linguagens e representações identitárias que predominavam fixa e violentamente no período colonial e que assujeitavam os sujeitos ao sistema de pensamento centralizador e imperialista. Com o advento do pós-colonialismo, novos discursos surgem respaldados em formações ideológicas desconstrutores e descentralizadores que abalam a antiga forma de ver e conceber o mundo e as coisas. Nesse sentido, por meio da literatura é que escritores como Lobo Antunes proporciona aos leitores um vívido testemunho de uma guerra que jamais deve ser esquecida, funcionando como uma advertência e ao mesmo tempo contribuição para o progresso da humanidade.

Palavras-chave: Literatura; Representação; Trauma; Desconstrução; Pós-Colonialismo.

 

Minibiografia:

Romilton B. de Oliveira é graduado em Letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. Especialista em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira (UCAM/PROMINAS) e em Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa (UESC). Mestre em Cultura, Memória e Desenvolvimento Regional (Universidade do Estado da Bahia – UNEB) e doutorando em Cultura e Sociedade (Universidade F. da Bahia – UFBA), sob a orientação da Doutora Edilene Dias Matos (UFBA) e coorientação do Doutor Gabriel Magalhães, em Covilhã (Doutorado Sanduíche/Universidade da Beira Interior – UBI).


Comunicação 21

Escrita literária africana e saberes endógenos

Autora:

Terezinha Taborda Moreira – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte  – taborda@pucminas.br

 

Resumo:

O estudo analisa textos ficcionais de literaturas africanas de língua portuguesa explorando a construção enunciativa proposta pelos narradores como resultado de uma opção formal que inscreve, na prosa de ficção, a presença, na escrita literária, de uma “gnose africana”, no dizer de Valenim Yves Mudimbe (2013). Procura-se mostrar como, por meio da construção enunciativa, a escrita literária reivindica um comprometimento ético cujo fundamento estaria na possibilidade de sua convivência com os saberes endógenos, ou seja, “os saberes e os saberes-fazer da África contemporânea” defendidos por Obarè Bagodo. (2014).

Palavras-chave: Escrita literária; Performance oral; Literaturas africanas de língua portuguesa; Saberes endógenos.

 

Minibiografia:

Terezinha Taborda é professora adjunta da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte e pesquisadora CNPq-Nível 2. Este trabalho é parte das reflexões desenvolvidas no âmbito do Grupo de Pesquisa “África e Brasil: repertórios literários e culturais” e tem o apoio do CNPq.


Comunicação 22

Ficção científica portuguesa, contatos tardios

Autor:

Bruno Nöthlich – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO) – bruno.nothlich@gmail.com

 

Resumo:

A ficção científica se estabeleceu como gênero literário no século XX devido sua força imagética e metafórica. A presença de temas e conceitos próprios dessa literatura demarcam borders e frontiers (OSTERHAMMEL, 2014) que, embora sobe um intenso controle do imaginário (COSTA-LIMA NETO, 1989) durante a modernidade, estas vêm se tornando porosas. Foi com H.G. Wells que esse gênero literário assumiu críticas e conteúdos contra o neo-colonialismo, conferindo um caráter anti-mainstrean que sobrevive (DIDI-HUBERMAN, 2013) como estilo. A ficção científica portuguesa, contudo, seguiu outro caminho: o do mistério sá-carneiriano. Se, por um lado, o marco inaugural do sci-fi lusitano foi uma releitura d’A máquina do tempo (1895), de Wells, no conto A estranha morte do professor Antena (SÁ-CARNEIRO, 1915), por outro, a fortuna crítica de Mário de Sá-Carneiro atrelada as condições da modernidade periférica colocou o gênero em uma zona indistinta entre o fantástico subjetivo e a quase-ciência (LATOUR, 2000). Essa posição incomum no mundo, tanto antecipou uma literatura de cunho pós-moderno, quanto denota singularidades em relação ao pós-colonial. O presente trabalho visa, primeiramente, conceituar/situar a ficção científica portuguesa em Portugal, lançando um olhar panorâmico em cinco momentos: 1º) O terror que antecede a ciência – século XIX; 2º) Quando o espaço-tempo se bifurcou – início do XX; 3º) A falta que fez um Flash Gordon contra o Impiedoso – Estado Novo; 4º) O Fantástico singular – anos 80/90; e 5º) Entre a Via Lactea e o Bang! – século XXI. Em segundo, propor o sci-fi português como estratégia e política de ensino, notadamente no que tange a produção de singularidades leitoras e literárias frente do pós-colonial e no pós-moderno.

Palavras-chave: sci-fi; literatura portuguesa; pós-modernidade; pós-colonial; ensino.

 

Minibiografia:

Mestrando em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-RIO, pesquisando Ficção Científica Portuguesa. Bacharel em Produção Textual pela mesma instituição. Tem interesse em suportes de escrita e superfícies de leitura, principalmente incidindo sobre interactive fiction (IF) e electronic literature (e-lit), e, também, em escritas da imaginação. Acupunturista com experiência em cânones da medicina tradicional chinesa, com ênfase nos clássicos neo-confucionistas Shanghanlun, Maijing e Binhu Maixue.


Comunicação 23

E AGORA, RUI ?!… um passeio pelo irreverente e insubmisso lirismo de Knopfli

 

Autoras:

Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco  – UFRJ, CNPq e FAPERJ – carmen.tindo@gmail.com

Edna Maria dos Santos – UERJ, LPPE – ednasant.trp@terra.com.br

 

Resumo: 

Hoje, quando “tudo que é sólido desmancha no ar”, se torna mais do que importante trazer para nossas salas de aula poetas e escritores que se insurgiram contra cânones de suas épocas. Por essa razão, escolhemos falar de um poeta que esteve à frente de seu tempo, que, em pleno período colonial, foi anticolonial e, se escrevesse atualmente, seria chamado de pós-colonial. Este poeta é Rui Knopfli. Abordaremos alguns poemas de seu livro a Ilha de Próspero em diálogo com um filme-documentário sobre a Ilha de Moçambique. Analisaremos, também, poemas de outros livros do autor, analisando os afetos do texto, as ímpias afecções recorrentes, o exílio voluntário de um “poeta intervalar”, cujas angústias são as de um ser de identidade fraturada, que elege como “pátria a língua em que (se) escreve”. Debruçar-nos-emos sobre a oficina da escrita e a “memória consentida” desse escriba que se dobra sobre “a pedra dura do tempo” e sobre a superfície movediça da própria linguagem. Focalizaremos o que denominamos “a vigília acocorada dos versos tensos” e “a geometria curvilínea de uma poética hirta”, que busca seus avessos por meio da ironia, da metapoesia e da intertextualidade.

Palavras-chave: Knopfli; metapoesia; ironia; intertextualidade; Ilha de Moçambique.

 

Minibiografias:

CARMEN LUCIA TINDÓ SECCO – Doutora em Letras, Profa. Titular de Literaturas Africanas da F. Letras/UFRJ, Pesquisadora CNPq, Cientista de nosso Estado da FAPERJ, com Pós-Doutorado; membro da Cátedra Jorge de Sena para Estudos Literários Luso-Afro-Brasileiros. Publicações: Antologias do mar na poesia africana (1996, 1997, 1999. 3 v.); A magia das letras africanas, 2003 (1. ed.), 2008 (2. ed.). Organizadora: África & Brasil: Como se o mar fosse mentira, 2003; Paulina Chiziane: Vozes e Rostos Femininos de Moçambique (2013); Afeto & Poesia (2014).

EDNA MARIA DOS SANTOS – Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1996. É Professora Associada de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Leciona História da África. É atualmente Vice-Diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ e Coordenadora Geral do Laboratório de Pesquisa e Práticas de Ensino do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade. É membro do Conselho de Ensino e Pesquisa da UERJ. Possui muitos artigos e livros publicados.


Comunicação 24

Os desafios do  universo amazônico nas narrativas de Ferreira de Castro

 

Autoras:

Veronica Prudente Costa – UEA – prudente.veronica@gmail.com

Cátia Monteiro Wankler – UFRR – cmwankler@gmail.com

 

Resumo:

O presente estudo apresenta resultados parciais do projeto de pesquisa “Presença Portuguesa na Amazônia”, coordenado pela Profª. Drª. Veronica Prudente, com apoio do CNPq. O interesse pela pesquisa surgiu ao observar a produção literária de escritores portugueses que haviam vivido na Amazônia brasileira, mais especificamente o romancista Ferreira de Castro. A análise das obras A Selva (1930) e O Instinto Supremo (1968), nos leva a compreender como o enredo ficcional aborda características do contexto amazônico e de sua história em narrativas densas, com situações que evidenciam a vivência na selva e seus perigos, revelando o contexto social e econômico da borracha e das culturas indígenas envolvidas. A violência entre seringueiros e indígenas se torna flagrante e a presença da selva imponente torna-se mais um desafio a ser transposto. Os processos de exploração e de desigualdades sociais estão estreitamente conectados com o instinto de conservação humana imbricados pelo medo, pela opressão e pelo sofrimento. A floresta, vista como personagem, pode ser lida como representação dos povos originais, suas lutas e suas distintas particularidades. Esta pesquisa utiliza como aporte teórico textos de Pierre Bordieu, Gayatri Spivak, Edward Said e Eduardo Lourenço.

Paravras-chave: Ferreira de Castro; Amazônia;  Etnias indígenas.

 

Minibiografias:

Veronica Prudente Costa – Doutora e Mestre em Letras Vernáculas (UFRJ-Brasil). Professora Adjunta na Universidade do Estado do Amazonas-UEA-Brasil. Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH) da UEA-Brasil, do qual é Subcoordenadora. Coordenadora do projeto Presença Portuguesa na Amazônia, financiado pelo CNPq. Editora-Chefe da ContraCorrente: Revista de Estudos Literários e da Cultura. Compôs a Diretoria da ABRAPLIP na Gestão 2014-2015. Membro do Grupo de Pesquisa Estudos de Literatura e Identidade (UFRR) e da Cátedra Amazonense de Estudos Literários e da Cultura-CAEL/UEA.

 Cátia Monteiro Wankler – Doutora em Teoria da Literatura (PUCRS-Brasil). Mestre em Literatura Portuguesa (UFF -Brasil). Professora Associada da Universidade Federal de Roraima (UFRR-Brasil). Docente Colaboradora do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH) da UEA-Brasil. Coordenadora do projeto Literaturas e Identidades em Textos Literários Portugueses Produzidos em ou Ambientados na Amazônia Brasileira e/ou Caribenha. Editora da ContraCorrente: Revista de Estudos Literários e da Cultura. Compôs a Diretoria da ABRAPLIP na Gestão 2014-2015. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Estudos de Literatura e Identidade (UFRR) e membro da Cátedra Amazonense de Estudos Literários e da Cultura-CAEL/UEA.


Comunicação 25

Do regional ao universal: Guimarães Rosa em diálogo com Graciliano Ramos e Picasso

 

Autora:

Marli Fantini Scarpelli – Faculdade de Letras da UFMG – marlifan@terra.com.br

 

Resumo:

Ángel Rama integra uma “geração crítica” de intelectuais “participantes” e “desmitificadores” que “transformaram a cultura latino-americana numa fecunda mediação entre a dimensão nacional e a universal” (CANDIDO, 1989). Em Transculturación narrativa en América Latina, Rama (1989) identificará, na “nova narrativa” que desponta, em 1920, no continente, indícios do “sistema literário comum” a regiões latinoamericanas, incluindo o Brasil. Assim como seus contemporâneos hispânicos, modernistas brasileiros como Mário de Andrade, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa souberam conciliar técnicas vanguardistas com repertórios temáticos de suas regiões. É assim que, décadas depois, ocorre a “síntese inesperada” que produzirá o traço mais original e fecundo das nossas literaturas: “a penetração das técnicas renovadoras das vanguardas no universo do regionalismo, na obra de Arguedas, Juan Rulfo, García Marquez, Guimarães Rosa”, dentre outros escritores. Esta “síntese inesperada” entre regional e universal é o objeto central deste trabalho, que privilegia, numa perspectiva comparatista, o diálogo do romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, com o romance testemunhal Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos, o painel Guernica, de Pablo Picasso, três obras atravessadas por experiências extremas de violência, bestialização e trauma.

Palavras-chave: regionalismo; universalismo; Guimarães Rosa; Graciliano Ramos; Pablo Picasso; América Latina; Península Ibérica.

 

Minibiografia:

Marli de Oliveira Fantini Scarpelli – Professora Associada IV da FALE/UFMG. Coordenou a Câmara de Pesquisa da FALE, de 2006 a 2010; foi, de 2001 a 2003, Foi Chefe do Departamento de Semiótica e Teoria da Literatura; Diretora do CESP – Centro de Estudos Portugueses e Editora das Revistas do CESP de 1999 a 2003. Foi Presidente da Comissão Editorial da Ed.FALE/Ed.UFMG de 2007 a 2010. Dentre suas publicações, destacam-se: Guimarães Rosa: Fronteiras, margens, passagens. 2ª EDIÇÃO. São Paulo: Senac; Ateliê Editorial, 2008 (na 1ª ediçao, em 2004, o livro obteve o 1º lugar Prêmio Jabuti em Teoria/Crítica Literária). Machado e Rosa: Leituras Críticas (Org). Ateliê Editorial, 2010; A poética migrante de Guimarães Rosa. Ed. UFMG, 2008 (Org.); Crônicas da antiga corte: literatura e memória em Machado de Assis. Ed. UFMG, 2008 (Org.); Olhares críticos: estudos de literatura e cultura (Org): Marli Fantini). Editora UFMG, 2009. Ressalta ainda como co-organizadora, as seguintes obras: Portos flutuantes: trânsitos ibero-afro-americanos (2004); Gênero e representação nas literaturas de Portugal e África (2002); Poéticas da diversidade (2002); Os centenários: Eça, Freyre, Nobre (2001). É pesquisadora do CNPq e da FAPEMIG. http://lattes.cnpq.br/1443989482484875


Comunicação 26

A FLORESTA EM BREMERHAVEN, DE OLGA GONÇALVES: PALAVRAS E SILÊNCIOS

 

Autor:

Otávio Rios – Universiade do Estado do Amazonas – Brasil – otaviorios@uea.edu.br

 

Resumo:

Fernando Dacosta, jornalista português contemporâneo, num ensaio publicado em 2013, argumenta que ao 25 de Abril sucedeu-se significativo êxodo de portugueses residentes nas ex-colônias em África rumo à antiga metrópole, os ditos retornados. Desenraízados, esses “portugueses” – que muitas vezes nunca haviam estado em Portugal – contribuíram para a nova configuração do país nas décadas seguintes, modificando-lhe de forma profunda a estrutura socioeconômica. No campo da literatura, Olga Gonçalves, escritora portuguesa, publicou em 1975 o seu romance de estreia A Floresta em Bremerhaven, que tem no centro da narrativa um casal de portugueses que recorda a experiência como emigrantes na Alemanha. Este livro integra uma espécie de trilogia do estrangeiro, no qual a escritora faz representar retornados e emigrantes, homens e mulheres marginalizados. A Floresta em Bremerhaven é uma narrativa que emerge do 25 de Abril e suas implicações imediatas, em que ficção e pesquisa sociológica se entrelaçam com o objetivo de (re)pensar a identidade portuguesa e o que é ser português nos tempos de esfacelamento do império colonial. Ainda pouco lido, o romance é marcado pela particularidade de se estruturar em diálogos fragmentados,  numa especie de experimento narrativo no qual as vozes desses sujeitos marginalizados gritam.

Palavras-Chave: migração; retornados; identidade portuguesa; ficção; literautra e pesquisa sociológica.

 

Minibiografia:

Doutor em Letras Vernáculas (Literaturas Portuguesa e Africanas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atualmente é Professor Adjunto da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), onde leciona nos cursos de Licenciatura em Letras e no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, que coordena. Foi Presidente da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa (ABRAPLIP) na gestão 2014/2015.


Comunicação 27

Na “queda do céu”, o direito à narrativa

Autora:

Rosana Cristina Zanelatto Santos – UFMS/CNPq/UnB/FUNDECT – rzanel@terra.com.br

 

Resumo:

No ensaio “O que significa elaborar o passado”, Adorno problematiza uma possível resposta a essa indagação, esclarecendo que isso não é fácil como parece. Segundo ele, o chavão dessa elaboração encerra “[…] a questão do passado, se possível inclusive riscando-o da memória. O gesto de tudo esquecer e perdoar, privativo de quem sofreu a injustiça, acaba advindo dos partidários daqueles que praticaram a injustiça” (ADORNO, 2006, p. 29). O que está por detrás dessa proposição é, entre outras coisas, o desejo não somente de libertação do passado, mas sobretudo o fato de que aquilo de que se quer escapar não jaz morto; ele permanece vivo (ADORNO, 2006, p. 29). Se a historiografia oficial, por vezes, nega-se ou tenta minimizar o terror de acontecimentos idos, como o genocídio dos armênios na Turquia, dos judeus na Alemanha ou dos indígenas no Brasil, a representação artística/literária o faz, questionando opções atenuantes e eufêmicas, praticando um “esforço de elaboração” (GINZBURG, 2012, p. 59) do passado. No entanto, nesse esforço, a memória pode ser alienada –de modo inconsciente – quando o processo é conduzido por sujeitos que não sofreram a injustiça ou não se compreendem a si mesmos como partícipes de uma dada comunidade vítima do terror. Em face disso, propomo-nos analisar a edição em língua portuguesa (2015) de A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. O texto percorre um trajeto de mais de 20 anos de depoimentos, dados/narrados em yanomami por Kopenawa ao antropólogo francês Albert. Esses relatos foram transcritos para a língua francesa e, posteriormente, traduzidos no Brasil por Beatriz Perrone-Moisés. Em nossa comunicação, lançaremos um olhar crítico sobre a parte intitulada “A fumaça do metal”, que será tomada como “literatura de testemunho”, uma vez que se trata da visada do narrador acerca dos contactos do indígena com o branco naquilo que eles têm de traumáticos.  Nosso objetivo é traçar o perfil representativo do indígena pela voz do próprio indígena, dando-lhe o direito de elaborar/narrar o seu passado.

Palavras-chave: Memória; Representação; Testemunho; Literatura Indígena no Brasil.

 

Minibiografia:

Rosana Cristina Zanelatto Santos é Doutora em Letras pela USP e professora de Literaturas de Língua Portuguesa da UFMS – Campo Grande. Docente e orientadora dos PPG’s em Letras (Mestrado e Doutorado) e em Estudos de Linguagens (Mestrado) da UFMS. Pesquisadora do CNPq (PQ – 2) e da FUNDECT. Presidente da ABRAPLIP no biênio 2012-2013. Autora e organizadora de livros sobre literaturas de língua portuguesa, além de ter participado com artigos em periódicos especializados e livros da área de Letras e afins.


Comunicação 28

UM PORTO SEGURO E SEMPRE SONHADO”: DESLOCAMENTOS E IDENTIDADES EM OS ÍBIS VERMELHOS DA GUIANA

Autoras:

Cátia Monteiro Wankler – UFRR – cmwankler@gmail.com

Veronica Prudente Costa – UEA – prudente.veronica@gmail.com

 

Resumo:

Resultado parcial do projeto de pesquisa “Presença Portuguesa na Amazônia”, coordenado pela Profª. Drª. Veronica Prudente, com apoio do CNPq, de cuja equipe me incluo, este trabalho situa-se na área dos estudos literários e objetiva realizar uma leitura do romance Os Íbis Vermelhos da Guiana, de Helena Marques, com base nos estudos culturais e mediada pela relação entre os deslocamentos humanos, suas motivações e os processos de constituição de identidades observáveis na obra. O locus catalisador destes processos é a Guiana, hoje ex-colônia britânica, cuja identidade cultural (Hall, 2006) transita entre o ser “britânico”, como afirma a narrativa, e o ser amazônico (Reginaldo Oliveira, 2008; 2011, olhar hodierno adotado como referencial para este tema no transcurso da investigação. A trajetória de Simão Inácio, protagonista da obra tem início no século XIX, quando se observa uma significativa migração portuguesa para a “Guiana Britânica”. Madeirense, bastardo, Simão emigra da Madeira na primeira metade do século e lá se afirma através do trabalho, torna-se membro respeitável da comunidade, enriquece, constitui família e propriedade. Na primeira parte da obra, Simão troca seu nome de batismo pela versão britânica, “Simon”, e substitui “Inácio” por “Adams”. A renomeação voluntária marca o início de uma trajetória subjetiva uma identidade que dê conta de um “eu” e de um “outro” que consiga apartar-se de si e, ao mesmo tempo, (re)conhecer-se e ressignificar-se (Ricoeur, 1991). No século seguinte, a história de Simon se desdobra na de sua Bisneta Anne Adams, que também se desloca geograficamente, como o avô, e também busca (re)conhecer-se para ressignificar-se, mas movida por motivações diversas e num contexto marcado pelo pré e pelo pós-Segunda Grande Guerra. Verifica-se na obra, o “desenho” de um mapa imaginário dos percursos físicos de Simon e Anne que entrelaçam e deslocam estes dois sujeitos na busca de suas identidades.

Paravras-chave: Ibis vermelhos da Guiana; Amazônia caribenha; Amazônia britânica; literatura e identidade.

 

Minibiografias:

 Cátia Monteiro Wankler – Doutora em Teoria da Literatura (PUCRS-Brasil). Mestre em Literatura Portuguesa (UFF -Brasil). Professora Associada da Universidade Federal de Roraima (UFRR-Brasil). Docente Colaboradora do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH) da UEA-Brasil. Coordenadora do projeto Literaturas e Identidades em Textos Literários Portugueses Produzidos em ou Ambientados na Amazônia Brasileira e/ou Caribenha. Editora da ContraCorrente: Revista de Estudos Literários e da Cultura Compôs a Diretoria da ABRAPLIP na Gestão 2014-2015. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Estudos de Literatura e Identidade (UFRR) e membro da Cátedra Amazonense de Estudos Literários e da Cultura-CAEL/UEA.

Veronica Prudente Costa – Doutora e Mestre em Letras Vernáculas (UFRJ-Brasil). Professora Adjunta na Universidade do Estado do Amazonas-UEA-Brasil. Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH) da UEA-Brasil, do qual é Subcoordenadora. Coordenadora do projeto Presença Portuguesa na Amazônia, financiado pelo CNPq. Editora-Chefe da ContraCorrente: Revista de Estudos Literários e da Cultura. Compôs a Diretoria da ABRAPLIP na Gestão 2014-2015. Membro do Grupo de Pesquisa Estudos de Literatura e Identidade (UFRR) e da Cátedra Amazonense de Estudos Literários e da Cultura-CAEL/UEA.


Comunicação 29

A Literatura Como Ato Político – Os Estudantes da Casa do Império, Negrismo e movimentos pró-independentistas

Autora:

Deolinda Adão – University of California, Berkeley – dadao@sbcglobal.net

 

Resumo:

Este trabalho visa desenvolver uma analise de textos publicados em Mensagem considerando o seu teor político e emancipatório. Um dos principais objetivos centra-se na relação entre a transição de uma voz literária de sujeito colonizado e uma eventual voz de agente pós-colonizado.  Assim a questão que percorre toda a investigação é se podemos ou não identificar um momento de transição entre o colonial e o pós-colonial, podendo mesmo por em questão a própria noção do pós-colonialismo.

Palavras-Chave: literatura; Mensagem;  política; (pós)-colonialismo.

 

Minibiografia:

Deolinda Adão é Ph.D. in Luso-Brazilian Languages and Literatures  (2007) pela Universitdade of Califórnia, Berkeley. É  Professora de Espanhol e Português (Peralta Community Colleges – Berkeley City College);  Sub-Diretora do Centro da União Europeia. (University of  California, Berkeley – Institute of European Studies. (2016 – …); Diretora Executiva, Programa de Estudos Portugueses (University of  California, Berkeley – Institute of European Studies, 2008 – July, 2016). Foi Diretora do Program de Estudos Luso-Brasileiros  (California State University, San Jose. (July 2009 – December 2015); Diretora do Programa de Verão em Portugal  (University of California, Berkeley  and California State University, San Jose (Summer 2006, 2007, 2008, 2009, and 2013) e Diretora do Programa de Verão em Cuba (University of California, Berkeley, 2003 e 2004).


Comunicação 30

Uma “velha e triste questão”: Almeida Garrett e os laços entre a literatura portuguesa e brasileira

Autora:

Luciana Namorato – Universidade de Indiana (Indiana University, Bloomington, Indiana, Estados Unidos) – lnamorat@indiana.edu

 

Resumo:

O abismo que atualmente separa a literatura brasileira e portuguesa é profundo e de longa data. Durante uma entrevista em 1986, o escritor português e ganhador do Prêmio Nobel José Saramago descreveu este abismo cultural entre os dois países como “a nossa velha e triste questão”. De acordo com Saramago, os escritores portugueses e brasileiros não conseguiram cultivar uma maior aproximação, apesar de compartilharem uma língua e várias tradições culturais. Em minha comunicação, abordo este tema por meio de um estudo da presença do escritor escritor português Almeida Garrett (1799-1854) no contexto intelectual brasileiro, assim como das consonâncias entre sua obra e a do escritor brasileiro Machado de Assis (1839-1908). O século XIX é comumente descrito como um período de diferenciação política e intelectual—e, não raramente, de proposital distanciamento—entre o Brasil e sua antiga metrópole, Portugal. As tradições literárias dos dois países são frequentemente citadas como produtos de contextos desconectados, fundados em diferentes ambientes políticos, econômicos e culturais. Podemos explicar essa desconexão como um eco da ruptura de 1822, quando o Brasil declarou sua independência política de Portugal. Mas fazer isso não deveria nos impedir de reconhecer momentos de confluência, convergência e influência mútua entre as duas tradições literárias, uma vez que qualquer literatura nacional é, em última instância, produto de contextos tanto locais quando globais. Garrett e Machado compartilharam várias estratégias literárias, entre elas: o uso da literatura como veículo de engajamento político, e a relativização dos discursos mais importantes de seu tempo—a saber, o Historicismo e Cientificismo. Ao mapear as conexões entre a obra dos dois escritores, este projeto proporciona uma compreensão mais precisa da literatura lusófona dentro de um contexto transatlântico, além de nacional.

Palavras-chave: relações transatlânticas; Almeida Garrett; Machado de Assis; século 19; período pós-colonial.

 

Minibiografia:

Luciana Namorato é professora e pesquisadora do Departamento de Espanhol e Português, diretora do Programa de Português e coordenadora do Grupo de Estudos Brasileiros da Universidade de Indiana, em Bloomington, Indiana, nos Estados Unidos. Seus interesses de pesquisa incluem os diálogos transatlânticos entre as literaturas em língua portuguesa, mais especificamente as aproximações entre a literatura portuguesa e a literatura brasileira no período que segue a independência do Brasil. Seus outros interesses de pesquisa incluem os estudos pós-coloniais, os estudos de gênero e a literatura latino-americana nos séculos 20 e 21.


Comunicação 31

O ensino de literatura: perspectivas comparatistas e a formação de professores à luz da Lei 11.645/08

Autora:

Rosangela Sarteschi – Universidade de São Paulo (USP) – rosecpq@usp.br

 

Resumo:

Com a aprovação da Lei 11.645/08 (texto que modificou a Lei 10.639/03), que prevê a inclusão de temas relacionados à história e cultura africanas, afro-brasileiras e indígenas nos currículos escolares da educação básica brasileira, é necessário que se problematize a formação inicial dos futuros professores de literatura.

Nesse sentido, a presente comunicação tem por objetivo fazer uma breve reflexão conceitual e teórica sobre a formação desses professores a partir da perspectiva dos estudos comparatistas das literaturas de língua portuguesa e as especificidades inerentes a esse campo de estudo e também como método de problematização do literário.

A chegada de novos autores e novos textos ao espaço da escola certamente suscitará temas complexos como racismo, identidade, hegemonia e discriminação cultural e étnico-racial, mito da democracia racial brasileira, entre outros, evidenciando a necessidade de professores que sejam capazes de atuar pedagogicamente nessa nova conformação.

Assim, pensar no conjunto da produção cultural produzida em língua portuguesa na esfera da educação básica significa considerar, sobretudo, a configuração de um espaço identitário permeado por tensões e diferenças.

Palavras-chave: literatura no ensino básico; lei 10639/03 e o ensino de literatura; formação de professores; letramento literário; racismo.

 

Minibiografia:

Rosangela Sarteschi é professora e pesquisadora junto ao Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP. Atua na área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, nas seguintes linhas de pesquisa: literatura e experiência histórica; literatura e vida social nos países de língua portuguesa, ensino de literatura (a lei 11.645/08 em perspectiva) e literatura comparada nos países de língua oficial portuguesa. É também pesquisadora junto ao Núcleo interinstitucional de apoio à pesquisa (NAP) Brasil – África.