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Simpósio 75

SIMPÓSIO 75 – GRAMÁTICA HISTÓRICA DO PORTUGUÊS 

 

Coordenador:

Paulo Osório | Universidade da Beira Interior | pjtrso@ubi.pt

 

Resumo:

O presente simpósio pretende aceitar trabalhos no âmbito da Linguística Histórica, nomeadamente no que à História da Língua Portuguesa diga respeito.

Pretende-se, fundamentalmente, trabalhos que tratem aspetos diversos do âmbito da Gramática Histórica do Português, como sejam os domínios grafemático, fonético-fonológico, morfológico, morfossintático, semântico, pragmático e lexical. Aceitam-se diferentes enfoques teórico-metodológicos.

 

Palavras-chave: Linguística histórica, Gramática Histórica, História da Língua Portuguesa.

 

Minibiografia:

Paulo Osório é Licenciado em Português, Latim e Grego pela Faculdade de Letras da Universidade Católica Portuguesa; Mestre em Linguística Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Doutor e Agregado em Letras (Linguística Portuguesa) pela Universidade da Beira Interior. Os seus principais interesses de investigação são a Linguística Histórica e a Aquisição de L2. É Professor Associado com Agregação da Universidade da Beira Interior e Presidente da AILP (Associação Internacional de Linguística do Português).

 

 

Resumos dos trabalhos aprovados

Comunicação 1

A Subordinação nos Séculos XIII, XIV, XV e XVI: Estudo Diacrónico

Autor:

Paulo Osório – Universidade da Beira Interior – pjtrso@ubi.pt

 

Resumo:

A presente comunicação inscreve-se no âmbito da Sintaxe Histórica e pretende fazer uma análise sintática das estruturas subordinativas no Português Arcaico e inícios do Português Moderno. Assim, através do Corpus Informatizado do Português Medieval (CIPM) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, iremos proceder à exploração e análise de fontes documentais (fundamentalmente textos não literários) dos séculos XIII, XIV, XV e XVI.

Como enquadramento teórico-metodológico, recorreremos à Sociolinguística Histórica, à semelhança de trabalhos anteriores (Osório, 2002, 2004).

Palavras-chave: Sintaxe Histórica; Subordinação; Sociolinguística Histórica.

 

Minibiografia:

Paulo Osório é Licenciado em Humanidades (Português, Latim e Grego) pela Universidade Católica Portuguesa (1994), Mestre em Linguística Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1998) e Doutor em Letras (Linguística Portuguesa) pela Universidade da Beira Interior (2002), tendo sido, em 2009, aprovado em Provas de Agregação no ramo de Letras (Linguística Portuguesa) na mesma Universidade. Tem desenvolvido investigação em Linguística Histórica e em Aquisição e Aprendizagem de L2 e tem, nesses domínios, orientado inúmeras dissertações de Mestrado e de Doutoramento. Atualmente, é Professor Associado com Agregação da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior (Covilhã, Portugal).


Comunicação 2

Sobre a Gramaticalização da Perífrase ir+infinitivo como Expressão da Futuridade. A Eclosão de Irei+infinitivo

Autor:

Francisco José Fidalgo Enríquez – UTAD – franciscofidalgo@utad.pt

 

Resumo:

É um fato sobradamente conhecido e estudado que a perífrase ir+infinitivo, partindo de um valor aspectual incoativo, tem vindo a substituir ao futuro sintético amarei com valor temporal de futuridade na língua oral em quase todos os registos, com exceção do registo mais culto, e na língua escrita em registos menos elevados conforme um processo da gramaticalização comum a várias línguas tanto do âmbito românico como do germanístico. Não é, no entanto, tao notório que em todas as variedades do português atual tem emergido o emprego da mencionada estrutura analítica com o verbo auxiliar em futuro: irei. Esta solução é, por exemplo, ignota no espanhol europeu, no francês ou no italiano. O objetivo da nossa comunicação é estudar os valores ‘modo-temporais’ desta construção que pressupõem, no nosso entender, mais um grau na gramaticalização desta perífrase que se constitui assim em um caso singular no contexto românico.

Para a consecução dos nossos objetivos decidimos abordar esta questão a partir de uma reflexão teórica no âmbito da gramaticalização mediante a consulta de literatura específica bem como de uma breve análise sincrónica e diacrónica de ocorrências relevantes. Da exegese destes elementos podemos concluir que a perífrase irei+infinitivo com o verbo auxiliar em futuro poderá vir a substituir o emprego do futuro sintético com valor temporal por razões estruturais combinatórias e pela própria vitalidade da forma analítica ir+infinitivo tanto na variedade europeia do português como na variedade americana.

Palavras-chave: Futuridade, perífrase, gramaticalização, auxiliaridade, futuro simples/sintético.

 

Minibiografia:

Francisco José Fidalgo Enríquez é Licenciado em Filologia Hispânica e em Filologia Portuguesa pela Universidade de Salamanca; Mestre e Doutor em Filologia Moderna na área de Linguística Contrastiva Espanhol/Português-Português/Espanhol e obteve uma Pós-graduação em ELE pela Universidade de Alcalá. As suas principais linhas de investigação são a Linguística Espanhola e Portuguesa sincrónica e diacrónica (Linguística Contrastiva espanhol-português/português-espanhol), os Estudos Culturais (Cultura espanhola e portuguesa) e a Didática do espanhol para lusófonos.


Comunicação 3

Tópicos de Gramática Histórica em Viriato da Cruz: para uma Introdução da História da Língua Portuguesa em Angola  

Autor:

David Suelela – Universidade da Beira Interior – davidsuelela@yahoo.com.br

 

Resumo:

Os séculos XV e XVI representam um período de Ouro para os linguistas que se dedicam a pesquisas sobre a Gramática Histórica do Português. É a partir deste momento que se pode falar, por exemplo, de uma fase a quo e ad quem da língua portuguesa em Angola. Assim, nesse país africano, a gramática do português tem vindo a observar, em diferentes níveis, um conjunto de fenómenos que evidenciam, com certeza, que a mudança linguística é um princípio inerente a todas as línguas vivas.

Palavras-chave: Gramática Histórica, mudança linguística, fenómenos linguísticos, língua portuguesa em Angola.

 

Minibiografia:

Mestrando em Estudos Didáticos, Culturais, Linguísticos e Literários pela Universidade da Beira Interior. É licenciado em Ensino da Língua Portuguesa pelo Instituto Superior de Ciências da Educação de Luanda (ISCED) e membro da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP).


Comunicação 4

Um Enfoque Construcional sobre as Formações X-ário e X-eiro: do Latim ao Português Arcaico

Autor:

Natival Almeida Simões Neto – Universidade Federal da Bahia – nativalneto@gmail.com

 

Resumo:

Com este trabalho, pretende-se observar aqui a polissemia de uma construção lexical sob uma perspectiva histórica, partindo-se da forma etimológica latina X-ariu e chegando ao português arcaico (séculos XIII-XVI), sob as formas X-ário e X-eiro. O principal objetivo é observar se os significados atestados no português arcaico já estavam previstas no latim e discutir aspectos relacionados à mudança e à herança linguística. Quanto aos corpora, para o latim, serviu de fonte o Dicionário Escolar Latino-Português, de Ernesto Faria (1994). Para as formas do português, fez-se coleta nos textos disponíveis na plataforma digital Corpus Informatizado do Português Medieval. Relativamente ao aporte teórico, o trabalho segue os pressupostos da linguística cognitiva e da morfologia construcional, vistos aqui em trabalhos de Botelho (2009), Booij (2010, 2014), Basílio (2010), Soledade (2013) e Gonçalves & Almeida (2014). No esteio das teorias selecionadas para a descrição e interpretação dos dados, destacam-se as relações de extensão entre significados atestados e importância dos fenômenos de compatibilização, motivação, compressão e herança padrão, no que diz respeito à relação entre base, sufixo, palavra derivada e esquema construcional que a instancia.

Palavras-chave: Derivação Sufixal; Língua latina; Português arcaico; Polissemia.

 

Minibiografia:

Mestre (2016) pelo Programa de Pós-graduação em Língua e Cultura, da Universidade Federal da Bahia. Graduado (2014) em Letras Vernáculas (Licenciatura), por essa mesma instituição. Atualmente, é professor substituto no Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal da Bahia. Os principais interesses estão nas áreas de Morfologia, Antroponímia, Léxico e Semântica em Perspectiva histórica e/ou cognitivista.


Comunicação 5

Abordagem Diacrônica da Fraseologia Portuguesa Associada ao Corpo Humano

Autora:

Maria Auxiliadora da Fonseca Leal – Universidade Federal de Minas Gerais – dorale230@gmail.com

 

Resumo:

No presente trabalho apresentamos uma análise diacrônica das unidades fraseológicas associadas ao corpo humano no português brasileiro e no português europeu. Para a realização da investigação elaboramos um corpus com unidades fraseológicas coletadas em dicionários das duas variedades portuguesas, bem como em obras complementares correspondentes a cada sincronia. Adotamos como arcabouço teórico/metodológico os pressupostos de Filmore (1992), Berber Sardinha (2000), Sinclair (2004), Lakoff (2002) e Viaro (2011). Constatamos que um percentual significativo das unidades fraseológicas associadas ao corpo humano ocorre na língua a partir do século XIX. Do total de unidades investigadas, 50% foram registradas, nos corpora, a partir dessa sincronia. É, também, representativo o percentual de estruturas presentes, na língua, desde o século XVI, isto é, 23% das unidades coletadas. Em regra, a maioria das expressões desse grupo é recorrente em todas as sincronias. Do total de unidades agrupadas, 11% ocorreram na língua portuguesa desde o século XVII. Portanto, considerando-se as fases mais pretéritas podemos inferir, pelos dados, que aproximadamente 34% das unidades fraseológicas associadas ao corpo humano remontam aos séculos XVI e XVII. Já 13% das unidades referem-se aos séculos XX e XXI. Por fim, 2% do total de expressões listadas podem ser consideradas arcaísmos, já que foram registradas, nos corpora, somente até o século XVIII.

Palavras-chave: português, diacronia, fraseologia, corpo humano.

 

Minibiografia:

Possui bacharelado em Direito pelo Centro Universitário Newton Paiva; graduação em Letras/Licenciatura Português/Inglês e suas respectivas literaturas pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Patos de Minas (1981); especialização em Língua portuguesa pela PUC/Minas (1989); especialização em Linguística Indígena pela Universidade Federal do Pará (1990); mestrado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (1992); doutorado em Estudos Lingüísticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (2005) e Estágio Pós-doutoral na Universidade de Brasília e nas Universidades de Lisboa e Algarve/ PT (2013).


Comunicação 6

Apagamento e Vocalização da Coda Silábica no Português do Brasil em Documentos do Século XIX

Autores:

Juliene Lopes Ribeiro Pedrosa – Universidade Federal da Paraíba – julienepedrosa@yahoo.com

Rubens Marques de Lucena – Universidade Federal da Paraíba – rubenslucena@yahoo.com

 

Resumo:

O objetivo desta comunicação é discutir a respeito do comportamento variável da coda silábica em textos do século XIX e início do século XX do português do Brasil (PB), a partir de corpora levantados pelo Projeto História do Português Brasileiro (PHPB). Focalizaremos muito particularmente um processo que atua na coda silábica na oralidade do PB atual: os apagamentos da vibrante, do /S/ e do /l/ pós-vocálico. Nossa hipótese é a de que esses processos variáveis não são recentes na língua e que, apesar de não termos acesso a dados da oralidade, alguns textos podem ser reveladores de que essa variação já estava presente no português do Brasil desde o início do século XIX. Utilizamo-nos de documentos dos corpora do Projeto PHPB, sobretudo os que poderiam refletir ruídos de oralidade, como as cartas de cunho pessoal, os bilhetes e os documentos oficiais escritos por mãos inábeis, coletados nos Estados da Bahia, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo. A partir do exame dos dados, pudemos constatar que o apagamento do /R/ foi o fenômeno mais recorrente, apresentando-se de maneira mais vigorosa em verbos no infinitivo e de forma mais tímida em nomes, o que parece confirmar a regra variável presente na maior parte dos dialetos brasileiros. Nossos dados também parecem confirmar a hipótese levantada por Oliveira (2005) de que o processo de apagamento da vibrante se tornou mais frequente ao longo do século XIX. Os casos de apagamento do /S/ e do /l/ foram menos frequentes, o que também corrobora os dados referentes a esses fenômenos no estágio atual do PB. A maior parte dos apagamentos do /S/ é em contexto morfêmico e as apócopes em contexto não morfêmico são mais raras e restritas aos missivistas com mais dificuldades no ofício da escrita.

Palavras-chave: português brasileiro;  variação; linguística histórica.

 

Minibiografias:

Juliene Lopes Ribeiro Pedrosa é Doutora em Linguística pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística – UFPB (2009). Professora Adjunta da Universidade Federal da Paraíba, atuando no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas (DLCV) e no Mestrado Profissional de Linguística e Ensino (MPLE). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa, principalmente nos seguintes temas: variação, teoria fonológica e ensino de língua portuguesa.

Rubens Marques de Lucena é Doutor em Linguística, com área de concentração em Teoria e Análise Linguística. Atualmente é Professor Associado da Universidade Federal da Paraíba, onde atua no Departamento de Letras Estrangeiras Modernas (DLEM) e no Programa de Pós-Graduação em Linguística (PROLING). Suas áreas de interesse em pesquisa são Sociolinguística e Fonologia. 


Comunicação 7

O Sistema Vocálico Pretônico em Manuscritos do Século XIX do Sul do Brasil

 

Autora:

Tatiana Keller – Universidade Federal de Santa Maria – kellertatiana.ufsm@gmail.com

 

Resumo:

A realização das vogais pretônicas ora como médias ora como altas é uma característica antiga do português e já é identificada em Latim Vulgar, como atestam os dados do Appendix Probi: “formica non furmica” e “festuca non fistuca”. Estudos como o de Bisol (1983), que trata de dados diacrônicos do português brasileiro, mostra que os casos de instabilidade vocálica na pauta pretônica estão presentes desde o século XVI e têm aumentado sua ocorrência até os dias atuais. A fim de contribuir para a descrição do português do Brasil no que diz respeito ao sistema vocálico, este trabalho toma como ponto de partida a análise de 17 manuscritos antigos redigidos no estado do Rio Grande do Sul entre os anos de 1818 e 1894, armazenados no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Foram coletadas todas as ocorrências em que há substituição, na sílaba pretônica, de vogal média por vogal alta ou de vogal alta por vogal média. Os dados analisados apresentam indícios de ocorrência de harmonia vocálica, troca de vogal média por vogal alta com vogal alta em sílaba contígua, como em menino ~ minino; alçamento sem motivação aparente, substituição de vogal média por alta sem vogal alta na sílaba contígua, por exemplo, melhor ~ milhor; abaixamento, quando a vogal alta é substituída por vogal média, como em cunhado ~ conhado. Quando se observa um fenômeno linguístico variável ao longo do tempo, é possível que ele apresente-se como um caso de mudança, em que apenas uma das formas variantes sobrevive, ou de variação estável, em que as duas formas coexistem. Os resultados desta pesquisa indicam que a alternância vocálica na pauta pretônica encontra-se neste último caso.

Palavras-chave: vogais pretônicas; manuscritos; século XIX; sul do Brasil; variação linguística.

 

Minibiografia:

Professora Adjunta do Departamento de Letras Vernáculas, na Universidade Federal de Santa Maria (Brasil), onde ministra aulas nos cursos de Graduação e Pós-Graduação nas áreas de Filologia, Português Histórico e Fonologia do português. É licenciada em Letras Português e Inglês e mestre na área de Teoria e Análise Linguística, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutora na área de Linguística Aplicada, pala Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.


Comunicação 8

Português Arcaico: Variação e Mudança na Ordem de Constituintes do XP

 

Autora:

Lúcia Maria de Jesus Parcero – Universidade de Estado da Bahia – lmparcero@hotmail.com

 

Resumo:

Apresenta-se, neste trabalho, um estudo com o objetivo de comparar duas estruturas em processo de mudança, comuns no Português Arcaico (PA) a primeira, aqui denominada de fronteamento[1], que consiste no deslocamento de um constituinte XP para uma posição pré-verbal, como em [2]e a segunda, conhecida na literatura linguística como interpolação2 O estudo foi desenvolvido com base em um corpus constituído de textos literários dos séculos XV, XVI e XVII. Após a análise de cada um dos fenômenos, procedeu-se à comparação entre eles, a fim de verificar até que ponto pode considerar resultantes de um mesmo mecanismo sintático. Confrontaram-se em seguida as referidas construções com construções semelhantes atestadas no Espanhol Antigo (EA). Com base nos pressupostos teóricos da mudança linguística, apresentados em Krock (1994/1998), Lightfoot (1991/1999) dentre outros, foram feitas algumas reflexões sobre as construções em variação, analisando-as como resultantes de gramáticas em competição, em um processo característico de mudança linguística.

Palavras-chave: diacronia; movimento de constituintes; variação; mudança linguística.

 

Minibiografia:

Doutora em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP e Mestre em Letras pela Universidade Federal da Bahia – UFBA. É professora Adjunta da Universidade do Estado da Bahia – UNEB.  Tem experiência em Gramática Histórica do Português, Sociolinguística, Variação e Mudança, Linguística e em alguns recursos da Sintaxe Gerativa.


Comunicação 9

Evolução Semântica do Sufixo –ecer na Língua Portuguesa

Autor:

Rui Abel Pereira – Instituto Politécnico de Macau – ruiabelp@ipm.edu.mo

 

Resumo:

O sufixo –ecer, que ocorre em verbos como alvorecer, escurecer, anoitecer, endurecer, etc., é apresentado tradicionalmente como um sufixo que aporta um significado incoativo aos verbos que forma (Diez 1874, Nunes 1975, Piel 1976, Mattoso Câmara Jr. 1979). Refere-se, por exemplo, que –ecer traduz a ideia de uma ação incipiente (Piel 1976: xxvi) ou que é característico de verbos que indicam “o começo de um estado e, às vezes, o seu desenvolvimento”(Cunha e Cintra  1994: 102).

A investigação levada a cabo nos últimos anos sobre este sufixo, recentemente publicada na Gramática Derivacional do Português (2016), demonstrou que, mais do que ‘início de ação’ ou ‘começo de estado’, os verbos em –ecer, resultantes de um processo de sufixação  ou de circunfixação, denotam geralmente uma ‘mudança de estado ou qualidade’ de carácter télico, isto é, a transição mais ou menos gradual de uma entidade para um novo estado, podendo ser usados tanto em construções incoativas como causativas.

Nesta comunicação, propomo-nos divulgar os resultados de um estudo efetuado sobre o percurso diacrónico deste sufixo. A análise de bases de dados lexicais de fases pretéritas da língua portuguesa permite lançar algumas luzes sobre a evolução semântica do sufixo –ecer, desde a incoatividade à causatividade.

Palavras-chave: léxico; sufixo; incoativo; causativo.

 

Minibiografia:

Rui Abel Pereira é doutorado em Línguas e Literaturas Modernas, na especialidade de Linguística. Docente durante vários anos na Faculdade de Letras da U.C.P. e da Universidade de Coimbra, é atualmente professor adjunto do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa, do Instituto Politécnico de Macau. É também membro integrado do CELGA-ILTEC, fazendo investigação nas áreas do Léxico, Formação de Palavras e Ensino do Português como Língua Estrangeira.


Comunicação 10

A preposição como elemento introdutor de estruturas: o português face às outras línguas românicas

Autor:

Ignacio Vázquez Diéguez – Universidade da Beira Interior – jivd@ubi.pt

 

Resumo:

Pretende-se rever nesta comunicação o conceito de transitividade e, dentro dele, prestar atenção ao complemento precedido de preposição. Na tradição românica, o verbo transitivo pede um complemento (chamado direto) para preencher o seu significado. Esse complemento, usualmente, foi apresentado pela gramática tradicional como um elemento unido ao verbo sem necessidade de ligação. Durante o século XX mudou timidamente essa perceção e já algumas línguas (como o francês e, nomeadamente, o português) apontam os verbos transitivos como diretos (sem prep.) e indiretos (com prep.) e outros simplesmente como transitivos (espanhol, catalão, galego, italiano, romeno), sendo então os transitivos indiretos, intransitivos. Contudo, etapas antigas da língua demostram que a preposição era comum como elemento de união. Abordar-se-á pormenorizadamente o caso português.

No mesmo sentido, também nessas épocas pretéritas, o sujeito, nalguns tipos de orações, era introduzido por preposição.

Tentar-se-á sistematizar a questão e a importância do elo de união hoje desaparecido em muitas estruturas e mantido noutras.

Palavras-chave: transitividade; complemento preposicionado; português; línguas românicas.

 

Minibiografia:

Ignacio Vázquez Diéguez é licenciado em Filologia Hispânica (1990) e Filologia Portuguesa (1996) pela Universitat de Barcelona. É Doutor em Filologia Hispânica (2006) pela mesma universidade. Atualmente é Professor Auxiliar do Departamento de Letras da Universidade da Beira Interior onde é Diretor do curso de primeiro ciclo em “Estudos Portugueses e Espanhóis”.


Comunicação 11

O Método Arqueológico de Foucault na Abordagem da Tradição Gramatical

 

Autor:

Thiago Soares de Oliveira – Instituto Federal Fluminense – so.thiago@hotmail.com

 

Resumo:

É comum que a tradição gramatical seja tratada por alguns estudiosos da linguagem a partir de um matiz que a considera mais voltada à perpetuação de dogmas antigos que sobreviveram à passagem do tempo, não aderindo à revolução epistemológica que aponta para a diversidade e para a funcionalidade das inúmeras variedades linguísticas não contempladas institucionalmente pela norma-padrão. Ao se propor uma pesquisa com base discursiva, utilizando-se o método arqueológico de Foucault, elege-se, por conseguinte, outra perspectiva de tratamento dos assuntos referentes à tradição gramatical, não apenas porque o autor é considerado multidisciplinar, mas também porque é um dos principais nomes utilizados nos estudos de Análise do Discurso Francesa, geneticamente interdisciplinar. Nessa linha de raciocínio, assim como Foucault em sua proposta de investigação arqueológica, pretende-se buscar na tradição gramatical um outro discurso, mais oculto, já que os discursos são práticas sujeitas a regras. Aliás, não se tenciona a descrição de compêndios normativos, mas a verificação do tipo e das regras que perpassam a individualidade da obra, alcançando as práticas discursivas que a comandam. No mais, este trabalho suscita reflexões preliminares acerca de como se planeja abordar o posicionamento de gramáticas normativas no que se refere à maior ou à menor adesão aos aspectos da tradição gramatical, com o intuito de dar prosseguimento à escrita da tese de doutoramento intitulada “Tradição, gramática e discurso: o posicionamento dos compêndios de normas”.

Palavras-chave: Tradição gramatical; Discurso tradicional; Método arqueológico.

 

Minibiografia:

Doutorando e Mestre em Cognição e Linguagem pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). Professor da licenciatura em Letras do Instituto Federal Fluminense, com produção científica nas áreas de gramática histórica, língua latina, língua portuguesa e análise do discurso.

[1] Mostrava que muy espantada VIERA a sua Alma das penas (VDS 338-28)

[2] A expressão de seus avoos encontra-se interpolada entre o clítico lhe e o verbo ficarom (DFR 31-34)