+351 916 868 984 visimelp@ese.ipsantarem.pt

Simpósio 73

SIMPÓSIO 73 – LEGITIMAÇÃO SOCIAL E PRÁTICAS DE LINGUAGEM: EMERGÊNCIA E ESTABILIZAÇÃO DE PROCESSOS TEXTUAIS E/OU DISCURSIVOS EM DIFERENTES CAMPOS SOCIAIS

 

Coordenadoras:

Anna Christina Bentes | UNICAMP | annafapesp@hotmail.com

Karina Falcone |UFPE | kfalcone@gmail.com

 

Resumo:

Esta sessão tem como proposta colocar em diálogo um conjunto de trabalhos que considerem que as ações de textualização/ discursivização configuradoras de gêneros do discurso, de interações verbais em diferentes contextos sociais constituem-se em um lócus importante de observação tanto da emergência de processos de (des) legitimação de atores e lugares sociais específicos como também das possibilidades de movimentação desses atores nas tramas sociais nas quais estão envolvidos. Cada trabalho deve enfocar diferentes conjuntos de textos e/ou gêneros do discurso, analisando como os recursos textuais e discursivos mobilizados auxiliam na estruturação de um determinado campo social e também são estruturados por esse campo. A proposta pressupõe que sejam analisadas práticas de linguagem em contextos digitais que procurem mostrar, por exemplo, que estilizações da linguagem e categorizações sociais são recursos fundamentais nas lutas por (des) legitimação de posições nos diversos campos sociais. Também é possível analisar como determinados gêneros/textos podem revelar esquemas classificatórios que apontem para o reforço de estratificações sociais, cooperando para a inscrição dos atores em ordens sociais específicas. Nossa proposta também contempla a reflexão sobre gêneros do discurso e/ou processos textuais em campos contextos dos mais diversos (escolar, midiático, literário, etc.) que busquem pôr em discussão alguns elementos de processos de (des) legitimação que ancorem disputas no interior dos campos. As pesquisadoras que estão propondo essa sessão compartilham os referenciais teóricos da teoria da prática social e de teorias sociolinguísticas, do texto e do discurso de base crítica, buscando produzir uma arbitragem interdisciplinar, especialmente entre teorias sociais e teorias linguísticas, que possibilite uma compreensão mais ampla das relações entre as práticas de linguagem e a configuração dos campos sociais.

 

Palavras-chave: Legitimação social, texto/discurso, práticas de linguagem, categorização social, campo social.

 

Minibiografias:

Anna Christina Bentes

Professora do Departamento de Linguística e do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Estadual de Campinas, com graduação em Letras pela Universidade Federal do Pará, mestrado em Lingüística pela Universidade Federal de Santa Catarina, doutorado em Lingüística pela Universidade Estadual de Campinas, pós-doutorado no Departamento de Antropologia da Universidade da California, Berkeley. Atua nas áreas de Sociolinguística, Linguística do Texto e do Discurso e Linguística Aplicada. É assessora editorial da Cortez Editora e coordenadora do Centro de Pesquisas Margens.

Karina Falcone

Professora do Departamento de Letras e do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Realizou Pós-doutorado na Universidade Católica Portuguesa. Doutora e mestre em Linguística, ambos estudos desenvolvidos na UFPE. Uma parte do doutoramento foi realizado na Espanha, sob orientação do Prof. Teun A. van Dijk. Bacharel em Comunicação Social pela Universidade Católica de Pernambuco. Desenvolve pesquisas abarcando teorias da Análise Crítica do Discurso, da Linguística Cognitiva e da Linguística de Texto.

 

 

Resumos dos trabalhos aprovados

Comunicação 1

O papel de recursos textuais e discursivos nos processos de legitimação social no campo midiático televisivo brasileiro

Autora:

Anna Christina Bentes – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – annafapesp@hotmail.com

 

Resumo:

Nosso trabalho tem como principal objetivo fazer uma discussão sobre o papel de recursos textuais e discursivos mobilizados em programas televisivos de forma a compreender os efeitos de legitimação que esses recursos produzem quando colocados em uso, os tipos de estratégias perseguidas pelos produtores e os fins que alcançam. O trabalho situa-se nos interesses das abordagens que se voltam para as relações entre texto e sociedade. Nossa hipótese é a de que os programas televisivos estudados buscam legitimar-se no interior da grade de programação das respectivas redes televisivas e também buscam conferir legitimidade a determinadas temáticas, práticas e atores sociais. Nesse sentido, o trabalho analisa determinados produtos da indústria cultural que, segundo Bourdieu (2004), obedece à lei da concorrência para a conquista do maior mercado possível. O campo da indústria cultural é, segundo o autor, especificamente organizado com vistas à produção de bens culturais destinado à não produtores de bens culturais (“o grande público”), que podem ser recrutados tanto nas frações não intelectuais das classes dominantes (“o público cultivado”), como nas demais classes. No caso dos programas televisivos estudados, Manos e Minas (TV Cultura) e Conexões Urbanas (Multishow), suas apostas mercadológicas se voltam, no período compreendido entre 2008 e 2015, tanto para uma audiência mais ampla, como para a audiência que é o “alvo” do próprio programa, a saber, as comunidades periféricas brasileiras. William Hanks, em seu texto “Bourdieu e as práticas de linguagem” (2008), argumenta que a legitimidade é conferida à determinadas práticas de linguagem na medida em que são escolhidas por outros grupos, pelas classes dominantes e pelo grande público. Nossa abordagem para a questão da legitimidade estará baseada, em parte, nas postulações de Alencar (2004) e Falcone (2008).

Palavras-chaves: Legitimação social; Práticas de linguagem; Programas televisivos.

 

Minibiografia:

Professora do Departamento de Linguística e do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Estadual de Campinas, com graduação em Letras pela Universidade Federal do Pará, mestrado em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina, doutorado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas, pós-doutorado no Departamento de Antropologia da Universidade da Califórnia, Berkeley. Atua nas áreas de Sociolinguística, Linguística do Texto e do Discurso e Linguística Aplicada. É assessora editorial da Cortez Editora e coordenadora do Centro de Pesquisas Margens.


Comunicação 2

A construção da identidade da mulher na Ditadura do Estado Novo: o exemplo da Página Feminina da Revista Mundo Gráfico

Autoras:

Aldina Marques – UM / CLUP – mamarques@ilch.uminho.pt

Alexandra Guedes Pinto – FLUP / CLUP – mapinto@letras.up.pt

Ana Catarina Pinho – FLUP / CLUP – up201601367@letras.up.pt

Isabel Margarida Duarte – FLUP / CLUP – iduarte@letras.up.pt

 

Resumo:

O objetivo do presente trabalho é analisar a representação da mulher na rubrica ‘Página Feminina’ da Revista Mundo Gráfico. Fundada em 1940 e publicada, com uma periodicidade quinzenal, durante oito anos, até fevereiro de 1948, a revista Mundo Gráfico foi uma das publicações autorizadas pela comissão de censura do regime ditatorial português Estado Novo, que se estendeu no país desde 1933 até 1974.

Como revista do regime, a publicação espelha, promove e difunde aquele que seria um retrato idealizado do Portugal da época e, especificamente, uma representação de uma leitora idealizada da revista, imagem que nos interessa estudar como um contributo para a reconstituição de uma parte da memória histórica de um dos regimes ditatoriais europeus do século XX.

A exaltação de determinados topoi, tais como o lema salazarista ‘Deus, Pátria e Família’, muito presente na rubrica feminina sob análise, servia os interesses propagandísticos do regime do Estado Novo, que defendeu uma ideologia de Estado e de Nação acima do indivíduo. Os direitos de cada um deveriam ser suspensos em benefício dos direitos de todos, isto é, dos direitos da Nação, o que, por si só, legitimou a ampla suspensão das liberdades individuais durante o tempo da Ditadura.

Num momento histórico como o atual, em que os nacionalismos, os movimentos xenófobos e o discurso radical e extremista ganham terreno em todo o mundo ocidental, torna-se particularmente importante refletir e discutir publicamente os movimentos ideológicos que, ainda tão recentemente, conduziram a Europa e outras partes do mundo à aceitação de regimes autoritários, nacionalistas e ditatoriais.

As ideologias alojam-se no discurso e particularmente em determinados veículos semânticos, tais como os dos topoi argumentativos e das isotopias dominantes, as representações dos objetos discursivos, através das nominalizações e das predicações, factos linguísticos que estarão sob enfoque no presente estudo.

Palavras-chave: Representação da mulher; ditadura; imprensa; ideologia; discurso.

 

Minibiografias:

Aldina Marques – Professora Auxiliar do Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho. Doutorada em Ciências da Linguagem, ramo de Linguística Portuguesa, pela Universidade do Minho. Integra a rede MEMITA, bem como outros projetos de investigação nacionais e internacionais e possui numerosas colaborações académicas internacionais. As áreas de investigação e de interesse são: a Pragmática linguística; a Análise Linguística do Discurso; a Argumentação no discurso. Possui numerosas publicações especializadas na área.

Alexandra Guedes Pinto – Mestre e doutorada em Linguística pela FLUP, é membro do conselho científico do CLUP. É Professora Auxiliar na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sendo especializada nas áreas da Análise do Discurso, da Pragmática e da Sociolinguística. É membro de vários projetos internacionais tais como a rede MEMITA – Memória e Identidade; organizadora principal das Jornadas Internacionais de Análise do Discurso (JADIS) e coordenadora da Revista REDIS – Revista de Estudos do Discurso, FLUP/CLUP.

Ana Catarina Pinho – Doutoranda no Curso de 3o Ciclo em Ciências da Linguagem, variante de Linguística, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e Mestre em Estudos Editoriais pela Universidade de Aveiro. Encontra- se integrada na rede internacional MEMITA – Memória e Identidade – onde faz investigação sobre a imprensa do regime do Estado Novo.

Isabel Margarida Duarte – Professora Associada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e membro do Conselho Científico do CLUP e da FLUP, é doutorada em Linguística pela FLUP e Mestre em Ensino da Língua Portuguesa pela mesma instituição. Tem como principais áreas de investigação a Pragmática e Análise do Discurso bem como a aplicação da Linguística ao ensino do Português. É ainda diretora dos cursos de Mestrado em Ensino do Português e do Português como Língua Segunda na FLUP. Integra vários projetos de investigação, entre os quais a rede MEMITA e é autora de numerosas publicações de especialidade.


 Comunicação 3

A “revolução compartilhada”: os discursos do contrapoder dos coletivos midiáticos e a luta pela deslegitimação do golpe no Brasil

Autora:

Karina Falcone – Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – kfalcone@gmail.com

 

Resumo:

O objetivo deste estudo é identificar as ações dos coletivos midiáticos Mídia Ninja (MN) e Fora do Eixo (FE) como grupos do contrapoder no embate político brasileiro que resultou no golpe contra a presidenta Dilma Rousseff e o seu afastamento do cargo. Tais coletivos são um novo modelo de comunicação pela Internet e tem protagonizando um processo de democratização da comunicação brasileira, promovendo o acesso discursivo (FALCONE, 2005; VAN DIJK; 2008) de vozes contrárias ao status quo. Historicamente, o jornalismo brasileiro opera na categorização de fatos sociais legitimando discursos de grupos ideologicamente dominantes (FALCONE, 2008). A ação dos coletivos midiáticos tem proporcionado a já denominada “Revolução Compartilhada”: a possibilidade de acessar, a partir de recursos tecnológicos, protestos e manifestações sistematicamente silenciados pela mídia tradicional brasileira. As comunidades em rede possibilitam a visibilidade de atores sociais que empoderam minorias sociais e que passam a enfocar, de forma crítica e criativa, experiências sociais significativas (BOQUILLION e MATHEWS, 2010). Também é relevante, para esta pesquisa, investigar os recursos linguístico-discursivos e textuais mobilizados por esses coletivos para promover o engajamento e o protagonismo dos atores sociais nas coberturas da “mídia livre”, conceito proposto pelos coletivos. Neste trabalho, analisamos as ações do MN e do FE no processo de categorização (LAKOFF, 1990; MARCUSCHI, 2004) e deslegitimação (HABERMAS, 1973; FALCONE, 2008) do afastamento da Presidenta Dilma Rousseff do cargo. Duas macrocategorias constituíram discursos da mídia tradicional e dos coletivos midiáticos: impeachment x golpe, respectivamente. Esses discursos se situam em campos ideológicos antagônicos. Investigar como os discursos dos coletivos circularam nas redes sociais, as categorias linguístico-discursivas e textuais mobilizadas nesses discursos, possibilita a compreensão de alguns aspectos do processo de (des)legitimação do golpe. O corpus desta investigação é o material produzido pelo MN e pelo FE em suas páginas do Facebook durante o mês de agosto, quando o processo de afastamento foi efetivado.

Palavras-chave: Legitimação social; Práticas Discursivas; Coletivos Midiáticos.

 

Minibiografia:

Professora do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, com graduação em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco, mestrado e doutorado em Linguística pela Universidade Federal de Pernambuco, doutorado sanduíche na Universitat Pompeu Fabra (Barcelona-Espanha), pós-doutorado no Departamento de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa (Braga-Portugal). Atua nas áreas de Análise Crítica do Discurso, Linguística de Texto e Linguística Cognitiva.


Comunicação 4

Ascensão e legitimação social: recursos textuais-discursivos em entrevistas com o rapper Mano Brown

 Autora:

Beatriz Ferreira Silva – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – beatriz.ai@gmail.com

 

Resumo:

Este trabalho buscará relacionar recursos textuais-discursivos mobilizados pelo rapper paulista Mano Brown, em diferentes contextos de entrevista, aos processos de legitimação do rapper como agente representativo das práticas culturais da periferia. Para isso, serão retomados os dados que compuseram as análises da dissertação “Metadiscursividade em entrevistas: a inscrição de Mano Brown no campo jornalístico”, apresentada por Ferreira-Silva em 2015, e outros dados coletados de entrevistas jornalísticas com o rapper. O trabalho tem como referencial teórico estudos sediados na Linguística Textual, na Sociolinguística de base interacionista e na Teoria da Prática, de base sociológica. É importante considerar que o movimento hip hop, no campo da produção cultural da periferia, envolve um conjunto de práticas que levaram à ascensão de uma nova fração de classe, como os rappers, composta por sujeitos que galgaram novas posições no espaço social, economicamente e simbolicamente, por meio de uma conversão de seu capital cultural em bens culturais. Com isso, sujeitos representativos como o rapper Mano Brown passaram a participar de contextos e de práticas de linguagem nos quais os processos de legitimação se complexificam, haja vista que sua ascensão social pode, de alguma maneira, prejudicar sua imagem de representante das vivências e temáticas próprias da periferia. A nosso ver, os contextos de entrevistas jornalísticas consistem em um importante locus de observação desses processos de legitimação e também de alguns recursos textuais-discursivos dos quais os sujeitos lançam mão para lidar com esses processos – como os  segmentos metadiscursivos, a negociação de referentes e o questionamento de pressupostos. Nossos resultados parciais indicam que os recursos textuais-discursivos analisados consistem em estratégias importantes para lidar com os conflitos constitutivos da trajetória de ascensão e legitimação do rapper Mano Brown.

Palavras-chave: metadiscurso; legitimação social; movimento hip hop; entrevistas.

 

Minibiografia:

Atualmente, é doutoranda em Linguística na Universidade Estadual de Campinas e bolsista pelo CNPq. Mestra em Linguística e bacharela em Linguística pela mesma instituição. Tem como áreas de interesse a Linguística Textual e a Sociolinguística, sobretudo nas temáticas que envolvam: dados de interação face a face; relações entre texto e contexto; interfaces entre estudos textuais e sociolinguísticos; diálogos entre estudos linguísticos e a teoria da prática.


Comunicação 5

GGN, DCM e Brasil247: mídia e jornalismo independente no Brasil pós-impeachment

Autora:

Eliana Tavares – Fundação Universidade do Rio Grande – FURG  – elianatavares@furg.br

 

Resumo:

Nossa proposta de trabalho busca aferir a maneira como os jornais GGN, DCM e Brasil247 constituem-se enquanto espaço independente, relativamente às pautas apresentadas pela política do novo governo, que assumiu a presidência do Brasil, a partir de 31 de agosto de 2016, após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Para tanto, são consideradas as manchetes veiculadas em suas websites, entre 31 de agosto e 31 de dezembro de 2016, relativamente aos seguintes temas: (i) arbítrios e posições parciais da operação de investigação judicial conhecida como Lava Jato, (ii) propostas de emendas constitucionais (PECs), (iii) privatização de empresas estatais, e (iv) repasses do governo federal para as maiores empresas de mídia do país, bem como o redimensionamento da estatal Empresa Brasil de Comunicação. Nesse sentido, no interior das pesquisas em Semântica Sociocognitiva, nos cabe buscar compreender, em sua confluência com os Estudos Críticos do Discurso, a relevância desses jornais, enquanto espaço de legitimação social, se consideradas as noções de reprodução discursiva, elite simbólica e legitimação (Van DIjk: 2008), e sua analogia com o conceito de perspectivização, tanto enquanto estratégia ideológica, como enquanto estratégia de (re)categorização (Hart: 2014). A hipótese que norteia nosso estudo é a de que o trabalho das três empresas de mídia, que constituem nosso corpus de análise, garante, como contraponto em relação ao discurso da imprensa tradicional, a possibilidade de unidade narrativa em relação aos aspectos (i), (ii), (iii) e (iv), fazendo com que seja legitimada uma configuração discursiva fora do padrão imposto pela hegemonia discursiva, que é veiculada pela imprensa do status quo, cuja independência é questionável. Assim, é possível constatar que um veículo de comunicação e de informação funciona, também, como uma possibilidade alternativa à manipulação de informações, fazendo circular discursos que legitimam ou (des)legitimam diferentes atores, grupos e setores sociais, de acordo com sua vinculação.

Palavras-chave: mídia; legitimação; categorização; sociocognição.

 

Minibiografia:

Professora Associada, do Instituto de Letras e Artes, na Fundação Universidade Federal do Rio Grande, RS, com graduação em Letras/ Português, na mesma universidade (1996), mestrado em Linguística, pela Universidade Federal de Santa Catarina (1998), doutorado em Linguística, pela Universidade Estadual de Campinas (2007), Pós-Doutorado em andamento na Universidade Católica Portuguesa, em Braga. Tem experiência na área de Semântica Luinguística, atuando principalmente com os seguintes temas: significação, referência, categorização, sociocognição, argumentação.


Comunicação 6

Reforma da Previdência no Brasil e a Terceira Idade: (Des)Legitimação dos Idosos no discurso midiático online

Autores:

Cássio Henrique Ceniz – Universidade Estadual de Maringá – cassioceniz@gmail.com

Daniela Polla – Universidade Estadual de Maringá – danielapolla2@gmail.com

 

Resumo:

Na atualidade brasileira a terceira idade encontra-se objetivada como ativa, tanto em termos de atividade física quanto em termos econômicos. Pode-se observar que, com o processo de aposentadoria ou de o sujeito mesmo aposentado continuar no mercado de trabalho, aconteceu a circulação de diversas propagandas voltadas para os idosos sobre viagens, produtos eletrônicos, internet, dentre outros. Sob estas condições de possibilidade, o estudo proposto para este trabalho trata-se de uma análise discursiva a respeito das notícias divulgadas em ambiente digital com a temática da reforma da previdência no Brasil e seu impacto na objetivação da terceira idade, bem como em sua legitimação como uma esfera social relevante para os discursos midiáticos, principalmente, da publicidade e propaganda. A metodologia utilizada é a análise enunciativa desenvolvida a partir das contribuições de Michel Foucault, desta forma, serão operacionalizados os conceitos de enunciado, função enunciativa (referencial, posição sujeito, campo associado e materialidade) e objetivação. A série enunciativa será composta mediante o emprego das palavras-chave “reforma da previdência” e “últimas notícias” no site de buscas Google, selecionando-se as primeiras dez notícias. Uma vez selecionado o corpus, o movimento descritivo-analítico centrar-se-á na análise dos modos como as notícias objetivam esta etapa relevante na terceira idade: a aposentadoria. Pode-se afirmar que postergar a aposentadoria, a qual atualmente no Brasil inicia-se aos sessenta ou sessenta e cinco anos, pode interferir em um dos principais fatores que deram condições de possibilidade para a terceira idade ocupar posição de destaque na mídia brasileira: o fato de passar a ter poder de compra.

Palavras-chave: terceira idade; discurso; Michel Foucault; análise enunciativa; mídia online.

 

Minibiografias:

Cássio Ceniz – Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e pesquisador vinculado ao Grupo de Estudos Foucaultianos da mesma instituição (GEF). Possui graduações em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo e em Letras (Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Literaturas). É especialista em Assessoria de Imprensa e Comunicação Empresarial e atua como assessor de comunicação da reitoria da Unespar.

Daniela Polla – Graduada em Comunicação Social – Hab. Jornalismo (2010), pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Mestre em Letras (2013), pela Universidade Estadual de Maringá-PR (UEM). Doutoranda em Letras (Início em 2014), pela UEM. Professora colaboradora do Departamento de Fundamentos da Educação/UEM. Atualmente realiza pesquisas empregando a análise enunciativa desenvolvida a partir das contribuições de Michel Foucault, especialmente para pensar questões atinentes aos sujeitos idosos e da educação.


Comunicação 7

Trabalho de face e regulação social: um estudo de cartilhas institucionais de Agências Reguladoras do Estado

Autor:

Gustavo Ximenes Cunha – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – ximenescunha@yahoo.com.br

 

Resumo:

Articulando perspectivas macro e microanalíticas (BOURDIEU, 1983, BROWN; LEVINSON, 1987, ELIAS, 2011, GOFFMAN, 1973, 2011, LEECH, 2014, ROULET, 2001), esta pesquisa argumenta que o trabalho de face é um fenômeno cujo estudo demanda a compreensão não só do jogo interacional, mas também das restrições sócio-históricas mais amplas que pesam sobre esse jogo. Nessa perspectiva, estudamos um corpus de dez cartilhas produzidas por Agências Reguladoras do Estado (ANP, ANTT, ANAC, ANVISA, ANATEL) e voltadas para a população. Compreender as especificidades do trabalho de face nesse corpus implica saber o que são as Agências, bem como o momento em que surgem. Criadas no quadro da Reforma do Estado do governo FHC, as agências têm a incumbência geral de regular a atuação das dezenas de empresas privatizadas por esse governo, bem como das empresas estrangeiras que passam a disputar o mercado nacional (DASSO Jr., 2006). Nesse contexto, as cartilhas das Agências constituem um instrumento de regulação social, na medida em que, ao estabelecerem, por meio da linguagem, a linha de conduta que o leitor deve seguir, constroem um modelo de cidadão condizente com um projeto político marcadamente neoliberal. Assim, o leitor com quem as Agências dialogam é um consumidor individualista e liberto das amarras de um Estado opressor, consumidor a quem as Agências concedem o direito de fiscalizar a atuação das empresas. Nessa interação, as Agências valorizam a face do leitor, atribuindo-lhe os atributos sociais de liberdade, autonomia e poder no diálogo com empresas privadas, e invadem seu território, ditando as normas sobre como agir nesse diálogo. Com esses resultados, a pesquisa revela que o trabalho de face promovido nas cartilhas encontra-se fortemente articulado a uma orientação político-ideológica em que o suposto poder do cidadão/consumidor no trato com empresas privadas é dado em troca da omissão do Estado na garantia de direitos sociais.

Palavras-chave: trabalho de face; Agências Reguladoras do Estado; cartilhas institucionais.

 

Minibiografia:

Gustavo Ximenes Cunha é Doutor em Linguística pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Tem Pós-Doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos (POSLIN), da Faculdade de Letras da UFMG. É Professor da Faculdade de Letras e do POSLIN da UFMG. Foi Professor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas e do Programa de Pós-Graduação em Gestão Pública e Sociedade (PPGPS) da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG).


Comunicação 8

Gênero discursivo e (re) significação de masculinidades e feminilidades em contexto de cumprimento de medidas socioeducativas por homens enquadrados na Lei 11.340/2006

 

Autora:

Vanessa Arlésia de Souza Ferretti Soares – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – vanessa.arlesia@gmail.com

 

Resumo:

A linguagem é parte constitutiva das práticas sociais, mantendo uma relação ativa com a realidade (FAIRCLOUGH, 2001). Nesse contexto, os gêneros do discurso são instância de realização das práticas (BONINI, 2013), orientados tanto para manutenção quanto para mudança dessas práticas e das identidades daqueles que delas participam (FAIRCLOUGH, 2001; VOLOCHINOV, 2014). Considerando isso, esta comunicação apresenta uma pesquisa em andamento que almeja criar inteligibilidades sobre a relação entre gêneros discursivos, prática social e identidades no âmbito de um grupo socioeducativo desenvolvido num Centro de Referência Especializada em Assistência Social (CREAS), numa cidade do Sul do Brasil, do qual participam homens enquadrados na Lei 11.340/2006 (BRASIL, 2006). Especificamente, busca-se entender como se dão essas práticas socioeducativas e qual é o papel que os gêneros discursivos assumem na sua realização e na ressignificação de masculinidades e feminilidades atreladas à violência de gênero (gender), objetivo central do grupo. Teoricamente, a pesquisa se baseia em estudos que congregam linguagem (na instância do gênero discursivo) e prática social, especialmente as discussões do campo da Análise Crítica de Gênero (BAKHTIN, 2003, 2014; BONINI, 2013; FAIRCLOUGH, 2001, 2003; VOLOCHINOV, 2014 entre outros). Metodologicamente, usam-se instrumentos da pesquisa de tipo etnográfico (entrevistas e notas de campo) para uma análise qualitativa dos dados (MASON, 1998; KINCHELOE; MACLAREN, 2006), quais sejam: as interações (transcritas) de encontros dos referidos grupos, acompanhados durante todo o segundo semestre de 2016. Os resultados parciais parecem apontar que a configuração dessa prática social, centrada na conversa sobre textos de diversos gêneros (propagandas, documentários, ditados populares, Leis etc.), faz emergir embates discursivos que contribuem ora para desestabilizar estereótipos de masculinidades e feminilidades ora para reforçá-los.

Palavras-chave: gênero discursivo; identidades; grupo socioeducativo para homens; violência de gênero.

 

Minibiografia:

É mestre em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC (2013) e graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro/UERJ (2010). Atualmente cursa Doutorado em Linguística, na Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC. Empreende pesquisa no campo da Linguística Aplicada, ocupando-se principalmente dos seguintes temas: gênero discursivo, discurso midiático, identidade, ensino e aprendizagem de Língua Portuguesa.


Comunicação 9

Analogias como mecanismo de negociação de significado no debate parlamentar: o caso da criminalização da homofobia

Autor:

Filipe Mantovani Ferreira – Universidade de São Paulo (USP) /FATEC – filipe.mantovani.ferreira@usp.br

 

Resumo:

Em 08/12/2011, o Projeto de Lei da Câmara nº 122 (PLC 122/06), cujo objetivo  era criminalizar a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, foi debatido na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal. O debate foi marcado pela discordância de dois grupos quanto à aceitabilidade do projeto: de um lado, parlamentares ligados às esquerdas mostraram-se favoráveis a sua aprovação; de outro, senadores vinculados a setores conservadores (notadamente aqueles vinculados a igrejas evangélicas) refutaram-no. A dissensão entre esses grupos marcou-se linguístico-discursivamente de variadas formas, entre as quais destacamos a seleção das analogias que seus membros construíram com o objetivo de defender seus posicionamentos. Tendo isso em vista, este trabalho objetiva e analisar qualitativamente as analogias empregadas, a fim de desvelar as representações da homossexualidade com cuja criação elas colaboram. Para viabilizar a análise, procedeu-se à transcrição do registro do debate feito pela TV Senado segundo as orientações do Projeto da Norma Urbana Culta (projeto NURC). A análise permitiu constatar que os grupos discordantes, por meio do recurso a analogias, negociam o significado da aprovação do PL122/06 para a sociedade brasileira. Entre os defensores do projeto, houve a tendência ao uso de analogias que possibilitam que a homossexualidade seja conceptualizada como uma condição bastante estigmatizada e causadora de sofrimento; seus opositores, entretanto, tendem a recorrer a analogias que procuram apagar as especificidades da discriminação em função de orientação sexual e identidade de gênero, conduta que conduz à equiparação da homofobia a outros tipos de preconceito e conduzem ao questionamento da eficácia do projeto de lei. Constituem a base teórica deste trabalho estudos nas áreas de Argumentação (PERELMAN & OLBRECHTS-TYTECA, 2005), Psicologia da Analogia (HOLYOAK, 2005; GENTNER & BOWDLE, 2008; GENTNER & FORBUS, 2011) e Análise Crítica do Discurso (VAN DIJK, 2010, 2012, 2013 [1992]), entre outras.

Palavras-chave: analogia; homofobia; debate parlamentar; argumentação.

 

Minibiografia:

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Mestre em Filologia e Língua Portuguesa pela mesma instituição. Professor da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (FATEC-SP). Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (CAPES).


Comunicação 10

O uso da hashtag #favelatour: categorizações digitais, categorizações sociais

Autora:

Elis Nazar Nunes Siqueira – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – elisnns@gmail.com

 

Resumo:

No atual mundo globalizado, há uma difusão rápida e viral de imagens e ideias e um grande volume de diversidades (CASTELLS, 2013) presentes nas redes sociais virtuais. Nesse contexto, emergem novas linguagens e novas textualidades, entre as quais se destaca para esse trabalho o uso das hashtags. As hashtags passaram a ser utilizadas em diversas mídias sociais como uma etiqueta para os conteúdos postados, constituindo, assim, uma forma de classificação de mensagens que possibilita a organização e a recuperação informacional na rede (RUFINO, 2010). Entretanto, hashtags não são simples recursos tecnológicos de organização de dados, são materialidades das tendências humanas (NEAL, 2007), pois, ao serem produzidas a partir de uma lógica de indexação livre (CATARINO; BAPTISTA, 2009), expressam textualmente subjetividades dos usuários digitais (CALEFFI, 2015). De acordo com García-Canclini (2005), a globalização tecnológica passou a interconectar simultaneamente todo o globo e aproximar diferentes zonas do mundo, produzindo e evidenciando novas desigualdades e diferenças. Assim, as hashtags utilizadas por usuários de grupos sociais diversos materializam textualmente essas diferenças e permitem que vozes desses grupos sejam estudadas, na tentativa de melhor compreender as tramas sociais e políticas da atualidade. Esse trabalho dedica-se à análise das hashtags utilizadas em postagens no Instagram referentes ao turismo nas favelas brasileiras. Compartilhamentos públicos de fotografias às quais a hashtag “#favelatour” foi adicionada durante o período das Olimpíadas e das Paraolimpíadas de 2016 foram estudados a partir de uma análise documental, com auxílio de softwares como Netlytic e Gephi, para que, por meio da análise das hashtags contidas nessas postagens, possa-se melhor compreender como os que moram nas favelas, como os que vendem os passeios e como os turistas que visitam essas localidades as percebem e de que maneira esses diferentes grupos explicitam suas visões e percepções em seus textos compartilhados no meio digital.

Palavras-chave: hashtag; Favela Tour; folksonomias; Instagram; turismo.

 

Minibiografia:

Aluna de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas. Possui graduação em Letras pela mesma instituição (2015). É orientada pela Profa. Dra. Inês Signorini e tem como tema de pesquisa o uso de hashtags e os estudos sobre folksonomias. Realizou intercâmbio universitário em 2014 na Universidade de Évora, Portugal, estudando, principalmente, literatura e artes visuais.


Comunicação 11

A Ressignificação do léxico opressor como forma de combate à minorização e à deslegitimação social 

Autores:

Eduardo Henriques – Universidade Federal de Pernambuco  (UFPE) – eduardohenriquesdearaujo@hotmail.com

Guilherme de Oliveira Barbosa – Universidade Nova de Lisboa – UNL – gui_oliveirabarbosa@yahoo.com.br

 

Resumo:

Esta pesquisa averiguou o processo de exploração de recursos midiáticos digitais como forma de combate à minorização e à deslegitimação social através da ressignificação do “léxico opressor” homofóbico. Por meio da análise das narrativas presentes no documentário “Bichas” (PARENTE, 2016), produzido e veiculado por meio de ferramentas de uso livre na Web 2.0, verificou-se como grupos sociais abjetos (gays, lésbicas, travestis e transexuais) conferem novas significações a signos linguísticos socialmente difundidos para a depreciação de sujeitos em situação de abjeção social por destoarem do paradigma heteronormativo cis-gênero. As falas dos protagonistas expõem as suas relações com a estigma gay, assinalada por performances de gênero destoantes da heteronormatividade, o que permitiu aos jovens homossexuais construírem-se pela interação, produzindo identidades e identificações de si (HOFFNAGEL, 2010), cujos discursos fluíram imersos pela atmosfera da linguagem como forma de poder e performance de gênero (masculinidades), conforme assinalam Butler (1999), Moita-Lopes (2009), Miskolci (2012) e Santos Filho (2012). Assim, verificou-se que, mediante plataformas e gêneros textuais digitais, como o Youtube e os Blogs, as minorias oprimidas estão remodelando categorizações sociais deslegitimadoras e comutando-as em bandeiras identitárias de luta social, reconfigurando o espaço online e fazendo dele uma rede de contestação da ordem social hegemônica. Este processo vem ocorrendo por meio da apropriação do campo discursivo das chamadas redes sociais (Youtube, Blogger, Facebook, Twitter, Tumblr, etc.), pelas quais novos empreendimentos discursivos surgem em favor da emersão do Paradigma da Diferença (HENRIQUES, 2016; MISKOLCI, 2012) em nossa cultura. Portanto, é salutar o debate acerca da apropriação de diferentes gêneros textuais do domínio discursivo confessional no ciberespaço ofertar aos grupos sociais abjetos novas formas de organização, manifestação e luta por legitimidade sociocultural e cidadania, haja vista que o virtual enquanto um novo espaço de sociabilidade, promove novos modelos de relações sociais com códigos e estruturas próprias (LÉVY 2010).

Palavras-chave: Masculinidades; Abjeção, Gênero e Sexualidade; Legitimação Social; Questões de Gênero; Bichas.

 

Minibiografias:

Eduardo Henriques – Pesquisador-Bolsista da CAPES na área de concentração ‘Linguística’, atuando com pesquisas em Estudos Textuais e Discursivos de Práticas Sociais. Professor-Substituto da Graduação em Letras da UFPE. Mestrando em Letras – Linguística pela UFPE (CAPES 5). Graduado em Letras-Português (2014), pela UFPE. Foi membro do Conselho Superior do Instituto Federal de Pernambuco.

Guilherme Barbosa – Mestrando em Ciências da Linguagem pela Universidade Nova de Lisboa. Graduado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco. Cativa interesse por investigar temas da sociolinguística interacional, da sociologia da linguagem e da linguística aplicada (especificamente no que tange à formação do professor e ao ensino de língua portuguesa sob um viés crítico-discursivo).


Comunicação 12

Afinal, de quem estamos falando?

Autora:

Paula de Souza G. Morasco – Universidade de São Paulo (USP) – psouzag@yahoo.com.br

 

Resumo:

Neste trabalho, pretendemos discutir, com base em van Dijk (1988, 2001), como a estrutura do discurso noticioso e toda sua composição influencia na criação de representações que ultrapassam a mera transmissão de uma informação impactando em questões sociais de grande importância. No caso específico de nosso trabalho, analisaremos notícias recentes do jornal Folha de S. Paulo (um dos maiores jornais impressos do Brasil) em que constem referências à nova classe média brasileira. Temos o intuito de mostrar a importância de se analisar, tanto formal quanto semanticamente, as estruturas, os usos e as funções das notícias para entender como se dá esse processo de representação da nova classe média brasileira e os impactos desta representação na concepção desta classe como um todo.  Para a realização de nosso estudo, embasamo-nos nos pressupostos da Análise Crítica do Discurso (FAIRCLOUGH, 2003; WODAK, 2004; VAN DIJK, 1988, 2001; VAN LEEUWEN, 2008). Nossas análises de notícias mais atuais vêm mostrando um cuidado com a produção do discurso noticioso na representação dos atores sociais da nova classe trabalhadora em relação a anos anteriores. Apesar da grande frequência de estratégias de apagamento da voz do jornal por meio do uso das aspas e de construções discursivas que induzem o leitor a uma determinada interpretação, foi possível notar como se opta por representar a nova classe média por meio da exclusão dos atores sociais ou por meio da inclusão, mas de maneira genérica e muito frequentemente voltada para a questão do consumo. Todo esse cenário influencia aqueles que leem esse discurso e o tomam como padrão justo de representação da nova classe média brasileira em relação às classes mais altas.

 Palavras-chave: Nova classe média; Folha de S. Paulo; Análise Crítica do Discurso; Notícias.

 

Minibiografia:

É formada em Letras Português/Inglês/Francês com mestrado e doutorado em Linguística e Língua Portuguesa pela UNESP (Universidade de São Paulo) e atualmente cursa o pós-doutorado (Fapesp) na USP (Universidade de São Paulo).


Comunicação 13

“Vamos potencializar nossas vozes”: práticas de linguagem e busca por legitimação social em um blog feminista

Autora:

Ana Cecília Almeida Accetturi – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – ana.cecilia_13@hotmail.com

 

Resumo:

Este trabalho tem como objetivo investigar os processos de legitimação (Lahire, 2006) que ocorrem no blog feminista Nós, mulheres da periferia. Por tratar-se de um blog coletivo, nove autoras publicam crônicas que retratam suas experiências e vivências na periferia de São Paulo e trazem histórias de outras mulheres que lutam pela representatividade, visibilidade e protagonismo nesse contexto. O coletivo busca, dessa forma, construir um espaço que una informações sobre as questões de gênero, preconceitos, violência sexista e estereótipos que permeiam os campos sociais e étnicos, de modo a potencializar e pluralizar as vozes femininas advindas da periferia.

Para esse estudo, foram selecionados 10 textos, com datas de postagem entre março e outubro de 2016. Sendo assim, o presente trabalho visa à observação de como as diversas mulheres autoras de tal blog encontram-se categorizadas socialmente (Bourdieu, 1989; Alencar, 2006), e como essas categorizações podem funcionar como recursos de legitimação das mulheres da periferia de São Paulo. Para tanto, procuramos analisar como os recursos textuais discursivos utilizados nos textos selecionados marcam essa busca por legitimação, privilegiando, sobretudo, as estratégias de referenciação (Koch, 2002, 2004). Acreditamos que as práticas de linguagem e as ações linguísticas que permeiam os contextos digitais podem contribuir para o entendimento das configurações discursivas dos processos de legitimação social em curso.

Palavras-chave: Legitimação social; Blog feminista; Categorização social; Referenciação.

 

Minibiografia:

É graduada em Letras (2015) pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e atualmente é mestranda em Linguística pelo Programa de Pós-graduação em Linguística da mesma universidade. Tem experiência na área de Sociolinguística e Linguística textual, atuando principalmente nos seguintes temas: programa televisivo, gêneros midiáticos, texto e gêneros do discurso. Integra o grupo de pesquisa do CNPq “Linguagem como prática social: analisando interações, gêneros do discurso e estilos sociolinguísticos”, coordenado pela Profa. Dra. Anna Christina Bentes (UNICAMP).


Comunicação 14

Legitimação social de gêneros do discurso em projetos didáticoso ponto de vista de professores em formação inicial no contexto do PIBID

Autora:

Márcia Mendonça – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – mendonca.mrs@gmail.com

 

Resumo:

Neste trabalho, discutimos o ponto de vista de professores em formação inicial no contexto do PIBID Letras Unicamp acerca do trabalho com certos gêneros do discurso nos projetos didáticos implementados em escolas públicas de Campinas. A investigação acerca dos modos como professores se apropriam de objetos de ensino – como os gêneros do discurso – e como os (re)configuram em sala de aula tem trazido dados relevantes sobre a complexidade constitutiva do fazer docente e das práticas escolares (BUNZEN, 2009). Os gêneros do discurso, como objeto privilegiado no ensino de português (BRASIL, 1997; OCEM, 2006), têm sido mobilizados em situações de ensino sob diversas modalidades – aulas, sequências didáticas, projetos didáticos, etc. As justificativas pedagógicas que sustentam tais escolhas remetem a aspectos variados e, por vezes, imbricados, tais como pertinência curricular, relevância sociocultural do gênero, proximidade com práticas de letramento familiares aos estudantes, sejam elas dominantes ou vernaculares (BARTON e HAMILTON, 2000; BARTON e LEE, 2015), viabilidade do trabalho a ser desenvolvido, entre outras motivações. Entrevistamos bolsistas de Iniciação à Docência (ID) acerca das razões para terem explorado certos gêneros nos projetos didáticos que implementaram. Nas análises, consideramos os saberes docentes como constitutivamente plurais e heterogêneos (TARDIF, 2000). Dessa forma, os dados das entrevistas parecem indicar que as escolhas pelos gêneros nos projetos didáticos no eixo da leitura apontavam para uma abordagem pertinente do tema e pelo seu papel na modelização dos textos a serem produzidos, nesse gênero (BARROS, 2012); no eixo da produção se ancoram mais fortemente na relevância sociocultural do gênero e no seu potencial para fazer circular os discursos produzidos pelos alunos. As escolhas dos gêneros realizadas no âmbito dos projetos PIBID Letras Unicamp compõem um esforço de legitimação social dos gêneros localmente situada, no âmbito educacional, que constitui parte dos saberes dos docentes em formação inicial.

Palavras-chave: gêneros do discurso; formação inicial de professores; projetos didáticos; saberes docentes.

 

Minibiografia:

Docente do Departamento de Linguística Aplicada da Unicamp (área de língua materna), com mestrado e doutorado em Linguística. Centra suas pesquisas em (Multi)letramentos, letramentos do mundo do trabalho, ensino-aprendizagem de língua materna, materiais didáticos, organização curricular, análise linguística e formação de professores. Coordena, com Anna Bentes e Marcos Lopes, o Programa PIBID Letras Unicamp, iniciado em 2014 e lidera o grupo de Pesquisa (Multi)Letramentos e ensino de língua portuguesa, certificado pelo CNPQ.


Comunicação 15

A dinâmica interacional em salas de aula virtuais: o trabalho cooperativo dos interactantes

 

Autoras:

Marlete Sandra Diedrich – Universidade de Passo Fundo (UPF) – marlete@upf.br

Patrícia da Silva Valério – Universidade de Passo Fundo (UPF) – patriciav@upf.br

 

Resumo:

Este artigo tem como tema a dinâmica interacional em salas de aula virtuais, a partir da discussão e da análise dos recursos de oralidade usados nas interações características dessas salas de aula. O objetivo dessa discussão é analisar o uso de desses recursos como elementos desencadeadores do efeito discursivo de proximidade entre professor e estudantes em salas de aula virtuais, as quais se caracterizam, justamente, pelo distanciamento espacial e temporal dos interactantes. Para tanto, o estudo se pauta em princípios advindos da Análise da Conversação e da Sociolinguística Interacional. Focaliza, em especial, os conceitos de interação, texto falado, texto escrito. Com base em tais princípios, é possível afirmar que a dinâmica interacional em salas de aula virtuais se estabelece e se mantém devido, em grande parte, ao uso de elementos e construções linguísticas que, no texto medialmente escrito, simulam proximidade entre os interactantes, aproximando o discurso nessas salas de aula das características de construção do texto falado. Com isso, afeta-se a dinâmica interacional nas referidas salas de aula devido ao efeito de proximidade produzido num ato enunciativo. É importante afirmar ainda que esse efeito não se deve tão simplesmente ao uso de um ou de outro elemento, mas esses são decorrentes, em especial, do papel social que cada interactante assume no discurso e que o autoriza a ocupar seu espaço de dizer na interação.  Este trabalho se apoia na definição de comunicação apresentada por Gumperz (1982): uma atividade social que requer esforço coordenado dos indivíduos e que só acontece quando há um trabalho colaborativo na construção do discurso. Assim, para a comunicação ocorrer efetivamente, os interactantes lançam mão de competências além da competência gramatical, para que possam determinar o tipo de evento comunicativo em questão e compreender e usar recursos verbais e não verbais que facilitem a interação.

Palavras-chave: dinâmica interacional; papel social; interação; salas de aula virtuais.

 

Minibiografias:

Marlete Sandra Diedrich – Mestre em Linguística (PUCRS, 2001), Doutora em Estudos da Linguagem – Teorias do Texto e do Discurso (UFRGS, 2015). Professora do Curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo.  Atua na linha de pesquisa Constituição e Interpretação do Texto e do Discurso.

Patrícia da Silva Valério – Mestre  em Letras (UPF, 2005), Doutora em Linguística Aplicada (UNISINOS, 2015). Professora do Curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo. Atua na linha de pesquisa Constituição e Interpretação do Texto e do Discurso.


Comunicação 16

Do cotidiano profissional à sala de aula: um estudo sobre as articulações entre discursos do trabalho e práticas dos estudantes do PROGEST

Autora:

Hasla de Paula Pacheco – Universidade Federal Fluminense (UFF) – haslapp@yahoo.com

 

Resumo:

O presente trabalho apresenta as primeiras análises da pesquisa de doutorado que tem como objetivo analisar como as práticas de linguagem se relacionam com a formação dos saberes profissionais no/do trabalho dos estudantes trabalhadores matriculados no Programa de Estudos em Engenharia, Sociedade e Tecnologia – PROGEST. Tendo em vista a realização desse objetivo e diante dos enfrentamentos e travessias da educação dos trabalhadores no Brasil, propomos por meio da abordagem teórico-metodológica da Análise do Discurso de linha francesa (MAINGUENEAU, 2008, 2010, 2013), uma investigação que envolve o diálogo entre linguagem e trabalho na intersecção entre perspectiva discursiva e a perspectiva ergológica. No que tange a aspectos sobre a ergologia e educação de trabalhadores no Brasil, recorremos, SCHWARTZ (2009) HADDAD & DI PIERRO (2000) e PAIVA (2003). Dessa forma, visamos à realização de um estudo de caso baseado nos procedimentos e ferramentas metodológicas da observação e entrevistas, procurando, a partir da observação das práticas discursivas em sala de aula de estudantes do PROGEST, indícios de como  a aprendizagem, mudanças e desenvolvimento  nas práticas de linguagens ocorreram (ou deixaram de ocorrer) sob a influência das práticas na e pela situação de trabalho, provocando ou não uma estruturação na educação de trabalhadores. Nesse sentido, as questões que nos induziram a realizar esta pesquisa foram: Quais corpus discursivos constituídos de dizeres dos educandos evidenciam mudanças/ressignificações   nas práticas discursivas a partir das experiências no cotidiano escolar/profissional dos estudantes trabalhadores? Como a análise de práticas de linguagem pode ajudar no reconhecimento das situações de ressignificação de valores, saberes e experiências na atividade de trabalho? Essa análise visando a perceber como se revelam, na materialidade do discurso, as intencionalidades e ideologias desses sujeitos trabalhadores e seus impactos nos processos de escolarização.

Palavras-chaves :  práticas de linguagem; trabalho; discurso, educação de trabalhadores.

 

Minibiografia:

Possui graduação em Letras (2001) e mestrado em Educação (2010) pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente é doutoranda em Estudos de Linguagem pela Universidade Federal Fluminense.


Comunicação 17

Autoria no contexto de formação: dizeres dos estudantes sobre a experiência de estágio supervisionado

Autora:

Ana Lúcia Guedes-Pinto – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – alguedes@mpc.com.br

 

Resumo:

Tomando a perspectiva de análise do discurso com base nos estudos bakhtinianos, esta comunicação problematiza a autoria nos textos dos estudantes-estagiários. Trata-se de dar continuidade às discussões dos resultados parciais do projeto de pesquisa “Discursos entrecruzados na formação de professores”, que tem como foco os sentidos atribuídos pelos estudantes em suas produções escritas à profissão docente. A metodologia ancora-se na pesquisa participante tendo como base a condição de professora das disciplinas do eixo teórico-prático do curso de formação de professores de uma universidade pública paulista. O sujeito é entendido como sujeito histórico, imerso nas práticas sociais, as quais ele tanto as produz quanto por elas é produzido. Neste âmbito, nas relações que se constituem entre sujeito-sujeito, sujeito-mundo, ganham relevância os processos produtivos de linguagem. Por esse viés são problematizados os textos escritos dos estudantes no contexto da formação de ensino superior, de um curso de licenciatura, nas disciplinas de estágio. Na esfera de uso da linguagem acadêmica, esta investigação focaliza seus processos discursivos tomando como escopo a questão da autoria. Optou-se por se focalizar nas produções escritas dos estagiários seus modos de dizer e de se referir à profissão de professor. Entre os elementos composicionais de seus textos ressaltam-se a elaboração de títulos, subtítulos e de sua formatação. Também se destacam os modos de referenciação em sua materialidade linguística.

Palavras-chave:  análise do discurso; autoria e formação; práticas de escrita.


Comunicação 18

Argumentação nas cartas de apresentação do Currículo da SEE/SP

Autora:

Andrea Ferreira Cavalcante Caputo – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) – candrea264@uol.com.br

 

Resumo:

Nos últimos anos, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo adotou uma série de medidas buscando reverter os resultados insatisfatórios de seus alunos em avaliações institucionais. Uma dessas medidas foi a implantação de um currículo próprio. Duas cartas antecedem esse documento orientador, com o objetivo de apresentá-lo aos docentes da rede estadual de ensino: a primeira é de autoria do secretário da educação na ocasião; a segunda, da coordenadora geral do projeto. Antes de iniciarmos um estudo sobre o mencionado currículo, realizamos uma análise dessas cartas para responder: a) qual é a incidência de sequências argumentativas nessas cartas de apresentação? b) como estão organizados esses discursos para legitimar seus enunciadores e o documento que antecedem? O presente trabalho tem por objetivo identificar as sequências argumentativas presentes nas cartas que apresentam o currículo da rede estadual de ensino de São Paulo e analisar a construção do processo argumentativo para verificar como se dá a legitimação de seus enunciadores e do próprio currículo. Fundamentamos nossas análises nos estudos de Adam (2011) e de Charaudeau (2010). Nosso trabalho se justifica pela possibilidade de cruzamento dos estudos de Adam e Charaudeau para uma análise textual do discurso que nos leve a observar práticas de linguagem no campo da educação. Os resultados demonstram a predominância das sequências argumentativas, bem como dos movimentos de apresentação/justificativa de uma tese e de refutação de argumentos contrários. Esses resultados evidenciam o embate em que foram produzidos esses textos/discursos e a preocupação com a legitimação do currículo e dos atores responsáveis por sua implantação.

Palavras-chave: argumentação; sequências textuais; legitimação; currículo.

 

Minibiografia:

Professora efetiva da rede estadual de ensino de São Paulo, atua como Professora Coordenadora Pedagógica no Ensino Médio. Graduada em Letras pela Universidade São Marcos; Mestre e Especialista em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Doutoranda pela mesma instituição. Pesquisas nas áreas de Linguística Textual, Argumentação e Análise do Discurso.