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Simpósio 69

SIMPÓSIO 69 – BORDAS E FRONTEIRAS DO PORTUGUÊS GLOBALIZADO

 

Coordenadora:

Inês Signorini | Departamento de Linguística Aplicada do IEL/UNICAMP | inesignorini@gmail.com

 

Resumo:

Este Simpósio tem caráter inter e transdisciplinar e visa trazer para discussão  contribuições de diferentes filiações teórico-metodológicas no campo dos estudos da língua(gem) que tematizem a questão das configurações do português globalizado em redes sócio-interacionais produzidas em diferentes espaços-tempos, níveis e escalas sociolinguisticas relacionados aos processos mais recentes de  globalização socioeconômica e cultural. Tais configurações estão relacionadas tanto a questões identitárias, quanto a questões de uso e de reflexão sobre os domínios  (im) próprios da língua nos espaços-tempos focalizados, inclusive os espaços-tempos engendrados nas/pelas mídias digitais. Com base em tais reflexões, o simpósio tem o objetivo mais geral de projetar e discutir políticas e ideologias linguísticas mais responsivas aos desafios contemporâneos. Também orienta a proposta deste Simpósio o propósito de promover a discussão de contribuições de pesquisas sobre o tema desenvolvidas por pesquisadores com diferentes tipos e níveis de experiência e atuando em diferentes contextos, de modo a se conhecer e explorar as possibilidades de se estabelecer uma agenda mínima para pesquisa e cooperação inter e transdisciplinar sobre o tema, sobretudo entre pesquisadores envolvidos com estudos de língua, tanto em nível nacional quanto transnacional.

 

Palavras-chave: português, globalização, ideologias linguísticas, políticas linguísticas.

 

Minibiografia:

Inês Signorini é Professora Titular do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP, pesquisadora do CNPq e coordenadora do Grupo de Pesquisa “Práticas de escrita e de reflexão sobre a escrita em diferentes mídias”. É autora de publicações sobre língua(gem) e identidade, multiletramentos , língua(gem) e hipermídia e língua(gem) e ensino (http://lattes.cnpq.br/2440593751176448).

 

 

Resumos dos trabalhos aprovados

Comunicação 1

Políticas linguísticas em região de fronteira

Autoras:

Neiva Maria Jung – Universidade Estadual de Maringá/UEM – neiva.jung@gmail.com

Maria Elena Pires Santos – Universidade do Oeste do Paraná/Unioeste – mepires@gmail.com

 

Resumo:

Esta comunicação tem por objetivo apresentar uma reflexão sobre políticas linguísticas (re)produzidas na tríplice fronteira (Foz do Iguaçu/BR, Puerto Iguazu/AR e Ciudad del Leste/PY). Para a definição tríplice, reconhecemos que a categoria Estado/Nação é central, o que, no dia a dia na fronteira, nem sempre define as políticas locais. As línguas que constituem o repertório local são o português, espanhol, guarani, árabe, chinês, inglês, entre muitas outras faladas pelos inúmeros turistas que circulam diariamente nas três cidades. Em termos de políticas linguísticas oficiais, a mídia local constrói uma imagem da cidade como “uma verdadeira babel, com uma diversidade étnica parecida com grandes metrópoles mundiais, imigrantes de várias raças e etnias marcam a cultura do município.”, e, em termos translocais, a cidade é reconhecida (inter)nacionalmente pelo turismo e pela possibilidade de compras em Ciudad del Este, no Paraguai, e em Puerto Iguazu, na Argentina. Na paisagem linguística urbana, por sua vez, reconhecemos uma certa hegemonia do português e do inglês como língua translocal que semiotiza o turismo local e representa seu status econômico no mundo globalizado (SILVA; PIRES SANTOS, JUNG, 2016). O árabe também se destaca na região central e em um bairro próximo da fronteira com o Paraguai, enquanto o guarani e o espanhol estão quase invisíveis na paisagem linguística iguaçuense. Assim, quais políticas e ideologias linguísticas mais responsivas poderiam dar conta dessa realidade reconhecida geralmente por meio da categoria Estado/Nação, mas invisibilizada como um contexto unificado em que as pessoas vivem a vida na fronteira? Que políticas são produzidas e reproduzidas pelas pessoas que fazem a fronteira? Em termos de ensino de português, como articular saberes locais nas diferentes línguas com a cultura impressa no português culto que se objetiva ensinar na escola? Essas são algumas reflexões que pretendemos trazer a partir das pesquisas que realizamos nesse contexto.

Palavras-chave: Fronteira; políticas linguísticas; ideologias linguísticas; português como língua adicional.

 

Minibiografias:

Maria Elena Pires Santos é professora associada da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, coordenadora do Grupo de Pesquisa “Grupo de Estudos Interdisciplinares: Políticas Linguísticas, diversidade e fronteiras”.  É autora de publicações sobre lingua(gem) e bilinguismo em região de fronteira. (http://lattes.cnpq.br/9605825897881271).

Neiva Maria Jung é professora associada da Universidade Estadual de Maringá, coordenadora do Grupo de Pesquisa “Letramento, Etnografia, Interação, Aprendizagem e Multilinguismo (LEIAM)”. É autora de publicações sobre lingua(gem), letramento e identidades sociais em contextos de multilinguismo. (http://lattes.cnpq.br/9923668188972592). 


Comunicação 2

“Todos nos semo da frontera”: fluxos e múltiplos pertencimentos nas práticas de letramentos de Fabian Severo

Autora:

Adriana Carvalho Lopes – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ –

adrianaclopes14@gmail.com

 

Resumo:

Os intensos fluxos entre pessoas e signos, bem como a heterogeneidade constitutiva das fronteiras materiais e simbólicas das nações sempre foram, de alguma maneira, silenciados nas teorizações das ciências modernistas, sobretudo na linguística. Como destaca Mary Louise Pratt, em Utopias Linguísticas,  o caso prototípico de língua assumido na linguística é de falantes, praticamente idênticos, adultos e interagindo face-a-face. Tal caso serve para ilustrar como aquilo que fundamenta essa ciência é uma comunidade de fala maximamente homogênea que só poderia existir em um mundo social unificado e sem conflitos, na qual a língua é entendida como um patrimônio horizontalmente compartilhado. Neste trabalho, pretendemos trazer o que chamaremos de “práticas linguísticas de fronteira” que desafiam essa visão homogeneizante de  língua e, consequentemente,  colocam em xeque certo tipo de letramento privilegiado nas escolas. Para tanto, selecionamos textos produzidos por um professor e poeta, Fabian Severo,  que vive em Artigas, uma região localizada na fronteira entre Uruguai e Brasil, onde se fala e se escreve o que é denominado por seus falantes, como Portuñol. Considerando que, tradicionalmente, o letramento escolar privilegia um paradigma de língua como entidade fixa, isolada e fortemente relacionada ao padrão de estados nacionais, pretendemos analisar as práticas de letramentos desse professor, disseminadas nas redes sociais,  que questionam tal ideologia linguística.  Entendemos que a investigação de tais práticas pode contribuir para pensarmos em políticas educacionais e de letramentos menos conservadoras, em que os fluxos das práticas linguísticas e a pluralidade de pertencimentos dos sujeitos, tão presentes no contexto contemporâneo, possam ser ouvidos e valorizados.

Palavras-chave: Fronteira; letramentos; Fabian Severo; Portuñol; ideologias linguísticas.

 

Minibiografia

Adriana Carvalho Lopes é professora do Departamento de Educação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e Professora do Programa Interdisciplinar de Pós-graduação em Linguística Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PIPGLA/UFRJ). Desenvolve pesquisa sobre juventudes periféricas e letramentos não-escolares, focalizando práticas que ressignificam e/ou subvertem ideologias eurocêntricas sobre o espaço e a escrita.


Comunicação 3

Transidioma, trânsito, portunhol: uso e ideologia em práticas linguísticas transfronteiras

 

Autor:

Daniel do Nascimento e Silva – UNIRIO/UFR – dnsfortal@gmail.com

 

Resumo:

Entre Uruguai, Argentina e Brasil, estados nacionais fortemente influenciados por ideologias modernas que imaginam a coincidência de “um povo, uma língua e uma nação”, estão sujeitos que diariamente cruzam suas fronteiras. Nesse trânsito, essas pessoas encaixam recursos linguísticos, semióticos e tecnológicos em práticas comunicativas que transbordam os limites imaginados de uma língua. Para usar o conceito sociolinguístico de Jacquemet (2005:264-265), essas práticas são transidiomáticas, características de “grupos transnacionais que interagem utilizando diferentes línguas e canais comunicativos simultaneamente presentes em um espectro de canais comunicativos, tanto locais quanto distantes.” Neste trabalho, lanço um olhar sobre a condição transidiomática de sujeitos que empregam o portunhol em suas trajetórias entre as fronteiras materiais e simbólicas desses países. Os sujeitos em foco são Fabián Severo, escritor e professor uruguaio, e Vicky, Ricardo e Gloria, uma família argentina que periodicamente visita Diego, irmão e filho que vive no Rio de Janeiro. Considerando o princípio de que, para interagirem verbalmente, dois ou mais sujeitos não precisam “partilhar” a mesma gramática mas sim “habilidades de orientação verbal, perceptual e física no mundo social” (Hanks, 1996:229), observo em narrativas de Fabián e da família argentina como a mobilidade de suas trajetórias e práticas sustentam modos de engajamento no mundo social e modelam formas particulares de pertencimento e in/compreensibilidade em trânsito. Darei especial atenção às ideologias sobre usos transidiomáticos que esses sujeitos mobilizam, de forma a pensar em implicações para o ensino de língua portuguesa num mundo de globalização intensificada.

Palavras-chave: transidioma; portunhol; fronteiras; ideologia linguística.

 

Minibiografia:

Daniel do Nascimento e Silva é professor do Curso de Letras da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e do Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PIPGLA/UFRJ). Realiza estudos etnográficos sobre circulação da violência no discurso e sobre letramentos de ruptura – práticas de letramentos não-escolares que ressignificam concepções dominantes sobre espaço e escrita – nas periferias do Rio de Janeiro.


Comunicação 4

Fronteiras linguísticas e mecanismos sócio-políticos de inclusão/exclusão em uma colônia de descendentes de imigrantes russos no sul do Brasil

Autoras:

Maria Inêz Probst Lucena – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – lucena.inez@gmail.com

Bianca de Campos de Paris – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – biancaprs@gmail.com

 

Resumo:

As trocas culturais e econômicas, consequentes da realidade de um mundo globalizado, impulsionam o surgimento de novas práticas linguísticas e culturais, implicando em inclusão/exclusão de indivíduos, tanto em comunidades urbanas, quanto em rurais. Nessas novas práticas, o papel da língua, da cultura e do conhecimento dos falantes adquire valor de acordo com a história e o espaço em que eles estão constituídos (Hellen, 2003; Signorini, 2008). Neste artigo, contemplando características de uma zona rural, espaço ainda pouco considerado na agenda de pesquisa sobre globalizaçao (Wang et al, 2010), discutiremos como alunos e alunas, descendentes de imigrantes russos, (re)ajustam suas práticas culturais e linguísticas em uma escola pública, no sul do Brasil de acordo com mecanismos sócio-políticos, desenvolvidos sob uma lógica monolíngue (Jaffe, 2009). Desenvolvido a partir de uma etnografia, cuja perspectiva metodológica tem nos permitido contemplar ‘novas formas de comunicação’ trazidas pelos fluxos da globalização (Wang et al, p. 25, 2014) e inserido na Linguística Aplicada Crítica (Moita Lopes, 2006) os dados desse estudo mostram que embora o conceito de língua na comunidade escolar esteja vinculado à ideia de estado-nação, as práticas linguísticas, histórica e espacialmente constituídas, revelam fronteiras maleáveis e móveis entre as línguas em uso naquele cenário. Para não serem excluídos dos processos sociais no espaço/tempo em que vivem, os alunos/as descendentes de imigrantes russos transitam de uma língua para outra, revelam/escondem práticas culturais de acordo com a língua e conhecimentos tidos como válidos naquele cenário, ativando seus repertórios linguísticos para produção e interpretação das práticas situadas (Signorini, 2008; Jaffe, 2009; Menezes de Souza, 2011). Nesse sentido, os participantes transformam suas ações naquele tempo/ espaço em termos de valores e buscam, na ordem social estabelecida, formas de lidar com os modos de escolarização que envolvem ideais políticos-ideológicos próprios da comunidade a que pertencem.

Palavras-chave: etnografia; transculturalidade; ideologias linguísticas; políticas linguísticas; globalização.

 

Minibiografias:

Maria Inêz Probst Lucena graduou-se em Português e Inglês pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é mestra em Inglês pela  mesma universidade e tem doutorado em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul  (UFRGS). Trabalhou durnate 30 anos como professora da Educação Básica, na rede pública estadual e federal, no Brasil. Atua como membro permanente no programa de pós-graduação em Linguística da UFSC.

Bianca Campos graduou-se em Inglês pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e é mestra em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente é professora de Português e Inglês da Educação Básica, na rede pública no município de Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.


Comunicação 5

A construção de narrativas escritas em português e em alemão em contextos educacionais bi/plurilíngues

Autoras:

Maristela Pereira Fritzen – FURB (Universidade Regional de Blumenau) – mpfritzen@gmail.com

Emilia Rosenbrock – PG/FURB (Universidade Regional de Blumenau) – emiliarosenbrock@hotmail.com

 

Resumo:

Em sociedades contemporâneas, grafocêntricas, tecnológicas e digitais, em constante transformação, as possibilidades de comunicação e interação têm sido amplamente intensificadas. Diante disso, o bi/plurilinguismo representa um recurso significativo, aliado à prática da expressão escrita. Com base nesse pressuposto, busca-se nesta comunicação refletir sobre a educação linguística a partir de dois contextos educacionais bilíngues e interculturais, no Brasil e na Alemanha. Os dados para discussão são provenientes de uma pesquisa interpretativista mais abrangente, que teve como objetivo central analisar narrativas escritas de alunos/as do Ensino Fundamental, no caso do Brasil, e alunos do Mittelstufe, no caso da Alemanha, na sua língua de herança familiar e na língua oficial do país onde vivem. Quanto aos procedimentos metodológicos, foram propostas duas produções escritas, uma em alemão e outra em português, a partir de duas sequências de figuras. Também foi aplicado um questionário, a fim de traçar um perfil dos alunos com referência ao seu repertório linguístico. Com base nos estudos da Linguística Aplicada, no tocante à escolarização em contextos de línguas minoritárias e aos estudos dos letramentos, os dados sugerem que a língua de herança está mais restrita à oralidade e a práticas na esfera familiar, em ambos os contextos. No presente estudo, a análise das narrativas escritas aponta para a necessidade de investimento em práticas de letramento que envolvam narrativas em ambas as línguas. A escrita dos alunos sinaliza para a presença expressiva de elementos de práticas linguajares cotidianas e a transposição da fala para a escrita, principalmente nas narrativas escritas na língua de herança. Os resultados da pesquisa são reveladores da falta de um ensino sistemático na língua de herança e de políticas de educação linguística que promovam efetivamente o bi/plurilinguismo na educação básica por meio da valorização das línguas do repertório linguístico dos alunos em ambos os contextos.

 Palavras-chave: Bi/plurilinguismo; Narrativas; Educação Básica; Português; Alemão.

 

Minibiografias:

Maristela Pereira Fritzen: Doutorado em Linguística Aplicada pela Unicamp. Professora do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Educação da FURB (Universidade Regional de Blumenau/Brasil).

Emilia Rosenbrock: Mestre em Educação pela FURB. Graduada em Alemão como Língua Estrangeira pela Universidade de Bielefeld (Alemanha), reconhecido em Letras – Habilitação em Língua Alemã – pela UFPR. Professora de Alemão da Educação Básica. 


Comunicação 6

Traços e vestígios em redes de espaços-tempos: dos letramentos (des)contextualizados à literacia em ação

Autora:

Maria Clara Keating – Universidade de Coimbra, Portugal – clarakeating@ces.uc.pt

 

Resumo:

Esta comunicação traça, nos discursos públicos e políticos que cruzam alfabetização e diversidade linguística ao longo da história recente em Portugal, os vestígios da construção de sensos comuns sobre a pessoa ‘bem-falante, boa escritora, boa leitora’. Do século XX ao XXI, discursos sobre literacia como ‘habilidade e competência’ descontextualizada e discursos sobre literacia como prática social contextualizada surgiram e ressurgiram de modo cíclico, a escalas locais, nacionais e globais – desde as políticas morais do Estado Novo às políticas neoliberais globais sobre a língua portuguesa, com repercussões dentro e fora das fronteiras nacionais territoriais. Seguir as trajetórias histórico-discursivas é importante, principalmente na intersecção com outras trajetórias discursivas sobre classe, género, raça ou etnia, e nação, num território europeu que se define, também, como pós-colonial. Nestes discursos, porém, mantém-se um impasse conceptual criado pelo entendimento monolingue sobre o que conta como alfabetização e literacia em Portugal, mesmo em contextos de diversidade linguística. Para ultrapassar este impasse, proponho uma abordagem histórica, ecológica, sócio-material e performativa, onde as trajetórias histórico-discursivas das políticas de reconhecimento dos repertórios multilingues e letrados se articulam com outras trajetórias – de pessoas, seus corpos e repertórios, de textos e formatos, de objetos e artefactos e de ação performativa – em nexos situados em lugares e tempos concretos (Scollon, R. and Scollon, S. 2004). A ideia de literacia em ação (Brandt & Clinton, 2000, Pahl, K. 2014, Budach, G. Kell, C. & Patrick, D. 2015) permite-nos ultrapassar algumas cegueiras conceptuais situadas em regimes históricos e sociolinguísticos específicos e propor um olhar material para as políticas de reconhecimento dos repertórios letrados e multilingues de falantes e escreventes nas sociedades contemporâneas permeadas por mobilidades. Ilustro esta proposta com exemplos retirados das etnografias linguísticas em que participei, principalmente em contextos migratórios de uso multilingue do português europeu.

Palavras-chave:
Políticas linguísticas; escrita e leitura; Portugal; multilinguismo; trajetórias.

 

Minibiografia:

Clara Keating (M.Phil, Cambridge, PhD, Lancaster), Professora Auxiliar (FLUC) e investigadora do NHUMEP/CES. Desenvolve pesquisa sociolinguística crítica sobre multilinguismo, ideologias linguísticas e lectoescrita como acção e actividade textualmente mediada, em contextos de migrações em português. Delegada nacional da rede COST sobre Novos Falantes na Europa, coordena a equipa da UC para o projeto IlocalAPP (aprendizagem incidental e letramentos em contextos digitais). http://www.ces.uc.pt/investigadores/cv/clara_keating.php


Comunicação 7

Falante de português? Dilemas identitários de famílias e estudantes de origem brasileira e portuguesa no cenário multilíngue da cidade e região de Toronto, Canadá

Autores:

Pedro de Moraes Garcez – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)-  pedrom.garcez@ufrgs.br

Inês Cardoso – York University, Centro de Investigação “Didática e Tecnologia na Formação de Formadores” – CIDTFF, icardoso@yorku.ca

 

Resumo:

O nosso objetivo é discutir a categoria identitária “falante de português” no mercado sociolinguístico de Toronto. Inicialmente, relatamos resultados preliminares de estudo etnográfico multissituado junto a famílias migrantes brasileiras com filhos em idade escolar frequentando escolas de educação básica nesse centro urbano. Nessa etnografia sociolinguística, entrevistas semiestruturadas com (famílias de) estudantes de origem brasileira e especialistas educacionais ligados ao atendimento desses estudantes a respeito de suas práticas de linguagem e rotinas de escolarização multilíngue permitiram um levantamento dos encontros desses falantes de português brasileiro com outros falantes de português, sobretudo de português europeu, continental e açoriano. Levando em conta o chamado “problema de insucesso escolar de falantes de português” na região (Andrew-Gee, 2012), bem como a noção de etnoclasse na sociedade canadense (Heller et al., 2015), apresentamos indícios de incorporação dos migrantes brasileiros com menos qualificação profissional à etnoclasse ‘falante de português’, em contraste com a distância guardada pelos mais qualificados em relação à comunidade étnico-linguística luso-canadense. A partir disso, examinando observações e depoimentos em entrevistas com estudantes de origem brasileira de uma escola secundária, seus educadores e famílias atendidas por um programa de reforço escolar para falantes de português, esboçamos os dilemas identitários desses migrantes enquanto falantes de português situados nesse complexo quadro sociolinguístico e político-econômico contemporâneo. Por fim, considerando o incentivo ao ensino superior junto a esses grupos com menor motivação académica, examinamos quase duas centenas de questionários destinados ao levantamento de repertórios sociolinguísticos dos estudantes, na sua maioria luso-canadenses, em testes de colocação preenchidos online por interessados em ingressar nas aulas de Português em uma instituição universitária em Toronto. Buscamos compreender que indícios de conexão identitária com o português surgem em diferentes etnoclasses de proveniência. Consideramos que a discussão dos resultados, em eventual contraponto, pode ser revelador, sobretudo para discutir como dilemas identitários podem ser explorados pedagogicamente.

Palavras-chave: globalização; identidade; ideologia linguística; mobilidade; políticas linguísticas.

 

Minibiografias:

Pedro de Moraes Garcez é professor titular do Departamento de Linguística, Filologia e Teoria Literária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Doutorou-se em Educação, Cultura e Sociedade pela Universidade da Pensilvânia e cumpriu recentemente estágio de pós-doutorado no Instituto Ontariano de Estudos Pedagógicos da Universidade de Toronto, Canadá.

Inês Cardoso é Sessional Assistant Professor, Docente do Instituto Camões, em Portuguese and Luso-Brazilian Studies, no Department of Languages, Literatures and Linguistics da York University. Doutorada em Didática, na Universidade de Aveiro (Portugal), com pós-doutoramento no Departamento de Educação da UA, com financiamento FCT. Integra o Centro de Investigação “Didática e Tecnologia na Formação de Formadores” e o grupo “PROTEXTOS – Ensino da produção de textos”.


Comunicação 8

Ideologias linguísticas em aula de Português Língua Adicional: entre a padronização e processos de hibridação

Autora:

Cloris Porto Torquato – UEPG/UFPR – clorisporto@gmail.com

 

Resumo:

Meu objetivo neste trabalho é refletir sobre ideologias linguísticas num contexto multilíngue de ensino de língua portuguesa como língua adicional para migrantes haitianos em processo de migração recente. Desde 2010, cresceu consideravelmente o número de migrantes/refugiados haitianos no Brasil. Boa parte desse contingente de migrantes recebe do governo brasileiro um tipo de visto específico, o visto humanitário, que lhes permite trabalhar legalmente no país. Na busca por trabalho formal, frequentemente lhes é requerido o domínio da língua portuguesa e, muitas vezes, desconsidera-se que muitos desses migrantes falam (além do creolle e do francês) inglês e espanhol. Muitas das práticas em que estão inseridos configuram-se, assim, como práticas multilíngues. Para tratar dessa complexidade sociolinguística no contexto atual de globalizações, mobilizo a perspectiva de superdiversidade (Vertovec, 2007; Blommaert, 2012) e reflito sobre alguns processos sociolinguísticos implicados neste contexto de migração global (Gal, 2006; Blommaert, 2008).   A partir da análise de uma aula de português como língua adicional numa universidade pública no Estado do Paraná, que se configura como prática translíngue (Creese; Blackledge, 2010) pelo repertório linguístico posto em ação pelos participantes, busco responder à seguinte pergunta: Que ideologias linguísticas estão presentes em suas práticas de interação nesse contexto? Mobilizo, para esta pesquisa, a concepção de linguagem do Círculo de Bakhtin – língua como cosmovisão, constitutivamente híbrida (Bakhtin, 2015) –, que contribui para compreender as ações sócio-discursivas dos sujeitos envolvidos na interação em aula. As ideologias linguísticas (implícitas ou explícitas) constituem as práticas discursivas, informam a escolha das línguas em contextos multilíngues e os valores e funções atribuídos às línguas pelos interlocutores (Woolard, 1998; Kroskrity, 2004). As análises indicam que estão presentes na interação desses participantes ideologias do monolinguismo e da padronização em diálogo/conflito com o multilinguismo. Essa interação é marcada por processos de hibridação e de constituição de identidades, especialmente no que diz respeito às complexas relações raciais no Brasil.

Palavras-chave: ideologias linguísticas; português língua adicional; mulitlinguismo; novo contexto de migração.

 

Minibiografia:

Cloris Porto Torquato tem doutorado em Linguística. Seus interesses de pesquisa se referem aos papéis das ideologias linguísticas em práticas letradas e em políticas linguísticas e nas construções identitárias em contextos educacionais multilíngues tanto no sul do Brasil quanto em Países Africanos de Língua Oficial Português, especialmente em Cabo Verde.


Comunicação 9

Migrantes haitianos nos (des)focos da mídia no Brasil

Autoras:

Marilda do Couto Cavalcanti – Universidade Estadual de Campinas – marilda.cavalcanti@gmail.com

Ana Cecília Cossi Bizon – Universidade Estadual de Campinas – ceciliabizon@gmail.com

 

Resumo:

O foco desta apresentação está no fenômeno da mobilidade em tempos de avanço no campo do acesso à informação e à comunicação transnacional e em tempos de globalização (Sousa Santos, 2012). O interesse específico da investigação está em como a mídia impressa/digital apresenta os migrantes haitianos recebidos no país em caráter humanitário. Dados de dois contextos de pesquisa com viés etnográfico são considerados: o fluxo de haitianos no Brasil e, mais especificamente, na cidade de Campinas-SP, sob o foco da mídia digital  (CAVALCANTI, 2016), e o contingente de estudantes haitianos de programas de mobilidade estudantil em uma universidade pública paulista, sob o foco das mídias da instituição (BIZON, 2017). A pergunta de pesquisa que direciona os referidos estudos qualitativo-interpretativos é: Como, quando e de que modo a mídia brasileira digital, focaliza e narra os migrantes haitianos e seus repertórios linguísticos nas ondas migratórias recentes?  A análise dos dados, ora em andamento, vem indicando uma invisibilização desses migrantes, tanto em macro (país, cidade), quanto em micro contextos (universidade), o que faz emergirem interrogações sobre processos de construção identitária e de (re)territorialização (HAESBAERT, 2004; SIGNORINI, 2013) – focalizados no atravessamento de ideologias de língua(gem) – frequentemente marcados por narrativas de exclusão, preconceito e racialização. Situado na vertente Indisciplinar (Moita Lopes, 2006) da Linguística Aplicada, o estudo mobiliza os seguintes conceitos teóricos: narrativas (Threadgold, 2005), ideologias (Woolard, 1998) racialização (Butler, 1990; Galabuzi 2006; Salih, 2007), multilinguismo (Martin-Jones et al, 2012), conceitos esses presentes nas discussões sobre uma nova sociolinguística que contemple a complexidade (Blommmaert, 2014, entre outros autores). Em relação ao olhar sobre a mídia, a base é Briggs (2011) e Jackemet (2005).

Palavras-chave: minorias migrantes; narrativas; (des)focos da mídia; ideologias; racialização; preconceito; xenofobia; globalização contemporânea; multilinguismo.

 

Minibiografias:

Marilda do Couto Cavalcanti é professora titular da Unicamp, e pesquisadora CNPq. Atua no Departamento de Linguística Aplicada e é líder do Grupo de Pesquisa CNPq “Vozes na Escola”. Seus interesses de investigação e suas publicações estão concentrados no que segue:  multilinguismo, cenários brasileiros de minorias, e formação de professores,  ideologias de língua(gem) e levas de migração recente no Brasil. (http://lattes.cnpq.br/9070842006204240)

Ana Cecília Cossi Bizon é professora e pesquisadora do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP, participante dos Grupos de Pesquisa “Vozes na Escola” e É autora de publicações sobre língua(gem) e territorializações, ensino-aprendizagem de Português Língua Adicional e políticas linguísticas em contextos de internacionalização (http://lattes. cnpq.br / 8527660527228028).


Comunicação 10

Metapragmáticas sobre o “português” em socializações da migração estudantil para o Brasil

 

Autora:

Joana Plaza Pinto – Universidade Federal de Goiás-UFG –  joplazapinto@ufg.br

 

Resumo:

Este trabalho discute as diferentes projeções metapragmáticas sobre o “português” em narrativas de estudantes universitárias(os) migrantes de diversas partes do hemisfério sul para o Brasil. Em entrevistas individuais, as(os) estudantes foram convidadas(os) a narrar suas trajetórias de vinda para o Brasil e, nesta narrativa, localizar o “português”. Nessas narrativas circunscritas numa rede de mobilidade transnacional programada e institucionalizada, recursos metapragmáticos remetem aos discursos sobre diferentes repertórios de língua projetados como uso do “português” e fazem referências implícitas e explícitas a codificações, usos e contextos próprios e impróprios das práticas linguísticas indiciadas como pressupostas, prévias e encadeadas em eventos narrados como necessários e/ou desejados para a vinda ao Brasil. Assim, hibridizações orais e escritas são articuladas em regimes metadiscursivos sobre o acesso à universidade brasileira por estrangeiras(os) em referência a normas linguísticas, ideológicas e institucionais, destacando-se a questão da socialização sobre as normas institucionais para o sucesso da trajetória de acesso. Essa socialização e o sucesso da trajetória são fundamentais nas formulações explícitas sobre o valor do “português” de quem narra e sobre a continuidade da experiência atual linguística e estudantil. 

Palavras-chave: metapragmática; hibridização; socialização; trajetória migratória; migração estudantil.

Minibiografia:

Joana Plaza Pinto é Professora Associada da Universidade Federal de Goiás e pesquisadora do CNPq.


Comunicação 11

A aprendizagem do português língua estrangeira (PLE): as motivações e perfis sociológicos dos jovens que procuram a certificação em língua portuguesa no mundo

Autoras:

Sandra Mateus –  Instituto Universitário de Lisboa, ISCTE-IUL, CIES-IUL –  sandra.mateus@iscte.pt

Ana Raquel Matias – ISCTE-IUL, CIES-IUL, CES-UC – raquel_matias@hotmail.com

 

Resumo:

A mobilidade contemporânea tem vindo a assumir-se como uma questão central na produção científica no âmbito das ciências sociais (Urry, 2007; Cresswell, 2006), nomeadamente em Portugal (Cairns, 2009; Lopes, 2014; Queirós, 2010). No contexto atual, assistimos à multiplicação das oportunidades formativas e laborais em contexto internacional. E contamos com novas gerações de jovens afetadas por processos de globalização biográfica, de pertença múltipla, de mobilidades amplas e aceleradas. Mas sabemos ainda pouco sobre o lugar da aprendizagem da língua nos projetos e trajetórias de mobilidade, nomeadamente entre os mais novos. Com esta comunicação pretendemos identificar perfis sociológicos de quem procura a certificação do português como língua estrangeira (PLE), a partir de dados sociodemográficos (sexo, idade, naturalidade, nacionalidade, nível de escolaridade, situação perante o trabalho, profissão) e das motivações apresentadas para a mesma certificação. Procura-se compreender de que modo a aprendizagem e certificação da língua portuguesa se inserem num projeto de mobilidade individual, e de que forma a aprendizagem linguística se constitui como um dos fatores de favorecimento da emergência desse projeto. A análise irá suportar-se na base de dados internacional do CAPLE, e contemplará os candidatos a certificação em português como língua estrangeira, jovens (entre os 18 e os 29 anos), a partir de 2010 

Palavras-chave: Português como Língua Estrangeira; Aprendizagem; Motivações; Juventude.

 

Minibiografias:

Sandra Mateus é doutorada em Sociologia pelo ISCTE-IUL, professora assistente na mesma instituição, e investigadora de pós-doutoramento no CIES-IUL. Tem-se dedicado a estudos sobre as condições de integração e escolarização dos filhos de imigrantes em Portugal. No seu projeto de pós-doutoramento procura compreender a mobilidade nos mais jovens, incluindo a sua dimensão linguística.

Ana Raquel Matias é doutorada em Sociologia pelo ISCTE-IUL (Lisboa) e INED (Paris), tendo-se especializado nos trajetos dos imigrantes e descendentes de imigrantes na Europa, políticas de imigração, integração social e linguística. Atualmente é investigadora de pós-doutoramento num projeto de investigação sobre políticas e atitudes linguísticas institucionais e familiares, partindo do caso da população de origem caboverdiana em Portugal.


 Comunicação 12

Micropolíticas de expansão do Português: mães gerenciadoras e difusoras de línguas

 

Autora:

Tatiana Martins Gabas – UNICAMP – tatigabas@yahoo.com.br

 

Resumo:

A transferência de funcionários sul-coreanos acompanhados de suas famílias para a Região Metropolitana de Campinas resultou na formação de uma comunidade de trabalhadores transplantados (AMADO, 2011) de caráter temporário e rotativo. Nesse contexto de transplantação, a mãe tem papel central no gerenciamento do repertório linguístico dos filhos, composto majoritariamente pelas línguas coreana, inglesa e portuguesa. Como recorte da minha dissertação de mestrado, busco aqui demonstrar como o português tem sido promovido e seu valor tem se reconfigurado entre essas famílias transnacionais durante e após o período de transplantação no Brasil. A família transnacional, por ser um exemplo significativo do fortalecimento do plurilinguismo nos diferentes contextos de deslocamentos contemporâneos, se constitui como um domínio (SPOLSKY, 2009) muito pertinente para a compreensão de como as línguas se articulam nas experiências de mobilidade, e evidencia a sobreposição de diversas ideologias e políticas linguísticas estabelecidas de baixo para cima (bottom-up policies). Interessada nesse domínio, o campo de estudos em Política Linguística Familiar (KING; FOGLE; LOGAN-TERRY, 2008; SPOLSKY, 2012; FOGLE; KING, 2013, entre outros) vem demonstrando de maneira produtiva como ações de gerenciamento (SPOLKY, 2009) e promoção de línguas podem ser empreendidas por agentes não-oficiais em diferentes mercados linguísticos locais. Assim, busco também refletir acerca da importância de as micropolíticas de expansão do português serem cada vez mais tematizadas nas pesquisas, pois mesmo não se referindo a uma expansão em escala macro da língua, insere o português em novos contextos e lhe confere novos valores.

Palavras-chave: português; globalização; política linguística familiar; migração trasnacional.

 

Minibiografia:

É Mestre em Linguística Aplicada pela Unicamp tendo pesquisado sobre Política Linguística Familiar em contexto de migração transnacional. Atua como professora de português como Língua Adicional para famílias da Comunidade Sul-Coreana da Região Metropolitana de Campinas desde 2011.


Comunicação  13

Leitor brasileiro: relações entre a formação profissional e a atuação no programa de leitorado

Autora:

Leilane Morais Oliveira – PG/Universidade de São Paulo-USP – leilanemorais@usp.br

Resumo:

O Brasil apresenta um potencial considerável para a internacionalização da língua portuguesa. Devido ao grande número de falantes nativos e à representatividade que o país mantém dentro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, torna-se inquestionável a necessidade de desenvolver e aprimorar políticas linguísticas voltadas para esta finalidade. Desde 1960, o governo brasileiro mantém o Programa de Leitorado, uma iniciativa que objetiva a internacionalização do português brasileiro, bem como da cultura nacional em universidades do exterior. Esta política linguística é atualmente coordenada pela Divisão de Promoção da Língua Portuguesa, que, por sua vez, é subordinada ao Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores, sob chefia atual do ministro George Torquato Firmeza. Embora essencial para uma intervenção estratégica do Brasil no cenário internacional, bem como para a projeção da língua portuguesa brasileira em novos mercados, poucos são os registros científicos sobre o Programa de Leitorado e sobre os leitores. Diante disso, o presente trabalho objetiva discutir qual é o perfil profissional do leitor brasileiro, bem como as funções que, voltadas para a internacionalização da língua portuguesa, lhe são atribuídas no interior do Programa de Leitorado. Os dados analisados foram recolhidos por meio de pesquisa realizada no arquivo oficial do Palácio do Itamaraty e de questionário aplicado a antigos leitores. De modo geral, observa-se que o leitor é formado (em nível de graduação e/ou pós) na grande área de Letras e que suas funções o levam a apontar lacunas de formação que limitam o exercício de suas funções profissionais no programa. Em conjunto, a atuação (a nível de ensino, pesquisa e extensão) sugere a necessidade de que as licenciaturas formem profissionais qualificados especificamente para o ensino da língua e da cultura nacionais a estrangeiros, o que põe essa questão em relevo e sugere a urgência de reformulações neste âmbito.

Palavras-chave: políticas linguísticas; internacionalização; língua portuguesa.

 

Minibiografia:

Licenciada e mestre em Letras, pela Universidade Federal de Viçosa. Atualmente, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo, com desenvolvimento de pesquisa ligada à internacionalização da língua portuguesa, por meio da política linguística do Programa de Leitorado, e a relação deste processo com a formação de professores no Brasil.


Comunicação 14

Ideologias de gênero e ideologias de língua(gem) em páginas feministas do Facebook

 

Autora:

Fabiana Biondo – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – fabibiondo@gmail.com

 

Resumo:

Inserindo-se nas discussões sobre as configurações do português nos espaços-tempos da globalização, este trabalho tematiza a questão das relações entre ideologias de gênero e ideologias de língua(gem), de modo a problematizar a hipótese de convergência de hegemonias linguísticas e outras ordens hegemônicas estabelecidas na sociedade, particularmente as de gênero, fixadas pela tradição etnocêntrica ocidental. O faz a partir de exemplos trazidos de comunidades ativistas de gênero da rede social Facebook, as quais vêm sendo investigadas desde 2013, com o objetivo de analisar a dinâmica da (des) (re)construção de identidades em práticas contemporâneas de uso da língua(gem). Focalizando a função metapragmática exercida por comentários de participantes dessas comunidades, a questão orienta-se sobretudo pela compreensão da linguagem como ação social (BAUMAN e BRIGGS, 1990), pelo conceito de language ideology proposto por Woolard (1998) e pela apreensão dos processos de construção de identidades em suas relações com as disputas de poder e controle na interação e no mundo social (SIGNORINI, 1998; MOITA LOPES, 2010). Entre os resultados, destaca-se a tentativa de normatização do uso da língua(gem), que não apenas instancia um modelo cultural escolarizado, como também estabelece relação entre esse modelo e a capacidade dos sujeitos de compreensão das questões em discussão, sobre gênero e sexualidade.

Palavras-chave: ideologia linguística; ideologia de gênero; Facebook; metapragmática; identidades.

 

Minibiografia:

Fabiana Biondo é Professora Adjunta da Universidade Federal de Mato Grosso do SUL, coordenadora do Grupo de Pesquisa CNPq “Práticas de letramento multi/hipermidiáticas” e participante do grupo de pesquisa CNPq “Práticas de escrita e de reflexões sobre a escrita em diferentes mídias”, da Unicamp. Tem publicações sobre letramentos, tecnologias e ensino de língua, linguagens e identidade, formação de professores. (http://lattes.cnpq.br/5220992833342778)


Comunicação 15

Metapragmáticas da escrita científica em português brasileiro em tempos de internacionalização da universidade pública paulista

Autora:

Inês Signorini – Universidade Etadual de Campinas – inesignorini@gmail.com

Resumo:

O objetivo desta comunicação é identificar, descrever e analisar aspectos das políticas de internacionalização de duas universidades públicas do Estado de São Paulo, cujos processos de implementação têm atribuído papel relevante à difusão de  metapragmáticas específicas de uma escrita científica tida como mais adequada aos objetivos da internacionalização das produções da pesquisa universitária, sobretudo em língua inglesa, mas também em portugês brasileiro. Conforme pretendemos mostrar, a principal referência dessas metapragmáticas tem sido a escrita validada e promovida pela indústria editorial anglófona de maior influência no mercado global de áreas específicas das chamadas ciências naturais (em contraposição às chamadas ciências humanas e sociais). Focalizando questões trazidas pelas iniciativas institucionais de ensino e divulgação de modelos da escrita científica para a produção em português brasileiro segundo as metapragmáticas citadas, chamamos a atenção para questões de natureza propriamente retórica (estratégias textuais-discursivas) e político-ideológica (produção da alteridade) que têm ficado à margem das discussões em curso nas duas universidades em questão e que iluminam tanto o alcance quanto os limites das políticas de internacionalização, centradas nos modelos adotados, sobre a escrita científica em português brasileiro. A base empírica da pesquisa é constituída de publicações eletrônicas institucionais relacionadas à escrita científica e às políticas locais de internacionalização das duas universidades focalizadas (ementas, programas e material de divulgação de cursos; jornais institucionais de divulgação científica; websites institucionais) produzidas e publicadas desde 2009. Também compõem o corpus de referência depoimentos de professores e tradutores envolvidos no ensino e divulgação dos modelos de escrita que têm sido alvo das iniciativas institucionais no período focalizado. Os estudos socio-antropológicos sobre as relações entre ideologias linguísticas, globalização socio-econômica e letramentos científicos nos forneceram os principais instrumentos de análise do corpus estudado.

Palavras-chave: escrita científica; internacionalização; ideologias linguísticas; português; globalização.

 

Minibiografia:

Inês Signorini é Professora Titular da Universidade Estadual de Campinas e Pesquisador do CNPq (CV: http://lattes.cnpq.br/2440593751176448). Tem publicado, editado e co-editado trabalhos no campo dos estudos dos letramentos em língua portuguesa em contextos de globalização, tendo sido co-editora convidada do volume  1, n. 40 (2016) da Revista da Anpoll sobre o tema “Selected Papers on Language and Society: Mobility, Multilingualism and Globalization”.


 Comunicação 16

Viagem textual  de um vídeo profissional brasileiro de funk  para um vídeo caseiro filipino: metapragmáticas translocais 

Autor:

Luiz Paulo Moita-Lopes – Universidade Federal do Rio de Janeiro-moitalopes1@gmail.com

Resumo:

A mobilidade é um construto teórico crucial para dar conta da vida contemporânea: as pessoas, as línguas, os textos, os artefatos culturais etc. cada vez mais se movem pelo mundo por meio das mídias sociais ou da migração intensa. Em tal cenário, fala-se sobre a necessidade de uma sociolinguística da mobilidade (Blommaert, 2010) ou de teorizações sobre  comunicabilidades contemporâneas (Briggs, 2007), que requerem  outras ideologias linguísticas para  explicitar o fenômeno dos intensos processos de circulação que vivemos.  Em tal circulação, o acesso a tipos de discursos que atravessam o mundo tem hibridizado significados locais , que são cada vez mais compreendidos  como translocais (Blommaert, 2010) e, portanto,  tem envolvido pragmáticas e metapragmátocas translocais.  Embora tradicionalmente a direção desses discursos tenha sido norte-sul (ecoando o velho globalitarismo ocidentalista e colonialista), a intensidade da globalização contemporânea tem proporcionado outras direções para tais viagens textuais e para os discursos que mobilizam. Dessa forma, este trabalho focaliza uma trajetória textual na direçâo sul-sul. Especificamente, estuda como  um video profissional  do you-tube estrelado por uma cantora brasileira heterossexual  de funk aparece, em “português”,  em um lugar inesperado (Heller, 2007; Pennycook, 2012): nas Filipinas.  A performance em  vídeo da cantora é re-entextualizada no you-tube, em uma produção caseira filipina, de um grupo de homens jovens, pobres e queer.  A análise enfoca  como o texto multimodal  brasileiro é translocalmente re-entextualizado no vídeo filipino, chamando atenção para como  a mímica do “português brasileiro”, na qual os jovens se engajam, resignifica o que se pode entender por “língua”.

Palavras-chave:  sociolinguística da mobilidade; viagens textuais; re-entextualização; metapragamáticas translocais; indexicalização. 

Minibiografia:

Luiz Paulo Moita-Lopes é Professor Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Pesquisador do CNPq (CV: http://lattes.cnpq.br/9443575304118422). Seu último livro se intitula Global Portuguese. Linguistic ideologies in late modernity. Nova York: Routledge, 2015.