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Simpósio 67

SIMPÓSIO 67 – ARGUMENTAÇÃO E DISCURSO: ENTRE A REPRESSÃO E A RESISTÊNCIA

 

Coordenadores:

Eduardo Lopes Piris | Universidade Estadual de Santa Cruz | elpiris@uesc.br

Isabel Cristina Michelan de Azevedo | Universidade Federal de Sergipe | icmazevedo@hotmail.com

 

Resumo:

Este simpósio visa a proporcionar o encontro de reflexões teóricas e analíticas acerca dos processos argumentativos no funcionamento do discurso, a fim de contribuir para a compreensão das práticas sociais que envolvem/suscitam a argumentação. Distintamente da demonstração construída apenas por meio de raciocínio lógico, tratar-se-á da argumentação como fato de discurso, associada à prática da linguagem em contexto, resultado de uma situação concreta de enunciação, conforme apontam Plantin (1996), Amossy (2000), entre outros. A essa concepção de argumentação, alinham-se perspectivas teóricas que compreendem o discurso como objeto constituído pelo encontro entre o linguístico e a sua “exterioridade”, a saber, ideológica, social, histórica, cultural, tal como podemos distintamente encontrar em autores como Bakhtin/Volochinov (2002 [1929]), Pêcheux (1997 [1975]), Fairclough (2001 [1992]), Foucault (2003 [1969]), entre outros. Nas lutas sociais, a interação argumentativa caracteriza-se, muitas vezes, pela assimetria de poder entre os argumentadores, de modo que a produção do consenso ou do dissenso se vê submetida às coerções impostas pelas regras de construção do discurso. Por isso, justifica-se a relevância da proposta deste simpósio em discutir os processos argumentativos encontrados em discursos que materializam as forças sociais de repressão e de resistência. Assim, coloca-se o interesse pelas práticas de biopoder, processos de subjetivação e de objetivação, dispositivo de poder, interpelação ideológica, sujeito, memória, lutas de classe, dialética da reprodução/transformação reproduzidas em instituições como a política, a jurídica, a escolar, a midiática, entre outras, de modo a contribuir para a construção de conhecimento sobre as formas mais veladas de repressão e para o empoderamento dos agentes das mais distintas formas de resistência às práticas hegemônicas, opressoras e excludentes que se perpetuam sócio-historicamente. Esperamos, portanto, que este simpósio possa ser bastante profícuo aos seus participantes no sentido de amadurecer discussão, colocar novas provocações, estabelecer laços e fortalecer os estudos sobre discurso e argumentação.

 

Palavras-chave: Discurso, Argumentação, Enunciação, Ideologia, Poder.

 

Minibiografias:

Eduardo Lopes Piris

Mestre em Linguística e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Na Universidade Estadual de Santa Cruz, é professor adjunto do Departamento de Letras e Artes, onde atua no Mestrado Profissional em Letras e no Mestrado em Letras: Linguagens e Representações. Coordena o Programa de Divulgação dos Estudos sobre Discurso e Argumentação. Edita a Revista EID&A e é líder do Grupo de Pesquisa “Estudos de Linguagem, Argumentação e Discurso” (ELAD/CNPq).

 

Isabel Cristina Michelan de Azevedo

Doutora em Letras Clássicas e Vernáculas pela FFLCH da USP, mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP), graduada em Pedagogia e Letras. Na Universidade Federal de Sergipe, é professora adjunta no Departamento de Letras Vernáculas, coordenadora adjunta do Mestrado Profissional em Letras, campus São Cristóvão, e líder do GPARA. Na Universidade Estadual de Santa Cruz, é professora permanente do Mestrado em Letras.

 

 

Resumos dos trabalhos aprovados

Comunicação 1

O discurso da resistência pacífica em Epicteto

Autor:

Aldo Lopes Dinucci – Universidade Federal de Sergipe – aldodinucci@yahoo.com.br

 

Resumo:

As Diatribes de Epicteto, obra do estoico Epicteto, que viveu entre o século 1 e 2 no Império Romano, contém diversas críticas a certos imperadores romanos e elogios a alguns outros. O foco do discurso é a luta contra os imperadores tiranos que buscam oprimir seus súditos. Epicteto apresenta uma série que estratégias de oposição a esses imperadores tiranos, pelo que as Diatribes podem ser também lidas como um guia de resistência pacífica diante da tirania. Procuraremos, em nossa comunicação, enumerar e discutir essas estratégias de resistência. Como referenciais teóricos de nossa reflexão utilizamos DEVINE (1970), MILLAR (1965), STANTON (1949), STARR (1949), TOYNBEE (1944) e WISTRAND (1979).

Palavras-chave: Epicteto; Resistência; Política romana.

 

Minibiografia:

Possui Mestrado (1996-1998) e Doutorado (1998-2002) em Filosofia pela PUC-Rio; Pós-Doutorado em Filosofia pelo IFCS/UFRJ (2014). Pós-Doutorado em Filosofia pela University of Kent – UK (2015). É Professor do Departamento de Filosofia da UFS.
Atua em pesquisas e traduções de fontes primárias nas áreas de História da Filosofia Helenística e Tardo-Antiga, notadamente Estoicismo. É atualmente pesquisador em produtividade do CNPq.


Comunicação 2

O Papel do Discurso político na Filosofia de Epicteto

Autores:

Carlos Enéas Moraes Lins da Silva – Universidade Federal de Sergipe – BFRcemls@hotmail.com

Aldo Lopes Dinucci – Universidade Federal de Sergipe – aldodinucci@yahoo.com.br

 

Resumo:

As numerosas referências que Epicteto faz a eventos e personagens históricos da Roma e da Grécia antiga, ao longo das Diatribes, não parecem ser meros exemplos morais. Enquanto nos deparamos com a importância que o estoico concede à prática da filosofia, e a primazia desta no processo de aprendizado filosófico, entendemos que o discurso político empregado se aproxima muito a um método pedagógico/descritivo pelo qual o filósofo romano pretendia auxiliar os seus alunos na aplicação dos theoremata da filosofia. Pretendemos neste trabalho fornecer argumentos e pistas suficientes para relacionar o discurso político epictetiano ao ensino da prática filosófica e consequentemente do uso adequado dos theoremata da filosofia – pilar da filosofia para Epicteto. Seguindo como referenciais teóricos MILLAR (1965), ERSKINE (1990), DEVINE (1970), STANTON (1949), STARR (1949) e TOYNBEE (1944).

Palavras-Chave: Epicteto; Estoicismo; História Antiga; Filosofia Helenística; Discurso Político.

 

Minibiografia:

Carlos Enéas: Graduando em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe. É bolsista CNPq de iniciação cientifica no projeto intitulado “Phantasía para Cleanto e Crisipo” sob a orientação do Prof. Dr. Aldo Lopes Dinucci. Nos últimos dois anos participou de outros projetos de Iniciação Científica em áreas relacionadas à Filosofia Antiga, como o projeto “ Leitura dos Fragmentos sobre a Lògica Proposicional Estoica”, no qual analisou fragmentos de textos antigos e seus comentadores, e “O conceito de mythos em Paul Ricoeur”, no qual relacionou o conceito de mythos em Aristóteles e em Ricoeur.

Aldo Dinucci: Possui Mestrado (1996-1998) e Doutorado (1998-2002) em Filosofia pela PUC-Rio; Pós-Doutorado em Filosofia pelo IFCS/UFRJ (2014). Pós-Doutorado em Filosofia pela University of Kent – UK (2015). É Professo do Departamento de Filosofia de Filosofia da UFS. Atua em pesquisas e traduções de fontes primárias nas áreas de História da Filosofia Hellenística e Tardo-Antiga, notadamente Estoicismo. É atualmente pesquisador em produtividade CNPq.


Comunicação 3

A teoria enunciativa de Bakhtin em aproxi­mação com os pressupostos sobre argumentação de Perelman e Olbrechts-Tyteca

 

Autor:

Domingos Pinto de França – Universidade Federal de Mato Grosso -francismestrado@gmail.com

Resumo:

No arcabouço teórico bakhtiniano, a enunciação é a expressão social do sujeito enquanto autor de seu discurso. Ele se constitui dentro dos processos argumentativos durante a construção dos discursos. Para Bakhtin, o que realmente importa é de quem vem a enunciação e como se dá a interação deste com o outro (interlocutor). Enquanto que para Perelman e Olbrechts-Tyteca e seus pressupostos de argumentação há três espécies de auditório com os quais interage o orador: o universal, o composto de um único ouvinte e o auditó­rio do próprio sujeito do discurso. Dependendo do tipo do auditório, será a quantidade de raciocínio que é constituído no discurso. No auditório universal a linguagem precisará ser isenta de tecnicidade. Se for de um único ouvinte, será necessário um discurso específico, ou seja, segundo Bakhtin, uma comunidade linguística. Já para o auditório do próprio sujeito, o locutor do enunciado atua em duplo papel de orador e de auditório. Em articulação com os estudos bakhtinianos, os conflitos da sociedade se expressam mediante os exercícios dos atos de fala. Queremos demonstrar, portanto, nesta comunicação, um diálogo entre as premissas argumentativas de Perelman e Olbrechts-Tyteca e alguns conceitos bakhtiniano, com foco nos conceitos de auditório, discurso e enunciado que os conflitos da língua são os reflexos das vivências sociais constituídas ao longo do tempo. Assim Bakhtin e Perelman e Olbrechts-Tyteca dialogam ao concordarem que o discurso argumentativo é o resultado daquilo que os interlocutores expressam durante o processo de argumentação, sendo este, em sua comunidade linguística, entendido como razoável e autêntico. Ainda em Bakhtin temos que a linguagem é uma super estrutura social com dois fundamentos: o enunciado é uma forma de relação social enquanto que a prática da linguagem possibilita usos inovadores de produzir novas significações. 

Palavras-chave: Enunciação; Discurso; Auditório; Argumentação; Diálogo.

Minibiografia:

Domingos Pinto de França – Mestrando pelo programa do PPGEL da Universidade Federal de Mato Grosso. Membro do grupo REBAK – Grupo de pesquisas relendo Bakhtin.


Comunicação 4

A retórica e os mecanismos de comunicação instantânea como instrumento(s) de resistência da sociedade hipermidiática

Autor:

Eduardo Chagas Oliveira – Universidade Estadual de Feira de Santana – echagas@uefs.br

Resumo:

No que tange à sua função persuasiva, a retórica, em tempos de interação digital através de dispositivos móveis, assume novos contornos. Os modos de argumentação, nos domínios da comunicação instantânea, redefinem os papéis tradicionalmente consagrados ao transmissor e ao receptor, ao orador e ao auditório, uma vez que essas categorias se dilaceram no âmbito da produção de conteúdos discursivo-argumentativos. A emergência do contexto converte a retórica numa espécie de nuper-retórica, capaz de contemplar um cenário no qual metamídias conectam os indivíduos a espaços físicos e virtuais, ampliando os limites e as modalidades de linguagem, que se formam e transmutam. Essa transformação dos elementos constitutivos da argumentação e da discursividade, faz surgir novos mecanismos de resistência às práticas hegemônicas de poder, originalmente exercidas ou amparadas pelos canais de comunicação, que historicamente se constituíram como veículos privilegiados na difusão de informações. As redes sociais e os aplicativos de mensagens instantâneas, por exemplo, permitiram a formação de grupos de discussão nos quais as pessoas se agregam por temáticas e objetivos comuns, construindo comunidades dialógicas, que integram mídias diversas e propagam conteúdos não-disponibilizados em veículos oficiais ou tradicionais. Nesta seara, as estratégias suasórias precisam de ajustes que vão desde a limitação do número de caracteres para a composição da mensagem – caso exemplar do Twitter – ao alcance do público-alvo, cuja adesão se pretende angariar – conforme o número de seguidores associados ao perfil daquele que compartilha uma informação – no Facebook, Snapchat ou Instagram. Com isso ocorre uma descentralização do poder de comunicação e a formação de nichos de resistência à informação produzida unilateralmente, fomentando o surgimento de novos protagonistas do processo de comunicação, sujeitos comuns, conectados a metamídias com expressiva velocidade de transmissão e desprovidas de filtros ou censores. Assim, os hipermeios permitem a redefinição das modalidades de resistência ao poder associado aos mecanismos tradicionais de comunicação.

Palavras-chave: Retórica; Sociedade; Hipermídia; Resistência; Comunicação.

 

Minibiografia:

Graduado em Filosofia (UFBA) e em Direito (UNEB) possui Mestrado em Comunicação e Cultura Contemporânea (UFBA) e Doutorado em Filosofia (UNICAMP). Professor Adjunto da Universidade Estadual de Feira de Santana, pertence ao corpo docente do Doutorado Multi-institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento (DMMDC) e do Programa de Pós-Graduação em Ensino, Filosofia e História das Ciências (UFBA/UEFS).


Comunicação 5

Persuadir e convencer: as estratégias da argumentação

Autora:

Leusa Cristina Bezerra dos Santos – Universidade Católica de Pernambuco – leusa.santos@gmail.com

Resumo:

Este trabalho discute no campo teórico algumas estratégias argumentativas para alcançar os objetivos centrais de toda argumentação: o convencimento e a persuasão. Recorremos a Perelman e Tyteca (2005) para a discussão sobre audiências e argumentações formais e informais. A Carraher (1983) vinculamos a discussão sobre a necessidade do senso crítico necessário diante de toda argumentação. A partir do raciocínio de Perelman e Tyteca (2005), vamos discutir sobre as estratégias do acordo entre audiência e auditório e a forma como elas ocorrem. O campo argumentativo precisa ser verossímil e plausível para que o orador demonstre a verdade do seu raciocínio. Carraher (1983) fala da argumentação psicológica, que se utiliza da tendenciosidade nos argumentos. Em um raciocínio confluente, Perelman e Tyteca (2005) chamam atenção para elementos utilizados na argumentação, que se comunicam com o auditório universal, aquele que é presumido pelo orador, e com os auditórios particulares, os reais. Esses elementos oferecem ao orador a possibilidade de convencimento e persuasão do auditório tanto a partir da razão, quanto da emoção. Para o auditório presumido, atuam os fatos, as verdades e as presunções. Para os auditórios particulares, associam elementos denominados valores, hierarquias e lugares. Os fatos e verdades têm força argumentativa até encontrarem outros que lhes sobreponham. As presunções estão vinculadas ao que é verossímil. Os valores são um instrumento para o convencimento e a persuasão porque se alimentam de um sistema de crenças já estabelecido. As hierarquias proporcionam um padrão de importância nos elementos que vai da inferioridade à superioridade. Os lugares são uma espécie de premissas que obedecem a hierarquias. Perelman e Tyteca (2005) destacam os lugares-comuns, que são fortes por serem compartilhados pela maioria. O trabalho pretende oferecer um recorte de como funcionam algumas dessas estratégias e um modelo de aplicação para a análise das diversas comunicações das relações humanas.

Palavras-chaves: Argumentação; Estratégias; Convencimento; Persuasão.

Minibiografia:

Doutoranda em Ciências da Linguagem pela Universidade Católica de Pernambuco (2015-em andamento), mestra em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) (2013), especialista em Linguística Aplicada a Práticas Discursivas pela Faculdade Frassinetti do Recife (Fafire) (2010), jornalista e editora executiva do jornal Folha de Pernambuco, desde 1998. Coordenou o projeto de reforma gráfica e editorial da Folha de Pernambuco, lançado em julho de 2013.


Comunicação 6

Usando o discurso para perturbar o consenso: ou, considerando a retórica (e suas raízes agonistas) seriamente

Autor:

Loïc Nicolas – Universidade Livre de Bruxelas / IHECS – Protagoras – loic.nicolas@ulb.ac.be

 

Resumo:

A partir de Aristóteles, passando por Perelman e Mouffe, o objetivo deste trabalho é discutir e criticar a visão tradicional de retórica como uma “paz” de palavras. Nosso principal propósito é mostrar que é necessário compreender como a retórica, e sua prática, pode representar uma oportunidade real de questionar o consenso, perturbá-lo, e que isso pode ser bom para o processo social e o espaço político. A democracia não pode ser bem praticada sem retórica, sem uma transmissão de ferramentas retóricas com as quais os indivíduos possam levantar a sua voz com/contra os outros e seu consenso. Um uso bem compreendido da retórica poderia ser visto, adequadamente, como uma “escola” para a prática do desacordo e uma maneira de aceitar a vulnerabilidade que resulta disso.

Palavras-chave: Agôn; Conformismo; Decisão; Democracia; Desacordo.

 

Minibiografia:

Mestre em Ciências Sociais pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris (EHESS), em Ciências Políticas pela Universidade Panthéon-Sorbonne – Paris I, em Literatura Moderna pela Universidade Paris-Sorbonne – Paris IV, e doutor em Letras e Línguas pela Universidade Livre de Bruxelas (ULB, Bélgica). Colaborador científico da Faculdade de LTC – Língua, Tradução e Comunicação – da ULB. Membro do Centro de Pesquisa em Linguística da ULB. Membro do Laboratório Protagoras do Instituto de Altos Estudos em Comunicações Sociais (IHECS, Bélgica). Membro do Grupo de Pesquisa “Estudos de Linguagem, Argumentação e Discurso”, do CNPq, Brasil.


Comunicação 7

Da argumentação à demonstração: os estreitamentos focais como estratégias de objetivação

Autor:

Rui Alexandre Grácio – Grupo de Pesquisa Estudos de Linguagem, Argumentação e Discurso – ELAD/CNPq – rgracio@gmail.com

Resumo:

Partindo da ideia de que a afirmação da objetividade é sempre produto de estratégias de objetivação, propõe-se neste texto caracterizar e assinalar a importância dos «estreitamentos focais» como um tipo de estratégia argumentativa mas, também, como uma forma de exercício de poder. Por outro lado — e à luz da noção de «estreitamento focal»— retomaremos a questão da articulação entre argumentação e demonstração, focando-nos na forma como acontece a construção argumentativa da demonstração. A interrogação final incide sobre o significado e as consequências sociais da valorização pragmática do demonstrativo enquanto dispositivo de poder e dominação.

Palavras-chave: Estreitamentos focais; Estratégias de objetivação; Argumentação; Demonstração.

Minibiografia:

Rui Alexandre Lalanda Martins Grácio é Doutorado em Ciências da Comunicação, Mestre em Filosofia Contemporânea e licenciado em Filosofia. É também professor profissionalizado e formador especialista desde 1997, reconhecido pelo Conselho Científico-Pedagógico de Formação Contínua. É autor de vários livros e artigos na área da filosofia da linguagem, argumentação e retórica.


Comunicação 8

O discurso argumentativo e a construção de sentidos em cartas de reclamação no ensino fundamental

Autoras:

Ana Paula Martins Alves – Universidade Federal Rural da Amazônia – anamarinsalves@ufra.edu.br

Maria Elias Soares – Universidade Federal do Ceará – melias@ufc.br

Resumo:

Atualmente, no Brasil, o ensino do texto argumentativo é uma realidade curricular, apenas, a partir 8º ano do ensino fundamental. Todavia, acreditamos que as habilidades argumentativas na escrita devem ser ensinadas desde a tenra idade, para que, quando adultos, os sujeitos sejam capazes de sistematizá-las e utilizá-las com mais propriedade. Destarte, partimos do pressuposto de que a argumentação encontra-se marcada nas escolhas linguísticas e que os sentidos dos enunciados indicam a direção da continuação do diálogo, orientando o interlocutor a certo tipo de conclusão (DUCROT, 1989). Ademais, em uma concepção de linguagem dialógica baktiniana, em que é na interação verbal que a palavra torna-se real e ganha diferentes sentidos conforme o contexto, a presente pesquisa objetivou investigar a construção de sentidos na escrita do gênero carta de reclamação de estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental de uma escola pública municipal de Fortaleza. Para os propósitos deste estudo, analisamos 40 produções de alunos do 4º ano do Ensino Fundamental participantes de uma sequência didática, desenvolvida ao longo de dois meses. Na análise, observamos a construção dos sentidos nas cartas de reclamação produzidas pelos participantes, por meio do desenvolvimento do tema das cartas, e, ainda, com base na relação entre os argumentos e os posicionamentos dos produtores das cartas. Os dados evidenciaram que o grande número de alunos que apresentaram fuga total ao tema na produção inicial conseguiu desenvolver a temática nas últimas produções, apresentando a progressão temática manifesta por meio da reclamação, seguida de uma reivindicação. Os dados evidenciaram também que o sentido das cartas analisadas é estabelecido por meio de enunciados-argumentos que direcionam para enunciados-conclusão. E, ainda, foi possível identificar a presença de um enunciador que denuncia um estado de degradação escolar que, tentando impor seu ponto de vista, busca convencer o interlocutor de que sua reclamação é legítima.

Palavras-Chave: Carta de reclamação; Construção de sentido; Discurso argumentativo; Ensino Fundamental.

Minibiografias:

Ana Paula Martins Alves – Mestre e doutoranda em Linguística pela Universidade Federal do Ceará (UFC), graduada em Pedagogia pela UFC e em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), é professora assistente e coordenadora do curso de Letras – Língua Portuguesa.

Maria Elias Soares – Doutora em Linguística pela Pontífica Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É Professora Titular de Linguística da Universidade Federal do Ceará (UFC), onde ocupou os cargos de Diretora do Centro de Humanidades e da Editora da UFC, e Coordenadora de Assuntos Internacionais. Participou da Comissão de Implantação da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), da qual foi Vice-Reitora. É Membro da Academia Cearense de Língua Portuguesa.


Comunicação 9

Ensino de argumentação na escola: professores e estudantes entre a repressão e a resistência

Autor:

Eduardo Lopes Piris – Universidade Estadual de Santa Cruz – elpiris@uesc.br

Resumo:

Neste trabalho, discuto o lugar da argumentação no ensino escolar de língua materna, visando a apontar possibilidades de abordagem de ensino da argumentação que possam extrapolar o modelo utilitarista consagrado pela tradição escolar, que restringe a argumentação ao bem falar e ao bem escrever (cf. Gnerre, 1985; Auroux, 1992; Pfeiffer, 2000; Orlandi, 2002), e atualizado pelos exames nacionais de larga escala na forma da redação do texto dissertativo (cf. Osakabe, 1977; Soares, 1978; Denizot, 2012; Agustini e Borges, 2013; Azevedo, 2015). Considerando a multidimensionalidade dos fenômenos argumentativos (cf. Grácio, 2013), defino a argumentação, articulando suas dimensões retórica (cf. Perelman & Olbrechts-Tyteca, 1996 [1958]), discursiva (cf. Amossy, 2013), cognitivo-discursiva (cf. Leitão, 2011), sócio-cognitivo (cf. Dolz & Schneuwly, 2004). Do ponto de vista educativo, assumo a perspectiva emancipatória de educação, inicialmente, proposta por Paulo Freire (2005 [1968]), em sua Pedagogia do Oprimido, para fundamentar uma proposta de ensino da argumentação que possa promover, no interior da escola, enquanto Aparelho Ideológico de Estado (cf. Althusser, 1970), a polemização dos saberes e dos discursos de verdade (cf. Foucault, 1972), o empoderamento dos sujeitos estudantes por poder argumentar (cf. Pacífico, 2012, 2016), a autonomia crítica do sujeito professor e, portanto, a diminuição da assimetria de poder na relação pedagógica (cf. Estrela, 1994; Morgado, 1997) professor/estudante e professor/estudante/gestor escolar. Nesse contexto político-educacional, baseio-me em Geraldi (1984), para inscrever o ensino de argumentação no ideário de uma pedagogia de línguas norteada pela didatização de práticas concretas de linguagem que possam proporcionar aos estudantes o desenvolvimento cognitivo-sócio-cultural de suas competência e capacidades argumentativas (cf. Azevedo, 2016). Dessa maneira, pretendo colaborar para a construção de conhecimento sobre práticas de ensino que possam favorecer as formas de resistência às práticas hegemônicas, opressoras e excludentes que se perpetuam sócio-historicamente na instituição escolar e na sociedade.

Palavras-chave: Ensino emancipatório; Argumentação; Discurso; Cognição.

 

Minibiografia:

Mestre em Linguística e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Na Universidade Estadual de Santa Cruz, é professor adjunto do Departamento de Letras e Artes, onde atua no Mestrado Profissional em Letras e no Mestrado em Letras: Linguagens e Representações. Coordena o Programa de Divulgação dos Estudos sobre Discurso e Argumentação. Edita a Revista EID&A e é líder do Grupo de Pesquisa “Estudos de Linguagem, Argumentação e Discurso” (ELAD/CNPq).


Comunicação 10

Imagens em (dis)curso: argumentos em circulação nas novas tecnologias

 

Autora:

Fabiana Claudia Viana Borges – Centro Universitário Moura Lacerda – fabiana.borges@mouralacerda.edu.br

Resumo:

As chamadas “novas tecnologias” estão no espaço urbano contemporâneo, seja em eventos políticos, religiosos, artísticos ou em espaços pedagógicos. Nesta comunicação, objetivamos apresentar interpretações sobre o modo como a argumentação se instaura por esses recursos, num efeito discursivo, produzindo sentidos, a partir da análise de imagens que evidenciam a prática de argumentação, o poder de argumentar, pelas chamadas novas tecnologias que clamam por novos gestos de leitura, um outro movimento discursivo de argumentação, outros deslizamentos de sentidos. As imagens aqui analisadas constituem um arquivo de grandes eventos, a saber, discurso político proferido por Barack Obama, discurso religioso de missas realizadas pelo Papa Francisco e letreiros expostos no estádio de futebol Itaquera. A teoria que embasa nossas reflexões é a Análise de Discurso proposta por Michel Pêcheux, o que nos permite considerar as imagens analisadas como argumentos e, por conseguinte, a argumentação como um efeito discursivo, verificando a relação discurso, tecnologia e argumentação, perpassada pelo jogo imaginário e pelos esquecimentos, considerando o sujeito, o político, a história e a ideologia.

Palavras-chave: Discurso; Argumentação; Novas Tecnologias; Imagem.

Minibiografia:

Doutora e mestre em Linguística pela Unicamp, professora de Linguística no curso de Letras no Centro Universitário Moura Lacerda, em Ribeirão Preto. É colaboradora no Projeto de Pesquisa “Aprendizagem Significativa na Escola Pública sob a Óptica da Neurociência, da Matemática, da Ética e Cidadania e das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação”, apoiado pelo Edital Novos Talentos – Capes 2012 e UFF, Campus Rio das Ostras, e pesquisadora no Grupo de Estudos Discurso e Memória: Nos Movimentos dos Sujeitos (CNPq), na USP, em Ribeirão Preto.


Comunicação 11

Linguagem e objetivação: pensando a história e o político em (con)textos do vestibular

Autor:

Hélder Sousa Santos – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro – heldersousa@iftm.edu.br

Resumo:

Nosso trabalho analisa efeitos da demanda de objetivação da linguagem em (con)textos da prova de redação de vestibular/seu funcionamento via discursos construídos pela tradicional prova-vestibular face a obrigatoriedade de ter, na redação de vestibulandos, paráfrases de enunciados de textos motivadores (TM) do exame em questão. De nossa perspectiva teórica, a Análise de Discurso francesa, o mecanismo de objetivação da linguagem, no vestibular, é efeito de (in)determinação de sentidos na ordem de seu discurso (é-feito da manutenção do dizer e da resistência em redizê-lo) e, também, na sua prática: a correção da redação de vestibular. Assim, mesmo que sejam pressupostas certezas à linguagem em situação da prova de redação de vestibular, notam-se conflitos de regularização-reconhecimento dos mesmos sentidos no discurso avaliativo de dois corretores de redação de vestibular (CA e CB). Os CA e CB, com suas histórias de leituras, tencionam o conceito de paráfrase tomado pela instância vestibular para a correção da redação de vestibulandos. Consequentemente, questionamo-nos: quais os efeitos de sentido produzidos na (e sobre a) prova de redação de vestibular pela demanda de determinação do dizer ali instituída?  Nossa análise de recortes de documentos que regulamentam o exame vestibular e de uma redação de vestibular falará disso. Em resumo, a proposta de trabalho reflete o estatuto da noção de argumentação, que, infelizmente, é barrada pelo zelo de objetividade da linguagem em exames históricos como o vestibular. Só que, veremos, há brechas no trabalho de escrita-leitura/interpretação da posição scriptor vestibulando corroborando o efeito-autor, a resistência àquilo que cumpriria ser apenas reproduzido, então, ali: o Um/o mesmo.

Palavras-chave: Objetivação; linguagem; paráfrase; vestibular; redação.

 

Minibiografia:

Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro, onde atua em pesquisa e ensino na área de língua portuguesa. Possui graduação em licenciatura em Letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Patos de Minas (2002), mestrado em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Uberlândia (2010) e doutorado em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Uberlândia (2016). Pesquisa na área da Linguística, notadamente em enunciação e semântica. É membro do Grupo de Estudos em Linguagem & Tecnologia.


Comunicação 12

O ensino da argumentação como mecanismo de resistência na prática de professores brasileiros da educação básica

Autora:

Isabel Cristina Michelan de Azevedo – Universidade Federal de Sergipe -icmazevedo@hotmail.com

Resumo:

Este trabalho discute como os documentos oficiais (cf. PCN, PCN+ e OCEM) impactam as práticas de professores de educação básica no Brasil. Considero, com Foucault (2006 [1978]), que o poder não opera em um único lugar, mas em lugares múltiplos, incluindo na maneira como os professores são orientados a desenvolver práticas pedagógicas direcionadas ao ensino de argumentação, por isso promovo uma articulação entre os modos como os professores são objetivados pelo discurso da ciência pedagógica e linguística; pelo discurso produtivo dos sistemas de ensino que organizam o trabalho dos profissionais da educação e pelas “práticas divisoras” que definem o que deve ser realizado no espaço da escola (FOUCAULT, 1995 [1983]). Esse ponto de vista está alinhado à ideia de que a articulação entre poder e saber é um mecanismo de grande importância na sociedade ocidental, para que seja relevante organizar um aprofundamento teórico em torno do conceito de capacidade argumentativa. Entendo que as condições de mudança de práticas estão associadas às alterações nas relações de poder, que são proporcionadas, entre outros fatores, por uma compreensão detalhada desse conceito, para que se possa encontrar alternativas viáveis para seu desenvolvimento. A concepção que venho difundindo no meio acadêmico (AZEVEDO, 2016) propõe integrar aspectos filosóficos, psicológicos e educacionais, para compreender a capacidade argumentativa como uma condição humana, ação de linguagem e expressão discursiva. Assim, em um processo complexo e não limitado a um único campo de saber, o professor teria em mãos recursos para a fabricação de ferramentas necessárias para transformar as relações profissionais vinculadas ao ensino-aprendizagem da argumentação no ensino fundamental e médio. Não pretendo com isso indicar um único caminho a ser seguido, mas proporcionar meios que colaborem para que o “ensino de língua” deixe de ser apenas uma tarefa técnica para se tornar uma atividade política, como propõe Geraldi (1985).

Palavras-chave: Capacidade argumentativa; Discurso; Processo pedagógico.

Minibiografia:

Isabel Cristina Michelan de Azevedo – Doutora em Letras Clássicas e Vernáculas pela FFLCH da USP, mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP), graduada em Pedagogia e Letras. Na Universidade Federal de Sergipe, é professora adjunta no Departamento de Letras Vernáculas, coordenadora adjunta do Mestrado Profissional em Letras, campus São Cristóvão, e líder do GPARA. Na Universidade Estadual de Santa Cruz, é professora permanente do Mestrado em Letras.


Comunicação 13

Argumentação na sala de aula

Autora:

Josefa Almeida da Silveira – Universidade Federal de Sergipe – josefaletras@gmail.com

Resumo:

Este trabalho apresenta uma sugestão de atividades voltadas para o ensino de língua materna a partir do oral/escrito argumentativo.  Objetiva propor o desenvolvimento da capacidade do senso crítico, da leitura reflexiva, da organização das ideias a partir do entendimento de língua enquanto forma de interação, visando a otimização da habilidade de análise e a construção da argumentação no discurso político. Desenvolve-se com o contato de alunos do Ensino Fundamental (9º ano), de um colégio da rede estadual de Sergipe, situado no Brasil, com discursos políticos (observação, comparação e análise do ponto de vista da argumentação; confronto com problemas vivenciados pela população em geral, a partir de registros coletados na comunidade; troca de ideias e reflexão acerca do papel do político) e produção de uma carta aberta. Parte dos conceitos de produção textual oral e escrita, argumentação e discurso político sob a ótica de diversos estudiosos, como Aristóteles (2013), Fiorin (2015), Fulaneti e Bueno (2013), Grácio (2010, 2013), Koch (2011, 2012, 2015), Osakabe (2002), Perelman e Tyteca (2005), entre outros, com enfoque nos estudos da argumentação com base aristotélica. Justifica-se a relevância da proposta por oferecer embasamento teórico argumentativo ao aluno e despertar sua consciência sócio-política, auxiliando-o na produção textual significativa.

Palavras-chave: Argumentação; Discurso político; Ensino da língua.

Minibiografia:

Mestranda em Letras pela Universidade Federal de Sergipe (Mestrado Profissional em Letras). Pós-graduada em Literatura Brasileira pela Universidade Tiradentes. Especialista em Mídias na Educação pela UFS. Graduada em Letras/Português pela UFS. Professora de Língua Portuguesa da rede básica de ensino do Estado de Sergipe. Integrante dos grupos de pesquisa: GPARA (Grupo de pesquisas em argumentação e retórica aplicadas) e LED (Linguagem, enunciação e discurso para o ensino de LP).


Comunicação 14

A linguagem argumentativa em práticas colaborativas na sala de aula

Autoras:

Juliana Ormastroni de Carvalho Santos – Faculdades Integradas Maria Imaculada –

juocs@bol.com.br

Francisca Nunes da Mota Salvador – Instituto Dinâmico – francismota.s@gmail.com

Resumo:

O contexto escolar caracteriza-se por práticas tradicionais e transmissivas e que geralmente não abrem espaço para o discurso internamente persuasivo (BAKHTIN, 1934-35/1975/2014). Essa realidade não contempla a formação de cidadãos capazes de perceberem as ideologias e diferentes pontos de vista presentes na sociedade. Por isso, com vistas à participação efetiva do sujeito na sociedade, faz-se mister o exercício de práticas escolares que reconheçam e tragam à tona as contradições histórico-culturais e que promovam a argumentação enquanto negociação (MATEUS, 2013). Tais práticas implicam a negociação de diferentes pontos de vista, de modo a provocar a reflexão e a criar atitudes de revisão e transformação de posicionamentos e de respeito a todos os envolvidos no processo educativo, levando-se em conta que as distintas contribuições são consideradas partes de respostas que, juntas, podem corresponder a soluções. Para Leitão (2011), a argumentação envolve negociação entre duas partes divergentes e estas assumem os papéis de proponente e oponente em relação aos pontos de vista apresentados. Nesse quadro, esta comunicação visa discutir diferentes possibilidades de criação de contextos argumentativos em práticas de sala de aula regular na escola pública e em aulas de teatro voltadas para produção de texto, num instituto privado, de modo a explorar o papel da argumentação no processo ensino-aprendizagem. As categorias de análise da argumentação serão feitas com base em Liberali (2013), sendo elas espelhamento, pedido de dis/concordância, Concordância com ponto de vista, Discordância/contestação de ponto de vista, Negação/refutação de argumento, Acordo ou síntese, pedido de sustentação e/ou esclarecimento, Apresentação de esclarecimento, Pedido/apresentação de contra-argumentação. Baseada na perspectiva da Pesquisa Crítica de Colaboração (Magalhães, 2009, 2010, 2011), cujos focos são a produção colaborativa e a criação de contextos de intervenção, esta comunicação ressalta a importância da argumentação enquanto possibilidade de expansão (ENGESTRÖM, 1999; 2002; 2009, 2011) e de transformação da realidade.

Palavras-chave: Contexto escolar; Argumentação; Negociação; Colaboração.

Minibiografias:

Juliana Ormastroni de Carvalho Santos – Licenciada em Pedagogia e Letras; Mestre em Educação e Doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atualmente é professora das Faculdades Integradas Maria Imaculada e atua na formação de professores em cursos de Letras e Pedagogia. Tem como foco de pesquisa os processos de leitura e produção de textos.

Francisca Salvador Mota – Licenciada em Letras; Mestre e Doutoranda em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atualmente é professora e coordenadora do Instituto Dinâmico. Tem como foco de pesquisa os processos de leitura e produção de textos de alunos do ensino Fundamental ao Ensino Médio.


Comunicação 15

Contextos de argumentação colaborativa na formação de professores

Autoras:

Marlene Ribeiro da Silva Graciano – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás – marlenersgraciano@gmail.com

Juliana Ormastroni de Carvalho Santos – Faculdades Integradas Maria Imaculada – juocs@bol.com.br

Resumo:

Criar contextos de formação que possibilitem a organização de relações colaborativo-críticas entre professores para a compreensão e a transformação dos sentidos e significados atribuídos à utilização da leitura como instrumento no processo ensino-aprendizagem das diferentes áreas é uma das necessidades apontadas pelas escolas em seus diversos níveis. Buscando analisar os tipos de relações que organizam as discussões nas sessões reflexivas para a discussão dos sentidos e significados atribuídos à leitura e aos papéis de aluno e de professor, pelos professores participantes da pesquisa, este estudo teve como objetivo analisar a utilização da argumentação em contexto de formação continuada crítico-colaborativo com professores de ensino médio. Mostra-se relevante por descrever uma prática real e abordar as dificuldades de se criar um espaço argumentativo colaborativo. As ações desenvolvidas fundamentaram-se na perspectiva da Teoria Sócio-histórico Cultural (VYGOTSKY, 1930, 1934) por considerar a linguagem como instrumento mediador das relações no processo ensino-aprendizagem no contexto escolar que leva ao desenvolvimento. Também na Pesquisa Crítica de Colaboração – PCCol (MAGALHÃES, 2011; LIBERALI, 2011) por visar criar espaços críticos na visão da colaboração para desestabilizar sentidos e significados cristalizados sobre a utilização da leitura no processo ensino-aprendizagem das diferentes disciplinas como forma de resistência às práticas hegemônicas, compreendê-los e transformá-los. Tratou-se de uma pesquisa de intervenção Crítico-colaborativa desenvolvida no contexto da Linguística aplicada, crítica e transgressiva (PENNYCOOK, 2006). A análise dos dados mostrou a importância das escolhas teórico-metodológicas na construção de espaços crítico-colaborativos mediados pela argumentação colaborativa. Os professores relataram a reorganização de suas práticas de leitura, com base nas mediações externas que levaram ao questionamento, à aprendizagem e à produção de novos significados sobre a leitura, o que revela o desenvolvimento almejado pela pesquisa, o empoderamento dos professores para as práticas de leitura.

Palavras-chave: Sentidos e significados de leitura; Argumentação colaborativa; Formação continuada.

Minibiografias:

Marlene Ribeiro da Silva Graciano é Licenciada em Pedagogia e Letras; Mestre em Educação: Formação de Professores e doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atualmente é professora-pesquisadora do IFG. Desenvolve pesquisas sobre formação de professores, utilização da leitura no processo ensino-aprendizagem das diferentes áreas, análise e produção de material didático e uso da multimodalidade na Educação.

Juliana Ormastroni de Carvalho Santos é Licenciada em Pedagogia e Letras; Mestre em Educação e doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atualmente é professora das Faculdades Integradas Maria Imaculada e atua na formação de professores em cursos de Letras e Pedagogia. Tem como foco de pesquisa os processos de leitura e produção de textos.


Comunicação 16

Argumentação nos livros didáticos do ensino médio: mudanças e permanências

Autora:

Maria Inês Batista Campos – Universidade de São Paulo – maricamp@usp.br

Resumo:

Nesta comunicação, o objetivo é selecionar algumas obras didáticas de língua portuguesa do ensino médio abrangendo as décadas de 1970 a 1980 com o propósito de analisar as atividades oferecidas aos alunos para produzirem textos dissertativos. Partiremos da década de 1970, durante o período militar, recuperando as leis que serviram de guia para uma pretensa transformação do Ensino no que se chamava Secundário para os Cursos Clássico e/ou Científico, ou Profissionalizantes. O foco será a maneira de abordar o trabalho de redação para os alunos do 2° Grau, partindo das orientações previstas nas leis em vigor. Que mudanças ocorreram nos livros didáticos durante a ditadura militar e como o debate de ideias foram trabalhados nas atividades de dissertação, argumentação, redação? Foi a partir dessas décadas que o conteúdo programático passa a ser dividido em aulas de literatura, gramática e redação. Uma marca que merece destaque nesse período é a difícil atividade Redação Escolar receber a atribuição de “Criatividade”. Como os livros didáticos modificaram esse ensino de produção de texto na década de 1980 no ensino médio? A partir de uma perspectiva bakhtiniana, vamos recuperar o percurso trilhado em livros didáticos quanto à produção de textos dissertativos embasados em teorias linguísticas. Que teorias foram usadas pelos autores? Com que objetivos? Como esse ensino se deu? Onde chegou nas décadas seguintes? Tal resgate se deve no momento atual em que as avaliações de redação do ENEM fazem parte da pauta dos problemas dos órgãos que avaliam o ensino nacional.

Palavras-chave: dissertação; argumentação; regime militar; livro didático; autoria.

Minibiografia:

Professora pesquisadora na área de Filologia e Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo. Integra o Grupo de Pesquisa GEDUSP (Grupo de Estudos do Discurso da USP), o Grupo de Pesquisa “Linguagem, identidade e memória” e o Grupo de Trabalho da ANPOLL “Estudos Bakhtinianos”. Realizou três pós-doutorados: no LAEL-PUC-SP (2008 a 2010); na Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFGRS (2014) e na Université Vincennes-Saint-Denis, Paris 8 (2015). Foi coordenadora do Mestrado Profissional em Letras /PROFLETRAS/USP (2013 -2015). Algumas obras: Ensinar o prazer de ler (1999); A construção da identidade nacional nas crônicas da Revista do Brasil (2011); livros didáticos Gêneros em Rede: Leitura e Produção de Texto (2013).


Comunicação 17

Semântica e discurso: uma análise sobre o interdito nas práticas educativas contemporâneas

Autores:

Paulo Rogério Borges – Universidade de São Paulo – prborges@usp.br

Cássia Regina Souza da Cruz – SENAI-SP – cassia.cruz@sp.senai.br

Resumo:

O modelo de ensino com base em competências e o papel da tecnologia no mundo atual têm sido motivo de muita reflexão, discussão e polêmica. Este artigo propõe uma análise da relevância semântica do discurso utilizado nesse modelo de ensino associado ao uso de recursos tecnológicos, estabelecendo uma comparação com a carga semântica do discurso usado em outros modelos de educação. Nesse novo cenário há toda a construção de uma nova linguagem e um discurso estruturado a partir de enunciados em que cada termo empregado é carregado de fortes poderes semânticos, do mesmo modo em que há uma interdição explícita de termos representativos de modelos educacionais diferentes ao de competências, partindo de algumas apropriações da teoria da análise do discurso de Michel Pêcheux e de Eni Puccinelli Orlandi, destacando a questão do não-dito e do interdito no âmbito da linguística e das mídias digitais. No universo escolar, a palavra de ordem, como uma das facetas do interdito, se pronuncia à medida que vão surgindo novas propostas didático-pedagógicas. Compreendendo a noção de palavra de ordem, como um atributo inerente à linguagem, é nos processos de comunicação que ela se faz mais representativa e poderosa. Fazendo uso de regras de classificação, incluímos algumas categorias em detrimento de outras, ou seja, enquanto categorizamos certos termos em uma classe, automaticamente excluímos outros. Observa-se então que o uso da palavra ou a impossibilidade de seu uso, ou ainda, a proibição de seu uso é entendida na forma do interdito como fundador do discurso, ou seja, basta que algo não seja dito ou que seja interditado de ser dito para que um novo discurso se instaure. O uso desses novos termos faz do emissor uma pessoa bem esclarecida e evoluída; em contrapartida, o uso dos vocábulos “proibidos” insinua que o falante é desinformado e desatualizado.

Palavras-chave: Metodologias de ensino; Tecnologias; Interdito; Semântica; Discurso.

 

Minibiografias:

Paulo Rogério Borges – Doutorando em Educação pela Faculdade de Educação da USP, da qual concluiu o mestrado também em Educação (2013), possui graduação em Pedagogia pela Universidade Bandeirante de São Paulo (2005) e graduação em Licenciatura em Educação Artística pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo (1995). Atualmente atua como Coordenador Pedagógico na Escola SENAI “Conde Alexandre Siciliano”, em Jundiaí-SP.

Cássia Regina Souza da Cruz – Pós-graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional pelo Centro Universitário UNINTER (2006) e possui Licenciatura em Língua Portuguesa pelo Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUCCAMP (1996). Tem mais de 20 anos de experiência como professora de Língua Portuguesa e atualmente atua na Gerência de Educação do SENAI-SP como Especialista em Educação Profissional.


Comunicação 18

A expressão da repressão nos textos argumentativos das representações artísticas e culturais como suporte para a produção escrita

Autoras:

Salete Borino – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia – salete.borino@ifro.edu.br

Rosane Salete Sasset – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia – rosane.sasset@ifro.edu.br

Resumo:

O exercício da cidadania se dá por meio de vários instrumentos que permitem a expressão comunicativa do indivíduo. Da mesma forma, para seu empoderamento, o cidadão pode utilizar-se do instrumento da comunicação como forma de opressão e dominação. Nesse contexto, e com base na argumentação discursiva, a sociedade viveu – e ainda vive – momentos históricos de repressão. Em Língua Portuguesa se podem encontrar textos de gêneros variados que fazem alusão à repressão e à dominação social brasileira em diversas fases de sua história política. A Arte, a Literatura, o Cinema e a Música registram de maneira lúdica e cultural tais acontecimentos e fatos marcantes. Alguns desses registros serviram de instrumento para a aplicação de uma prática pedagógica para o ensino de gêneros textuais como o artigo de opinião e a resenha crítica com alunos do segundo ano do curso Técnico em Agropecuária Integrado ao Ensino Médio do IFRO Campus Colorado do Oeste. Com vistas a suscitar nos discentes a argumentação como forma de persuasão, buscou-se apresentar textos literários, artísticos, cinematográficos e culturais representativos de momentos históricos de repressão social. A produção de textos críticos sobre as impressões dos discentes a respeito de um período histórico, com o estabelecimento de uma relação com a atualidade brasileira ou a de um país vizinho que tem a Língua Espanhola como idioma oficial resultou em trabalhos que demonstraram o amadurecimento da cidadania dos jovens estudantes. Autores como Foucault (2002, 2004), Nercolini (2005, 2006, 2009), Bakhtin/Volochinov (1992), dentre outros, deram o suporte teórico. Os resultados obtidos demonstraram que os diferentes gêneros textuais estudados, propiciaram diversas leituras, debates, discussões entre todos os envolvidos, o que implicou em uma melhor argumentação também quando da produção de textos escritos, pois despertou a criatividade e a criticidade que devem estar presentes nas transformações pelas quais passa o aluno/cidadão.

Palavras-chave: Expressões artístico-culturais; Repressão e dominação social; Produção de textos críticos.

Minibiografias:

Salete Borino – Mestra em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pelo Centro Universitário de Araraquara – Uniara. Especialista em Metodologia de Ensino. Possui graduação em Letras/Inglês pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Jandaia do Sul. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia, Campus de Colorado do Oeste. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, Língua Inglesa e Língua Italiana.

Rosane Salete Sasset – Mestra em Ciências – área de concentração em Educação Agrícola pela UFRRJ. Graduada em Letras pela UPF/RS e Língua Espanhola pela Unoesc-Xanxerê/SC. Especialista em Leitura, Análise e Produção Textual. Especialista em Língua Espanhola e Respectivas Literaturas. Professora do Instituto Federal de Rondônia – Campus Colorado do Oeste. Tem experiência em Língua Portuguesa e Língua Espanhola. Desenvolve pesquisas na área da inter/transdisciplinaridade, currículo integrado e ensino e aprendizagem de línguas.


Comunicação 19

Argumentação, autoria e ideologia: o sujeito-escolar e sua relação com a escrita

Autora:

Soraya Maria Romano Pacífico – Universidade de São Paulo – smrpacifico@ffclrp.usp.br

Resumo:

Este trabalho tem como questão central investigar como se dá a constituição do sujeito-escolar no tocante à argumentação e autoria, noções que serão investigadas segundo a teoria da Análise do Discurso pecheuxtiana. Uma das razões para eleger essa teoria como embasamento da prática pedagógica deve-se ao fato de que, segundo Pêcheux, o discurso não deve ser entendido como simples transmissão de informação, mas sim, como efeito de sentidos; logo, sujeitos e sentidos constroem-se junto com texto, pois nem um nem outro estão prontos e acabados. Isso implica conceber a não transparência, a não neutralidade e a incompletude da linguagem.  A autoria exige que o sujeito assuma a responsabilidade pelo dizer, historicize os sentidos, bem como controle a dispersão e a deriva possíveis de ocorrerem no processo de produção dos textos. A prática discursiva da argumentação é entendida, aqui, como um direito humano que deve ser exercido e incentivado no contexto escolar, para ser praticado no cotidiano dos sujeitos. É sabido que, não raro, os sujeitos-alunos marcam resistência para as produções escritas, reação esta que vem em resposta, de modo geral, a uma prática pedagógica silenciadora do poder de argumentação e autoria. O corpus analisado é constituído de redações produzidas por sujeitos-alunos que frequentam escolas brasileiras de Educação Básica. As redações foram produzidas por eles a partir de leitura e discussão realizadas em sala de aula, do texto Uma história com mil macacos, de Ruth Rocha. A argumentação sustentou essa atividade. Partimos do princípio que há uma relação entre argumentação e autoria, ou seja, para que o sujeito produza um texto argumentativo, ele deve ocupar a posição de autor. Com base nas análises, observamos indícios de argumentação e autoria nas produções dos alunos. A prática discursiva aberta à argumentação e autoria considerou os sujeitos em sua relação com a língua, a história e a ideologia, contribuição fundante da Análise do Discurso pecheuxtiana.

Palavras-chave: Discurso; Argumentação; Autoria; Sentidos; Educação Básica.

Minibiografia:

Soraya Maria Romano Pacífico, formada em Letras, Mestre em Linguística e Língua Portuguesa- UNESP/Araraquara; Doutora em Ciências -FFCLRP/USP; Pós-Doutorado pela UNESP/Araraquara. Docente do Departamento de Educação, Informação e Comunicação, no curso de Pedagogia da FFCLRP/USP e nos Programas de Pós-Graduação em Psicologia e de Pós-Graduação em Educação, da FFCLRP/USP. Desenvolve pesquisas sobre Leitura, Escrita, Argumentação e Autoria.


Comunicação 20

29 de abril de 2015 em contexto de greve no Paraná: a resistência em discursos no jornalismo impresso

Autor:

Cássio Henrique Ceniz – Universidade Estadual de Maringá – cassioceniz@gmail.com

Resumo:

No primeiro semestre de 2015, o Estado do Paraná vivenciou uma das greves mais longas de sua história. Os professores da rede básica lideraram o movimento que também reuniu outras categorias do funcionalismo público estadual. No geral, foram cerca de 70 dias de paralisação divididos em dois momentos. O projeto de lei apresentado pelo governo estadual para mudança da Paranáprevidência, plano previdenciário dos servidores, foi o principal motivo para deflagrar a greve. Um dos episódios que marcaram o movimento ocorreu em 29 de abril de 2015, dia em que os deputados estaduais aprovaram o projeto por 31 votos a favor e 20 contra. Enquanto acontecia a votação na Assembleia Legislativa, a polícia atuava no controle externo com uso de força o que ocasionou o ferimento de aproximadamente 200 pessoas. O acontecimento repercutiu na imprensa, inclusive internacional, e possibilitou a circulação de inúmeros discursos, consequentemente, argumentos. A partir da ideia de acontecimento discursivo e das noções formuladas por Michel Foucault, este trabalho objetiva compreender a formação de modalidades enunciativas de resistência sobre o acontecimento em questão. Para isso, a edição do jornal Gazeta do Povo, publicado no dia posterior ao episódio, foi escolhido para constituir o corpus analítico. O desenvolvimento contempla a descrição dos enunciados selecionados, a análise das regularidades e rupturas discursivas na atualidade sobre o acontecimento e a observação da relação poder/saber dos discursos. A série enunciativa indica, já nos movimentos iniciais de análise, que a responsabilização e a culpabilização emergem como alguns dos argumentos das posições discursivas dos sujeitos reforçando a heterogeneidade e a polêmica constitutivas das relações políticas entre eles.

Palavras-chave: Discurso; Argumentação; Greve; Resistência; Poder.

 

Minibiografia:

Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e pesquisador vinculado ao Grupo de Estudos Foucaultianos da mesma instituição (GEF). Possui graduações em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo e em Letras (Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Literaturas). É especialista em Assessoria de Imprensa e Comunicação Empresarial e atua como assessor de comunicação da reitoria da Unespar.


Comunicação 21

Estratégias argumentativas no discurso midiático: uma análise sobre a resistência das ocupações em escolas públicas brasileiras

Autora:

Edjane Gomes de Assis – Universidade Federal da Paraíba – assisedjane@hotmail.com

 

Resumo:

Ao longo do tempo a sociedade imprimiu movimentos de resistência mesmo em pleno regime de intensa repressão e cerceamento dos sujeitos. Algumas passagens da história são emblemáticas para nos revelar como os sujeitos, mediados por um lugar e posição social, se utilizaram destes movimentos para constituir poder, pois conforme Foucault (2000), “onde há poder, há resistência”. As resistências estavam em plena era medieval, nas civilizações que se contrapunham aos (e)feitos do Império Romano; estavam nos campos de algodão, através dos cantos dos escravos negros americanos e estão na atualidade, na liquidez de nossa sociedade, adornando nossa forma de ver e entrever os discursos que são materializados nas instâncias sociais. Assim, com base em Bakhtin (2000), Pêcheux (1997), Foucault (2005), dentre outros teóricos, nosso trabalho objetiva analisar como a mídia (sobretudo os telejornais: Jornal Nacional e Jornal da Band) e o Ministério da Educação (MEC), utilizou estratégias argumentativas para disciplinar o olhar dos telespectadores diante das ocupações de alunos secundaristas e universitários em instituições educacionais públicas brasileiras. As ocupações aparecem, mais especificamente, em Outubro de 2016 em protesto contra a Proposta de Emenda Constitucional 55 (PEC 55), que prevê mudanças em vários setores do país, sobretudo na educação básica. A alteração do enunciado “invasão” para “ocupação” (amplamente utilizado nos telejornais e na nota do MEC sobre o tema), aparece com nervuras de uma intensa carga ideológica, promovendo, assim, uma ação “responsiva ativa” (Bakhtin, 2000). No caso específico das ocupações, os telejornais e o próprio Ministério da Educação, utilizaram argumentos que criam uma imagem dos estudantes mantendo um jogo de similitudes como sujeitos transgressores e vilões. Defendemos, portanto, que as estratégias de argumentação ressurgem envoltas de efeitos simbólicos (típicos do século XXI), para (re)afirmar “novos” discursos e “novos” modos de resistência.

Palavras-chave: Mídia; Argumentação; Poder; Resistência; Ocupações.

 

Minibiografia:

Professora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas (DLCV) da Universidade Federal da Paraíba, Campus I. Possui Mestrado e Doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL – UFPB). Desenvolve pesquisas em Análise do Discurso francesa com ênfase em textos midiáticos. Atua no grupo de pesquisa Observatório do discurso. Linha de pesquisa: Análise do discurso da mídia e suas interfaces. Publicação mais recente: “No devir da memória do discurso midiático” (Lançado em 2015 – pela Pedro & João Editores).


Comunicação 22

#velhaparaisso: o discurso de empoderamento e resistência em propagandas de uma marca de cosméticos

Autora:

Edna Silva Faria – Universidade Federal de Goiás – edfar2005@hotmail.com

Resumo:

É notória e histórica a condição de inferioridade delegada à figura feminina em várias sociedades ainda hodiernamente. Muitos esforços, em diversos campos, têm sido travados para que a mulher seja respeitada como ser humano e em prol de seus interesses. A sociedade estabelece uma determinada faixa etária para a realização de atividades e, por estar fora do padrão para a execução de tarefas e/ou a realização de desejos pessoais – tatuar-se, ser mãe, mudar a cor dos cabelos, praticar esportes radicais, a mulher é considerada velha. Relega-se a veleidade feminina a um segundo plano, principalmente se essa vontade estiver relacionada a hábitos, escolhas e ações consideradas mais apropriadas para jovense adolescentes. Empregando a metodologia de pesquisa bibliográfica e da análise de corpus, fundamentado na Análise de Discurso de linha francesa – nos trabalhos de Maingueneau (2006; 2015) e Charaudeau (2006; 2016), e nos estudos empreendidos por Foucault (2010), Bakhtin (2009) e Van-Dijk (2012; 2015), este trabalho objetiva demonstrar o processo de construção discursiva para o empoderamento de mulheres em propagandas de uma marca de cosméticos brasileira e, também, analisar os recursos argumentativos empregados no processo de empoderamento e de resistência incentivados pela concepção de que não há idade certa para se fazer o que se deseja. Os resultados parciais observados demonstram que um dos procedimentos argumentativos adotados buscam desconstruir a concepção preconceituosa de uma idade adequada para que a mulher realize seus sonhos.

Palavras-chave: Discurso; Mulher; Publicidade; Empoderamento; Resistência.

 

Minibiografia:

Possui graduação em Letras pela Universidade Estadual de Goiás, Mestrado em Letras e Doutorado em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás. Professora assistente da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás, Vice-Coordenadora do curso de Letras: Linguística na Faculdade de Letras da UFG. Professora na Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Líder do NECH e coordena o GESEM (Grupo de Estudos em Semiótica – PUC/GO).


Comunicação 23

Quando a dissidência silencia

Autora:

Eliana Amarante de M. Mendes – Universidade Federal de Minas Gerais – mendes@ufmg.br

Resumo:

Nesta comunicação, pretende-se refletir sobre a recepção  do discurso jornalístico. Na “Folha de São Paulo”, há um espaço para que os leitores, devidamente identificados,  se manifestem sobre as matérias publicadas. Esse espaço seria,  portanto, um espaço privilegiado para a avaliação da recepção da comunicação midiática escrita.  Entretanto,  analisando-se os comentários de leitores desse jornal nos dois  últimos anos,   verificam-se poucos subsídios para a plena avaliação  da recepção. Um problema com que se depara  é o fato de serem  raríssimos  os comentários de leitores que contestam as posições  desse jornal. A grande maioria se manifesta em apoio a elas. Esses dados parecem  indicar: (i) ou que há coincidência entre os pontos de vista dos leitores e do jornal; (ii) ou  que os leitores foram persuadidos pelo jornal, aderindo a suas teses. É, no entanto,  de se estranhar tal consenso ou tamanha adesão às teses do jornal.  Segundo  teoria desenvolvida por  Noelle-Neuman,  esse consenso é só aparente.  Para  ela, ocorre que  os indivíduos omitem sua opinião quando conflitante com a opinião dominante devido ao medo do isolamento. Avaliam o ambiente ao seu redor, e ao perceberem  que pertencem à minoria, preferem se resguardar para evitar impasses. A dissidência silencia. Esse comportamento gera uma tendência progressiva ao silêncio que a autora chama de  espiral do silêncio. Não expondo sua  posição, o dissidente não  resiste às investidas da mídia, compactua com a maioria, levando  outros dissidentes também  a não  verbalizá-la, a silenciar.  Embora tal teoria seja interessante, e justifique a quase ausência da dissidência nos dados analisados, é difícil, na prática, comprová-la. É provável que o jornal reprima  as manifestações dos dissidentes, omitindo-as.  Pretende-se discutir nesta comunicação  o fato de que,  em termos de recepção, o par teoria/prática  vai ser sempre problemático e suspeito,  o que  justifica o pequeno investimento em pesquisas nessa área.

Palavras-chave: recepção; mídia  jornalística; dissidência; silêncio.

Minibiografia:

Eliana Amarante de M. Mendes é Professora Titular em Estudos Linguísticos da UFMG. É mestre em Linguística pela UFMG, doutora em Filologia e Língua Portuguesa pela USP. Realizou estágio pós-doutoral na Universidade Mackenzie.  Atua no Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos, orientando Mestrado e Doutorado e Residência  Pós-Doutoral . É vinculada às linhas de Análise do Discurso  e de Retórica.


Comunicação 24

A representação diacrônica dos segmentos pauperizados pela exclusão ou precária inserção no mercado de trabalho no jornalismo impresso brasileiro

Autor:

Fábio Fernando Lima – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho/UNESP – fabiofernandolima@uol.com.br

Resumo:

Circunscrito ao quadro teórico e metodológico da Análise Crítica do Discurso, o objetivo central desta comunicação é o apresentar os resultados de uma pesquisa que se propõe a analisar e descrever, especificamente sob a ótica do modelo de análise tridimensional proposto por Fairclough (1997, 2001, 2003) e da Nova Retórica de Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996), as estruturas responsáveis pelo estabelecimento das relações interpessoais e as intersecções destas com a persuasão no noticiário de jornais brasileiros publicado no decorrer dos séculos XIX, XX e XXI acerca de determinados grupos marginalizados socialmente, aqui entendidos enquanto segmentos pauperizados pela precária inserção e/ou exclusão do mercado de trabalho, e que assim se encontram em situação de subordinação sócio-econômica, política e/ou cultural em relação a outro grupo, majoritário e dominante. Considerando que esses veículos de comunicação sempre estiveram sob o controle das classes dominantes, partimos do princípio de que encontraremos, nesse noticiário, um preconceito de base, em consonância com a própria ideologia vigente nesses grupos, materializado mediante diversos procedimentos discursivos que buscam o estabelecimento de determinados consensos hegemônicos e a manutenção do status quo. Ao analisarmos as práticas discursivas manifestadas em cada um dos períodos pré-selecionados, esperamos encontrar continuidades e mudanças nas práticas sociais subjacentes, atinentes às representações, ideologias e posições hegemônicas acerca dos referidos grupos, com uma preocupação maior, no caso do noticiário contemporâneo, em mascarar a intolerância, mediante diversas estratégias discursivas de persuasão e controle, em contraposição aos textos mais antigos. Aliás, os resultados parciais tem sustentado essa hipótese inicial, ratificando a posição de Van Dijk (2008) de acordo com a qual, nas sociedades modernas, o poder exercido pelos jornais inclui maneiras sutis de influenciar, o que é obtido por meio do controle da quantidade, do tipo de informação e da determinação da relevância dos tópicos.

Palavras-chave: Análise Crítica do Discurso; Noticiário; Argumentação; Exclusão; Relações Interpessoais.

Minibiografia:

Mestre em Estudos Linguísticos pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho/UNESP-São José do Rio Preto (2004), Doutor (2009) e Pós-Doutor (2013) em Letras (área de concentração: Filologia e Língua Portuguesa) pela Universidade de São Paulo. É Pesquisador com Bolsa FAPESP (Modalidade “Jovem Pesquisador – Processo 2016/04839-3) junto ao Departamento de Linguística da UNESP de Assis.


Comunicação 25

Orientação argumentativa e cognição corporeada: o debate sobre os rolezinhos na Folha de S. Paulo

Autor:

Paulo Roberto Gonçalves-Segundo – Universidade de São Paulo – paulosegundo@usp.br

Resumo:

No final de 2013 e no início de 2014, os rolezinhos — encontros de jovens realizados, primariamente, em shopping centers de grandes centros urbanos brasileiros — tornaram-se notícia nacional e centro de calorosa polêmica na mídia, mobilizando especialistas de distintas áreas, que tendiam a polarizar os eventos como manifestações orientadas ora pela diversão, ora pela contestação social. Dentre o jornalismo impresso, a Folha de S. Paulo destacou-se por apresentar uma cobertura extensiva da prática tanto nos gêneros informativos quanto opinativos. Nosso objetivo, neste trabalho, é analisar a argumentação desenvolvida em dois artigos de opinião — publicados nesse jornal e assinados por juristas de posições antagônicas em relação à concessão de uma liminar que proibiu a realização dos rolezinhos em shoppings de São Paulo —, atentando para as formas pelas quais os encontros são representados nos textos, especialmente no que tange à relação entre os jovens, os shoppings, a sociedade e o aparelhamento do Estado. Para isso, exploraremos um diálogo teórico, já iniciado por Oakley (2005), Dishong (2004) e Gonçalves-Segundo (2014, 2015, 2016), entre a Linguística Cognitiva (LC) e as teorias da argumentação, a destacar Toulmin (2006 [1958]), Breton (2003) e Eemeren, Grootendorst & Henkemans (2002). Para esta apresentação, abordaremos detidamente o princípio cognitivo de Dinâmica de Forças (DF), proposto por Talmy (2000). Assim, mostraremos de que modo a análise das interações entre forças permite um exame pormenorizado de uma série de procedimentos e estratégias argumentativas, como o enquadramento do real, a definição, o argumento causal, a refutação, a concessão e a hierarquia de valores, considerando, especialmente, três grandes pontos de confronto ideológico nos textos: a concepção de shopping como espaço público ou privado, a preponderância do direito à manifestação ou do direito à propriedade, e a visão do rolezinho como encontro de pura diversão ou como evento de contestação social.

Palavras-chave: Dinâmica de Forças; Argumentação; Linguística Cognitiva; Rolezinho; Artigo de opinião.

Minibiografia:

Docente pelo Programa de Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo. É líder do Núcleo de Estudos em Análise Crítica do Discurso da mesma universidade, membro do grupo de pesquisa Estudos de Linguagem, Argumentação e Discurso e pesquisador do Projeto História do Português Paulista. Desenvolve trabalhos em Análise Crítica do Discurso e na abordagem textual-interativa, com interfaces com a Linguística Sistêmico-Funcional e a Semântica Cognitiva.


Comunicação 26

Discurso político vs discurso da mídia – um jogo de categorizações

Autora:

Zilda Gaspar Oliveira de Aquino – Universidade de São Paulo – ziaquino@usp.br

Resumo:

Este trabalho tem por proposta observar o discurso político e a correlação que se estabelece entre este e o discurso da mídia, tendo em vista a construção de realidades em que se busca levar os interlocutores a compartilhar e a aceitar posições determinadas. Entende-se que as estratégias de persuasão mesclam-se às estratégias cognitivas, pois que as escolhas linguísticas efetuadas junto a um contexto físico, cultural, social, político encaminham a construções, manutenções, reconstruções determinadas que podem levar à ação numa direção determinada, instituindo-se a relação de poder que a mídia e o discurso político podem almejar. Os corpora referem-se à Proposta de Emenda Constitucional – PEC 241/2016, apresentada pelo governo Temer, e à repercussão dessa proposta em periódicos diários, como O Globo, a Folha de S.Paulo, e semanais, como Carta Capital. Inúmeras instituições de ensino médio no país foram ocupadas pelos estudantes, e o discurso político e o da mídia produziram seus discursos frente a essa questão num jogo de construção de realidades específicas, em que nominalizações e categorizações operam decisivamente para a persuasão do interlocutor, conforme revelam os resultados de nossas análises. As bases teóricas dizem respeito aos trabalhos de Apothéloz (1995), Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996[1958]), Koch e Marcuschi (1998), (Aquino (2016) entre outros.

Palavras-chave: argumentação; cognição; discurso político; discurso da mídia; relações de poder.

Minibiografia:

Professora Doutora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo, Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras em Rede (PROFLETRAS-USP), Coordenadora do PROCAD, USP-UFRN-UNISINOS, Coordenadora do Grupo de Estudos do Discurso da USP – GEDUSP. Linhas teóricas: Teorias da Argumentação, Análise Crítica do Discurso, Linguística Cognitiva e Linguística Aplicada, voltando-se aos  Estudos do Discurso e ao Ensino de Língua Portuguesa.


Comunicação 27

Narrar para convencer: “picturebooks” como instrumento de resistência social

Autora:

Beatriz dos Santos Feres – Universidade Federal Fluminense – beatrizferes@id.uff.br

Resumo:

Neste trabalho, cuja base teórica se centra na Teoria Semiolinguística de Análise do Discurso, toma-se a argumentação não a partir das características formais ligadas à explicação do porquê e do como dos fatos, mas sim da finalidade argumentativa implícita em narrativas, nas quais se descrevem as qualidades dos seres e suas ações, a fim de convencer o outro, sobretudo, por sua adesão ao projeto discursivo que ali se consolida. Narrativas permitem ao leitor se identificar com as personagens e com a dramaticidade de suas ações, possibilitando uma atitude projetiva (CHARAUDEAU, 2004) potencialmente ligada ao fazer crer, diversa da atitude impositiva própria das argumentações propriamente ditas. Pressupõe-se que a combinação entre forma narrativa e função argumentativa propicia que sejam somadas, às estratégias de persuasão, as estratégias de sedução baseadas em visadas patêmicas delineadas por representações sociais, que, por um lado, espelham o ser social e, por outro, podem expor a fragilidade ideológica de suas certezas. Como corpus para análise, elege-se o livro ilustrado para crianças (picturebook) por se caracterizar como bem cultural altamente propício tanto para o espelhamento e a conformação social, quanto para a resistência ideológica, como se observa desde Flicts, de Ziraldo (1996 [1969]) e Romeu e Julieta, de Ruth Rocha, com ilustrações de Mariana Massarani (2009 [1977]), por exemplo, até nas recentes narrativas “desconstrutoras”, como em Uma princesa nada boba, de Luiz Antônio, com ilustrações de Biel Carpenter (2011). Sua semiose verbo-visual se constitui de variados recursos discursivos favoráveis à disseminação de valores e ao empoderamento de indivíduos suscetíveis a práticas de exclusão e de opressão social. Dentre esses recursos, destacam-se a referenciação realizada por meio da interação entre palavras e imagens, responsável pela disseminação de valores e crenças, e a iconicidade, responsável pela produção eficaz de efeitos patêmicos e, indiretamente, pela sedução que se alia à persuasão.

Palavras-chave: Discurso; Persuasão Projetiva; Sedução; Picturebooks; Semiolinguística.

Minibiografia:

Professora de Língua Portuguesa no Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense (Brasil). Atua no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem, na linha “Teorias do Texto, do discurso e da interação”, no qual orienta trabalhos de Mestrado e Doutorado. Autora de Leitura, fruição e ensino: com os meninos de Ziraldo (EdUFF, 2011) e coautora de Leitura e formação do leitor: cinco estudos e um relato de experiência (7Letras, 2016).


Comunicação 28

Breve estudo sobre uma ideologia de vida e uma forma de resistência à opressão ditatorial desveladas pelo sujeito-narrador de um livro de Memórias

 

Autora:

Ida Lucia Machado – Universidade Federal de Minas Gerais – idaluz@hotmail.fr

Resumo:

Em nossas pesquisas mais recentes, ao analisar relatos de vida, examinamos a construção de atos linguageiros de narradores diversos, observando quais estratégias cada um deles utiliza nesse tipo de prática ou materialidade discursiva. Interessa-nos também o estudo das razões que conduzem tais sujeitos-falantes ao ato de  narrar-se: desejo de liberação de um passado por demais pesado, aspiração de deixar um legado às gerações futuras… mas também, anseio de testemunhar sobre fatos vividos em determinadas épocas conturbadas da História e suas capacidades para resistir (com sucesso ou não) às “palavras de ordem” de poderes arbitrariamente instituídos. No caso, os narradores servem-se de estratégias argumentativas para consignar por escrito palavras que mostram o modo como resistem às vozes totalitárias que visam conglomerar pensamentos, palavras e ações criativas formando uma massa uniforme, amorfa e sem ideais. Gostaríamos aqui de analisar alguns excertos do livro de Memórias (1999) – que contém palavras e desenhos- de um arquiteto comunista brasileiro – Oscar Niemeyer – que tentou, à sua maneira, resistir à censura do golpe militar dos anos 60 no Brasil, por meio de suas obras arquiteturais, onde vê-se que figuras como a ironia e a metáfora ali estão presentes, a burlar a censura instituída em uma nação dominada pela opressão. Em suas Memórias, Niemeyer mostra seu olhar sobre esse período e fala da esperança que deposita em gerações futuras. Nesta análise, como metodologia de trabalho, operaremos uma reunião de  conceitos vindos da análise do discurso Semiolinguística (CHARAUDEAU, 1992) – pois, tal teoria discursiva a nosso ver dá espaço para a instauração de uma polifonia bakhtiniana -, com outros ligados à sociologia (BERTAUX, 1992, MACHADO, 2016, KAUFMANN, 2004) privilegiando, em toda nossa análise, a visão argumentativa de Amossy (2016). Nosso objetivo será o de mostrar que, em suas práticas discursivas, Niemeyer manteve intacta sua ideologia política e semeou, com suas palavras e suas obras arquiteturais, símbolos de resistência à opressão.

Palavras-chave: Memórias; Análise do Discurso; Dimensões argumentativas; ideologia; símbolos de resistência.

Minibiografia:

Professora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da FALE/UFMG, onde ministra cursos e orienta mestrados, doutorados e pós-doutorados em Análise do Discurso de tendência francesa. Doutora ès Lettres pela Université de Toulouse II com dois estágios pós-doutorais em Análise do Discurso, realizados em Paris XIII (1998) e Paris III (2005, 2006) na França. Suas pesquisas centram-se em narrativas de vida, sujeitos do discurso, estratégias argumentativas. É pesquisadora 2 do CNPq.


Comunicação 29

Argumentação e performance de identidades estigmatizadas

 

Autoras:

Maria do Carmo Leite de Oliveira – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – mcleitedeoliveira@gmail.com

Carla Mirelle de Oliveira Matos Lisboa – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro / Universidade Lusíada de Lisboa  – mirellematos@gmail.com

Resumo:

Um dos dramas sociais, principalmente nas grandes metrópoles, é o fato de haver pessoas que moram nas ruas, em decorrência de fatores como desastres naturais, problemas sociais, econômicos ou psicológicos. Algumas das categorizações culturalmente dominantes atribuídas a essa população são as de vagabundos, viciados, violentos, dentre outras. No caso de mulheres, as categorizações negativas são mais críticas quando elas vivem com os filhos na rua, ou ficam grávidas. Neste trabalho, examinamos uma história de deslocamento interno, gerada, no âmbito de uma entrevista de pesquisa. A narradora é uma mulher que se viu obrigada a deixar sua casa, depois de fortes temporais, indo para a rua com os filhos. À luz de uma perspectiva etnometodológica (Garfinkel, 1967), pretendemos examinar o uso de (accounts) como estratégia argumentativa. Os resultados mostram que a narradora admite ações e comportamentos alinhados aos estigmas de senso comum dos quais os moradores em situação de rua são portadores. No entanto, através do uso das explicações nega responsabilidade por eles. Já no que se refere à sua identidade de mãe, a narradora, por um lado, assume a responsabilidade pela perda dos filhos, mas nega a qualidade pejorativa de mãe negligente. Ao contrário, ela constrói uma identidade de mãe alinhada a um discurso dominante que vê a maternidade como o sentido da vida para  a mulher.

Palavras-chave: Rua;  Accounts; Estigma; Identidades; Resistência.

Minibiografias:

Maria do Carmo Leite de Oliveira – Professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pesquisadora do CNPq. Seus interesses de pesquisa são em especial a linguagem e a interação e as práticas profissionais/ ocupacionais. Sua publicação mais recente foi a coedição com a Profa. Dra. Ana Cristina Ostermann do livro Você está entendendo? Contribuições do estudo de fala-em-interação para a prática do teleatendimento. Campinas: Mercado de Letras, 2015.

Carla Mirelle de Oliveira Matos Lisboa – Doutoranda em Estudos da Linguagem na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde é bolsista Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Mestra em Estudos de Linguagem pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde foi bolsista nota 10 da FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Possui graduação em Letras Português pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).


Comunicação 30

 “Tempos modernos”: disciplinarização do sujeito e produtividade

Autora:

Maria Emília de Rodat de Aguiar Barreto Barros – Universidade Federal de Sergipe – mebarreto58@yahoo.com.br

Resumo:

Este trabalho resulta da pesquisa PIBIC/UFS (2016- 2017), intitulada “Tempos modernos” nas tramas do discurso. Analisamos discursivamente o texto fílmico, atentando para o sujeito, as relações sociais, trabalhistas, numa sociedade cujo modelo econômico provoca a sua exclusão. A estratégia argumentativa de “Tempos modernos” (CHAPLIN, 1936), uma produção intersemiótica (signo verbal/não verbal), consiste na denúncia da trajetória de um operário enlouquecido pela repetição de mesmos movimentos, sem intervalos temporais (taylorismo). Chaplin, então, polemiza a disciplinarização dos operários, num sistema de vigilância/punição, remontando ao sistema “prisional”. Os argumentos polêmicos reveladores das questões históricas da época contrastam com os cômicos, enfatizados pela imagem. Como dispositivo teórico, pesquisamos quatro áreas do saber: a Teoria da Argumentação, analisando as estratégias argumentativas utilizadas (PERELMAN, TYTECA, 1996; FIORIN, 2016); a Mídia, investigando-se a força da utilização de discursos formadores de opinião (KRISTEVA, 1999; RODRIGUES, 2002); a Análise do Discurso (linha francesa), estudando interdiscurso, intradiscurso, formação discursiva, a imagem como um operador de memória social (ORLANDI, 2002; PÊCHEUX, 1997, 1999; SARGENTIN, 2011); as teorias foucaultianas (1997a, 1997b, 1999, 2003, 2008, 2009, 2012), pesquisando a sociedade disciplinar, a arqueologia, o controle dos discursos, a semiologia (essencialmente histórica); a História, examinando o contexto sócio-histórico em que se produz o filme (HOBSBAWN, 1997; INÁCIO FILHO, 1981). Decorre daí a natureza compósita deste trabalho. Como dispositivo analítico, procedemos a recortes discursivos, para respondermos as perguntas norteadoras: quais efeitos de sentido produzem a disciplina, o controle sobre os empregados? Em que medida a iniciativa privada (não) promove a felicidade do homem (1min45s)? Qual ordem do olhar se conforma a composição da imagem referente à cena em que Carlito é devorado pela máquina de produção (14min8s)? Analisamos os efeitos da relação homem/capital, figuratizada pelo personagem/enunciador Carlitos, considerado como um ícone cultural, cuja reativação possibilita uma movência de sentidos, e a sua consequente reatualização.

Palavras-chave: Discurso; Disciplina; Loucura; Trabalho.

Minibiografia:

Doutora (2009) e mestra (2001) em Letras, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); especialista em Linguística Aplicada ao Ensino de Língua Portuguesa (1992), pela Pontifícia Católica de Minas Gerais (PUC / MG); graduada em Letras (1981), pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é professora associada da Universidade Federal de Sergipe (UFS), membro do Departamento de Letras Vernáculas (DLEV), do Programa de Pós-Graduação de Letras (PPGL, colaboradora), do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM, permanente).


Comunicação 31

O processo argumentativo de discursos lítero-musicais e políticos em canções de Chico Buarque de Hollanda

Autores:

Rosa Leite da Costa – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – rs_leitejc@hotmail.com

Gilton Sampaio de Souza – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – giltonssouza@gmail.com

Resumo:

O presente trabalho analisa argumentos e hierarquização de valores nas canções “Ano novo” e “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque de Hollanda, autor de canções que revelam protesto e resistência ao sistema político durante a Ditadura Militar no Brasil, ocupando-se também de outros temas sociais durante o mesmo período.  Essa temática se justifica pela necessidade de compreendermos que o gênero canção envolve um complexo processo retórico-argumentativo, que se desenvolve com base nas interações entre oradores (músico e compositores), público alvo (sociedade brasileira), teses e valores no discurso político e lítero-musical. Assim, partimos da noção de discurso em concepções sociointeracionistas, conforme Bakhtin/Voloshinov (1995/1997) e Perelman e Olbrechts-Tyteca (2002) e centramos nossas análises na Nova Retórica, de Perelman e Olbrechts-Tyteca, pois interessa-nos analisar como o produtor (orador) do discurso constrói os sentidos e hierarquiza valores por meio da escolha e seleção de argumentos. Nossas bases teóricas compreendem ainda a contribuição de autores com Reboul (2002) e Souza (2008), entre outros.  Os resultados apontam para: (i) discursos constituídos de argumentação por analogia e por ligações simbólicas, com inversão de valores hierarquizados e por argumentos que se utilizam de metáforas e ironias, não apenas porque se trata do gênero canção, mas também porque esses argumentos fazem parte da própria constituição temática da repressão e da resistência; (ii) argumentos pelo antimodelo, para os quais concorrem a escolha de palavras impregnadas de conotações negativas, socialmente estabelecidas, e a recorrência a lugares da argumentação (topoy) marginalizados e de resistência ao sistema político; e (iii) a imagem de um orador/compositor (ethos) que se identifica com o povo brasileiro, seu auditório, reconhecendo-se como parte deste povo oprimido e resistente. As canções, de um modo geral, trazem argumentos, pelo discurso poético e se remetem a outros discursos como os políticos,  religiosos etc., revelando resistência aos valores impostos como superiores.

Palavras-chave: Canção Popular; Discurso; Resistência política; Argumentação.

Minibiografias:

Rosa Leite da Costa – Graduada em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (2003), cursou especialização em Linguística Aplicada (2005) e Mestrado em Letras(2010). É professora da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e aluna do Curso de Doutorado (PPGL/UERN), desenvolvendo a pesquisa “Discursos e processos argumentativos que constituem o município de Pau dos Ferros/RN: da gênese à atualidade”. É membro efetivo do Grupo de Pesquisa em Produção e Ensino de Texto (GPET).

Gilton Sampaio de Souza – Professor Adjunto 4, na área de Linguística, da Universidade do Estado do Rio Grande no Norte (UERN), Campus de Pau dos Ferros. Doutor em Linguística e Língua Portuguesa pela UNESP/Araraquara. Pós-Doutorado em Estudos Comparados pela Université Paris 8 (França). Pesquisa e orienta (graduação, mestrado e doutorado) na área de argumentação e discurso. Líder do Grupo de Pesquisa em Produção e Ensino de Texto (GPET), da UERN/CNPq, atuando na Linha de Pesquisa em “Estudos de Processos Argumentativos”.


Comunicação 32

Argumentação: da repressão à resistência, uma ferramenta discursiva

Autora:

Rosane Mavignier Guedes – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – rosane.rosane.m.g@gmail.com.br

Resumo:

Este trabalho objetiva analisar o discurso argumentativo no domínio político, em condições de repressão e de resistência de campos em divergência. Inicialmente, entendemos que o Homem, por ser essencialmente social, sempre se organizou em grupos, na teoria bakhtiniana: classes sociais, nas quais são partilhadas a mesma história, ideologia, valores, enfim, a mesma cultura. Mas como compreender o sentido de cultura? Segundo a antropologia social (Benedict, 1972): “A cultura é uma lente através da qual o homem vê o mundo”, isto é, o homem/indivíduo e o homem/classe social veem o mundo por sua própria lente, que nem sempre é a lente do Outro. No contato entre as classes sociais, ocorre tanto o diálogo quanto o desentendimento, este podendo desencadear a luta de classes, de forças, de poder, de ideologia, cuja materialização, linguística, se dá pelo discurso argumentativo, manifestando as forças sociais de repressão e de resistência. Neste contexto, encontramos os discursos políticos, na França e no Brasil, concernindo a legalização do casamento civil de pessoas do mesmo sexo. Ocorre que ambos discursos não encontraram respaldo no campo religioso, levando os governantes a encontrar soluções distintas. Enquanto no Brasil o discurso da candidata à presidência (2010), se deu por meio de uma Carta Aberta, transferindo a decisão para o Congresso Nacional;  na França, o discurso do presidente Hollande se deu por meio de um Projeto de Lei (2012), suscitando reação da Igreja Católica, para a qual o presidente respondeu afirmando que a questão seria discutida até o fim: a aprovação. Dessa forma, a partir de extratos do material supra citado, analisaremos os recursos argumentativos, contando com os ensinamentos de Bakhtin, para quem o discurso é construído no encontro da língua e de sua “exterioridade”, e de Ruth Amossy, para quem o discurso argumentativo produz-se pelos recursos linguísticos e culturais.

Palavras-chave: Argumentação; Cultura; Classe social; Repressão; Resistência.

Minibiografia:

Mestre em Estudos Linguísticos Neolatinos – UFRJ (2011). Com pós-graduação lato sensu em Formação de Professor de Português para Estrangeiros – PUC-Rio (2015). Pós-graduação lato sensu em tradução de francês-português – UERJ (2007). Atua como professora de língua estrangeira – PLE/PL2 e FLE. Atualmente, professora de Língua Estrangeira – Francês –  IPEL, PUC-Rio.


Comunicação 33

Discurso Jurídico e Argumentação: reflexões sobre o auditório em sentenças judiciais

Autora:

Daniela da Silveira Miranda – Universidade de São Paulo – dmiranda@usp.br

Resumo:

Este estudo objetiva investigar a sentença judicial, observando as estratégias discursivo-argumentativas arroladas pelo Juiz de Direito, para a construção desse documento. A partir dos estudos sobre a audiência e seu papel na argumentação de Perelman e Olbrechts-Tyteca, 2005 [1958], nossa proposta pretende refletir acerca dos conceitos de auditório Universal e Particular e, também, verificar quais são os auditórios que influenciam a argumentação do magistrado. Selecionamos, como objeto de análise, uma sentença judicial emitida em 02 de junho de 2014, em Brasília, na Vigésima Vara Cível. Trata-se de um processo de danos morais, contra a Revista Carta Capital, movido por Gilmar Mendes, jurista brasileiro e atual Ministro do Supremo Tribunal Federal, que se sentiu depreciado por publicações desse veículo de comunicação em 2012. Por ser os danos morais um conceito filosófico e, também, a complexidade em se estabelecerem os limites entre liberdade de imprensa e liberdade da intimidade e honra da pessoa humana – ambos Direitos Fundamentais –, constata-se que, ao redigir essa sentença, o magistrado utiliza determinadas estratégias para a construção dos fundamentos de seu texto, tentando responder a todos os interessados nessa decisão. Já que essa questão é muito controversa no Direito Brasileiro, a argumentação se faz necessária para estabelecimento dos limites entre a liberdade de imprensa e os direitos da personalidade. Para esta pesquisa, optamos por analisar determinadas lexias e locuções lexicais constituídas de sintagmas nominais e verbais, que nos pudessem fornecer, linguisticamente, subsídios para observar as estratégias argumentativas selecionadas pelo juiz. Foram adotados, para os propósitos deste trabalho, os construtos teóricos da Teoria da Argumentação (Perelman e Olbrechts-Tyteca, 2005 [1958]; Aquino, 1997), da Teoria da Argumentação Jurídica (Atienza, 2000; Alexy, 2001) e das Ciências do Direito (Kelsen, 1993; Ferraz Júnior, 1997; Bobbio, 2005; Godoy, 2008).

Palavras-chave: Discurso Jurídico; Teoria da Argumentação; Auditório; Estratégias argumentativas; Sentença judicial.

Minibiografia:

Doutoranda em Filologia e Língua Portuguesa e Mestra em Letras pela Universidade de São Paulo, participou de Intercâmbio, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em nível de Doutorado Sanduíche pelo Programa Nacional de Cooperação Acadêmica da Capes (Procad) em 2016. Foi professora de língua portuguesa no Ensino Fundamental e Médio, além de ter ministrado disciplinas na área de Linguística na Faculdade Sumaré.


Comunicação 34

Análise retórico-textual dos gêneros discursivos orais do judiciário: acusação e defesa

Autores:

Deywid Wagner de Melo – Universidade Federal de Alagoas – widmelo@hotmail.com

Maria Francisca Oliveira Santos – Universidade Federal de Alagoas – mfosal@gmail.com

 

Resumo:

Este trabalho centrou-se na análise dos elementos retórico-textuais dos gêneros discursivos orais do judiciário: acusação e defesa. Buscou identificar e interpretar os mecanismos linguísticos de caráter retórico-textual e de poder, utilizados pelos retores (ethos) na defesa dos seus argumentos (logos). Entendemos por Retórica a negociação entre sujeitos que apresentam suas diferentes opiniões ou suas diferenças em que o contraditório se constitui e o ato de argumentar surge como um meio de convencer e persuadir o outro por meio da linguagem a fim de se obter a adesão do auditório (pathos) para o que é apresentado, razão por que nos fundamentamos nas questões da Retórica em Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005), Reboul (2004), Abreu (2004), Ferreira (2010) e outros autores; e nas de Texto/Discurso e Gênero em Fairclough (2001), Marcuschi (1998, 2003, 2008), Koch (1984, 1989, 1992, 2003, 2005), Bakhtin/Voloshinov (1997, 2003), Bazerman (2009), Bhatia (1993), além de outros. O foco das nossas análises foi o cenário jurídico, precisamente durante as sessões de tribunal do júri, em que os retores – promotor na acusação, representando o Ministério Público e o defensor na defesa, representando a Defensoria Pública – proferiram seus textos/discursos no intuito de conseguirem a adesão de seu auditório – o júri popular. As análises dos gêneros acusação e defesa evidenciaram que os atos retóricos da linguagem objetivaram a adesão daqueles a quem as teses se apresentaram e que se efetivaram na construção do sentido persuasivo do texto/discurso, constituindo-se, assim, os gêneros acusação e defesa, na ocasião escolhidos para análise, além de demarcar o poder nas relações assimétricas estabelecidas no cenário em tela. A relevância do estudo volta-se, principalmente, às diversas áreas da linguagem, sobretudo, aquelas, em que veicule essa linguagem como elemento persuasivo.

Palavras-chave: Retórica; Gêneros Discursivos Orais; Texto.

Minibiografias:

Deywid Wagner de Melo – Possui Graduação (2005) em Letras – Português/Inglês pela Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL). Mestre (2008) e Doutor (2013) em Linguística pela Universidade Federal de Alagoas. Tem Especialização em Gestão e Desenvolvimento Universitário (UFAL/2009). Atualmente, é Professor Adjunto e Coordenador do Curso de Graduação em Letras – Língua Portuguesa, Campus de Arapiraca da UFAL. Atua em Linguística Textual, Teorias e Análise de Gêneros, Análise da Conversação e Estudos Retóricos da Linguagem.

Maria Francisca Oliveira Santos – Possui Doutorado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (1998) e Pós-Doutorado, na mesma área, pela Universidade Federal da Bahia (2009). Atualmente é professora do Centro Universitário CESMAC, da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL) e da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Atua em Análise da Conversação e Linguística do Texto além dos temas: interação, discurso, sala de aula, gêneros textuais, relações de poder e estudos retóricos da linguagem.


Comunicação 35

O último pronunciamento de Dilma Rousseff: uma análise argumentativa

 

Autoras:

Helena Cristina Lübke – Universidade Estadual de Londrina – lena.cl@terra.com.br

Talita Canônico e Silva – Universidade Estadual de Londrina – talita.canonico@gmail.com

Resumo:

Se de um lado, a língua é constitutiva do homem e da sua história e, por isso, produz sentidos. De outro, o discurso faz parte da vida dos indivíduos como sujeitos sociais. Então, se faz necessário refletir sobre os processos e as condições de produção da linguagem, analisando o discurso em suas relações entre sujeito e situações de produção. O presente estudo visa a uma análise do discurso de despedida da Presidente Dilma Rousseff, quando de seu afastamento, por 180 dias, da Presidência da República Federativa do Brasil, em 12 de maio de 2016. Neste trabalho, serão discutidas as formações discursivas e os recursos argumentativos com o objetivo de estabelecer a relação entre sujeito e sentido. Sob a ótica da Análise de Discurso, referido trabalho está ancorado em Pêcheux (2014) e Orlandi (2015); já, do ponto de vista da Argumentação, está embasado em Perelman (1996) e da Semântica Argumentativa em Ducrot (1987). Considerando que discursos são práticas sociais que representam indivíduos e situações de atuação e de influência no mundo, capazes de construir significações, Dilma Rousseff utiliza argumentos de autodefesa, classifica a situação como golpe e insere a população em seus argumentos, incentivando a luta pela democracia. No discurso analisado, é possível perceber que a autora utilizou-se de verbos, advérbios, fatores de textualidade, polissemia, homonímia, entre outros mecanismos da linguagem, para corroborar que seu afastamento do cargo de Presidente foi um golpe. Ressaltamos que, para este trabalho que ora se apresenta, analisaremos as formações discursivas e os recursos argumentativos. Conceberemos a análise quanto ao uso da palavra “golpe”, levando em consideração a formação discursiva, a condição de produção, a memória e os recursos argumentativos.

Palavras-chave: Pronunciamento de Dilma Rousseff; Golpe; Argumentação.

Minibiografias:

Helena Cristina Lübke – Doutoranda em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Possui mestrado em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC/2000), Especialização em Língua Portuguesa pela Fundação Educacional Severino Sombra (FESS/1990) e graduação em Letras (Português/Inglês) pela Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE/1988). É professora do Centro Universitário – Católica anta Catarina em Jaraguá do Sul desde 1995. Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Linguística Textual, atuando principalmente nos seguintes temas: texto e discurso e linguagem e direito. Também é revisora de textos.

Talita Canônico e Silva – Doutoranda em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Possui Mestrado em Estudos da Linguagem e Especialização em Língua Portuguesa pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), bem como Graduação em Letras anglo-portuguesas pela Faculdade de Ciências Contábeis e Administrativas de Rolândia. Atualmente, é professora de Língua Inglesa e de Língua Portuguesa no Instituto Federal do Paraná (IFPR), câmpus Londrina.


Comunicação 36

A construção do ethos de autoridade de José Sócrates: entre a repressão e a resistência

Autoras:

Isabelle Simões Marques – Universidade Aberta; Universidade Nova de Lisboa – isabelle.marques@uab.pt

Isabel Sebastião – Universidade Nova de Lisboa; Universidade do Porto – isabel.sebastiao@hotmail.com

Resumo:

O ethos representa a identidade do sujeito construída no discurso e, consequentemente, é refletida pelo discurso, por outras palavras é a imagem do “eu” no discurso. A noção de ethos está intimamente relacionada com o estatuto do locutor e com a questão da legitimidade ou do processo de legitimidade pela sua palavra, isto é, através “l’intrication d’un discours et d’une instituition” (Maingueneau, 1984: 136). O ethos que se revela na imagem de si e que o enunciador constrói enquanto sujeito do discurso não é necessariamente coincidente com a do “sujet dans le monde”.  Nesta sequência, evoquemos aqui o conceito de ethos na perspetiva de Maingueneau (em reformulação do conceito clássico de Aristóteles) que considera que a figura do enunciador se reveste de um “caráter e de uma corporalidade” (1984: 100), criando, ao mesmo tempo, uma determinada maneira de se dirigir ao(s) outro(s), um modo de enunciação marcado/determinado pelos seus valores éticos, morais, pelos fundamentos que fazem parte da sua própria formação, oferecendo ao(s) outro(s) uma imagem de si. O processo discursivo permite (re)construir uma imagem que é denunciada através das escolhas linguísticas feitas pelo sujeito. Neste sentido, consideramos pertinente olhar para o discurso produzido por José Sócrates em diferentes eventos discursivos (entrevistas, declarações, cartas…). Assim, numa perspetiva que se insere no domínio da Análise do Discurso, pretendemo-nos debruçar sobre o fenómeno enunciativo-discursivo com o objetivo de analisar como este enunciador constrói o seu discurso de autoridade através de processos argumentativos que reforçam a resistência no seu discurso (negação, contraste, léxico etc.) em oposição aos discursos das forças político-sociais de repressão. Da análise deste evento discursivo, o nosso objetivo será a relação entre o processo construção da autoridade, ou seja, da imagem de autoridade do locutor e os elementos/referentes discursivos, numa perspetiva teórica pragmática-discursiva.

Palavras-Chave: ethos; autoridade; estratégias linguístico-discursivas; repressão; resistência.

Minibiografias:

Isabelle Simões Marques – Leitora de francês na Universidade Aberta. É doutorada em Linguística- Analíse do Discurso pela Université Paris 8 e pela Universidade Nova de Lisboa. É Investigadora Doutorada do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa e é Membro Associado do Laboratoire d´Études Romanes da Université Paris 8 (França). É autora de uma tese sobre o plurilinguismo no romance português contemporâneo (2009). Desenvolve investigação nas áreas da análise do discurso e da didática. Tem publicado vários trabalhos sobre, entre outros, o plurilinguismo e as representações.

Isabel Sebastião – Possui Doutoramento em Linguística – Especialidade de Linguística do Texto e do Discurso na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, encontra-se a fazer pós-doutoramento na Universidade do Porto em Análise do Discurso. É investigadora do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa e do Centro de Linguística da Universidade do Porto. Desenvolve trabalho de investigação no âmbito dos estudos da pragmática, da análise do discurso, da linguística aplicada ao ensino e aprendizagem da língua materna e estrangeira e didática.


Comunicação 37

A eloquência marginal do trabalhador em tempos de desemprego

 

Autora:

Maria Virgínia Borges Amaral – Universidade Federal de Alagoas – mvirginia39@gmail.com

 

Resumo:

Propõe-se com este estudo a análise de acontecimentos discursivos em que operam formas espetaculares de apelo ao direito de trabalhar. Novas de manifestação da necessidade do trabalho são engendradas pelos trabalhadores desempregados em meio aos efeitos de obsolescência da força de trabalho, decorrentes do desenvolvimento e dominação da tecnologia na produção capitalista. Reconhecidos os mecanismos de argumentação como estratégias discursivas que sustentam as relações de poder (político e econômico) na engrenagem produtiva da sociedade do capital, verifica-se a natureza marginal da eloquência dos trabalhadores. Trabalhadores desempregados vão às ruas e impõem suas reivindicações de forma coletiva ou solitária, configurando-se uma eloquência marginal ante o capital que segue, aparentemente intocável no intento de superar as suas próprias dificuldades. O discurso eloquente do trabalhador produz sentidos de resistência à suposta obsolescência funcional e, ao mesmo tempo, reivindica direitos. O sujeito/trabalhador vê-se fragmentado, um sujeito cindido, que resiste à situação de expropriado do maior bem que lhe possibilita reproduzir a vida: o trabalho. Retoma-se, neste estudo, a noção de sujeito cindido que, no campo da Análise do Discurso, põe em diálogo o sujeito da psicanálise com o sujeito historicamente constituído e interpelado pela ideologia, numa concepção teórica ancorada no materialismo histórico. Desta maneira, na análise que se apresenta, aproximam-se a teoria do discurso com a teoria crítica social marxista acerca do trabalho, tornando possível o conhecimento do discurso em questão. Para este simpósio, portanto, põe-se em discussão estratégias   argumentativas dos processos discursivos das relações de exploração e de poder na sociedade de classes, identificando-se a condição marginal do discurso do trabalhador na luta pelo direito ao trabalho que se expressa em formas espetaculares de resistência aos efeitos do desemprego.

Palavras-chave: Discurso do trabalhador; Eloquência marginal; Efeito de obsolescência; Desemprego; Direito ao trabalho.

 

Minibiografia: 

Maria Virgínia Borges Amaral é professora da Universidade Federal de Alagoas e pesquisadora do CNPq. Possui graduação em Serviço Social, mestrado e doutorado em Linguística com concentração em Análise do Discurso; desenvolve pesquisas sobre o discurso do trabalho e as formas de manifestação dos trabalhadores na sociedade contemporânea. Tem vários trabalhos publicados em livros, como o Discurso e relações de trabalho, 2005, reeditado em 2016, O avesso do discurso, 2007, artigos em periódicos e capítulos de livro.


Comunicação 38

Discurso autoritário, imagem e argumentação

Autora:

Miriam Bauab Puzzo – Universidade de Taubaté – puzzo@uol.com.br

Resumo:

O objetivo desta comunicação é discutir a relação dialógica entre as linguagens verbais e visuais que articulam um modo de responder ao contexto social em discursos autoritários de força persuasiva. A teoria que fundamenta esta análise é a teoria dialógica da linguagem de Bakhtin e o Círculo, considerando as seguintes categorias de análise: relações dialógicas, signo ideológico e tom valorativo. Além disso, usa-se como referencial para análise da linguagem visual os conceitos de Dondis (2003) e Guimarães (2003). Para cumprir esta proposta foi selecionado o discurso de Humberto Castelo Branco,  de 15 de abril de 1964, inaugurando seu governo ditatorial , relacionando-o com imagens veiculadas nesse período como recurso argumentativo/persuasivo. Espera-se com este estudo contribuir para o ensino da linguagem e os possíveis efeitos de sentido de caráter persuasivo.

Palavras-chave: análise dialógica; discurso autoritário; linguagens verbal e visual; relações dialógicas.

Minibiografia:

Formada em Letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de São José do Rio Preto, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP) e com Pós-Doutorado em Linguística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Professora convidada do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada (UNITAU), integrante do GT Estudos Bakhtinianos da ANPOLL.


Comunicação 39

Homens feministas: enunciação por caução e práticas de si

Autora:

Mónica Graziella Zoppi Fontana – Universidade Estadual de Campinas – monzoppi@gmail.com

Resumo:

Nos últimos anos presenciamos no Brasil uma presença cada vez maior de homens nas manifestações feministas urbanas. Esta presença é rapidamente difundida pelos meios de comunicação e, principalmente, pela circulação de fotos e publicações nas redes sociais. Por outro lado, recentemente surgiram no Facebook comunidades que reúnem homens que militam a favor do feminismo, cujos títulos já apontam os conflitos de sentidos que envolvem as práticas feministas por parte dos homens: “Homens Feministas”, “Homens verdadeiramente feministas”, “Homens pró-feminismo”.  A polêmica se estende à blogosfera, onde assistimos a uma disputa entre blogs feministas e blogs cujos autores se identificam como homens feministas / pró-feministas. A controvérsia está centrada na legitimidade política da militância feminista por homens. Quem pode enunciar o feminismo? Esta questão não é nova, uma vez que já foi objeto de discussão teórica, mas nosso trabalho incidirá sobre este assunto a partir de uma abordagem original que toma a linguagem e os processos de significação como objeto de análise. Do ponto de vista teórico, propomos considerar a relação fundamental entre argumentação e enunciação, analisando os efeitos de sentido produzidos pela retomada dos argumentos feministas por homens e as operações argumentativas que permitem legitimar o lugar de enunciação dos homens que se reconhecem como feministas face ao ataque de alguns setores do feminismo e à incompreensão dos homens que se identificam como “homens de verdade” e se reconhecem no machismo. A adjetivação e predicação são pistas no discurso que nos permitem descrever esse confronto discursivo. O corpus de análise é composto por textos que circulam nas redes sociais e na blogosfera. O modo de circulação dos textos na web será objeto de análise na sua complexidade material e em relação às condições de produção dos movimentos feministas atuais.

Palavras-chave: lugar de enunciação; Designação. discurso digital; Argumentação; práticas de si.

Minibiografia:

Doutora e Livre Docente em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Brasil), onde atua como professora de graduação e pós-graduação nas áreas de Semântica da Enunciação e Análise de Discurso. É líder do Grupo de Pesquisa Mulheres em Discurso. Lugares de enunciação e processos de subjetivação (CNPq, Processo n. 487140/2013-3) e é bolsita de Produtividade à Pesquisa CNPq, nível 1D. Autora do livro Cidadãos Modernos. Discurso e representação política, organizou diversas obras, entre elas: O português do Brasil como língua transnacional. Publicou múltiplos artigos em revista especializadas.


Comunicação 40

Argumentação sobre sentidos de Preconceito Racial que circulam na Literatura Infantil

Autoras:

Ana Paula Alberto Lopes – Universidade de São Paulo (USP) – ana_p_lopes2@hotmail.com

Soraya Maria Romano Pacífico – Universidade de São Paulo (USP) – smrpacifico@ffclrp.usp.br

 

Resumo:

Entendemos que a escola tem o papel de promover condições de produção para que os alunos conheçam a literatura, desde a Educação Infantil, visando a possibilitar-lhes um percurso pelos espaços vazados dos textos literários e, principalmente, argumentar acerca dos sentidos que circulam no ambiente escolar e, extraescolar, sentidos que são, muitas vezes, discursivizados como únicos e verdadeiros pelos livros didáticos. Sabemos que, pelo efeito da ideologia, não só determinados temas ficam silenciados no contexto escolar, como o preconceito racial, por exemplo, mas também, a prática da argumentação, e, esse cenário nem sempre é questionado pelos professores. Filiados à Análise do Discurso pecheuxtiana, este trabalho apresentará uma pesquisa realizada, em uma escola pública brasileira, com alunos que cursam o quinto ano da Educação Básica. Foi lido e interpretado, com os alunos, textos da literatura infantil que abordam a questão do preconceito racial a fim de construir um espaço argumentativo sobre o tema, para que os sujeitos-alunos pudessem argumentar sobre os tais sentidos que circulam nos livros de literatura infantil lidos. O corpus de análise é composto por trinta produções textuais escritas pelos sujeitos da pesquisa. Nossa metodologia requer um dispositivo teórico-analítico capaz de analisar marcas linguísticas que se referem à questão racial, encontradas nas produções escritas, as quais, para o analista do discurso, indiciam pistas de um funcionamento discursivo, tal qual proposto por Ginzburg. As análises apontam que argumentar não se configura como uma prática pedagógica recorrente no contexto escolar, tampouco sobre um tema polêmico, como a questão do preconceito racial. Entretanto, o trabalho com os textos literários colaborou para dar início a um espaço discursivo, mesmo que ainda em fase de construção, sustentado pela argumentação dos sujeitos, no contexto escolar.

Palavres-chave: Discurso; Argumentação; Literatura; Preconceito racial.

 

Minibiografia:

Ana Paula Alberto Lopes, licenciatura em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP) do Departamento de Educação, Informação e Comunicação. Mestranda do programa de pós-graduação em Educação da FFCLRP – USP, sob orientação da Profa. Dra. Soraya Maria Romano Pacífico. Docente na Associação Brasileira de Educação e Cultura – Colégio Marista Champagnat na cidade de Ribeirão Preto. Participa de grupos de estudos e desenvolve pesquisas sobre Leitura, Escrita, Argumentação e Autoria.


Comunicação 41

Notas sobre o caráter educativo e civilizatório da argumentação na perspectiva da Nova Retórica

 

Autora:

Patrícia Del Nero Velasco – Universidade Federal do ABC (UFABC) – patricia.velasco@ufabc.edu.br

 

Resumo:

Esta comunicação tem como objetivo explorar a associação entre argumentação e cidadania presente nos dispositivos legais que orientam a Educação Básica brasileira. Para tanto, procura-se compreender a retomada contemporânea das formas dialética e retórica de argumentação realizada por Chaïm Perelman e sua colaboradora Lucïe Olbrechts-Tyteca, reconstituindo as bases teóricas do que se convencionou chamar de Nova Retórica. Para os referidos autores, a existência de uma linguagem comum é considerada imprescindível à argumentação, assim como o é o contato intelectual. Este possui inúmeros condicionantes, tais como o contexto, o lugar, as regras, a ideologia vigente, a cultura e o conhecimento prévio dos interlocutores. Todavia, independentemente do gênero discursivo e dos aspectos que condicionam este último, a disposição de voltar-se para o outro e colocar-se no lugar do auditório é condição para toda argumentação. A abertura à alteridade consiste, assim, não somente em um fator psicológico no processo de persuasão, mas também em um fator metodológico. Por requerer a anuência dos envolvidos e pressupor a formação do que Perelman e Olbrechts-Tyteca intitularam de “comunidade de espíritos”, o discurso argumentativo orienta os diálogos, debates e discussões de modo civilizado, renunciando ao uso da força e da coação. Dá-se apreço à adesão do interlocutor, alcançada racionalmente, apelando-se à liberdade de juízo dos envolvidos. O presente trabalho pretende, pois, atualizar como problema filosófico de pesquisa os vínculos entre a argumentação dialética-retórica proposta pela Nova Retórica e uma perspectiva de racionalidade fundamentalmente relacionada às noções de justiça, direito às opiniões, pluralismo, liberdade e não-violência. Defende-se que, nesse contexto, a argumentação assume um caráter educativo e uma conotação ético-política – e, portanto, civilizatória.

Palavras-chave: Argumentação; Alteridade; Racionalidade; Cidadania; Educação.

 

Minibiografia:

Patrícia Del Nero Velasco é doutora em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professora da Universidade Federal do ABC, instituição na qual atua nos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Filosofia, no Programa de Pós-Graduação em Filosofia e coordena o núcleo UFABC do Mestrado Profissional em Filosofia (PROF-FILO). Lidera o LaPEFil – Laboratório de Pesquisa e Ensino de Filosofia (UFABC/CNPq) e é membro do grupo de pesquisa ELAD – Estudos de Linguagem, Argumentação e Discurso (UESC/CNPq). É autora do livro “Educando para a argumentação: contribuições do ensino da lógica” (Editora Autêntica).


Comunicação 42

Coerções da redação do ENEM e sua relação com os processos de constituição do sujeito

Autoras:

Isabel Cristina Michelan de Azevedo – Universidade Federal de Sergipe – icmazevedo2@gmail.com

Emilly Silva dos Santos – Universidade Federal de Sergipe – emillys@live.com

 

Resumo:

Este trabalho discute como os processos de subjetivação e objetivação concorrem para a constituição do indivíduo em sujeito na escola, espaço de representação social, por meio de processos discursivos determinados pela prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Foucault (1995 [1984) mostra que os processos de constituição do sujeito nas sociedades modernas colocam em jogo as relações de saber, por meio das quais se engendram as relações de poder. Partindo dessa perspectiva, pretende-se indicar como esses processos se efetivam nas relações de poder estabelecidas entre governo, aluno e professor e como afetam o processo de ensino-aprendizagem da argumentação no ensino médio. Intentando a investigação de práticas realizadas em contexto escolar, reuniu-se material documental de duas escolas da rede pública de Aracaju, SE, Brasil, que fundam o corpus, composto por doze textos dissertativo-argumentativos, cedidos por estudantes dessas unidades. O ENEM, nessa conjuntura, representa o poder estabelecido socialmente, mediante uma política pública de educação, e a escola é o lugar onde esse poder se materializa, uma vez que as práticas realizadas nesse espaço se adequam às coerções impostas pelo exame, visto que se tem por objetivo a promoção dos estudantes ao ensino superior. A análise dos textos indica que, apesar da petição de autoria na escrita, impõe-se um grande número de coerções aos participantes, o que limita as posições que devem/podem ser assumidas. Nesse sentido, o sujeito é dividido: ora assume a perspectiva apresentada pelo exame, principalmente por meio dos textos motivadores ora assume posicionamentos que lhe são anteriores, caracterizando o processo de objetivação do sujeito por meio de práticas disciplinares. Reforça-se, portanto, a compreensão de que o sujeito: i) constitui-se a partir da relação com o outro, nessa relação ele se define e assume certa identidade; ii) insere-se em relações de poder que podem ser questionadas na medida em que possa exercer formas de resistência.

Palavra-chave: Poder-saber. Práticas pedagógicas. Argumentação. Subjetivação. Objetivação.

 

Minibiografias:

Isabel Cristina Michelan de Azevedo – Doutora em Letras Clássicas e Vernáculas pela FFLCH da USP, mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP), graduada em Pedagogia e Letras. Na Universidade Federal de Sergipe, é professora adjunta no Departamento de Letras Vernáculas, coordenadora adjunta do Mestrado Profissional em Letras, campus São Cristóvão, e líder do GPARA. Na Universidade Estadual de Santa Cruz, é professora permanente do Mestrado em Letras.

Emilly Silva dos Santos – Graduanda em Letras vernáculas na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Atualmente, participa do projeto de iniciação científica (PIBIC) “Desenvolvimento de competências/capacidades discursivo-argumentativas de estudantes do ensino fundamental e médio”, vinculada ao plano de trabalho “Estudo documental relativo às práticas argumentativas realizadas em escolas públicas” e do Grupo de Pesquisas sobre Argumentação e Retórica (GPARA), sob a orientação da Profa. Dra. Isabel Cristina Michelan de Azevedo. Integra, ainda, o projeto de iniciação à docência (PIBID) “Leitura e Escrita – O jornal em sala de aula”.