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Simpósio 6

SIMPÓSIO 6 – POETAS LEITORES DE POETAS: DIÁLOGOS NA POESIA DE EXPRESSÃO PORTUGUESA

 

Coordenadores:

Alexandre Pilati | UnB | alexandre_pilati@yahoo.com.br

Solange Fiuza Cardoso Yokozawa | UFG | solfiuza@gmail.com

Wilson Flores | UFG | wfloresjr@uol.com.br

 

Resumo:

É consenso que um poeta se forma lendo outros poetas, posicionando-se crítica e criativamente diante deles, negando-os e/ou continuando-os para afirmar a sua própria voz. Esse processo de leitura faz-se no interior da própria obra criativa, mas também por meio de uma crítica específica desenvolvida paralelamente à obra poética. Ao ler outros poetas, o poeta crítico, na maioria das vezes, procura encontrar valores estéticos que legitimem sua própria poesia, que o ajudem a compreender o seu tempo. Essa atividade crítica exercida pelos poetas modernos e contemporâneos e que encontra seus antecedentes mais diretos em certo Romantismo, é fruto de uma época em que não há mais um conjunto de valores estéticos consensuais regendo a criação e a recepção da obra, como acontecia nas épocas clássicas. Em virtude disso, cada artista tem de criar seus próprios valores, às vezes buscando-os em outros poetas. Assim, este Simpósio propõe congregar trabalhos sobre poetas críticos de língua portuguesa do século XX e da contemporaneidade, ou melhor, sobre como esses poetas dialogam com outros, seja no horizonte do passado ou do presente. Dentro desse escopo, esperam-se trabalhos que:1) contemplem leituras crítica ou crítico-criativas que poetas modernos ou contemporâneos realizam de outros poetas de expressão portuguesa, seja dentro de um mesmo país ou entre países diferentes; 2) acompanhem o modo como poetas de expressão portuguesa leem poetas de tradições não lusófonas.

Palavras-chave: Poesia Moderna, Poesia Contemporânea, Poesia em Língua Portuguesa, Poetas Críticos.

 

Minibiografias:

 

Alexandre Pilati

Professor de Literatura Brasileira da Universidade de Brasília – Brasil. Desenvolve pesquisas sobre a poesia brasileira moderna e contemporânea, sobretudo enfocando as relações entre a forma estética e o processo social brasileiro. Atualmente coordena o projeto de pesquisa “Do moderno ao contemporâneo: matéria histórica brasileira na literatura (poesia, canção, narrativa, ensaio)” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília.

 

Solange Fiuza Cardoso Yokozawa

Professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Goiás (Brasil). Desenvolvendo pesquisas sobre poesia moderna e contemporânea, atualmente coordena o projeto João Cabral de Melo Neto e Portugal: recepção crítica e diálogos poéticos. Entre outras publicações, é autora ou (co)editora dos títulos: A memória lírica de Mario Quintana, Inventário, Poesia brasileira contemporânea e tradição e O legado moderno e a (di)ssolução contemporânea.

 

Wilson Flores

Professor da Universidade Federal de Goiás (Brasil).

Professor de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade Federal de Goiás. Desenvolve pesquisas sobre poesia brasileira contemporânea e, principalmente, sobre o Modernismo brasileiro, com destaque para Manuel Bandeira, Mário de Andrade e as relações entre literatura, história e sociedade. Atualmente coordena o projeto “A literatura e os impasses da modernização brasileira” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da UFG. É autor de Modernização pelo avesso: impasses da representação literária em “Os contos de Belazarte”, de Mário de Andrade.

 

 

Resumos dos trabalhos aprovados

Comunicação 2

NESTOR VÍTOR: POETA SIMBOLISTA, CRÍTICO DE VANGUARDA

Autor:

Bruno Anselmi Matangrano – Universidade de São Paulo/USP – CNPq – Brasil – bamatangrano@yahoo.com.br

 

Resumo:

Nascido em 1868, o poeta Nestor Vítor participou ativamente do movimento simbolista carioca, tendo sido um de seus maiores defensores e críticos, sobretudo por seu papel na divulgação, estudo e publicação das obras de João da Cruz e Sousa, considerado atualmente um dos maiores poetas do simbolismo brasileiro, mas que, na altura, não foi muito bem recebido pela crítica e pelo público por ser negro, filho de escravos. Autor de obra bastante variada, Vítor traduziu Maurice Maeterlinck, publicou contos, romances, relatos de viagem, obras críticas e jornalísticas, além de ter lançado, À Cruz e Sousa (1900) e Transfigurações (1902), suas únicas obras em versos, ambas de forte inspiração simbolista. Pouco depois, Vítor passou a acompanhar as nascentes vanguardas brasileiras, dedicando seus estudos críticos a autores ligados ao movimento modernista, como Mário de Andrade e Jorge de Lima, dentre muitos outros, evidenciando sempre que possível as reminiscências simbolistas nas obras dos modernistas. Vítor viria a falecer apenas em 1932, legando vasta e ainda pouco estudada produção. Diante disso, o presente trabalho pretende estudar o movimento da crítica de Nestor Vítor que aponta no modernismo certa continuidade às inovações estético-temático-formais propostas pelos simbolistas, bem como o impacto de seu pensamento crítico em sua produção poética e ficcional, a partir, sobretudo, de duas obras: Cruz e Sousa (1899) e Os de Hoje, este último, livro publicado postumamente em 1938, reunindo artigos publicados em periódicos ao longo das primeiras décadas do século XX. Com isso, espera-se demonstrar como o poeta defende, sem ser saudosista ou fazer juízos de valor entre os movimentos, uma ideia de continuidade entre as duas estéticas, por ter defendido que o simbolismo sempre se apresentou como um movimento de ruptura.

Palavras-chave: Simbolismo; modernismo; Nestor Vítor; criação; crítica.

 

Minibiografia:

Bruno Anselmi Matangrano é bacharel, mestre e doutorando em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), tendo realizado estágio de pesquisa na Universidade de Lisboa entre 2015 e 2016, sob financiamento do CNPq. É membro do Grupo de Pesquisa Poéticas e Éticas da Modernidade (POEM/USP), do Laboratório de Estudos de Poéticas e Ética na Modernidade (LEPEM/USP) e do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL/UL). Desde 2012, coedita as revistas acadêmicas: Desassossego, do programa de pós-graduação em Literatura Portuguesa da USP, e Non Plus, da área de Francês da mesma instituição. Além disso, possui artigos, traduções e contos publicados em livros, jornais e revistas. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2139289828609663


Comunicação 3

“O TIETÊ DESCE AOS INFERNOS”: FORMA LITERÁRIA EMPENHADA E PROCESSO NACIONAL AGÔNICO EM POEMAS DE MÁRIO E DRUMMOND

Autor:

Alexandre Pilati – UnB – Brasil – alexandrepilati@unb.br

 

Resumo:

O longo e profícuo diálogo literário entre Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade é um dos acontecimentos mais representativos da organicidade do sistema literário brasileiro, malgrado o fato de que ocorra em vias de constatação desencantada da desagregação social nacional. Postos entre a necessidade de criar uma expressão moderna para a poesia brasileira e a consideração estudiosa dos assim chamados “problemas brasileiros”, os autores deixaram um legado de reflexões sobre a literatura e o Brasil que se vê gravado tanto na epistolografia quanto nos textos literários. O tema deste trabalho é a leitura do diálogo entre Drummond e Mário a partir da análise contrastiva dos poemas “A meditação sobre o Tietê”, de Mário, e “Mário de Andrade desce aos infernos”, de Drummond. Importa nessa leitura ressaltar a maneira como entram em dinâmica a tonalidade elegíaca, o problema da função social da poesia e a notação de meditação em relação ao projeto nacional popular brasileiro. A hipótese central é que os poemas somatizam o fim de um ciclo nacional, que é vivido no dilema íntimo da voz poética e nas contradições que se vislumbram na sua relação com a realidade brasileira.

Palavras-chave: poesia brasileira; poesia engada; sistema literário; nacionalismo; modernismo.

 

Minibiografia:

Alexandre Pilati é doutor em literatura e professor de literatura brasileira na Universidade de Brasília – Brasil. Membro do Grupo de Pesquisa Literatura e Modernidade Periférica e vice-coordenador do GT Literatura e Sociedade da ANPOLL. É autor, entre outros, de A nação drummondiana – quatro estudos sobre a presença do Brasil na poesia de Carlos Drummond de Andrade (7Letras, 2009).


Comunicação 4

“GIRASSOL DA MADRUGADA”, DE MÁRIO DE ANDRADE

Autora:

Cristiane Rodrigues de Souza – UFMS – Brasil – crika_rodrigues@hotmail.com

 

Resumo:

João Luiz Lafetá reconhece, no Livro azul (1941), de Mário de Andrade, a vertente da obra do modernista que se apresenta marcada pela visão íntima do país e das pessoas. Em “Girassol da madrugada”, um dos grupos de poemas do livro, num desdobramento da tentativa de compreensão do outro, que levou o modernista da primeira hora a conhecer a si mesmo por meio da apreensão da cultura brasileira, o eu lírico, como Narciso, procura-se no ser do amante, num gesto de apreensão estética-amorosa, ao se debruçar sobre o ser-amado-lagoa, conseguindo o gozo sereno, feito de um “cessar ardentíssimo”, aproximando-se, dessa forma, da filosofia Zen, estudada por Mário, como pode ser conferido por meio dos exemplares de sua biblioteca. Assim, em “Girassol da madrugada”, ao se afastar da racionalidade pura que marca o pensamento ocidental, o eu lírico busca apreender o mundo e o outro, por meio de uma consciência que é formada pela experiência física e espiritual, própria do Zen-budismo e próxima do conhecimento artístico. Esse traço de “Girassol da madrugada” aproxima-o da obra do heterônimo de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, que também absorve o pensamento Zen, na medida em que apresenta um olhar “nítido como um girassol”, capaz de perceber as coisas, no lugar de apenas pensar sobre elas. Mário de Andrade entrou em contato com a obra de Fernando Pessoa, por meio de livros de sua biblioteca, guardados pelo IEB-USP, assim como por meio da leitura de revistas como a “Presença”, preservadas pelo mesmo instituto. Tendo em vista o olhar do leitor-crítico sobre o poeta modernista português, é interessante o estudo de “Girassol da madrugada”, a revelar traços da filosofia oriental aproveitados também por Caeiro.

Palavras-chave: Mário de Andrade; Alberto Caeiro; estética; Zen-budismo.

 

Minibiografia:

Docente adjunta na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), campus de Três Lagoas, Pós-doutoranda no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), autora do livro Clã do jabuti: uma partitura de palavras.


Comunicação 5

“UMA SUAVE RUDEZA CRUZA O ATLÂNTICO: DIÁLOGO ENTRE MÁRIO DE ANDRADE E ADOLFO CASAIS MONTEIRO”

Autora:

Marina Damasceno de Sá – USP – Brasil – marina.sa@usp.br

 

Resumo:

O desinteresse dos modernistas brasileiros em ler seus contemporâneos portugueses, enquanto “estes fazem um real esforço pra conhecer e estimar a produção nova do Brasil” foi motivo de queixa de Adolfo Casais Monteiro na revista Presença. O número duplo da revista coimbrã traz uma coleção de poemas de Cecília Meireles e rasgados elogios a Jorge Amado, autor de Jubiabá, além dos artigos: “Estado presente do intercâmbio intelectual luso-brasileiro” e “Sobre um pseudo-órgão do intercâmbio luso-brasileiro”, ambos assinados por Casais Monteiro. No primeiro artigo, escreve o português: “a única ligação eficaz entre os intelectuais de dois países, quando não existem relações pessoais, só pode ser aquela que se baseia no conhecimento mútuo por meio das obras em que uns e outros revelam a sua maneira de ser.” No segundo, acusa a revista Esfera, publicada no Rio de Janeiro e representada pelo português Afonso de Castro Senda, de intitular-se enganosamente de “intercâmbio luso-brasileiro”. Meses depois, a réplica de Mário de Andrade a Casais Monteiro estampou a primeira página do suplemento literário do Diário de Lisboa, sob o título “Uma suave rudeza” — “A opinião dum escritor brasileiro sobre uma possível influência literária do Brasil”. Nela, Mário de Andrade acusa os motivos para tal distanciamento e lembra que “só Portugal conserva ainda a boa tradição do soneto. Mas também é certo que jamais aprendeu o segredo de metrificar alexandrinos […] sem aquela rica elasticidade do alexandrino brasileiro.”

Palavras-chave: Poetas críticos; Mário de Andrade; Adolfo Casais Monteiro.

 

Minibiografia:

Doutoranda em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, sob orientação do Prof. Dr. Marcos Antonio de Moraes, desenvolve a tese “A poetagem bonita: edição de livro inédito de Mário de Andrade”. Mestra pela mesma universidade, com orientação da Profa. Dra. Telê Ancona Lopez, defendeu a dissertação “O empalhador de passarinho, de Mário de Andrade: edição de texto fiel e anotado”.


Comunicação 6

“MANO MANU”: MÁRIO LEITOR DE BANDEIRA

Autor:

Wilson José Flores Jr. – UFG – Brasil – wfloresjr@uol.com.br

 

Resumo:

As cartas, poemas e textos trocados entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira atestam uma amizade que figura entre as mais importantes e profícuas da literatura brasileira. Diferentemente do que se observa na correspondência entre Mário e alguns escritores mais jovens, as cartas trocadas com Bandeira revelam um clima de igualdade e de compreensão mútua bastante raro. O bem conhecido (e controverso) epíteto de “São João Batista do movimento modernista” atribuído a Bandeira por Mário, é parte das tentativas deste de vincular aquele ao campo de ação em que se movia o escritor paulista num esforço que aponta para posicionamentos que, por um lado, aproximavam os dois amigos e, por outro, mantinham-nos em campos ligeiramente diferentes. Como se sabe, as relações entre Bandeira e o modernismo nunca foram inequívocas e isso revela algo do posicionamento do poeta pernambucano em relação às disputas literárias do tempo que cabe discutir. A intenção desta comunicação é problematizar essas relações a partir da discussão da amizade entre os poetas, destacando as leituras que Mário fez de Bandeira, algumas das quais guardam ainda importantes sugestões críticas que não foram integralmente exploradas.

Palavras-chave: Mário de Andrade; Manuel Bandeira; modernismo; crítica literária.

 

Minibiografia:

Wilson José Flores Jr. é professor de literatura brasileira na Universidade Federal de Goiás. Membro do grupo de pesquisa Formação do Brasil Moderno: literatura, cultura, sociedade (CNPq/Abralic) e do GT Literatura e Sociedade (Anpoll). É autor de Modernização pelo avesso: impasses da representação literária em Os contos de Belazarte, de Mário de Andrade (Ateliê Editorial, 2015).


Comunicação 7

MURILO MENDES, LEITOR DA POESIA ESPANHOLA

 

Autora:

Joyce Rodrigues Ferraz Infante  – Universidade Federal de São Calos/UFSCar – Brasil – ferrazrj@uol.com.br / ferrazrj@ufscar.br

 

Resumo:

A admiração de Murilo Mendes pela literatura e cultura espanholas encontra-se disseminada ao longo de seus escritos e, especialmente, em Tempo espanhol (1959) e Espaço espanhol (1966-1969), livros publicados durante o período em que viveu na Europa e chegou a desfrutar do convívio e da amizade de poetas espanhóis, como Jorge Guillén, Dámaso Alonso e Rafael Alberti, com quem intercambiou saberes e modos do fazer poético. Da leitura de Tempo espanhol (1959) se podem depreender pontos de vista de Murilo sobre diferentes aspectos da cultura, das artes e, sobretudo, da literatura espanholas. Observa-se também nessa obra a tendência do poeta mineiro à produção de “poesia crítica”, entendida como aquela em que o texto poético atua como leitura crítica do próprio texto poético ou de outra obra de arte.  A presente comunicação visa detectar, a partir da leitura e análise de poemas de Tempo Espanhol, o olhar que Murilo dirige à poesia espanhola, com a qual conviveu intima e frequentemente, a ponto de incorporá-la à própria obra em vários momentos.

Palavras-chave: Murilo Mendes; poeta crítico; poesia brasileira moderna; poesia espanhola.

 

Minibiografia:

Professora de Literatura Espanhola na Universidade de São Carlos, com doutorado em Letras pela FFLCH/USP na área de Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana. Atualmente, desenvolve pesquisas sobre temas de literatura espanhola e sobre as relações entre literatura espanhola e literaturas de língua portuguesa.


Comunicação 8

A LIÇÃO DO MESTRE AO ALUNO DE POESIA: CRÍTICA E MODERNIDADE EM DRUMMOND E PAES

Autoras:

Albertina Vicentini (PUC-GO – Brasil) – albertinavicentini@uol.com.br

Célia Sebastiana Silva (CEPAE-UFG) – celia.ufg@hotmail.com

Maria Luíza Laboissiére de Carvalho (PUC-GO) – mluiza.carvalho@hotmail.com

 

Resumo:

Para Eliot (1968), por um princípio crítico, de crítica estética, não só de crítica histórica, nenhum poeta, nenhum artista alcança sozinho o significado completo das coisas. Com as inquietações da arte moderna, o diálogo entre um escritor e outro se torna ainda mais estreito, em vista de a relação entre crítica e criação passar a ser uma preocupação comum. Mais que herança, a tradição envolve fundamentalmente o senso histórico. E é com esse senso histórico, a que se refere Eliot, que, em seu primeiro livro, Paes declara: “São meus todos os versos já cantados”, numa evidente alusão à ressonância das vozes da tradição em sua criação poética. Ao se autointitular “aluno”, entre humilde e irônico, o poeta, além de eleger os seus mestres, cita nominalmente alguns como Rimbaud, Bandeira, Neruda e aquele que lhe “empresta os bigodes”: Drummond. Como uma das principais vozes do Modernismo brasileiro, o mineiro de Itabira apresenta uma poesia que ecoa fortemente em seus sucessores. O propósito deste trabalho é, então, mostrar como a voz do “mestre” Carlos Drummond de Andrade atua no aluno de poesia José Paulo Paes ou como o aluno lê o mestre. Pretende-se verificar não as influências ou as coincidências entre esses dois poetas, mas a persistência de “certos modos de pensar, de ver e de sentir”, como quer Octavio Paz. Para tal, serão selecionados do conjunto da obra de cada um alguns poemas em que o diálogo entre a crítica e a criação poética persiste entre passado e presente, moderno e contemporâneo.

Palavras-chave: Poesia moderna; crítica; Drummond; José Paulo Paes; criação.

 

Minibiografias:

Autora 1: Albertina Vicentini

Doutora em Teoria Literária pela USP e pós- doutora em Literatura e História pela UnB. Professora de Literatura Brasileira e Teoria Literária, na PUC-Goiás, atuando em nível de graduação e pós-graduação nas áreas de Letras e História. Suas linhas de pesquisa envolvem a teoria e a crítica da literatura moderna e contemporânea e estudos sobre o regionalismo literário. Publicou vários livros, capítulos de livros e artigos em periódicos. Atua também nas áreas de teatro e cinema e integra a equipe do projeto Poesia brasileira contemporânea e tradição.

Autora 2: Célia Sebastiana Silva

Doutora em Literatura pela UNB e professora do Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (Cepae) da UFG onde atua da educação básica à pós-graduação. Suas linhas de pesquisa estão voltadas para a poesia brasileira moderna e contemporânea, teoria e crítica da poesia lírica e para a área de ensino de literatura e de formação do leitor literário na educação básica, especialmente o leitor de poesia e suas publicações voltam-se para essa área. Integra a equipe do projeto Poesia brasileira contemporânea e tradição.

Autora 3:  Maria Luíza Ferreira Laboissière de Carvalho

Graduada em Letras Modernas: Português/Inglês. Mestrado em Letras e Linguística na UFG e doutorado em Teoria Literária na UNESP – São José do Rio Preto – São Paulo. As produções acadêmicas de mestrado e de doutorado refletem as pesquisas realizadas sobre a literatura produzida em Goiás, em especial a de José J. Veiga e a de Miguel Jorge. Dois livros publicados. É professora aposentada pela Universidade Federal de Goiás. Professora assistente do Curso de Letras da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.


Comunicação 9

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, XANANA GUSMÃO E A LITERATURA DE RESISTÊNCIA

Autora:

Andreia Pereira da Silva – Universidade Federal de Brasília/UnB – Brasil – jornalista.andreiapereira@gmail.com

 

Resumo:

Este artigo surgiu da dúvida que se constitui diante da possibilidade ou não de estabelecer uma relação entre poemas de Carlos Drummond de Andrade e de Xanana Gusmão, sendo este um dos principais nomes da resistência timorense; aquele, um dos principais nomes da poesia brasileira. Nesse sentido, o artigo objetiva estabelecer um cotejo entre os poemas de Drummond, publicados em A rosa do povo (1945), e os de Xanana Gusmão, publicados no livro Mar Meu. Poemas e Pinturas (1998).  Tanto a obra de Drummond quanto a de Xanana Gusmão serão analisadas tendo como vertente teórica o que a crítica denomina de Literatura de Resistência. Para isso, a metodologia adotada para esta investigação teve como base uma pesquisa bibliográgica sustentada pelos pressupostos de autores que reconhecem a literatura como instrumento de resistência e formação de uma identidade nacional, tais como: Damares Barbosa (2013), Domingos de Sousa (2010), Mónica Rafael Simões (2001), Nuno Canas Mendes (2005), Armando Marques Guedes (2005) e o próprio Xanana Gusmão. O livro do poeta utilizado como suporte teórico é Timor Leste – Um povo, uma pátria (1994), no qual ele revela aspectos importantes da história do Timor-Leste.  A partir das comparações propostas, este estudo ainda investiga como a poética drummondiana colaborou para a formação de uma poesia combativa e de resistência no Timor-Leste, tendo em vista que é possível identificar temas similares entre a obra drummondiana e a de Xanana Gusmão. O campo de pesquisa em questão é amplo e requer estudos mais aprofundados, todavia, o presente trabalho não se esquiva de apresentar reflexões e problematizações acerca do papel da poesia como reveladora de um espírito combativo por meio da resistência e da construção de identidade de um povo.

Palavras-chave: Literatura de resistência; poesia; Timor-Leste; identidade.

 

Minibiografia:

Graduada em Letras Português pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e em Comunicação Social/ Jornalismo pelas Faculdades Integradas do Norte de Minas (Funorte). Possui mestrado em Letras/Estudos Literários pela Unimontes. É professora na Funorte, jornalista no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) e doutoranda em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB), onde pesquisa sobre Carlos Drummond de Andrade e a literatura timorense sob a orientação do professor Dr. Alexandre Pilati.


Comunicação 10

A ROSA PARNASIANA (E SEUS DESDOBRAMENTOS E EMBATES CRÍTICOS) NA LEITURA QUE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE FAZ DE UM POEMA DE OLAVO BILAC, NO LIVRO A ROSA DO POVO

Autora:

Betina Bischof – USP – Brasil – bbischof@usp.br

 

Resumo:

Carlos Drummond de Andrade, num dos poemas do livro A rosa do povo (“Anúncio da rosa”), desenvolve uma espécie de comentário crítico de um dos mais famosos poemas do poeta parnasiano brasileiro Olavo Bilac, “Profissão de fé”. O intuito de minha fala será, a partir da comparação entre esses poetas, compreender o sentido inusitado da referência ao parnasianismo (escola marcada, em sua vertente brasileira, pelos temas afastados da realidade e pela técnica rebuscada e castiça) em A Rosa do povo, livro de Drummond com temática mais engajada, publicado em 1945.

Se o esteticismo europeu (em seu fechamento frente à sociedade) foi visto por muitos como uma reação à industrialização e mercantilização do mundo, o parnasianismo brasileiro, com raízes em país periférico, não tinha (quando de sua ascensão) como não girar em falso, porque o recuo do seu verso e temas não encontrava por assim dizer adversário nítido (ao menos não na feição burguesa que Drummond mobilizará em “Anúncio da rosa”). Dado esse quadro, a hipótese que queremos sustentar (para a leitura que o poeta de A rosa do povo faz de Bilac) é a de que os descaminhos que levaram o mundo e particularmente o Brasil ao estado de coisas apontado no livro de 1945 (desigualdade, massificação, ditadura, etc.) dão sustentação a uma sensibilidade crítica que se propõe paradoxalmente a ver o parnasianismo como capaz de enfrentar (por oposição) a matéria contaminada do tempo presente, dominado pela técnica (racionalizadora) e pela desumanização do homem nas formas desiguais dos modos de produção e organização das cidades. O que se quer expor, desse modo, é a centralidade do diálogo entre Drummond e Bilac para a compreensão desse movimento crítico (que se deixa sintetizar como o enfrentamento entre autonomia e engajamento), em “Anúncio da rosa” (com desdobramentos que atingem toda a coletânea A Rosa do Povo).

Palavras-chave: Carlos Drummond de Andrade; Olavo Bilac; parnasianismo; engajamento; esteticismo.

 

Minibiografia:

Betina Bischof é professora do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP e autora do livro Razão da Recusa, sobre a poesia de Drummond. Atualmente, pesquisa as relações entre Lírica e Pintura. Tem publicado textos sobre Lírica moderna, Lírica contemporânea, e sobre a Comparação de Literatura e Pintura.


Comunicação 11

DRUMMOND, CABRAL E O SONO

Autor:

Fabio Cesar Alves – Universidade de São Paulo/USP – Brasil – fabiocesar.alves@terra.com.br

 

Resumo:

O objetivo da comunicação é o de compreender como o poeta Carlos Drummond de Andrade responde, crítica e criativamente, à “teoria do sono” esboçada por João Cabral de Melo Neto no ensaio “Considerações sobre o poeta dormindo” e em seu livro de estréia A pedra do sono, de 1942. Para Cabral, o sono predisporia à poesia por permitir o mergulho em um estado de “ausência de si” que aguçaria as percepções para o invisível, abrindo caminho para a objetividade do poema, despido de um “eu” tornado objeto. Tal concepção foi discutida por Drummond em suas cartas a Cabral, mas também, poeticamente, n’A rosa do povo, obra em que o apelo solidário e a ênfase na transitividade do discurso lírico vêm acompanhados da severa autocrítica do intelectual pequeno-burguês frente ao “mundo caduco” contra o qual combate. A subjetividade tirânica do eu-lírico drummondiano, assim, encontraria no estágio do sono não a abstração do tempo e o estado autocontemplativo cabralinos, mas um ideal de autoaniquilação como via de acesso à alteridade e ao canto coletivo, potencializados pelo impulso utópico e pela latência de vida no interior mesmo desse processo autodestrutivo.

Palavras-chave: Carlos Drummond de Andrade; João Cabral de Melo Neto; lírica e sociedade; lírica moderna; epistolografia.

 

Minibiografia:

Fabio Cesar Alves é professor de literatura brasileira do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), onde desenvolve pesquisa sobre a relação entre intelectuais brasileiros, o Estado Novo e o PCB. É autor do livro Armas de papel: Graciliano Ramos, as Memórias do cárcere e o Partido Comunista Brasileiro (Ed. 34, 2016).


Comunicação 12

FAZENDEIRO DO AR: A RECEPÇÃO DA POESIA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE EM PORTUGAL

Autora:

 Ida Alves – Universidade Federal Fluminense/UFF – CNPq – Brasil – idafalves@gmail.com

 

Resumo:

Nossa comunicação trata da recepção da poética de Carlos Drummond de Andrade em Portugal ao longo do século XX. Na contemporaneidade, ainda é Drummond um nome sempre lembrado como demonstra, por exemplo, a revista portuguesa de poesia Relâmpago. Desejamos examinar essa recepção e seus desdobramentos críticos em relação ao diálogo luso-brasileiro no campo do lirismo moderno.

Palavras-chave: Carlos Drummond de Andrade; poesia portuguesa; crítica de poesia; literatura comparada; periódicos.

 

Minibiografia:

Professora de Literatura Portuguesa na Graduação e Pós-Graduação do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana – NEPA UFF, coeditora das revistas eletrônicas Abril NEPA UFF, Cadernos de Letras UFF e Convergência Lusíada – Real Gabinete Português de Leitura. Pertence ao Polo de Pesquisas Luso-brasileiras do RGPL – PPLB. Pesquisadora do CNPq desde 2008.


Comunicação 13

DRUMMOND, CRÍTICO DE POESIA

Autor:

Roberto Said (UFMG – Brasil) – robertosaid@uol.com.br

 

Resumo:

Carlos Drummond de Andrade produziu, antes da publicação de sua obra de estreia, Alguma poesia (1930), uma extensa e heterogênea série textual, formada por crônicas, poemas em prosa e em verso, resenhas e ensaios de crítica literária, artigos sobre o cinema e aforismos, os quais foram veiculados em jornais e revistas da década de 1920. Nesses primeiros escritos, o jovem poeta, não obstante a experiência provinciana vivida na igualmente jovem cidade de Belo Horizonte, encarnava o desejo de expansão ilimitado da subjetividade moderna, atento às transformações do mundo e da arte. Seus ensaios abarcavam, com notável capacidade de atualização, desde os clássicos da cultura ocidental até as produções mais recentes da literatura brasileira, passando ainda pelas novidades cinematográficas e pelos eventos marcantes do cotidiano e da política, tanto no âmbito interno quanto no externo. Com suas lentes escrutinadoras, Drummond transitava entre a análise das tecnologias de linguagem da modernidade cultural europeia e as primeiras experiências do modernismo brasileiro, revelando intenso trabalho de pesquisa e experimentalismo. A proposta desta comunicação é estudar os ensaios de crítica literária elaborados por Drummond nos anos de 1920, especialmente os dedicados à crítica de poesia, a fim de identificar as linhas de força estéticas e políticas que atravessam sua escrita.

Palavras-chave: poesia brasileira; Carlos Drummond de Andrade; ensaios; crítica de poesia.

 

Minibiografia:

Professor de Teoria da Literatura da Universidade Federal de Minas Gerais. Experiência na área de Letras, História e Cultura brasileira, com ênfase em Teoria da Literatura, Literatura brasileira, História e memória cultural, atuando principalmente nos seguintes temas: Literatura comparada, poesia contemporânea, literatura e filosofia, literatura e cinema, arquivos e acervos literários, estudos biográficos. Atuou como Editor da Editora UFMG, entre os anos de 2010 e 2016, na condição de Vice-Diretor.


Comunicação 14

DOIS CÉTICOS NA PERIFERIA DO CAPITALISMO

 

Autor:

Carlos Augusto Bonifácio Leite – Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS – Brasil – guto.leite82@gmail.com

 

Resumo:

Não são muitas as referências diretas à poesia de Carlos Drummond de Andrade na obra de Chico Buarque. No entanto, todos os esforços que se acumulam sobre a biografia do cancionista – livros, documentários, entrevistas etc. –, além de sua produção romanesca nos últimos vinte anos, constroem a figura do compositor hiperletrado com especial consideração à poesia de livro, que toma, como o autor deste trabalho, como gênero distinto da canção popular.

Tal aproximação seria pouco profícua, se não se observasse em ambos, a princípio, uma postura muito semelhante, qual seja, um ceticismo rematado desde os primeiros gestos diante das conquistas, do alcance e dos desdobramentos da modernização brasileira, haja vista, sucintamente, “Explicação” (1930) – “No elevador penso na roça, / na roça penso no elevador” – e “Pedro Pedreiro” (1965), em que o personagem espera indefinidamente o trem “que já vem”.

Desviando-se do tom de euforia reinante de suas influências imediatas, o “ufanismo crítico” (SCHWARZ, 1987) dos livros de poesia iniciais de Mário de Andrade e Oswald de Andrade, para o primeiro, e a dicção equilibradamente positiva e maquinal da Bossa Nova para segundo – como também, para Chico, parte substancial da poesia modernista, Mário, Oswald e Drummond, que leu na juventude –, as poéticas de ambos, poeta e cancionista, se desenvolveram em sensível distância crítica em relação aos resultados do progresso do país e às chances de uma autonomia qualquer a reboque das nações e economias que ditam e impõem seus ritmos.

Este trabalho visa ensaiar a natureza dessa condição “atocaiada” (PILATI, 2009) nas duas produções, cotejando a ironia austera (CANDIDO, 1977) de Drummond à utopia cordial (GARCIA, 2009) da dicção de Chico Buarque. Pensando o primeiro como onipresente na construção da lírica nacional letrada, difícil não pensar no segundo como uma derivação cancional de sua poesia.

Palavras-chave: modernidade; ceticismo; progresso; cordialidade; crítica.

 

Minibiografia:

Graduado em Linguística pela UNICAMP, especialista, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Professor adjunto de Literatura Brasileira nessa mesma universidade, onde exerce também a função de Coordenador da Comissão de Extensão do Instituto de Letras e Coordenador da Especialização em Literatura Brasileira. Poeta com cinco livros de poesia editados e compositor de dois álbuns de canções autorais.


Comunicação 15

APRENDER ENSINANDO: INFLUÊNCIAS SIMBOLISTAS EM JOÃO CABRAL DE MELO NETO

 

Autora:

Cristina Henrique da Costa (UNICAMP – Brasil) – cristinahenriquedacosta@hotmail.fr

 

Resumo:

Não se costuma desconfiar do espírito crítico do poeta João Cabral de Melo Neto: ele próprio, os acadêmicos de modo geral e alguns estudiosos têm-no como consenso. Entretanto, a pergunta pelo significado da expressão “poeta crítico”, que lembra também o título de uma antologia, “Poesia crítica”, publicada pela editora José Olympio em 1982, pode ainda ser feita. Não se pode dizer que João Cabral tenha legado tratados de teoria, e na verdade optou mesmo por integrar seu constante diálogo com outros poetas, artistas ou artesãos, nomeados ou anônimos, aos próprios poemas. Dialogando através de tal escolha com a tradição imemorial das homenagens, os poemas de João Cabral sutilmente desviam-se da valorização do homenageado, para se configurarem finalmente como poemas sobre o fazer cabralino. Por trás de uma técnica não desprovida de artifícios retóricos, que se apresenta como um aprender ensinando, descortina-se, porém, certa filiação do pernambucano à tradição do simbolismo francês. Se Baudelaire, Mallarmé e Valéry tanto exploraram a arte de espelhar-se no outro pelo poema, como também deixaram Poéticas, para João Cabral, aprender com eles significou separar o grão do joio (ou Catar feijão, na versão cabralina) e incorporar profundamente certos conceitos para melhor divergir na prática concreta. Alimentando uma contradição singular entre teoria e prática, na qual se lê certa convivência tensa do poeta com tudo que é alheio, a atividade crítica do pernambucano resulta numa indiscutível criatividade imagística e metafórica, mas oculta por vezes seus motivos e motores simbolistas. Nossa proposta de comunicação pretende explorar as influências de Mallarmé e Valéry não pelo ângulo abstrato de suas ideias que João Cabral declara ter adotado, e sim pelo prisma do mecanismo imaginativo da crítica, por onde, como num moinho, mesmo os conceitos mais elaborados da modernidade terão que passar.

Palavras-chave: João Cabral de Melo Neto; Mallarmé; Paul Valéry; imaginação.

 

Minibiografia:

Cristina Henrique da Costa foi Maître de conférences na Universidade Montpellier 3 (França). Hoje é Profa. Doutora de Teoria Literária no IEL da UNICAMP. É autora do livro Imaginando João Cabral imaginando (Campinas, Editora da UNICAMP, 2014). Trabalha com questões de imaginação, teoria poética, hermenêutica crítica, literatura brasileira.


Comunicação 16

SOPHIA ANDRESEN, LEITORA DE JOÃO CABRAL

 

Autora:

Solange Fiuza Cardoso Yokozawa (Universidade Federal de Goiás/UFG – Brasil) – solfiuza@gmail.com

 

Resumo:

João Cabral de Melo Neto era amigo de Sophia de Mello Breyner Andresen e a considerava “o maior poeta português” de sua geração. A ela escreveu um elogio poético publicado em A educação pela pedra (1966) e a evoca ainda em Auto do frade (1984). Sophia, por sua vez, publicou, em 1960, um artigo sobre o poeta na revista católica Encontro, dedicou a ele O Cristo cigano, livro de 1961 que foi escrito a partir de uma história que Cabral lhe contou, e ainda publicou em Ilhas, de 1989, um poema crítico instigante sob o título “Dedicatória da segunda edição do Cristo cigano a João Cabral de Melo”. Os estudos comparativos entre Cabral e Sophia, ao lado daqueles que aproximam o poeta de Carlos de Oliveira, compõem a maioria dos trabalhos críticos existentes sobre as relações entre Cabral e Portugal. Se proponho, entretanto, nesta comunicação, voltar aos dois poetas, não é para realizar um exame das confluências entre ambos, pondo em evidência aspecto/s ainda não considerado/s, mas para acompanhar as diversas leituras que Sophia realiza de Cabral, situando-as no contexto mais amplo da recepção do poeta em Portugal.

Palavras-chave: poesia moderna; poesia de língua portuguesa; relações poéticas; João Cabral de Melo Neto; Sophia de Mello Breyner Andresen.

 

Minibiografia:

Professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Goiás (Brasil). Desenvolve pesquisas sobre poesia moderna e contemporânea, coordenando, atualmente, o projeto João Cabral de Melo Neto e Portugal: recepção crítica e diálogos poéticos. Entre outras publicações, é autora ou (co)organizadora dos títulos: A memória lírica de Mario Quintana, O legado moderno e a (di)ssolução contemporânea, Inventário e Poesia brasileira contemporânea e tradição.


Comunicação 17

JOÃO CABRAL DE MELO NETO DIALOGA COM MALLARMÉ

 

Autora:

Zênia de Faria (Universidade Federal de Goiás/UFG – Brasil) – zefirff@gmail.com

 

Resumo:

Na obra de João Cabral de Melo Neto, marcas como a da alteridade e do dialogismo manifestam-se de modo bastante significativo. Queremos dizer com isso que, com frequência, na obra do vate pernambucano, o “outro”, o “fazer do outro” são por ele próprio apontados, nomeados explicitamente, ou facilmente reconhecidos por um leitor culto. De fato, João Cabral estabelece, em sua produção literária, diálogos com escritores, pintores, escultores, na medida em que o fazer destes corresponde, de algum modo, ao seu próprio fazer poético, isto é, ao seu ideário estético ou à sua praxis. A plasticidade, o rigor da composição, a lucidez, por exemplo, são algumas das exigências que nosso poeta demonstra partilhar com tais artistas. Tendo em vista a multiplicidade de diálogos entre Cabral e o os diferentes artistas, presentes de alguma forma em sua obra – e que não seria possível examinar no quadro do presente trabalho — nossa comunicação será centrada, apenas, no diálogo que o poeta pernambucano mantém com Stéphane Mallarmé, numa tentativa de verificar que tipos de relações podem ser percebidas, de fato, entre esses dois poetas, particularmente no tocante às suas concepções de poesia, ao seu fazer poético, às suas temáticas.

Palavras -chave: João Cabral de Melo Neto; Stéphane Mallarmé; diálogos.

 

Minibiografia:

Professora Titular de Literatura Francesa(aposentada) da UFG, onde ainda leciona Literatura Comparada e Teoria Literária nos Cursos de Pós-Graduação. Mestre em Letras Modernas-Francês (U.de Linoges, França); Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada (USP, SP); Pós-Doutorado na Instituto de Literatura Comparada na U.de Paris III, Sorbonne-Nouvelle, onde também foi Professora convidada no Inst. de Estudos Portugueses e Brasileiros .


Comunicação 18

LÁ, ONDE OS POETAS SE ENCONTRAM: IMAGENS COMPARTILHADAS ENTRE JOÃO CABRAL E MIGUEL HERNÁNDEZ

Autor:

Rodrigo Garcia Barbosa (Universidade Federal de Lavras/UFLA – Brasil) – rodrigobarbosa@dch.ufla.br

 

Resumo:

É conhecido o interesse da poesia de João Cabral de Melo Neto pelas realizações de outros poetas e artistas, interesse que quase sempre esteve relacionado a uma perspectiva metapoética, que privilegiou a apreensão crítica de tais obras, procurando compreender seus elementos constituintes e as articulações entre eles, delineando seus valores éticos, suas concepções estéticas e seus pressupostos compositivos. Dessa forma, inúmeras vezes a poética cabralina se concretizou ao apresentar outras poéticas com as quais possuía evidentes afinidades, estabelecendo assim um diálogo valioso, que proporcionou a Cabral tanto uma autocrítica quanto um autolegitimação de sua poesia, no seu permanente processo de formação. Dentre as obras e autores mencionados, situa-se o escritor espanhol Miguel Hernández, a quem Cabral dedicou o poema “Encontro com um poeta”, no qual é possível reconhecer as afinidades acima referidas pela descrição dos aspectos éticos e estéticos da obra de Hernández, principalmente pelas escolhas lexicais do poema, que conectam e relacionam objetos caros à poesia de ambos. Assim, este trabalho pretende partir dessas conexões e relações para investigar de maneira mais abrangente o diálogo que se evidencia em um único poema, mas que parece alcançar maior amplitude e densidade quando observamos como certas imagens da poesia de Hernández também frequentam outros poemas de Cabral, estabelecendo diferentes possibilidades de aproximações e distanciamentos entre suas poéticas. Com isso, tal investigação busca explorar a hipótese de um entrecruzamento mais profundo e decisivo para a conformação da obra do poeta pernambucano, e que implicaria também em novas perspectivas para a recepção da poesia do espanhol, resultando em contribuições para os estudos sobre os diálogos e relações entre as produções de diferentes poetas.

Palavras-chave: João Cabral de Melo Neto; Miguel Hernández; imagem poética.

 

Minibiografia:

Professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal de Lavras (Brasil), onde coordena o Núcleo de Estudos Comparados em Literatura (NECLI) e os projetos de pesquisa O gesto da escrita, a escrita do gesto: corpo, arte e literatura e Poesia e imagem: imaginário e memória. É membro do grupo de pesquisa do CNPq Poéticas do imaginário e memória, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, e do grupo de trabalho Teoria do Texto Poético da ANPOLL.


Comunicação 19

MANUEL BANDEIRA CRÍTICO DO POETA MODERNO JOÃO CABRAL DE MELO NETO

 

Autora:

Joelma Santana Siqueira (Universidade Federal de Viçosa – Brasil) –jandraus@ufv.br

 

Resumo:

Em Itinerário de Pasárgada, o poeta Manuel Bandeira informa que seu livro Apresentação da poesia brasileira foi escrito para o Fondo de Cultura do México e editado no Brasil em 1946, cinco antes da tradução espanhola, que só aconteceu em 1951. Para o autor, trata-se de um estudo crítico da evolução da poesia no Brasil, seguido de breve florilégio que ilustra essa evolução. Ao longo do tempo, a obra foi ampliada e, em 1965, a última edição publicada em vida foi realizada pela Ediouro. É com esta edição que trabalharemos. As etapas da poesia brasileira estão divididas em cinco capítulos: “Gongorizantes e Árcades”, “Românticos”, “Parnasianos”, “Simbolistas” e “Modernistas”. Interessa-nos, sobretudo, a visão crítica de Bandeira a respeito da poesia modernista brasileira e de como a poesia de João Cabral se insere nesse contexto. Semelhantemente ao que Cabral observou em 1952 a respeito dos poetas que lhe eram contemporâneos, Bandeira considera que não é possível caracterizar em conjunto os poetas aparecidos a partir de 1942, pois são poetas em formação. Sobre João Cabral, destacando os últimos livros do escritor, Cão sem plumas, O Rio e Terceira Feira, observa que o poeta adotou “um realismo socialmente interessado”. O objetivo deste trabalho é investigar a visão de Bandeira sobre os modernistas brasileiros quando já se identificada o aparecimento da nova “geração de 1945” e sua inclusão da poesia de João Cabral nesse contexto. Debruçando-se atentamente sobre esse capítulo da Apresentação da poesia brasileira, correspondências trocadas entre os dois escritores nos anos 1940 e 1950, textos historiográficos e críticos a respeito da chamada “geração de 45”, entrevistas e textos poéticos de João Cabral, espera-se poder discutir possíveis considerações que, para Manuel Bandeira, justificam a poesia cabralina entre a dos que acusam “o mais nitidamente possível a evolução do sentimento e da técnica em nossa poesia”.

Palavras-chave: Poeta crítico; poesia moderna; Manuel Bandeira; João Cabral de Melo Neto; geração de 1945.

 

Minibiografia:

Doutora em literatura brasileira pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (2008). Estágio Pós-doutoral na Faculdade de Letras da Universidade do Porto com bolsa CAPES (2014-2015). Professora efetiva da graduação e da pós-graduação na Universidade Federal de Viçosa, onde tem desenvolvido projetos de pesquisa, ensino, extensão e cultura. Membro do corpo editorial da Revista Gláuks e do conselho consultivo de diferentes periódicos acadêmicos Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras/UFV (2016).


Comunicação 20

EUGENIO DE ANDRADE, LEITOR DE CAMILO PESSANHA

Autor:

Paulo Franchetti (Universidade Estadual de Campinas/UNICAMP – CNPq – Brasil) – paulofranchetti@gmail.com

 

Resumo:

Quando comecei a estudar com dedicação a poesia de Camilo Pessanha, deparei-me com dois números da revista Persona que se tornaram referência e inspiração para todo o meu trabalho. Num deles, datado de julho de 1984, um texto de Eugénio de Andrade causou-me profunda impressão. Intitulava-se “Camilo Pessanha, o mestre”. Nele, recuperando a frase de Eça sobre Antero, a frase final sintetizava assim o encontro: “a tal exemplaridade fiquei fiel para sempre”. Essa “exemplaridade” encontra manifestação material na antologia que Eugénio organizou, a sua, pessoal, dos poetas que contaram na sua formação e na sua vida, na qual a proporção entre os poemas publicados e os poemas escolhidos de Pessanha é um claro índice da relevância do poeta oitocentista para a sua sensibilidade.

No entanto, nunca tinha buscado confrontar a leitura da poesia de Eugénio com essa declaração, o que tento agora. De modo geral, o que busco fazer é verificar, percorrendo a obra poética de Eugénio, quais os ecos sensíveis da poética de Pessanha na sua própria, quais os traços do diálogo entre os dois poetas, não só nos temas, mas principalmente nos ritmos e na estruturação dos poemas. E, por meio desse percurso de leitura, contribuir para compreender e dimensionar a presença de Camilo Pessanha ao longo da poesia do século XX em Portugal.

É certo que, sendo este apenas um projeto de trabalho, não saberia dizer em que medida a autoimagem de Eugénio como leitor e fiel guardião da exemplaridade da poesia de Pessanha corresponde à realidade da sua prática poética. Mas a investigação vale a pena. Quando mais não seja, pela oportunidade de reler um pelos olhos ou pela herança do outro, pois se trata aqui indubitavelmente de dois poetas de grandeza e representatividade na poesia de língua portuguesa do século XX.

Palavras-chave: poesia portuguesa; Eugénio de Andrade; Camilo Pessanha.

 

Minibiografia:

Paulo Franchetti formou-se em Letras (Português/Francês) na UNESP, campus de Araraquara (1975), Mestre em Teoria Literária pela UNICAMP (1981), doutor em Letras pela USP (1992) e Livre Docente pela UNICAMP (1999). Professor Titular da UNICAMP desde 2004. De 2002 a 2013, dirigiu a Editora da UNICAMP, presidindo seu Conselho Editorial. Aposentou-se em 17 de março de 2015. Atua na área de Letras, com ênfase em Teoria Literária, Literatura Brasileira dos séculos XIX e XX e Literatura Portuguesa do século XIX. Parte de sua produção se encontra reunida no blog www.pulofranchetti.blogspot.com.br.


Comunicação 21

A POESIA DE HELENO GODOY COMO LEITURA DAS POESIAS DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO E DE MÁRIO CHAMIE

Autor:

Clóvis Meireles Nóbrega Júnior (CCLI/IFB – Brasil) – clovis.nobrega@ifb.edu.br; clovisufg@gmail.com

 

Resumo:

Depois de escrever e descartar seus primeiros livros de poesia, Heleno Godoy publicou, em 1968, Os veículos. Nele, seu autor reconhece, a voz que fala, através da teoria da Instauração Práxis transformada em poesia, não é de Heleno Godoy, mas uma voz influenciada pela poesia de Mário Chamie. Não sem motivo, Heleno Godoy só publicou outro livro de poesia, fábula fingida, em 1985. Foram, segundo ele mesmo já disse, dezessete anos de afastamento dessa influência, em busca de uma linguagem própria. Entre esses dois anos, o da estreia e o da publicação do segundo livro de poesia o poeta escreveu e publicou prosa, mas sobretudo leu poetas que o ajudaram ase formar e a se educar enquanto poeta. Esta comunicação pretende mostrar como, através da leitura de poetas essenciais na formação de seu mundo teórico, crítico e de escrita poética (Pessoa, Bandeira, Drummond, Marianne Moore, Jorge de Lima), Heleno Godoy redescobriu a poesia de João Cabral de Melo Neto, numa espécie de volta às origens. Embora podendo ser considerada precursora das vanguardas no Brasil, a poesia de João Cabral de Melo Neto serviu como ponte ou possibilidade de a poesia de Heleno Godoy ser a forma de ele estar seguro de não ‘encontrar’ na sua uma poesia alheia, nem ‘obter’ uma forma poética de mera semelhança com a sua, mas de ‘atingir’ uma forma pessoal sua, na qual a leitura e influência da poesia de João Cabral de Melo Neto serve de contrapeso à leitura e influência da poesia de Mário Chamie. Essas duas linhas de força, é o que esta comunicação quer demonstrar, possibilitaram a constituição da forma através da qual Heleno Godoy encontrou a sua própria voz poética.

Palavras-chave: Heleno Godoy; João Cabral de Melo Neto; Mário Chamie; influência; voz poética própria.

 

Minibiografia:

Professor de Literatura e Teoria Literária do Curso de Letras do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Brasília (IFB/Brasil). Atualmente desenvolve pesquisas sobre literatura brasileira contemporânea e está vinculado a dois grupos de pesquisa: “Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Cultura, Identidade e Poder” e “Linguagem e Práticas Sociais”, ambos cadastrados no CNPq. Entre outras publicações, é autor de Os espaços da solidão e outros ensaios (2012) e A personagem melancólico-solitária em contos de Caio Fernando Abreu (2011).


COMUNICAÇÃO 22

LÊDO IVO, LEITOR-CRÍTICO DA LITERATURA BRASILEIRA

Autora:

Vera Lúcia de Oliveira (Università degli Studi di Perugia – Itália) – veralucia.deoliveira.m@gmail.com; vera.deoliveira@unipg.it

 

Resumo:

Lêdo Ivo é um dos grandes poetas brasileiros do século XX, cuja obra necessita de uma revisão crítica, pois geralmente ele foi associado à Geração de 45, que se opôs ao Modernismo e que propôs um retorno às formas clássicas da poesia de língua portuguesa. Na verdade, Lêdo Ivo é um poeta complexo e multifacetado, cuja obra dificilmente pode ser enquadrada em uma única e limitada geração ou corrente, pois ele se alimentou de inúmeras leituras e contribuições, não apenas no âmbito da literatura brasileira.

Gostaria, aqui, de analisar como Lêdo Ivo se relaciona com a obra de alguns dos grandes autores do seu tempo, como Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Manuel Bandeira e outros. Concentrar-me-ei, sobretudo, no livro O vento do mar, publicado em 2011, obra híbrida, em que Lêdo Ivo une o autobiografia e o ensaio crítico, revisitando vários momentos do seu percurso poético, assim como o encontro e a convivência com alguns dos poetas e prosadores mais importantes da nossa literatura. Nesse livro, enquanto se debruça sobre a vida-obra dos seus pares, Lêdo Ivo revela muito da sua própria poética e pensamos que isso possa ser útil para penetrar com maior aderência em sua vasta obra e resgatar criticamente, pelo menos em parte, o papel que este autor tem dentro da literatura brasileira contemporânea.

Palavras-chave: Lêdo Ivo; poesia brasileira contemporânea; Manuel Bandeira; Jorge de Lima; João Cabral de Melo Neto.

 

Minibriografia:

Vera Lúcia de Oliveira é poeta, ensaísta e professora de Literaturas Portuguesa e Brasileira na Università degli Studi di Perugia. Recebeu diversos prêmios pela sua produção, entre os quais o de Poesia da Academia Brasileira de Letras, em 2005. A autora, que escreve tanto em português como em italiano, tem poemas e ensaios publicados no Brasil, Itália, França, Alemanha, Romênia, Estados Unidos, Espanha e Portugal. site: http://www.veraluciadeoliveira.it


Comunicação 23

A METACRÍTICA DE SEBASTIÃO UCHOA LEITE

Autor:

André Vinícius Pessôa (UERJ – Capes/Faperj – Brasil) – andreviniciuspessoa@gmail.com

 

Resumo:

A intrínseca relação entre a poesia de Sebastião Uchoa Leite e a sua obra crítica se evidencia nas diversas interpenetrações conceituais que o poeta estabelece. Adolfo Montejo Navas (2014) se refere a uma “capacidade de translação intelectual para transitar por universos dissimiles” (2014, p. 83) que permite um jogo das referências cruzadas na obra do poeta. Diante do conjunto desses entrelaçamentos, a proposta da comunicação é destacar um traço bastante peculiar da prosa de Uchoa Leite, não menos transtextual que os demais. Trata-se da crítica da crítica, ou a metacrítica. Os ensaios do poeta destinados à leitura de obras críticas afins revelam determinados e determinantes pontos de contato com os seus próprios procedimentos. Íntimas conexões são estabelecidas por meio de enumerações de diversas posturas críticas, às quais o poeta se filia ao decidir pelos direcionamentos que veicula. No ensaio “Octavio Paz: o mundo como texto”, ao analisar e debater a prosa crítica do poeta mexicano, Uchoa Leite desvela progressivamente não apenas os procedimentos desse autor, mas também os seus próprios, utilizados ao longo de sua obra crítica. À medida que apresenta as características da escrita de Paz, o poeta revela a si mesmo como produtor de uma prosa crítica pouco convencional face à crítica tradicional, por conter elementos poéticos-ficcionais e não se ater ao campo exclusivo da análise literária.

Palavras-chave: Sebastião Uchoa Leite; poeta-crítico; metacrítica; ensaio.

 

Minibiografia:

André Vinícius Pessôa, bacharel em Comunicação Social pela PUC-Rio; mestre e doutor em Letras pela UFRJ; pós-doutor pelo Instituto de Letras da UERJ. Atualmente encontra-se vinculado à Pesquisa de Pós-Doutorado “O poeta-crítico no Brasil: tradição e contemporaneidade – ensaísmo crítico de poetas na literatura brasileira dos séculos XX e XXI”, coordenada pelo Prof. Roberto Acízelo Quelha de SOUZA, no Instituto de Letras da UERJ, com Bolsa de Apoio da Capes/Faperj.


Comunicação 24

“LER PELO NÃO”: PAULO LEMINSKI COMO UM LEITOR DE POETAS

 

Autora:

Ana Érica Reis da Silva Kühn (Universidade Federal de Goiás/UFG – CAPES –Brasil) – anaerica86@gmail.com

 

Resumo:

A leitura que realizou de outros poetas, tendo em vista a tradição que elegeu para si, foi uma forma de Paulo Leminski fundar a sua própria expressão. Assim, é possível encontrar na sua obra as diversas vozes que influenciaram a sua dicção poética. Dentre os nomes que dialoga estão Homero, Fernando Pessoa, Allen Ginsberg, Arthur Rimbaud, Haroldo de Campos, Walt Whitman. Esse exercício de leitura não está presente apenas na obra criativa de Leminski, mas também nos seus ensaios, nos quais lê e analisa, de forma crítica, as obras e também a prática inventiva de alguns poetas. Para tanto, organizou um livro em que reúne apenas ensaios dedicados a escritores, intitulado Anseios crípticos 2. Contudo, vale ressaltar que a sua relação com a tradição é assinalada por uma tensão, pois a leitura que faz dos poetas que estima intelectualmente é realizada pelo viés do “não”. Isso ocorre porque, apesar de admirá-los, Leminski não deseja seguir o curso delineado por seus precursores, uma vez que anseia instituir o seu próprio estilo. Para isso, busca, nessa tradição, convalidar seus próprios valores e, assim, conquistar o seu lugar perante esse cânone poético. A partir de tais argumentos, este trabalho visa analisar o modo como Leminski lê os seus pares, observando, sobretudo, a tensão que ocorre nesse diálogo. Desse modo, procederemos com a análise da sua obra poética e dos ensaios críticos que versam sobre outros poetas.

Palavras-chave: Paulo Leminski; leitura; poetas.

 

Minibiografia:

Possui graduação em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas pela Universidade do Estado da Bahia e Mestrado em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás. Atualmente está vinculada ao Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Goiás como aluna regular do curso de doutorado, concentração na área de Estudos Literários. O estudo de doutoramento tem como foco a crítica e a poesia de Paulo Leminski, sob orientação da Prof.ª Dr.ª Solange Fiuza Cardoso Yokozawa.


Comunicação 25

A EXPRESSÃO TRADUTÓRIA DE PAULO LEMINSKI: UMA LEITURA DE EZRA POUND, HAROLDO E AUGUSTO DE CAMPOS

Autora:

Lívia Mendes Pereira (Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP – Brasil) – liviamendesletras@gmail.com

 

Resumo:

Buscando contribuir com a pesquisa da história da tradução no Brasil, investigamos o projeto tradutório do poeta e tradutor curitibano Paulo Leminski. Seu projeto de tradução obedece principalmente ao projeto estabelecido pelo poeta e tradutor norte-americano Ezra Pound, que instaurou o make it new, baseado na ideia de inserir nova vida ao passado literário por meio da tradução. Este foi cultuado, no Brasil, pelos concretistas e pós-concretistas brasileiros, dentre os quais destacamos os contemporâneos de Leminski, Haroldo e Augusto de Campos, com quem o poeta curitibano travava intenso e não incontroverso diálogo. Sobre o make it new poundiano, não se trata apenas de uma renovação linguística, em utilizar uma linguagem nova e atualizada, mas de transmitir os próprios sentimentos como tradutor da obra de partida para o texto de chegada. Haroldo e Augusto de Campos, assim como Pound, também concebem o processo tradutório como “recriação” do original, em que não se traduz apenas o significado do original, mas também, sua materialidade. Além de reproduzir o significado, esse método de tradução pretende indicar a função poética da linguagem e repetir a beleza estética do próprio original. Essa concepção de tradução é inovadora, pois faz transcender a tradução, que assim deve interferir proposital e conscientemente no original. A proposta tradutória dos irmãos Campos inaugurou e consolidou um novo método tradutório na história tradutória brasileira e influenciou diversos poetas e tradutores, como constataremos, neste caso, a influência direta nas traduções feitas por Paulo Leminski. A partir das próprias declarações de Leminski, sobre o ato tradutório, poderemos verificar quais características foram incorporadas por ele e quais adicionou seguindo seus próprios interesses, sendo que na prática da teoria da recriação ele também constitui seu próprio “paideuma” de obras que de alguma forma compõem as leituras inspiradoras de sua própria obra poética.

Palavras-chave: Paulo Leminski; Ezra Pound; irmãos Campos; make it new; recriação.

 

Minibiografia:

Licenciada e Bacharela em Letras – Latim pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Campus Araraquara. Mestra em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Campus Araraquara. Doutoranda em Linguística – Estudos Clássicos pelo Instituto de Estudos da Linguagem na Universidade Estadual de Campinas. Pesquisadora na área de Tradução e Recepção da Literatura Greco-romana na Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos da História da Tradução.


Comunicação 26

PÓS-UTOPIA, TRADIÇÃO E INVENÇÃO: ASPECTOS DO PENSAMENTO POÉTICO DE HAROLDO DE CAMPOS 

Autora:

Diana Junkes Bueno Martha (Universidade Federal de São Carlos/UFSCAR – Brasil) – dijukes@gmail.com

 

Resumo:

Se observado a partir da relação com o cânone, o trabalho criativo de Haroldo de Campos vai além do concretismo, sugerindo a existência de uma articulação entre a utopia de vanguarda e outra, mais amplamente voltada para o diálogo e reinvenção da tradição, a que se pode chamar utopia fáustica e que pode ser associada à pós-utopia, apresentada pelo poeta em Poesia e modernidade, da morte do verso à constelação, o poema pós-utópico. A partir de um movimento de revisão do princípio-esperança da vanguarda, das leituras que realiza da obra de Walter Benjamin, estimulado, ainda, pela leitura de Os filhos do barro de Octavio Paz, Haroldo de Campos defende, como já fizera em ensaios anteriores, a necessidade de uma poesia da agoridade que atenda a um contexto pós-utópico. Assumindo posição contrária ao que tem feito a fortuna crítica dedicada ao estudo da pós-utopia na obra haroldiana, que nota tom funesto em seus últimos poemas, em virtude do arrefecimento utópico, este artigo pretende mostrar que não há passagem da utopia à pós-utopia em sua obra, mas uma relação dialética entre ambas, que se integram mutuamente e têm, na mobilização do passado, em sentido benjaminiano, uma chave interessante de leitura. Propõe, ainda, que a pós-utopia não seja abordada do ponto de vista da crise da poesia, mas, antes, como resposta e posicionamento do poeta em relação à crise, por isso marcadamente crítica e inventiva e fundada em crítica e consistente leitura da tradição, tanto lusófona quanto de outras literaturas, da antiguidade à modernidade.

Palavras-chave: Haroldo de Campos; pós-utopia; tradição; vanguarda; poesia contemporânea.

 

Minibiografia:

Diana Junkes Bueno Martha é mestre e doutora em Estudos Literários pela UNESP/Araraquara. Foi Visiting Scholar das Universidades de Illinois (EUA/2010) e Visiting Fellow da Yale University. É professora de teoria literária e literatura brasileira na Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, na graduação e na pós-graduação; nesta universidade, também coordena o Grupo de Estudos de Poesia e Cultura – GEPOC-CNPq e o programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura.


Comunicação 27

MÁRIO CHAMIE, LEITOR DE CASSIANO RICARDO, LEITOR DAS VANGUARDAS

Autor:

Heleno Godoy (Universidade Federal de Goiás/UFG – Brasil) – hgodoy@brturbo.com.br

 

Resumo:

A partir do II Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária (Assis-SP, 1961), em que apresentou a tese “22 e a poesia de hoje” (Invenção, 1962), Cassiano Ricardo tornou-se o interlocutor mais profícuo da modernidade de 1922 com a geração de poetas que, nas décadas de 50 e 60, no século XX, propuseram as vanguardas Poesia Concreta e Instauração Praxis. Se a tese de Assis constituiu seu diálogo com a Poesia Concreta, com o livro Poesia Praxis e 22 (1966), Ricardo estendeu seu diálogo até a Instauração Praxis, proposta por Mário Chamie no “Manifesto Didático” de Lavra lavra (1962). Entre um e outro diálogo, Ricardo publicou Algumas reflexões sobre poética de vanguarda (1964). Anteriormente, Mário Chamie publicara Palavra-levantamento na poesia de Cassiano Ricardo (1963), que afirmou ser “a primeira realização de uma crítica práxis no Brasil”, aquela “que procura, nos limites estéticos do texto, surpreender as constantes e os móveis da evolução e transformação de nossa consciência coletiva”. A comunicação aqui proposta quer estabelecer as bases do diálogo Chamie/Ricardo, como leitores da poesia um do outro e de suas propostas teóricas, para mostrar como a evolução da poesia brasileira de 1950 a 1970 se deu através de posições teórico-críticas que possibilitaram o aprofundamento de questões relativas à escrita/produção poética e à superação ou não dos postulados modernistas de 1922. Para Ricardo sempre se tratou de uma extensão ou prolongamento de 1922; para Chamie tratava-se mais do abandono da perspectiva de uma poesia de expressão e a adoção de uma perspectiva de levantamento, sem se considerar encerrado “o ciclo do verso”, como propuseram os poetas concretos.

Palavras-chave: Cassiano Ricardo; Mário Chamie; vanguardas poéticas; leitura de poesia e diálogo crítico.

 

Minibiografia:

Heleno Godoy, doutor em letras pela USP, é professor titular aposentado de literaturas de língua inglesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás, onde também trabalhou na pós-graduação (principalmente com narratologia e teatro) desde 1992 até 2015. Escritor, estreou em 1968, com o livro de poemas práxis Os veículos, e tem inúmeros outros livros de poesia, ficção e ensaios publicados, em que se destaca Inventário: poesia reunida, inéditos e dispersos (1963-2015) (Goiânia: martelo, 2015).


Comunicação 28

MANOEL DE BARROS E A POESIA BRASILEIRA DOS ANOS 1930

Autora:

Kelcilene Grácia Rodrigues (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/UFMS – Brasil) – kelcilenegracia@gmail.com

 

Resumo:

Manoel de Barros, nascido em Cuiabá, Mato Grosso, em 19 de dezembro de 1916, mudou-se para o pantanal de Corumbá, onde viveu sua infância. Na adolescência, estudou em colégios internos do Rio de Janeiro. Em entrevistas, Barros informa que sua formação está assentada na literatura clássica portuguesa (nos quinhentistas Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, Camões; nos barrocos Frei Luís de Sousa, Manoel Bernardes e Antônio Vieira), voltando-se também para a Literatura Francesa (Moliére, Voltaire, Rousseau, Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud). Quanto à produção literária de autores brasileiros, seus contemporâneos, estudou com carinho, entre outros, Oswald de Andrade, Drummond, Bandeira, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e João Cabral. Em todos, descobria caminhos para a escrita poética. Vários são os estudos, resenhas e ensaios que se debruçam, por meio de expediente comparativo, sobre a questão da influência, da assimilação e da ressignificação de Manoel de Barros com relação a escritores consagrados da literatura brasileira e da literatura universal. O presente trabalho, a partir de aspectos historiográficos, metalinguísticos, discursivos e estilísticos, tem como objetivo delinear a leitura que Manoel de Barros faz da poesia brasileira dos anos 1930 em poeta como Oswald de Andrade, Manuel Bandeira e Raul Bopp para afirmar, em voz própria, um projeto estético particular.

Palavras-chave: poesia moderna; poesia brasileira; Manoel de Barros.

 

Minibiografia:

Professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/Câmpus de Três Lagoas – Brasil. Desenvolve pesquisas sobre a poesia brasileira contemporânea, em especial sobre o escritor Manoel de Barros. Coordena o projeto de pesquisa “A recepção às obras de Manoel de Barros” e compõe o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFMS/Três Lagoas.


Comunicação 29

“SENTIMENTOS DO PRESENTE”: FLORBELA ESPANCA COMO POETA CRÍTICA DO LIRISMO PORTUGUÊS

Autora:

Daniele dos Santos Rosa (Instituto Federal de Brasília/IFB – Brasil) –daniele.rosa@ifb.edu.br

 

Resumo:

Esta comunicação tem por objetivo problematizar a produção lírica de Florbela Espanca em relação a dois poetas portugueses: Antero de Quental e Luís de Camões. Sabe-se que o processo de configuração lírica se dá, em um sistema literário consolidado como o português, por meio de continuidades e de rupturas. As rupturas realizadas pelo modernismo são já bem conhecidas. Mas, e as continuidades? Que aproximações há entre a poesia moderna de Florbela, intimamente ligada às mudanças e conquistas do século XX, com a poesia de Quental? E com a lírica camoniana da consolidação da nação portuguesa? Florbela, em sua opção pelo soneto, em pleno período de inovação técnica, já indica ao crítico sua necessária aproximação aos poetas anteriores, de tempos passados. Contudo, o que a retomada do soneto propõe? Como se dá a relação entre essa forma, especialmente clássica, e a vida moderna? É importante salientar que, nesta pesquisa, entende-se lírica como um reflexo estético, como poiesis, ou seja, como ação da subjetividade poética na forma ou estrutura da obra, reforçando sua relação com a realidade objetiva em sua especificidade enquanto composição poética. Lukács (2009), em seu texto “A característica mais geral do reflexo lírico”, publicado em 1951, afirma que a lírica seria uma forma de autorrepresentação intimista que, por meio do alcance da subjetividade, tornar-se-ia “um reflexo da realidade objetiva que existe independentemente de nossa consciência” (2009, p. 245). Sob este princípio, esta comunicação, tendo como problema central a relação entre objetividade e subjetividade, buscará se distanciar das análises críticas que personalizam de forma exacerbada os poetas mencionados, para buscar analisar o significado hermenêutico que está em cada poema e na relação que cada produção artística tem no lirismo português.

Palavras-chave: Florbela Espanca; lírica portuguesa, Poiesis, reflexo artístico.

 

Minibiografia:

Doutora em Literatura Latino-americana e mestre em Literatura Brasileira, pela Universidade de Brasília. É especialista em História Cultural e graduada em Letras por esta mesma instituição. Atualmente, realiza pesquisas com ênfase em Teoria da Literatura, Literaturas latino-americana, brasileira e portuguesa, no Instituto Federal de Brasília e na Universidade de Brasília.


Comunicação 30

TRADUÇÃO E CRIAÇÃO: DORA FERREIRA DA SILVA E SUA FAMÍLIA POÉTICA

Autoras:

Enivalda Nunes Freitas e Souza (Universidade Federal de Uberlândia/UFU – Brasil) – eni@ufu.br

Fernanda Cristina de Campos, doutoranda (Universidade Federal de Uberlândia/UFU – Brasil) – fernandacristinacampos@yahoo.com.br

 

Resumo:

A poeta paulista Dora Ferreira da Silva (1918-2006) traduziu os principais nomes da poesia ocidental. Em 1965, fundou e dirigiu a Revista Cavalo Azul, espaço do qual se valia para publicar resenhas literárias sobre os poetas traduzidos, “posicionando-se crítica e criativamente” em relação a eles. Em entrevista, Dora afirma que os poetas escolhidos para serem traduzidos tinham que pertencer à sua “família poética”, pois considerava a tradução de um poema recriação: “o amor que um tradutor sente por um poeta faz com que ele estabeleça uma relação, um vaso comunicante com sua poética. Acho que Rilke, de certa forma, me ajudou a traduzi-lo”. O monumental trabalho de tradução de Carl Gustav Jung começa com Memórias, sonhos, reflexões, publicado em 1975, seguido de ensaios críticos. As afinidades com sua família poética, intensificadas pelo ofício da tradução, fizeram ressoar em sua obra o espiritualismo dos poetas místicos, o numinoso de Rilke associado ao concreto da palavra, o rigor da estrutura poético-linguística de Eliot e Valéry, o despertar da percepção das profundezas do inconsciente, como impulso criador, entrevisto pelos simbolistas e acentuado pelos estudos de Jung. A estas propriedades, somaram-se as formas arquetipais reveladas pelos mitos e um agudo senso de comunhão cósmica que coadunaram para a criação e o culto de uma linguagem calcada nas liberdades formais e na força inaugural da palavra. Assim, na poesia de Dora Ferreira da Silva, evidencia-se, no campo lexical, temático e estrutural, o diálogo estabelecido entre a tradutora e os poetas por ela traduzidos. Para o desenvolvimento desta comunicação, serão eleitas peças que remetem ao pensamento e à obra dos poetas místicos San Juan de La Cruz, Johannes Tauler e Angelus Silesius.

Palavras-chave: Dora Ferreira da Silva; Carl Gustav Jung, traduções; Poesia; poetas místicos.

 

Minibiografias:

Autora 1: Fernanda Cristina de Campos é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Universidade Federal de Uberlândia, com a pesquisa As imagens do anima mundi na poesia de Dora Ferreira da Silva. É professora efetiva de Língua Materna e suas literaturas na Secretaria do Estado de Minas Gerais e no Colégio Batista Mineiro, além de pesquisadora do POEIMA – Grupo de Pesquisa Poéticas e Imaginário, pelo qual, em livro, publicou o capítulo “A Grande Mãe e Hécate: imagens do feminino”.

Autora 2: Enivalda Nunes Freitas e Souza é professora Titular da Universidade Federal de Uberlândia. É autora de Flores de Perséfone: a poesia de Dora Ferreira da Silva e o sagrado, 2013. Organizou o livro Poesia com deuses: estudos de Hídrias, de Dora Ferreira da Silva, 2016, co-organizou as obras Roteiro poético de Hilda Hilst, 2009, Sonho de um repentista – versos do poeta logogrífico Canelinha, 2009 e Reflexos e sombras: arquétipos e mitos na literatura, 2011. Todas as publicações receberam o financiamento da FAPEMIG.


Comunicação 31

UM ENCONTRO DE VOZES: ANNITA E ANA C.

Autora:

Maria Aparecida Junqueira (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/PUC-SP – Brasil) – junqueirama@uol.com.br

 

Resumo:

Esta comunicação pretende investigar, na poesia de Annita Costa Malufe, poeta brasileira contemporânea, como a sua fatura poética aprende e apreende a poesia de Ana Cristina Cesar, poeta brasileira da segunda metade do século XX.  Quais operações poéticas são relidas por Annita no sentido de observar procedimentos de composição de Ana Cristina, redimensionando, em sua produção, um fabular criativo que lembra a composição de outros poemas, que suscitam a leitura de textos poéticos dessa poeta? A título de exemplo, pode-se continuar perguntando: como se dá o encontro-leitura de ambas as poetas num procedimento recorrente que trata do ataque ao significado. Ou, então, como o poema se torna palco de múltiplas vozes fragmentadas e desconexas? Busca-se captar que saberes da vida e do homem essas poéticas intentam expressar, e como essas escritas problematizam a tensão do mundo presente.

Palavras-chave: Poesia contemporânea; fabular poético; leitura. Crítica; vozes poéticas.

 

Minibiografia:

Professora e coordenadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP. Líder do Grupo de Pesquisa Estudos de Poética: Interconexões Diacrônico-Sincrônicas na Poesia Brasileira e Portuguesa (CNPq). Tem obras organizadas sobre poesia, capítulos de livros e artigos em periódicos.


Comunicação 32

A REESCRITA DA TRADIÇÃO COMO ESTRATÉGIA DE RESISTÊNCIA NA POESIA DE AUTORIA FEMININA

Autora:

Maria Lúcia Outeiro Fernandes (Universidade Estadual Paulista/ UNESP/Araraquara – Brasil) – outeiro@fclar.unesp.br

 

Resumo:

Este trabalho tem por objetivo analisar a reescrita da tradição empreendida por algumas poetas de língua portuguesa, como Cecília Meireles, Hilda Hilst, Ana Paula Tavares e Adília Lopes como estratégia de resistência à opressão das mulheres nas sociedades patriarcais do Ocidente. Reescrever os textos canônicos é uma forma não somente de “emponderamento” do eu-lírico, mas também de elaboração de um discurso que fundamente a configuração de um sujeito feminino. A busca desse discurso concorre para a formação de uma multiplicidade de poéticas contemporâneas que, embora inseridas na modernidade lírica, acabam por operar vários deslocamentos nos fundamentos da estética moderna.

Palavras-chave: Tradição e modernidade; poesia e resistência; autoria feminina; poesia brasileira e portuguesa.

 

Minibiografia:

Doutora em Letras pela PUC/Rio, é docente na UNESP/Araraquara. Livros publicados: Novíssima: estética e ideologia na década de vinte (EDUSP) Narciso no labirinto de espelhos (EDUNESP). Livros organizados em parceria com outros colegas: Intelectuais portugueses e a cultura brasileira, Estrelas extremas; ensaios sobre poesia e poetas; Modernidade lírica: construção e legado, Matéria de poesia: crítica e criação; Poesia na era da internacionalização dos saberes. Publicou diversos capítulos de livros e artigos esparsos.


Comunicação 33

CECÍLIA MEIRELES, A POESIA É UM PÁSSARO LIBERTO?

Autora:

Ilca Vieira de OLIVEIRA (UNIMONTES – CAPES – Brasil) – ilcavieiradeoliveira@yahoo.com.br

 

Resumo:

“Desenrolei de dentro do tempo a minha canção/não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar”. (MEIRELES, 2001. p. 241) Estes dois versos citados vão compor a última estrofe do poema “Aceitação”, de Viagem (1939), de Cecília Meireles. Essa última estrofe que irá fechar essa composição de Cecília Meireles é trazida aqui para abrir a reflexão que proponho sobre o desenho que o artista constrói de si mesmo e dos animais por meio da palavra poética. Essa leitura irá privilegiar a figura do poeta como um “desenhista” que rabisca no papel o desenho de um “rosto” e evoca uma reflexão sobre o mundo interior e exterior através da metáfora do jardim e da figura dos animais.  Isto é, de que maneira o canto do poeta está entrelaçado ao desenho de um eu que não se desvincula da natureza que é recriada em constante transformação, destaca-se principalmente as imagens de alguns animais como os pássaros e os gatos. A análise da imagem dos gatos em poemas de Cecília Meireles será lida à luz da poesia francesa, isto é, qual é o diálogo que essa poetisa brasileira estabelece com a poesia de Charles Baudelaire.

Palavras-chave: Cecília Meireles; poesia brasileira; retratos do artista; imagens dos animais.

 

Minibiografia:

Doutora em Letras, Literatura Comparada, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com tese sobre Tomás Antônio Gonzaga. Professora Titular do Departamento de Comunicação e Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras: Literatura Brasileira da Unimontes e autora do livro Os fios e os bordados, Editora UFMG, e organizadora dos livros: Escritas do corpo, da terra e do imaginário (org.), Dirceu de Marília (org.) e Literatura e criação literária: ensaios críticos. Estudiosa da poesia brasileira e portuguesa dos séculos XVIII ao XXI. Estágio Sênior na Université de Sorbonne Nouvelle – Paris3, com o projeto de pesquisa “Cecília Meireles: Desenhos de uma Paisagem Poética e Grafias do eu”, financiado pela CAPES – processo 2802/15-5.


Comunicação 34

CECÍLIA MEIRELES, LEITORA DE SUA CONTEMPORANEIDADE POÉTICA DE LÍNGUA PORTUGUESA

Autor:

Ulisses Infante (Universidade Estadual Paulista/UNESP – Brasil) – infante@ibilce.unesp.br; ulissesinfante@gmail.com

 

Resumo:

Cecília Meireles leu cuidadosamente a poesia brasileira e portuguesa de sua própria época, elaborando juízos críticos que expõem não apenas sua avaliação de obras alheias, mas que também jogam luz sobre procedimentos de seu próprio fazer poético. Esta comunicação rastreia esses juízos críticos a partir principalmente da leitura e análise de dois trabalhos da autora, a Notícia da poesia brasileira, texto das conferências realizadas em Portugal em 1934, publicado em Coimbra em 1935, e a antologia Poetas novos de Portugal, organizada e prefaciada por Cecília e publicada no Rio de Janeiro em 1944. Concepções sobre modernidade poética, originalidade criativa, autenticidade expressiva aí expostas permitem detectar um conjunto de convicções e atitudes que, nos poemas da própria Cecília, são vigorosamente transformadas em prática criadora capaz de dinamizar a tradição da lírica de língua portuguesa e redefini-la por meio de uma dicção cuja modernidade é a um só tempo pessoalíssima e socialmente significativa.

Palavras-chave: Cecília Meireles; modernidade poética; poesia brasileira; poesia portuguesa.

 

Minibiografia:

Ulisses Infante é doutor em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo, com tese sobre a poética de Murilo Mendes. Atualmente é professor assistente doutor na Universidade Estadual Paulista, campus de São José do Rio Preto, onde leciona em cursos de graduação e pós-graduação e desenvolve pesquisas sobre poesia e narrativa brasileiras modernas.


Comunicação 35

HILDA HILST E RILKE: RESSIGNIFICANDO O PERCURSO DA EXISTÊNCIA POÉTICA ATRAVÉS DA ELEGIA

Autora:

Milena Karine de Souza Wanderley (UFMS – Brasil) – milena.wanderley@gmail.com

 

Resumo:

As relações de leitura que se estabelecem entre poetas de uma mesma geração ou de gerações diferentes tende a intensificar a forma como o constructo poético se multidimensiona diante do exercício dialógico da comparação, da crítica e da autocrítica. Assim, não é difícil encontrar entre os escritores sinais que apontem para tais diálogos, sejam por meio de paratextos (epígrafes, dedicatórias, paráfrase, menção, etc.), seja por meio de correspondência, ou mesmo comunidades de criação. Hilda Hilst é uma poeta que deixa esses sinais, sobretudo nos paratextos editoriais, de diálogo com escritores cujo projeto estético lhe serviu de âncora para pensar o seu próprio projeto. Um desses diálogos é estabelecido com o escritor tcheco Rainer Maria Rilke (1875 – 1926), de quem pega emprestado versos da Duineser Elegien (1923): Glaubt nicht, Schicksal sei mehr als / das Dichte der Kindheil (36º verso da 4ª estrofe do capítulo 7) para compor epígrafe de seu “Testamento Lírico”, inicialmente publicado em Ode Fragmentária (1961), que nos chega através das coletâneas Poesia 1957/1967, publicada pela Livraria Sal em 1967, e também na versão de Exercícios (2012), coletânea organizada por Alcir Pécora que reedita os livros que compõem Poesia 1957/1967, nesse último como epígrafe de “Quase bucólicas”. Todavia, é em Roteiro do Silêncio (1959) que Hilst compõe as Cinco Elegias que significam mais fortemente esse diálogo estabelecido com Rilke e as Elegias de Duíno (1923). Nesse sentido, partindo da análise de paratextos, correspondência e da composição das Cinco Elegias, pretendemos analisar o percurso dialógico que Hilda Hilst traça com as Elegias de Duíno (1923) procurando verificar as medidas em que esse diálogo se desenvolve. Nesse percurso analítico, nos guiam: Pound (1970), Bloom (2002), Elliot (1989) e Paz (1984) no que se refere aos processos de influência e ressignificação.

Palavras-chave: Hilst; Rilke; diálogo; influência; ressignificação.

 

Minibiografia:

Possui graduação em Letras – Língua Portuguesa (Licenciatura) pela Universidade Federal de Pernambuco (2010), mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, e cursa, atualmente, o Doutorado em Estudos Literários nessa mesma universidade, desenvolvendo estudo acerca da poesia de Hilda Hilst em seus processos de ressignificação de Formas Composicionais Literárias. Tem experiência na área de Letras, com ênfase no ensino de Língua Portuguesa – Análise Linguística, Produção de texto e Literatura.


Comunicação 36

AS FALAS DO POEMA VAGABUNDEIAM

Autor:

Saulo de Araújo Lemos (Universidade Estadual do Ceará – Brasil) – saulo_lemos@yahoo.com

 

Resumo:

O carioca Carlito Azevedo (1961) nos apresenta, no conjunto aberto de sua obra, o poema como leitura de poemas alheios, em língua portuguesa e em outras línguas (gesto comum à modernidade em suas diversas etapas até a época contemporânea). Esse poema poderia ser descrito como uma biblioteca descontrolada, onde os livros são livremente extraviados ou adquiridos, que abre a significação de seu acervo pela maneira como o acumula ou desorganiza. Essa biblioteca se materializa de maneiras diversas: em epígrafes, menções nominais, paráfrases, cenas de ficção como o cenário do suicídio do poeta russo Sergei Yessenin (em As banhistas) ou o poema-teatro que cria um passeio de Carlos Drummond de Andrade pela cidade do Rio de Janeiro de hoje (em Monodrama). O poema de Carlito é variância livro a livro: os poetas presentes em cada um deles são cesuras de uma renga ou diálogo ou improviso. Esta fala propõe um trajeto errante, como quem habita uma biblioteca caminhando a esmo por entre as estantes, praticando a vagabundagem intelectual de que fala Giorgio Agamben em sua ideia do estudo. Saltando entre as cesuras que marcam a heterogeneidade discursiva do poema, talvez seja possível lê-lo como quem lê uma partitura musical, como quem faz música ou dança, como quem cartografa uma área em que se cruzam arestas de vários poemas, de línguas diversas. O silêncio (língua primordial, última, informe, semiótica assignificante), a propósito dessas fissuras e desníveis, é também uma língua interposta na dobra entre línguas. Talvez haja nesse poema, por conta das referidas interposições e trocas, um limiar (ou seu extravio, indiferenciação) entre a literatura e a crítica, entre o poema e uma estética (talvez uma abertura à política, talvez ao pensamento e suas pulverizações).

Palavras-chave: Carlito Azevedo; poema; vagabundagem; política.

 

Minibiografia:

Saulo de Araújo Lemos é professor assistente da Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Iguatu, pertencente à Universidade Estadual do Ceará. Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (2016). Mestre em Literatura Brasileira pela mesma universidade (2005). Publicou Expectativas heroicas: mito, história e leitura em Parabélum, de Gilmar de Carvalho (ensaio, 2011), além de artigos sobre literatura e filosofia em revistas acadêmicas e jornais.


Comunicação 37

POÉTICA DE PIVA: UM ENTRECRUZAR DE FIOS DA TRADIÇÃO LÍRICA

Autor:

Fabiano Ferreira Costa Vale (Secretaria de Educação do Distrito Federal – Universidade de Brasília– Brasil) – fabianocostavale@gmail.com

 

Resumo:

Pretendemos nesta comunicação realizar uma leitura do livro de Roberto Piva, intitulado Paranoia (1963), procurando demonstrar como esta obra faz uma descrição lírica dos espaços urbanos que compõem a grande São Paulo da década de 1960. Notaremos como o poeta configura artisticamente avenidas, vielas, praças, prostíbulos, lojas, edifícios e estátuas, transformando-os em objetos do seu ato criador, que transfigura não só o cotidiano burocrático e racional da maior cidade da América Latina, mas também dialoga com toda uma tradição literária e cultural de outros países e, especialmente, do Brasil. Nesse sentido, encontram-se submersos em seus poemas referências a Mario de Andrade, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Álvares de Azevedo, Machado de Assis, Lautréamond, Rilke, Garcia Lorca, Rimbaud, Dostoievski, personagens religiosos, cantores de jazz, malandros e prostitutas. Esse procedimento artístico-literário propicia a Piva, como um poeta crítico de seu tempo, construir um eu lírico que a todo instante questiona o próprio ato de criação poética e a metrópole como um lugar de interditos da subjetividade.

Palavras-chave: Roberto Piva; Lírica; Espaço Urbano.

 

Minibiografia:

Doutor em Literatura e Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília, graduou-se em Letras Português – Licenciatura por esta mesma instituição (2008). Atualmente realiza pesquisas com ênfase em Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: formação da nação, sistema literário e crítica lukacsiana.


Comunicação 38

A TUA VOZ NA MINHA NA POESIA DE JOSÉ TERRA

Autor:

Fernando Carmino Marques (Instituto Politécnico da Guarda – Portugal) – carmino@ipg.pt

 

Resumo:

A poesia de José Terra (1928-2014) apresenta-se muitas vezes estruturada a partir de um diálogo que o poeta mantém com outras vozes poéticas. Diálogo que, ao completá-la, dir-se-ia justificar a sua própria voz, ao mesmo tempo que lhe serve de razão para existir. De facto, ao longo dos seus quatro livros, publicados entre 1949 e 1959, e dos poemas inéditos e dispersos, escritos entre 1946 e 2001, perpassa o eco de poetas e poemas que o acompanharam durante o seu próprio itinerário poético. Através de dedicatórias, epígrafes (que à partida chamam a atenção do leitor para a intertextualidade que poeta pretende que se estabeleça com outros poemas), paráfrases, interpelações, reminiscências formais, são várias as vozes que se fundem e confundem na voz de José Terra. É esta partilha pela palavra poética, este comungar de vozes, que destacaremos neste estudo sobre a poesia de José Terra.

Palavras-chave: voz; poesia; partilha; diálogo; José Terra.

 

Minibiografia:

Fernando Carmino Marques é Doutor em letras pela Universidade de Paris IV – la Sorbonne. Nessa mesma universidade lecionou, de 1993 a 2003, língua, cultura e literaturas de expressão portuguesa. Colaborou no Instituto Camões em Paris e foi docente responsável pelo ensino do português nas universidades de Versailles – St. Quentin e Marne-la Vallée. Realizou várias missões de ensino na Europa e na América Latina (Brasil e Colômbia). Publicou vários estudos, livros e artigos, sobre temas e autores portugueses e brasileiros, dos séculos XVI, XIX e XX. Exerce atualmente a docência no Instituto Politécnico da Guarda.


Comunicação 39

SEM ÍNDICES, PREFÁCIOS, RODAPÉS: DE POETAS E SUAS (DES)LEITURAS 

Autora:

Maria Ângela de Araújo Resende (Universidade Federal de São João del-Rei/UFSJ– Brasil) – e-mail: m_angela@ufsj.edu.br

 

Resumo:

Na obra Poesia e crise, Marcos Siscar (2010) propõe pensar a poesia a partir da modernidade de Baudelaire, ratificando-a como momento e expressão da crise. Crise como elemento fundante de nossa experiência moderna e entendida em seus aspectos estéticos, culturais e políticos e que tem peso nos desdobramentos da poesia brasileira contemporânea, estabelecendo novos pontos de vista sobre os desafios da cultura.

As reflexões de Siscar nos permitem pensar a poesia brasileira contemporânea, tomando como ponto de partida a ideia de crise e também colocar em cena o poeta-crítico da modernidade, da tradição literária e da cultura como elementos indissociáveis da experiência moderna e também pós-moderna.

Este trabalho pretende discutir parte das poéticas de Wally Salomão (Poesia total, 2014), Régis Bonvicino (Até agora, 2010) e Paulo Henriques Britto (Trovar claro, 1990; Tarde, 2007), como espaço de reflexão crítica e debate sobre si mesmas, em que a leitura, releitura e desleitura da tradição aparecem como modos de operar a linguagem.  Assim, encontramos o autor/leitor, poeta/leitor, que, além do ato criativo, propõe um exercício crítico, construindo uma “poesia teórica” (Hansen, 2010, p. 527) e ensejando uma discussão radical entre poesia e crítica e seus impasses.

Nos últimos versos de “Fábrica do poema”, Wally Salomão sintetiza esta experiência do poeta-crítico: “pois a questão-chave é: / sob que máscara retornará”, já sinalizando a falência de uma “arquitetura ideal” do poema (p. 230).

Cada poeta, à sua maneira, cria uma “língua poética” em que seus arquivos, memórias de outros poetas, desmemórias e assinaturas rasuradas apresentam ao leitor uma dicção feita de atravessamentos críticos.

Palavras-chave: poeta-crítico; poeta/leitor; modernidade; tradição.

 

Minibiografia:

Doutora em Literatura Comparada (UFMG). Professora Associada do Departamento de Letras, Artes e Cultura, do Programa de Mestrado em Letras e do Programa de Mestrado Interdisciplinar em Artes, Urbanidades e Sustentabilidade da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Áreas de atuação: Teoria Literária; Literatura Brasileira, Literatura Comparada.


Comunicação 40

SALGADO MARANHÃO E SOUSÂNDRADE: DIÁLOGOS IDENTITÁRIOS

Autor:

Paulo César Andrade da Silva – Universidade Estadual Paulista (UNESP/Araraquara – Brasil) – pauloandrade@fclar.unesp,br

 

Resumo:

A série “Dos renas (seres)”, do livro O mapa da Tribo (2013), de Salgado Maranhão, é escrita com excertos do poema Guesa errante, do seu conterrâneo Sousândrade. O entrecruzamento intertextual põe em cena o silenciamento de duas formações identitárias: a negra e a indígena. Esta comunicação tem como objetivo analisar como a voz lírica, também ela herdeira da diáspora negra, busca plasmar um estar-no-mundo a uma ancestralidade que foi fraturada na experiência da modernidade, a partir de uma linguagem que expõe tradições arcaicas e modernas. Ao refletir sobre a invisibilidade das linhagens que formam a identidade nacional, a voz lírica se identifica também com a biográfica do poeta, também ausente, Sousândrade. A busca por um retorno, às vezes crítico, às vezes idealizado, é realizada por uma linguagem que tensiona tradições arcaicas e modernas, oralidade e escrita. Poeta de marcante consciência técnica e controle sintático quase obsessivo, no modo de construir seus versos e metáforas, Salgado Maranhão evidencia as marcas do trânsito identitário, por meio de seu trabalho empenhado de ressignificação da linguagem que contraria os sentidos hegemônicos da língua, como estratégia que evidencia a diferença cultural no texto literário.

Palavras-chave: identidade; memória ancestral; diálogo intertextual; Salgado Maranhão, Sousândrade.

 

Minibiografia:

Paulo Andrade é professor de Teoria da Literatura na Unesp/Araraquara. É autor dos livros Torquato Neto: uma poética de estilhaços, (Annablume/Fapesp), “O poeta-espião: a antilírica de Sebastião Uchoa Leite (Ed. Unesp), foi um dos organizadores do livro de ensaios Poesia na Era da Internacionalização dos Saberes (Editora Acadêmica, 2016), Corpo Arquivo (poemas, Ed. Patuá, 2014) e de vários ensaios sobre poesia contemporânea em livros e revistas.


 Comunicação 41

A MEMÓRIA DA POESIA: ENTRE O MÍNIMO E O CLARO

Autora:

Susana Souto Silva (Universidade Federal de Alagoas – Brasil) – ssoutos@gmail.com

 

Resumo:

Paulo Henriques Britto é autor de diversos livros, alguns premiados, não apenas no âmbito da poesia. Britto, que é também professor e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, tem ainda produção de destaque no campo da crítica literária e da tradução, tendo já traduzido obras de Elizabeth Bishop, William Faulkner, John Updike, entre outros. Em seus textos críticos, resgata sua ampla memória de leitura e reflete sobre as possibilidades de elaboração poética na contemporaneidade, aproximando, não raro, poetas consagrados, com vasta fortuna crítica, e poetas contemporâneos ainda pouco pesquisados. Esta comunicação irá discutir as relações entre sobre poesia e memória, a partir da análise de metapoemas de Paulo Henriques Britto, publicados em seus livros Mínima lírica (1989) e Trovar claro (1997)obras nas quais é tecida uma rede de citações que engloba poetas de diversas tradições, não só da lusófona –, em diálogo com dois dos seus ensaios acerca de poesia, a saber “Poesia e memória” (2000) e “O Natural e o Artificial: Algumas Reflexões sobre o Verso Livre” (2014). A articulação entre o texto poético e o texto crítico pretende traçar alguns itinerários da poesia e da crítica brasileira contemporânea, buscando compreender suas relações com a tradição em que se inscreve, bem como seus procedimentos de elaboração poética e de (auto)reflexão crítica, tendo como centro a obra de um poeta crítico e tradutor.

Palavras-chave: poesia; memória; contemporaneidade.

 

Minibiografia:

Susana Souto Silva. Brasil. Desenvolve pesquisas sobre poesia brasileira contemporânea e memória, centrando sua atenção nas relações dialógicas e intertextuais que a poesia brasileira produzida no século XX estabelece com outros e outras poetas, movimentos e momentos da nossa e de outras tradições. Atualmente, coordena os projetos “Ironia em verso e prosa na literatura brasileira contemporânea (poesia e narrativa breve)” e “Poesia e memória em Jorge Cooper”, na Universidade Federal de Alagoas, onde atua na Graduação e na Pós-Graduação da Faculdade de Letras.


Comunicação 42

A SACIOLOGIA DO POETA CAMONGO

Autora:

Maria de Fátima Gonçalves Lima (PUC – Goiás – Brasil) –fatimma@terra.com.br

 

Resumo:

Saciologia Goiana é um canto de amor à Língua Portuguesa e a um Estado que fica no coração do país:  Goiás. Tal como o maior nome da língua lusitana, Luiz Vaz de Camões, que amou a língua mãe como ninguém, cantou as glórias de sua terra, mostrou o heroísmo do seu povo e morreu amando seu país, o poeta Gilberto Mendonça Teles se vestiu de Camões para falar de sua terra. O artista da palavra se transforma em Camongo, mistura de Camões e Goiás (por meio da sigla Go). Saciologia Goiana é, portanto, uma declaração de amor a Goiás, à fala, à mulher e às coisas do chão goiano. Da mesma forma que Camões conta a história dos heróis lusitanos, essa obra apresenta os heróis (sem “agá”) de Goiás, com seus jeitos e seus ais. A proposta da comunicação tem como objetivo demonstrar como o poeta reafirma esse amor cantando, de forma performativa e muita imaginação, a história e a linguagem do povo goiano.

Palavras-chave: língua portuguesa; Camões; Goiás; Saci; Poesia.

 

Minibiografia:

Possui graduação em Letras e Direito pela (PUC/GO) (1985/1987), mestrado em Literatura Brasileira pela UFG (1992) e doutorado em Letras (Área de Teoria da Literatura) pela UNESP – São José do Rio Preto (2004) e pós-doutorado pela PUC do Rio de Janeiro (PUC/ Rio) (2009), Pós-doutorara pela PUC São Paulo. Docente do Curso de Letras da PUC/GO, Coordenadora do Mestrado em Letras – Literatura e Crítica Literária da PUC Go. Desenvolve estudos sobre teoria da linguagem poética e membro efetivo do GT- Teoria do texto poético (ANPOLL).