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Simpósio 56

SIMPÓSIO 56 – A ORGANIZAÇÃO GRAMATICAL DOS PROCESSOS DE CONSTITUIÇÃO DO ENUNCIADO: OS USOS E OS CONTEXTOS

 

Coordenadoras:

Maria Helena de Moura Neves | UNESP/Araraquara; UPM; CNPq | mhmneves@uol.com.br

Marize Mattos Dall´Aglio-Hattnher | UNESP/São José do Rio Preto; CNPq | mahattnher@hotmail.com

 

Resumo:

Este simpósio dá continuidade a uma proveitosa discussão que, em encontros anteriores do SIMELP, buscou avaliar o papel e o sentido da gramática no conjunto das reflexões sobre a linguagem acionada nas línguas naturais, com centro na língua portuguesa. Nesta nova proposta a atenção é voltada para os próprios processos de constituição do enunciado (predicação, referenciação, junção, modalização, quantificação, etc.), ficando entendido que é no entrecruzamento dos processos ativados, e pela gramática organizados, que a interação discursiva compõe os textos, e ficando entendido, ainda, que esses processos se entrecruzam e se sobredeterminam. A proposta central é recusar um tratamento gramatical da língua direcionado pela busca de classificações estanques e de correspondências fixas, o que exclui qualquer atividade de encaixamento dos itens da língua e das funções linguísticas em moldes pré-fabricados e em correspondências sempre mútuas. Essa atenção que envolve a complexa relação entre as categorias e as funções não exclui o tratamento da formação de cânones e padrões na língua em uso, mas, com certeza, discute e relativiza a validade de visões rigidamente prescritivas na exposição gramatical. Fica implicada, pois, a importância de que, com apoio nos fatos de uso, proceda-se à discussão da natural diversidade observada no acionamento desses processos básicos, nos diferentes contextos socioculturais de fala portuguesa.

Palavras-chaves: Texto e gramática, Classes e funções, Unidade e diversidade.

 

Minibiografias: 

Maria Helena de Moura Neves

Professora emérita da UNESP, e docente na UPM. Doutora em Letras Clássicas pela USP, Livre-docente pela UNESP e Pesquisadora 1A do CNPq. Pesquisa particularmente a teoria funcionalista da linguagem, as relações entre texto e gramática e a história da gramática. É autora de gramáticas de usos do português e de outras obras de teoria e de descrição linguística; é coautora de dicionários de usos da língua portuguesa e de dicionário grego-português.

 

Marize Dall´Aglio-Hattnher

Professora da unesp, São José do Rio Preto, e Pesquisadora do CNPq. Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela unesp, Araraquara, com pós-doutorado em Linguística Funcional na State University of New York e na Universidade de Amsterdã. Pesquisa a teoria funcionalista da linguagem, atuando principalmente nos temas modalidade e evidencialidade. É membro titular do Conselho da Functional Grammar Foundation e membro externo do Research Group on Functional Discourse Grammar da UvA.

 

 

Resumos dos trabalhos aprovados

Comunicação 1

A hipotaxe adverbial: descrição e análise de configurações não prototípicas

Autora:

Ana Lima – Universidade Federal de Pernambuco/ Universidade Federal de Goiás – jalaraujolima@uol.com.br

 

Resumo:

Teoricamente embasado em autores funcionalistas (Halliday, 1985; MATHIESSEN e THOMPSON, 1988; Dik, 1989; Hengeveld, 1989; NEVES, 2000; 2006), este trabalho focaliza a ‘hipotaxe adverbial’, um mecanismo de combinação de orações que se apresenta, prototipicamente, como uma configuração binária, na qual uma oração nuclear (ou matriz) é modificada por um satélite, cuja função principal é a de encarecimento (qualificação), pela atribuição de dados circunstanciais. Diversas pesquisas têm revelado, todavia, que, além dessa configuração prototípica, algumas configurações não prototípicas se verificam com alta frequência, em textos orais e escritos da língua portuguesa. Os dados aqui analisados e discutidos integram investigação mais ampla acerca das construções adverbiais (LIMA, 2002; 2004; 2014). No recorte feito neste estudo, objetiva-se descrever algumas configurações não prototípicas da hipotaxe adverbial, e analisar seu funcionamento textual-discursivo. As construções analisadas foram, em sua maioria, coletadas do acervo sonoro do corpus compartilhado do Projeto NURC, sendo representativas, portanto, da conversação informal face a face, gênero no qual as construções hipotáticas adverbiais, abundantes, são codificadas em variadas configurações gramaticais. Algumas dessas configurações alteram, inclusive, o estatuto da oração hipotática, conferindo-lhe maior relevância informacional e interacional. A análise parcial confirma a hipótese de que a opção pelo emprego de dada configuração da hipotaxe adverbial cumpre a função de atender aos propósitos comunicativos do falante, propósitos esses que emergem no curso do texto conversacional. Fica, assim, evidenciado que as motivações para a ocorrência das construções adverbiais e para a seleção de uma de suas variadas configurações somente se definem no curso da interação, não existindo a priori. O estudo corrobora o pressuposto funcionalista de que os modos pelos quais o falante combina suas orações não são governados prioritariamente pelo sistema rígido da língua, mas se situam no campo das escolhas, fazendo parte da ‘competência comunicativa’ do falante.

Palavras-chave: língua portuguesa; articulação de orações; hipotaxe adverbial; configurações não prototípicas.

 

Minibiografia:

É professora efetiva do Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco, no qual atua na área de Língua Portuguesa, em nível de Graduação e Pós-graduação. Faz estágio pós-doutoral na Universidade Federal de Goiás, onde desenvolve estudos acerca da articulação de orações. Seus principais interesses concentram-se na descrição e no ensino da língua portuguesa, com foco na sintaxe dessa língua. 


Comunicação 2

Contributo para a definição de uma fronteira entre os empregos discursivo e não discursivo

Autora:

Helena Topa Valentim – Universidade Nova de Lisboa – htvalentim@gmail.com

 

Resumo:

Uma abordagem do emprego de certas formas enquanto marcadores discursivos defronta necessariamente o problema da sua heterogeneidade como um facto incontestável, não só porque, na sua maioria, essas formas têm uma pertença categorial muito variada, como também porque se torna difícil de prever e, consequentemente, de sistematizar que formas se prestam a assumir um emprego discursivo. Por exemplo, se, por um lado, as duas formas adverbiais verdadeiramente e justamente podem apresentar um funcionamento discursivo, por outro, as suas correlativas negativas não podem, porém, comportar-se da mesma maneira: falsamente e injustamente nunca assumem um valor discursivo. A presente comunicação propõe-se dar conta deste facto, a partir do estudo de ocorrências atestadas de justamente e de injustamente no português europeu. Longe de abarcar a complexidade do fenómeno em causa, a reflexão proposta pretende ser um contributo para a definição de uma fronteira entre o emprego discursivo e o emprego não discursivo. Com recurso ao modelo teórico-metodológico da Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas, observaremos o tipo de condicionamento semântico-pragmático em causa, colocando a hipótese de o emprego do marcador discursivo induzir uma orientação que se prende com a organização topológica do espaço de validação subjetiva (cf. Culioli 2001).

Palavras-chave: emprego discursivo; emprego não discursivo; modalidade apreciativa; intersubjetividade;  enunciação.

 

Minibiografia:

É Doutora em Linguística e Professora do Departamento de Linguística da Universidade Nova de Lisboa. Desenvolve investigação nas áreas de semântica, linguística do Português e ensino do Português no Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa. Colabora noutras Unidades de Investigação, com participação em projetos ligados ao ensino do Português e à descrição do funcionamento da linguagem e das línguas naturais.


Comunicação 3

Construções com o verbo “tomar” na formação da língua portuguesa

Autora:

Isabella Fortunato – Universidade Federal do Rio de Janeiro – isavfortunato@gmail.com

 

Resumo:

Na teoria da Gramática das Construções, pensada por Fillmore & Kay (1988) e aperfeiçoada por Goldberg (1995), o significado global de uma expressão não é a soma do significado dos itens lexicais é aquele previsto na construção e que não se depreende diretamente dos sintagmas que preenchem os slots da estrutura argumental. Esse é um modelo que dá conta de explicar o comportamento das expressões fixas e semifixas, que constituem item os predicados complexos, nosso objeto de estudo. Estas são construções com o verbo “tomar” + SN ou SP nas quais a conceptualização de evento é dada pela expressão inteira e não somente pelo verbo. Formalmente há um grau de fixidez entre as partes, semanticamente o significado deixa de ser composicional para recobrir novos eventos numa disposição conceptual em rede, radial, ligados por metáfora e/ou metonímia ao sentido mais básico e concreto de posse e/ou de ingestão. O evento tomado como prototípico é o significado presente na primeira acepção do dicionário, neste caso, o Houaiss, segundo o qual, “tomar” significa “tirar (algo) de (alguém) e apossar-se desse algo; subtrair, arrebatar, usurpar”. Se em sentenças como (1) “vou tomar um suco de acerola  e (2) “Os bárbaros tomaram as cidades romanas” temos expressões [V + SN], numa estrutura argumental com sujeito agente e objeto concreto, tema, em construções como (3) “O governo tomou medidas drásticas contra a corrupção” e (4) “É preciso tomar cuidado ao sair na rua à noite”, perde-se a ideia de posse e a construção passa a ter um novo significado, na qual a contribuição do verbo parece se aproximar mais de um valor aspectual do que de núcleo da predicação. A estrutura dos participantes destas últimas também sofre modificação. Partindo, então, da estrutura do protótipo, procurar-se-á descrever a estrutura semântica dos outros eventos designados por estas construções, fazendo um levantamento do ponto de vista da história da língua portuguesa, das construções formadas com o verbo tomar, para averiguar a formação de expressões a partir do sentido básico de posse, como ocorre na sincronia. Os dados foram coletados utilizando-se a plataforma “Corpus do Português”, para os dados da história do português e o banco de dados da “Linguateca”.

Palavras-chave: Gramática das Construções; Predicados Complexos; Estrutura Argumental.

 

Minibiografia:

É Doutora em Língua Portuguesa: Investigação e Ensino na Universidade de Coimbra. Atualmente é Professora Substituta na Universidade Federal do Rio de Janeiro e Tradutora Pública e Intérprete Comercial de Língua Italiana. Seus principais temas de pesquisa são: expressões fixas, semântica cognitiva, gramaticalização/lexicalização, fraseologia verbal, estrutura argumental. 


Comunicação 4

Aposições oracionais em uso: rediscutindo fronteiras categoriais

Autora:

Márcia Teixeira Nogueira – Universidade Federal do Ceará – marciatn@gmail.com

 

Resumo:

Não são poucas as controvérsias em torno da definição e identificação de construções apositivas, destacando-se, no tratamento dessas construções, duas perspectivas: a de categorização discreta, que enquadra a aposição em um dos tipos de processo de construção pela adoção de critérios semânticos e sintáticos objetivos, e a consequente redução do conjunto de construções que podem ser analisadas como apositivas (TABOADA, 1978; LAGO, 1991; MARTINEZ, 1985; RODRIGUEZ, 1989; BURTON-ROBERTS, 1987); e a de categorização não discreta, que assume e investiga a fluidez categorial existente na aposição, propõem um conjunto de traços para identificação de uma representação prototípica dessa construção, mas identificam construções apositivas que se situam na fronteira com outras construções gramaticais da língua (MATTHEWS, 1981; MEYER, 1989, 1992; QUIRK et al., 1985; NOGUEIRA, 1999, 2012). Uma das características mais associadas às construções apositivas é a sua natureza nominal, embora gramáticos e linguistas reconheçam a existência de aposições não nominais que se encontram na fronteira com os processos sintáticos de parataxe e encaixamento. Na presente comunicação, analiso a fronteira entre aposição e encaixamento. Nessa análise, comparo construções identificadas em textos jornalísticos, nas quais uma estrutura oracional encontra-se ligada a um substantivo por meio da preposição de. Com base teórica na Gramática Discursivo-Funcional (HENGEVELD; MACKENZIE, 2008; KEIZER, 2008), e na extensa literatura sobre o tema aposição, proponho uma análise dos aspectos discursivos, semânticos e morfossintáticos que caracterizam a fronteira entre aposição e subordinação, e sugiro representações que poderiam explicitar diferenças empíricas relevantes.

 

Minibiografia:

Tem Graduação em Letras pela Universidade Estadual do Ceará, Mestrado em Linguística e Ensino da Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Ceará, Doutorado em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Fez Pós-Doutorado no Instituto de Linguística Teórica e Computacional – ILTEC. É professora Associada IV da Universidade Federal do Ceará e coordena o Grupo de Estudos em Funcionalismo (UFC/CNPq).


Comunicação 5

Relatores circunstanciais: inovação e renovação

Autor:

Marcos Luiz Wiedemer – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – mlwiedemer@gmail.com

 

Resumo:

Esta comunicação parte do pressuposto de uma análise alicerçada na Linguística Funcional Centrada no Uso, em que admitimos a fluidez de classes de palavras (conforme NEVES, 2012), e examinamos o uso de algumas construções prepositivas, mais especificamente, as preposições “atípicas/acidentais”. Com isso, procuramos evidenciar a dificuldade de estabelecer fronteiras entre as categorias e o modo em que as gramáticas, os dicionários e os livros didáticos categorizam as preposições. Para tal, descrevemos a partir dos resultados empreendidos por Wiedemer (2013, 2017 (no prelo) e PAIVA, 2016) algumas construções preposicionais do português brasileiro, que permitem-nos desenvolver um quadro de vários tipos de usos de preposições, a partir de diferentes graus de esquematicidade, conforme previsto pelo modelo da construcionalização (TRAUGOTT; TROUSDALE, 2013). A partir da análise de dados de fala (GONÇALVES, 2007), os resultados apontam que os elementos conforme, segundo, fora, menos, durante, exceto, mediante, feito, tipo, embora e como passam de uma categoria gramatical a outra, ou apresentam características híbridas, o que confirma a gradualidade da mudança linguística, em que temos: a função relatora caracterizada pela presença de Sintagma Nominal na estrutura subsequente; e, a evidência do aspecto semântico-pragmático comum que todos provocam na estrutura a que se ligam: a função circunstancial. Com isso, considerando a classe dos “nexos gramaticais”, denominamos as preposições “acidentais/atípicas” de “relatores circunstanciais”: “relatores” porque, de um lado, renovam a ideia de relação entre os termos/orações, desempenhando sua função de nexo gramatical, e, por outro lado, inovam o valor de “adverbiais/circunstanciais” já que, como transpositores, originam construções dessa natureza. Por fim, esperamos contribuir para uma reflexão sobre a centralidade da fluidez de classes nas análises baseadas nas experiências de uso, pois um grande desafio na análise da linguagem diz respeito à possibilidade de capturar a natureza dinâmica do fenômeno linguístico e a gradualidade da mudança linguística.

Palavras-chave: mudança linguística; preposições; relatores circunstanciais.

 

Minibiografia:

É Professor Adjunto (Linguística) do Departamento de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Doutor em Estudos Linguísticos pela UNESP, São José do Rio Preto, com estágio sanduíche em Erfurt-Alemanha, sob a supervisão do professor Christian Lehmann e Mestre em Linguística pela UFSC. Atualmente, é Coordenador do Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística (PPLIN) e membro (pesquisador) do Grupo de Pesquisa “Discurso & Gramática” (UFF).


Comunicação 6

O uso atributivo da aposição encapsuladora

Autora:

Rosângela do Socorro Nogueira de Sousa – Universidade Federal do Pará – ro_nogueira123@hotmail.com

 

Resumo:

Esta comunicação visa tratar da estrutura denominada tradicionalmente de aposto de oração, em um corpus de ocorrências provenientes de artigos de opinião extraídos do jornal Folha de S. Paulo. O objetivo é apresentar uma proposta teórica de orientação funcionalista para o tratamento dos aspectos formais e funcionais da aposição encapsuladora. Em vista disso, a base que sustenta a análise assenta-se nos pressupostos teóricos da Gramática Discursivo-Funcional, doravante GDF, que tem como objetivo compreender como as unidades linguísticas são estruturadas em termos do mundo que descrevem e das intenções comunicativas com que são produzidas. Assume-se aqui os pressupostos teóricos dessa teoria, proposta por Hengeveld e Mackenzie (2008), no que diz respeito ao uso de SN com valor atributivo ou referencial, considerando que a gramática em níveis permite vislumbrar que categorias são passíveis de serem encapsuladas anaforicamente, considerando que tanto categorias pragmáticas e semânticas quanto morfossintáticas e fonológicas estão disponíveis para serem anaforicamente retomadas. Além disso, assumimos também, conforme a Linguística Textual, o conceito de encapsulamento anafórico apresentado em Conte (1996), que parece recobrir as ocorrências de tal estrutura (o tradicionalmente chamado aposto de oração), ao enunciar que o encapsulamento anafórico define-se como paráfrase resumidora de porção textual precedente via sintagma nominal. Outros teóricos relevantes para esse estudo são Hannay e Keizer (2005), que tomam a aposição não restritiva como unidade autônoma do discurso, devendo a relação entre escopo e aposto ser vista em termos pragmático-semânticos; e Nogueira (1999, 2011), que propôs uma representação prototípica da aposição, discutiu suas indeterminações de fronteira e analisou as propriedades textual-discursivas das construções apositivas não restritivas.

Palavras-chave: Encapsulamento; Gramática Discursivo-Funcional; Aposição.

 

Minibiografia:

É Graduado em Letras pela Universidade Federal do Pará (2003); Mestre em Letras: Linguística pela Universidade Federal do Pará (2007) e Doutor pela Universidade Federal do Ceará. Atualmente é professora de Ensino Superior da Universidade Federal do Pará. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Linguística, atuando principalmente nos seguintes temas: estruturas sintáticas do português e funcionalismo.


Comunicação 7

“É obrigatório/preciso/necessário” participar desta comunicação: a polaridade e a predicação na construção dos níveis de modalidade deôntica

Autora:

Dayane Alves Wiedemer – Universidade Federal Fluminense – daywiedemer@outlook.com

 

Resumo:

Nesta comunicação, pretendemos expor algumas das análises feitas sobre os graus de modalidade deôntica, presentes na oração matriz constituída de verbo ser + predicativo (preciso, necessário, obrigatório). A modalidade, no geral, deriva da função interpessoal da linguagem (HALLIDAY, 1970), além disso, é definida como modo pelo qual o significado de uma frase é qualificado de forma a refletir o julgamento do falante sobre a probabilidade de ser verdadeira a proposição por ele expressa (QUIRK, 1985). A modalidade deôntica se encontra no domínio da conduta e do dever e está relacionada aos valores de obrigação e permissão. Os valores de obrigação, interesse de nosso trabalho, podem variar entre: (i) moral, interna e ditada pela consciência; (ii) material, externa, ditada por imposição de circunstâncias (ALMEIDA, 1980, NEVES, 1996, 2010); ou, ainda, (iii) de necessidade (ALMEIDA, 1980, GUIRALDELLI; SANTOS, 2010). A hipótese da pesquisa é a de que os graus de modalidade são variáveis de acordo com o predicativo escolhido e da marca de polaridade na oração matriz (NEVES, 2010), bem como, acreditamos que há relação entre a escala de obrigatoriedade e as propriedades verbais da oração encaixada (classificações presentes em Neves, 2011, p. 25), conforme estudos iniciados por Alves Wiedemer (2015, no prelo). Para compor o corpus de análise, foram coletados dados, dos jornais Folha de São Paulo e O Globo, ambos na seção “Opinião”, durante o ano de 2015. A escolha deve-se ao forte teor argumentativo, pois é um gênero que propicia a busca pelo convencimento do outro sobre alguma ideia, desta forma, há a tentativa de influenciá-lo e transformar seus valores, seja refutando, seja atestando uma posição (BRÄKLING, 2000). A análise se apoia nos pressupostos teóricos do Funcionalismo e da Linguística Cognitiva (SILVA, 1997, 2001, ACHARD, 1998, LANGACKER, 1990, TRAUGOTT, 2010, entre outros).

Palavras-chave: funcionalismo; modalidade deôntica; oração encaixada.

 

Minibiografia:

Graduou-se em Letras (2014), na Universidade Federal Fluminense, e, atualmente, é mestranda em Estudos de Linguagem pela mesma instituição. Durante a graduação, foi bolsista de iniciação científica (CNPq) e do Projeto de Iniciação à Docência na disciplina de Linguística e, também, no Projeto de Monitoria “Integrando a EAD aos cursos de graduação”. Membro dos grupos de pesquisa “Discurso, Interação e Práticas Sociais” e “Conectivos e Conexão de Orações”. 


Comunicação 8

A estrutura argumental preferida: uma investigação funcionalista das predicações de transitividade direta em narrativas escritas destinadas ao público infantil

Autora:

Elise Nakladal de Mascarenhas Melo – Universidade Presbiteriana Mackenzie – elisenmascarenhas@gmail.com

 

Resumo:

Este trabalho investiga as predicações de transitividade direta em narrativas escritas destinadas ao público infantil. Analisa-se o modo de preenchimento do sujeito e do objeto direto a fim de testar a hipótese da estrutura argumental preferida (EAP) formulada por Du Bois (1985; 1987). A EAP diz respeito a um padrão de uso dos argumentos diretos do verbo (S: sujeito de verbo intransitivo; A: sujeito de verbo transitivo; O: objeto direto de verbo transitivo), com restrições gramaticais (evite mais de um argumento lexical por oração e evite A lexical) e pragmáticas (evite mais de um argumento novo por oração e evite A novo). O conjunto do córpus é composto por duas traduções para a língua portuguesa do Brasil da narrativa escrita Alice’s Adventures in Wonderland: Alice no País das Maravilhas (Tradução de Nicolau Sevcenko, 2009), destinada genericamente ao público infantil, e A Pequena Alice no País das Maravilhas (Tradução de Mariana Colasanti, 2015), destinada às crianças de 0 a 5 anos de idade. Adicionalmente, comparam-se os resultados com o exame do texto original (CARROLL, [1865] 2009), destinado genericamente ao público infantil do século XIX. No exame efetuado, verificou-se que as restrições propostas pela EAP, obtidas nas pesquisas com discurso dirigido ao público adulto, se confiram no conjunto do córpus. Entretanto, diversas diferenças na distribuição dos sintagmas nominais lexicais plenos e da informação nova entre o texto original e as suas traduções constituem importantes resultados deste estudo.

Palavras-chave: Predicação; Transitividade; Estrutura Argumental Preferida.

 

Minibiografia:

É mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É membro do Grupo de pesquisa CNPq “Gramática de usos do português”.


Comunicação 9

Gramaticalização e fluidez funcional em compostos binominais

Autora:

Graça Rio-Torto – Universidade de Coimbra – gracart@gmail.com

 

Resumo:

O estudo toma como objeto de análise alguns compostos binominais (N1N2) e intenta mostrar a fluidez funcional das diferentes subclasses de compostos (coordenativos, subordinativos e modificativos), descrevendo como N2 funciona na codificação da referenciação e da predicação. O estudo dessas combinatórias binominais faz-se por comparação com outros esquemas lexicais, nomeadamente [Nome + Adjetivo corradical] e [Nome + Preposição + Nome corradical], por forma a escrutinar até que ponto uns e outros se equivalem ou não discursivamente, funcionando como alternativas léxico-sintáticas ou como esquemas enunciativos de valor semiótico diferenciado e diverso. A reflexão sobre a relação entre as categorias e as funções envolvidas em N2 contribui para a clarificação da reconversão e da fluidez categoriais e de alguma gramaticalização operada em N2. Os dados empíricos são extraídos de fontes textuais do português brasileiro e europeu contemporâneos.

Palavras-chave: sintaxe; léxico; fluidez categorial; gramaticalização; predicação.

 

Minibiografia:

É professora da Universidade de Coimbra, Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras e membro do Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada. 


Comunicação 10

Construções com função modalizadora integradas por PARA: análise de dois casos correntes no uso brasileiro

Autor:

José Carlos Santos de Azeredo – Universidade Estadual do Rio de Janeiro –  jc.azeredo@terra.com.br

 

Resumo:

O esforço para tomar consciência dos acontecimentos e situações que presencia ou de que participa leva o ser humano a prestar atenção no fenômeno da causalidade. Por que algo acontece? Por que um objeto é como é? Por que alguém pratica uma dada ação? O conhecimento é fruto do raciocínio e este se estrutura como linguagem. A macrorrelação de causalidade tem duas faces: a causa e o efeito. Do ponto de vista do discurso, causa ou efeito não é um valor inerente a um fato na sua relação com outro, mas uma possibilidade de sentido segundo a necessidade de compreensão – e de verbalização – do evento que se está tomando em consideração: ‘Acordei tarde; perdi a primeira aula’. O emprego do conectivo tem a função de explicitar esse valor, balizando a compreensão da respectiva oração: Acordei tarde; por isso, perdi a primeira aula / Perdi a primeira aula porque acordei tarde / Quando acordo tarde, eu perco a primeira aula / Se eu acordar tarde, vou perder a primeira aula / Acordei tão tarde, que perdi a primeira aula. Esta é a lição que lemos em praticamente todas as gramáticas e nos livros didáticos. O alerta que os mais sensatos nos fazem é o seguinte: não adianta decorar o significado – ou significados – dos conectivos; é preciso depreendê-lo do contexto frasal. Algumas construções, entretanto, desafiam até mesmo a suficiência desse critério, já de si precioso. Estudos mais recentes revelam a necessidade de uma visão multissistêmica, que leve em conta a interdependência da estrutura e do uso. Por exemplo, construções como ‘Para espanto de todos, ele devolveu o dinheiro roubado’ ou ‘Seu filho já está bem grandinho para precisar de uma babá’ apresentam a preposição PARA em uso francamente modalizador, inexplicável a partir do valor histórico, e ainda predominante, de direção ou meta. A proposta da comunicação que aqui se resume é demonstrar a inadequação da análise dessas estruturas à luz de um critério estritamente composicional, uma vez a mera combinatória sintagmática não dá conta do significado dessas frases. Uma análise do funcionamento discursivo das citadas construções precisa lançar mão de conceitos oriundos da pragmática e da gramática de construções. 

Palavras-chave: preposição para; função modalizadora; causalidade; contexto frasal.

 

Minibiografia:

É Professor Associado e Procientista da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde atua como docente de Língua Portuguesa na graduação e pós-graduação(Mestrado e Doutorado); autor de A linguagem nossa de cada dia (Vozes) e Neologia na mídia e na literatura: percursos linguístico-discursivos(Quartet) e organizador de, entre outros, Unidade e variação na língua portuguesa: suas representações(Parábola). 


Comunicação 11

Inseparabilidade de processos de modalização e referenciação na construção discursiva/textual: para uma análise comparativa de variedades do português

Autora:

Maria Helena Araújo Carreira – Universidade Paris 8 – helenacarreira @free.fr

 

Resumo:

Tomando a modalização como ponto de ancoragem para o estudo de processos de constituição do enunciado e do texto, serão estabelecidas ligações nomeadamente com processos de referenciação. Com base num corpus de textos de imprensa e de textos literários de diferentes países de língua portuguesa , propomos uma análise comparativa das diferentes variedades do português centrada em categorias gramaticais (nomeadamente em tempos e modos verbais , em categorias adjetivais e adverbiais) que desempenham funções modalizadoras, exprimindo pontos de vista e subjetividade enunciativa na apreensão do mundo referencial e consequentemente na construção discursiva/textual em que os processos de modalização e de referenciação são inseparáveis.

Palavras-chave: modalização; referenciação; construção textual; variedades do português.

 

Minibiografia:

É Professora Catedrática (professeur des universités) na Universidade Paris 8, onde dirigiu até 2016 , data do seu emeritado, o Departamento de Estudos dos Países de Língua Portuguesa e a equipa de investigação/eixo de investigação de Linguística das Línguas Românicas do Laboratório de Estudos Românicos . Os seus domínios de estudo privilegiados são a Semântica , a Pragmática , a Comparação de línguas (Português/Francês), a Análise de discurso e de textos, o Ensino da Língua Portuguesa.


Comunicação 12

A polarização dos enunciados e a relativização do processo na zona intervalar entre o sim e o não

 

Autora:

Maria Helena de Moura Neves – Universidade Estadual Paulista / Universidade Presbiteriana Mackenzie – mhmneves@uol.com.br

 

Resumo:

O estudo dirige-se ao exame da complexidade que envolve o mecanismo de polarização dos enunciados. Pondo sob análise esse processo que, a princípio, seria o mais definido entre todos por resolver-se em uma oposição polar, a pesquisa propõe apreciar, entretanto, as múltiplas relativizações e permeações que se efetivam na sua ativação. Na base está a proposta, que venho discutindo e defendendo, de que a preparação de gramáticas tem de levar em conta a indeterminação que caracteriza a linguagem, e que justamente documenta a sua natureza. O objetivo central é estabelecer um quadro de funcionamento do processo de polarização em português que mapeie os usos de enunciados tanto afirmativos quanto negativos, mas que também problematize os sentidos e os efeitos das escolhas do falante dentro de todo o intervalo polar. A atenção vai para os mecanismos que escalarmente atuam no espaço entre o sim e o não, por exemplo a modalização e a comparação (entre outros de suporte pragmático e retórico), assim como vai para o entrecruzamento entre os extremos polares e esses processos que se manifestam no espaço intervalar.  A atenção se dirige para relações e intersecções múltiplas, que tanto podem chegar a reforço de expressão como a anulação de efeitos esperados e/ou supostos. A hipótese geral é que falar de negação é mais do que invocar a ação de palavras negativizadoras no enunciado, cabendo contemplar e avaliar, por exemplo, negativizações formais que obtêm efeito de reforço de afirmação, ou vice-versa, tudo a serviço da explicitação dos “movimentos” discursivo-retóricos dentro dos quais a natureza formalmente positiva ou negativa das frases se relativiza. São material de análise bancos de dados de língua escrita e de língua falada controlados, mantendo-se a metodologia de análise de usos que tem sido dada às minhas investigações anteriores sobre “gramática” e às minhas propostas de atuação escolar na área. (Projeto financiado pelo CNPq – PQ 302560/2011-4).

Palavras-chave: gramática de usos; indeterminação da linguagem; polarização; modalização; comparação.

 

Minibiografia:

É Professora Emérita da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), Câmpus de Araraquara, Faculdade de Ciências e Letras, Departamento de Linguística, Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa. É Professora Associada da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), Centro de Comunicação e Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras.


Comunicação 13

Aspectos linguístico-discursivos do adjetivo no tratamento dado aos governos Dilma e Temer pelas revistas Veja e Carta Capital

Autor:

André Valente – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – prof.acvalente@gmail.com

 

Resumo:

Se, em si, a linguagem não é cópia da realidade, menos ainda será, na mídia, expressão fiel dos fatos ocorridos no mundo. As construções linguístico-discursivas sempre estarão permeadas pelas escolhas lexicais, morfossintáticas e semântico-estilísticas dos produtores de textos. Sabemos que nenhuma escolha é gratuita: não há, et pour cause, neutralidade no uso da linguagem. Na área linguístico-discursiva, entendemos que o adjetivo tem significativo papel no campo da argumentatividade. Pode-se perceber que a conceituação do adjetivo e as considerações sobre seu emprego tiveram um percurso evolutivo nas gramáticas tradicionais, de Said Ali a Cunha/Cintra, passando por Rocha Lima e Bechara. A ampliação foi maior ainda nas gramáticas atuais e de maior embasamento linguístico. Em consonância com os objetivos desta pesquisa, deu-se, inicialmente, prioridade aos trabalhos de Azeredo (2008), Castilho (2010) , Demonte(1999), Mateus(2003) , Moura Neves (2000), Raposo et alii(2013). Com base em tais estudos, estabelecemos uma tipologia dos adjetivos – classificadores/qualifica-dores e eufóricos/disfóricos – combinada com as modalizações deôntica e epistêmica para a análise de textos midiáticos no tratamento dado aos governos de Dilma Roussef e de Michel Temer pelas revistas Veja e Carta Capital. O estudo comparativo sobre o governo Dilma foi apresentado no SIMELP 2015. Com o impeachment em 2016, houve mudança de posição das duas revistas: Veja passa de oposição a situação; Carta Capital, de situação a oposição. Tal inversão será apresentada no SIMELP 2017. Na fundamentação teórica, haverá o acréscimo dos estudos de Ilari(2014) para abordagem dos adjetivos argumentais/predicadores e de Casteleiro(1981) para estudo dos adjetivos predicativos e não predicativos. Com base em Neves(2012), serão investigados os casos de deslizamentos categoriais em sintagmas nominais e o valor adjetival do substantivo posposto. A constituição do corpus terá por base, em 2016, os meses anteriores e posteriores ao impeachment e o primeiro semestre de 2017.

Palavras-chave: adjetivo; argumentatividade; discurso; mídia.

 

Minibiografia:

É Professor Associado e Procientista da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde atua como docente de Língua Portuguesa na graduação e pós-graduação(Mestrado e Doutorado); autor de A linguagem nossa de cada dia (Vozes) e Neologia na mídia e na literatura: percursos linguístico-discursivos(Quartet) e organizador de, entre outros, Unidade e variação na língua portuguesa: suas representações(Parábola). 


Comunicação 14

“Um bocado” e “um bocadinho”: apenas quantificação? Os usos e os contextos

Autora:

Isabel Margarida Duarte – Universidade do Porto – iduarte@letras.up.pt

 

Resumo:

No seguimento de um trabalho exploratório anterior, serão estudadas ocorrências de “um bocado” e de “um bocadinho” em corpora orais, nomeadamente no C-ORAL-ROM e no corpusdoportugues de Davies & Ferreira, nova versão. A análise partirá da constatação do uso muito frequente das expressões em causa e da insuficiente descrição que as gramáticas portuguesas fazem deste quantificador vago, para procurar encontrar estruturas em que ambas as expressões participem e funções que desempenhem nos diferentes contextos. 

Palavras-chave: quantificação; gramática; língua portuguesa.

 

Minibiografia:

É professora da Universidade do Porto, Centro de Linguística,  Faculdade de Letras. Departamento de Estudos Portugueses e Estudos Românicos, Secção de Linguística. 


Comunicação 15

Alguns aspectos da mudança nas formas de tratamento em Português Europeu

Autora:

Maria Fernanda Bacelar – Universidade de Lisboa – fbacelar.nascimento@gmail.com

 

Resumo:

O tema proposto enquadra as formas de tratamento e a dêixis pessoal, a dêixis social e o registo oral e escrito no sistema tripartido das formas de tratamento em português: (i) formas de tratamento pronominais (ii) formas de tratamento nominais (iii) formas de tratamento verbais. A exposição desenvolve-se com  análise e descrição do uso actual dos vários tipos de formas de tratamento em português europeu, decorrente de mudanças geracionais e sociais, à luz da observação de diversos corpora de português europeu falado e escrito.

Palavras-chave: formas de tratamento; dêixis pessoal; dêixis social.

 

Minibiografia:

É Doutora em Linguística Portuguesa, pela Universidade de Lisboa. É Investigadora Principal do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa (CLUL). Principais áreas de investigação: recursos linguísticos (corpora e léxicos) e análise da língua falada. Faz parte da Comissão Organizadora da Gramática do Português (Centro de Linguística da Universidade de Lisboa e Fundação Calouste Gulbenkian).


Comunicação 16

O uso de orações relativas na escrita escolar: um estudo do desenvolvimento linguístico baseado em corpus

Autor:

Mário Martins – Universidade Federal do Amapá – mgcmartins@gmail.com

 

Resumo:

Neste trabalho, analisa-se o emprego de orações relativas em textos de registro narrativo e argumentativo escritos por crianças e adolescentes monolíngues de português europeu. Em particular, tem-se por objetivo examinar como aspectos de ordem discursiva podem ser considerados relevantes para um conjunto de especificidades de configuração estrutural deste tipo de orações, nomeadamente o papel sintático do morfema relativo e a animacidade dos seus referentes. Complementarmente, examina-se se essas configurações sofrem influências da progressão ao longo dos anos escolares. Para a realização deste estudo, utiliza-se o CODES, um corpus desenvolvimental constituído de textos escritos por alunos do 5º, 7º e 10º anos da escolaridade básica portuguesa. Os resultados indicam que, nos textos de registro narrativo do 5º e 7º anos, a seleção mais expressiva de relativas de sujeito com referentes animados parece ser afetada pela função identificativa que essas orações exercem nesse tipo de registro, cenário que se altera ao longo da progressão escolar, já que, no ano final, se agrega ao uso de relativas uma função narrativa de continuadora do enredo, o que legitima uma ocorrência significativa de relativas de objeto com referentes não animados. Nos textos argumentativos, os resultados contrariam a ideia de que relativas de objeto com antecedentes não animados são indicadores de complexidade linguística, pois que, no corpus estudado, este tipo de relativas tem o seu emprego diminuído ano a ano, havendo um crescimento significativo de relativas de sujeito com antecedentes animados. Para orientar as discussões, pressupostos teóricos da abordagem linguística baseada no uso são aqui trazidos, já que essa abordagem concebe a língua como uma rede dinâmica em que vários aspectos do conhecimento linguístico dos falantes são reestruturados e reorganizados sob a pressão contínua do desempenho.

Palavras-chave: orações relativas; escrita escolar; desenvolvimento linguístico; abordagem baseada em uso.

 

Minibiografia:

É Professor Adjunto da Universidade Federal do Amapá (Unifap). Licenciado em Letras-Português pela Universidade Federal do Amapá e Mestre e Doutor em Linguística Aplicada à Educação pela Universidade de Lisboa (UL). É coordenador do grupo de pesquisa Ensino de Línguas para Fins Específicos (Unifap) e pesquisador nos grupos Estudos em Funcionalismo (Universidade Federal do Ceará) e NEEL-EJA (Universidade Federal do Amapá).


Comunicação 17

(Re)construção de objectos-de-discurso e estruturas sintácticas em produções escritas em português de alunos moçambicanos: o papel do contexto na compreensão dos usos da língua

Autor:

Paulino Paulo Fumo – Universidade Pedagógica de Maputo e Université Paris 8 –  fumo.paulino62@gmail.com

 

Resumo:

Nesta comunicação propomo-nos mostrar, a partir da análise de produções escritas de alunos moçambicanos do ensino secundário, de que forma o contexto de uso da língua contribui para o processo discursivo de (re)construção de objectos discursivos e como se reflecte nas escolhas sintáctico-semânticas como mecanismos linguístico-discursivos de construção textual, assinalando assim algumas tendências de variação dessa mesma língua. A necessidade de se alargar a noção de referente às entidades imaginárias e aos mundos possíveis e de se abandonar a sua concepção como uma realidade preexistente ao discurso domina os estudos actuais sobre referenciação, em que o referente se configura como uma entidade não estática mas dinâmica e evolutiva construída dentro e pelo discurso. Foi adoptando esta concepção de referente que L. Mondada & D. Dubois (1995), D. Apothéloz & M.-J. Réichler-Béguilin (1995) propuseram, no quadro da teoria sociocognitivista e interaccionista, a substituição da noção de referência por referenciação e de referente por objecto-de-discurso. Desse ponto de vista, construções discursivas como, por exemplo, “O consumo de bebidas alcoólicas por jovens e adolescentes moçambicanos tem estado a aumentar devido ao fácil acesso dessas substâncias e outros por influência dos amigos” extraída de uma das produções escritas de alunos moçambicanos permite, por um lado, identificar a forma como um objecto discursivo introduzido de forma neutra (cf. SN [bebidas alcoólicas]) pode modificar-se e pode evoluir na dinâmica discursiva (cf. SN [essas substâncias]), segundo a intenção comunicativa do locutor, associando-se-lhe valorizações negativas geralmente associadas ao nome substância quando se refere a substâncias tóxicas e nocivas. Por outro lado, sintacticamente, o mesmo excerto exemplifica desvios de regência nominal e verbal frequentes no português moçambicano, sobretudo no discurso oral, alterando, por exemplo, os modelos de regência de nomes deverbais como se pode ver em [acesso de] (cf. acesso a) e de verbos.

Palavras-chave: objectos-de-discurso; regência; sintaxe; discurso; escrita.

 

Minibiografia:

É docente na Universidade Pedagógica de Maputo e doutorando na Université Paris 8. Actualmente, realiza as suas investigações na área da Linguística textual aplicada ao ensino de português em Moçambique, domínio no qual está a preparar uma tese de doutoramento na Université Paris 8.


Comunicação 18

As orações adverbiais condicionais como recurso linguístico de argumentação

Autora:

Virginia Maria Nuss – Universidade Estadual de Maringá – virnuss@hotmail.com

 

Resumo:

Este trabalho visa investigar como as orações adverbiais condicionais conjuncionais se constituem enquanto recurso argumentativo na língua em uso. A teoria na qual este trabalho se ancora é de cunho funcionalista e observa, principalmente, os estudos de Halliday (2004), Neves (1999, 2000), Hengeveld (2004, 2008) e Dall’Aglio-Hattnher (2008, 2009). As orações analisadas provêm de córpus de língua falada devidamente autorizado por conselho de ética e compõe-se pela transcrição de doze entrevistas orais realizadas com líderes de diferentes perspectivas religiosas (padres, pastores, dirigentes de grupo), todos residentes na região noroeste do estado do Paraná. Os parâmetros de análise foram os subtipos factuais/reais, potenciais/eventuais, contra factuais/irreais das orações adverbiais condicionais conjuntivas, o posicionamento das orações (antepostas ou pospostas), tempo e modo verbal e a polarização. Com base em análises prévias percebe-se que os tempos e os modos verbais utilizados nas expressões adverbiais, assim como seus diferentes subtipos, além de expressar uma modalização linguística em relação ao grau de comprometimento do falante, funcionam como recurso argumentativo de orientação do ouvinte na construção textual-discursiva, apontando para fatores que se correlacionam à intenção do falante, orientando seu ouvinte acerca das possíveis consequências de seus atos.

Palavras-chave: funcionalismo; orações adverbiais condicionais; argumentação.

 

Minibiografia:

Mestranda do Programa de Pós-graduação em Letras (PLE-UEM), turma 2015. Linha de pesquisa: descrição linguística. É Graduada em Letras pela mesma Universidade, turma 2011-2014, tendo concluído o curso com láurea acadêmica. Tem Especialização em Docência em Língua Portuguesa e em Filosofia e Sociologia. Integrante do grupo de pesquisa FUNCPAR desde 2012. 


Comunicação 19

Construções de causa, razão, explicação e motivação na lusofonia: uma abordagem discursivo-funcional

Autora:

Carolina Cau Sponsito Ribeiro de Abreu – Universidade Estadual Paulista / Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas – carolinacausposito@gmail.com

 

Resumo:

Este estudo tem como proposta investigar os diferentes tipos de relações causais, tendo como suporte uma teoria funcional, que considera a língua como um instrumento de interação social, cuja forma se adapta às intenções comunicativas do falante, ou seja, a teoria da Gramática Discursivo-Funcional (GDF). O objetivo principal é verificar como as diferentes relações causais são expressas na gramática do português, ou seja, como são codificadas nos níveis Morfossintático e/ou Fonológico; o objetivo secundário é verificar o grau de integração da relação causal à oração principal, com base na escala linear de combinação oracional proposta por Hopper e Traugott (1993). Para tanto, foi utilizado como material de trabalho o corpus denominado Português Oral, que consiste em ocorrências reais de uso da língua em oito variedades do português. As ocorrências são analisadas considerando-se critérios que contemplam os quatro níveis propostos pela GDF. Resultados mostram que as relações causais se distinguem de acordo com as camadas propostas pelo modelo teórico: Causa constitui um estado-de-coisas que modifica outro estado-de-coisas; Razão constitui um conteúdo proposicional que modifica um estado-de-coisas; e Explicação é um estado-de-coisas que modifica um conteúdo proposicional, todos no Nível Representacional; já Motivação, do Nível Interpessoal, constitui um Ato Discursivo que restringe outro Ato discursivo. Consequentemente, no Nível Morfossintático, Causa e Razão exemplificam casos de Subordinação; Explicação, de Cossubordinação e Motivação, de Coordenação. As distinções semânticas, no entanto, não são codificadas na gramática do português, havendo assim neutralização formal entre Causa, Razão e Explicação, por um lado, que se distinguem, por outro, de Motivação, claramente marcada no Nível Fonológico. Além disso, numa escala de integração, que vai de menor para maior integração a i oração principal, Motivação coloca-se no polo negativo e Causa, a mais integrada a i oração principal, no polo positivo, ficando Explicação e Razão intermediárias, com Razão mais próxima a i Causa.

Palavras-chave: Funcionalismo; Gramática Discursivo-Funcional; Relação Causal.

 

Minibiografia:

É Graduada em Licenciatura em Letras, Mestre em Estudos Linguísticos e Doutoranda em Estudos Linguísticos pela Universidade Estadual Paulista. Professora de Língua Portuguesa e Língua Estrangeira (Inglês) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais, câmpus Passos.


Comunicação 20    

Holófrase e equiordenação sintagmática em anúncios dos séculos XIX e XX

Autora:

Erotilde Goreti Pezatti – Universidade Estadual Paulista – pezatti@ibilce.unesp.br

 

Resumo:

Este estudo tem como proposta investigar, sob o aparato teórico da Gramática Discursivo-Funcional (GDF), desenvolvida por Hengeveld e Mackenzie (2008), estruturas denominadas pela tradição gramatical de frase nominal, em ocorrências reais de uso extraídas de anúncios dos séculos XIX e XX, contidos no corpus do Projeto para a História do Português Brasileiro, que se encontra catalogado na Plataforma de Corpora, disponibilizado na página https://sites.google.com/site/corporaphpb. Segundo Pezatti (1988, p.12), “a linguagem da propaganda se caracteriza principalmente por ser objetiva: convencer o receptor e obter um consenso emotivo que se traduzirá na adesão dele às suas propostas. Para isso utiliza a linguagem, transformando-a em ação específica e particular de persuadir.”. Assim, o anúncio deixa de descrever as características objetivas do produto e passa a utilizar mecanismos de persuasão, centrando-se no destinatário. Jubran (1985) observa que “o texto de propaganda é quantitativamente limitado, porque o objetivo do anúncio é o de substituir longos discursos, que requerem uma decifração custosa em tempo e em atenção, para uma imagem mais incisiva.”. De fato, na análise do corpus, verificam-se ocorrências holofrásticas, constituídas de um único sintagma, conforme Só a dinheiro, e ocorrências constituídas de dois sintagmas, que se relacionam com a estrutura informacional Tópico/Comentário, como em Piscina gelada … nunca mais. Tais estruturas, sob o aparato da GDF, configuram no Nível Interpessoal, Atos Discursivos, que representam, no Nível Morfossintático, a camada da Expressões Linguística, e no Nível Fonológico, o Enunciado. O objetivo deste estudo é descrever esses tipos de estrutura, verificando, em cada nível, a categoria correspondente: o tipo de subato que servem para expressar o Ato Discursivo, o tipo de entidade semântica, o tipo de sintagma que integra a Expressão Linguística e a ordenação de seus constituintes.

Palavras-chave: holófrase; frase nominal; Gramática Discursivo-Funcional.

 

Minibiografia:

Erotilde Goreti Pezatti é Professora Assistente Doutor da UNESP/SJRP e atua na Graduação e na Pós-Graduação, desenvolvendo temas relacionados à ordenação de constituintes na sentença, articulação de orações, estrutura argumental e tipologia linguística. É bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e Coordenadora da área de Linguística da FAPESP. 


Comunicação 21

Critérios para identificação da unidade central de textos dissertativo-argumentativos

 Autores:

Juliano Desiderato Antonio – Universidade Estadual de Maringá – jdantonio@uem.br

Daniella Paes da Silva – Universidade Estadual de Maringá – daniellapaes@live.com

 

Resumo:

A descrição linguística que extrapola o nível de análise sentencial pode contribuir com o desenvolvimento de aplicações automáticas como a sumarização, a segmentação, a tradução e até mesmo a avaliação. De acordo com van Dijk (1980), os falantes são capazes de sumarizar o conteúdo de um texto por meio dos tópicos principais daquele texto. Nas palavras do linguista holandês (p. 41), discursos são “organizados em torno de um ‘núcleo’ semântico que intuitivamente chamamos de tópico” (tradução nossa). Para van Dijk, os tópicos discursivos são propriedades do sentido global do texto e propriedades necessárias para que o texto seja globalmente coerente. Segundo Iruskieta et al. (2015), alguns termos têm sido utilizados para fazer referência à síntese do sentido global do texto. Como este trabalho está embasado na Rhetorical Structure Theory (doravante RST), optou-se por utilizar o termo “unidade central” (doravante UC), proposto por Stede (2008). Neste trabalho, objetiva-se apresentar critérios para a identificação da UC de textos dissertativo-argumentativos produzidos por candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio de 2013. Os critérios, que envolvem tanto propriedades textuais quanto propriedades gramaticais, são os seguintes: retomada de vocábulos do comando da prova, posição da UC no texto, presença de elementos modalizadores ou evidenciais. Estabelecer critérios para a identificação da UC é importante metodologicamente para o desenvolvimento de análises baseadas na RST. Nas palavras de Iruskieta, Ilarraza e Lersundi, “é um passo decisivo para a anotação da estrutura retórica de um texto”. Do ponto de vista acadêmico, a identificação da UC é essencial para o treinamento das bancas de professores que realizam a avaliação de textos em concursos vestibulares e no Enem. Produzir um texto conscientemente a partir do desenvolvimento da UC também pode ser crucial para o futuro de alunos que disputam uma vaga no ensino superior. 

Palavras-chave: Unidade central; Texto e Gramática; Rhetorical Structure Theory; relações retóricas.

 

Minibiografias:

Juliano Desiderato Antonio é Doutor em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1998), câmpus de Araraquara, e Pós-doutor em Estudos Linguísticos pela mesma universidade (2011), câmpus de São José do Rio Preto. É docente da Universidade Estadual de Maringá desde 1997, onde atua na Graduação e na Pós-graduação. Atualmente é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Letras.

Daniella Paes da Silva cursa o quarto ano de Letras pela Universidade Estadual de Maringá, atuou como monitora no Programa de Formação Inicial (ProInício), ministrou aulas no projeto de Assessoria Pedagógica de Português como Língua Estrangeira (APPLE), participou do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), desenvolveu projeto por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC).


 Comunicação 22

A relação retórica de “solução” na Teoria da Estrutura Retórica: um problema ou uma solução?

 

Autora:

Maria Beatriz Nascimento Decat – Universidade Federal de Minas Gerais – bdecat@uol.com.br

 

Resumo:

Neste trabalho discuto a caracterização da relação retórica de solução (solutionhood), proposta por Mann & Thompson (1983 e 1988), em seus estudos sobre a organização do texto com base na Teoria da Estrutura Retórica (Rhetorical Structure Theory – RST). A RST é uma teoria funcionalista desenvolvida na costa oeste norte americana, que busca descrever a estrutura hierárquica do texto a partir de relações implícitas, ou proposições relacionais,  que emergem entre duas porções textuais, sejam elas orações ou porções maiores do texto. A relação de solução é uma dessas relações retóricas, ou “relações de coerência”, que veicula uma informação ancilar para o núcleo com o qual se relaciona. Dada inicialmente por Mann e Thompson (1983) como uma informação veiculada na porção satélite da relação retórica núcleo-satélite, foi tratada, posteriormente (id, 1988) como uma informação veiculada no núcleo e, ainda, como podendo ser veiculada tanto no núcleo quanto no satélite (Carlson & Marcu, 2001). Proponho um retorno à caracterização inicial, tendo em vista que: a) o problema tem de existir, para que exista uma solução para ele; b) o problema funciona como núcleo da relação, já que é ele que provoca a emergência da solução, seja em casos de estruturas de pergunta-resposta, seja em outras formas de articulação das porções textuais; c) a porção textual que veicula o problema pode existir sem a solução, mas não o contrário, ou seja, a solução só tem existência como tal se o problema existir, tendo, portanto, uma função subsidiária dentro da relação núcleo-satélite. Pretendo mostrar, a partir de dados do português em uso, que explicações, ou caracterizações, baseadas em grau de importância, ou saliência, da informação veiculada não se sustentam, uma vez que essa é uma questão de foco, estabelecida pragmaticamente, dependendo dos objetivos comunicativos do falante.

Palavras-chave: relação retórica de solução; relação de coerência; relações núcleo-satélite; Teoria da Estrutura Retórica; funcionalismo.

 

Minibiografia:

É Professora Adjunta aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais e trabalha, atualmente, como Professora Voluntária junto ao Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos daquela Universidade. Realiza pesquisas no âmbito da sintaxe funcionalista, em especial da articulação de orações, e também na interface Funcionalismo/Linguística Textual no que se refere à organização retórica na macro e na micro estrutura nos diferentes gêneros textuais.


Comunicação 23

A expressão lexical da evidencialidade no português do Brasil: uma abordagem discursivo-funcional

Autora:

Marize Mattos Dall’Aglio Hattnher – Universidade Estadual Paulista – marize@ibilce.unesp.br

 

Resumo:

Centrando seu interesse na identificação dos níveis de atuação das categorias evidenciais e, em especial, na existência de uma relação hierárquica entre elas, este trabalho dá continuidade a um projeto maior, que tem por objetivo principal verificar a validade das predições decorrentes da abordagem estratificada das categorias qualificacionais proposta pela Gramática Discursivo Funcional (GDF) para o estudo da expressão lexical da evidencialidade. Mais especificamente, este trabalho pretende analisar os diferentes usos de verbos evidenciais da língua portuguesa, com o objetivo de identificar os subtipos codificados, enfocando especialmente os verbos que se prestam à expressão de mais de um tipo evidencial. Uma vez que a GDF tem como princípio a organização hierárquica das unidades linguísticas, as categorias qualificacionais são definidas em termos de seu alcance semântico. Em línguas em que a expressão da evidencialidade é marcadamente lexical, como é o caso do português, os recursos para a comprovação dessa hierarquia implicacional são mais escassos. Nesse sentido, um recurso eficaz, especialmente no caso dos verbos evidenciais, é a análise dos diferentes usos de um mesmo item, entendendo esses usos como resultado de gramaticalização, entendida, no âmbito da GDF, como um processo no qual elementos linguísticos alargam o seu escopo (Hengeveld, 2011). No caso de verbos evidenciais, isto significaria que os elementos evidenciais com escopo menor desenvolvem-se em elementos evidenciais com escopo maior. Essa predição de base diacrônica tem consequências sincrônicas: se um verbo tem múltiplos significados evidenciais, esses significados devem ser, sincronicamente, de tipos de escopo contíguos em sua distribuição, como pretendemos comprovar analisando ocorrências reais de verbos polissêmicos de percepção e de cognição como ver, sentir, perceber e saber, encontradas em blogs e fóruns de discussão na internet. (Projeto financiado pelo CNPq – PQ 311626/2015-7).

Palavras-chave: evidencialidade; verbos evidenciais; percepção; cognição; Gramática Discursivo-Funcional.

 

Minibiografia:

É doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista, campus de Araraquara, com pós-doutorado em linguística funcional na State University of New York e na Universidade de Amsterdã. Atualmente é docente da Universidade Estadual Paulista, campus de São José do Rio Preto, e pesquisadora do CNPq, atuando principalmente nos seguintes temas: funcionalismo, modalidade e evidencialidade.


Comunicação 24

Marcadores discursivos e suas funções textual-interativas em inserções parentéticas na língua falada

Autora:

Monique Bisconsim Ganasin – Universidade Estadual de Maringá – monique_ganasin@hotmail.com

 

Resumo:

Este trabalho tem como objetivo investigar e analisar os marcadores discursivos e suas funções textual-interativas em inserções parentéticas na língua falada. Para isso, a pesquisa utilizará o corpus de pesquisa do Funcpar (Grupo de Pesquisas Funcionalistas do Norte/Noroeste do Paraná), que são transcrições de aulas acadêmicas (elocuções formais), as quais já possuem papéis e posse de turno previamente fixados, sem muitas marcas de interação. A concepção de língua falada considera que esta e a língua escrita não são modalidades estanques, ou seja, organizam-se dentro de um contínuo tipológico, embora existam características específicas da fala. A inserção parentética é uma estratégia de inserção de informações ao assunto em no momento do texto, a qual promove um desvio tópico discursivo, podendo inserir referências à atividade reformulativa, alusões ao papel discurso e interacional do locutor e do interlocutor, bem como comentários e avaliações sobre o ato verbal em curso. Os marcadores discursivos, em geral, são mecanismos que atuam no nível do discurso (entendido, nesta pesquisa, como organização textual-interativa), estabelecendo algum tipo de relação entre unidades textuais e/ou entre os interlocutores. São muito recorrentes na construção do discurso, principalmente nas estratégias de construção do texto falado, como nas inserções parentéticas. A partir da análise do corpus, pretende-se apontar em quais tipos de inserções parentéticas ocorrem os marcadores discursivos e quais são suas funções textual-interativas, considerando a modalidade oral da língua e o seu contexto de uso, no caso, as aulas de Ensino Superior.

Palavras-chave: marcadores discursivos; inserção parentética; língua falada.

 

Minibiografia:

É professora de Língua Portuguesa no Ensino Médio da rede particular. Mestre em Estudos Linguísticos pela Universidade Estadual de Maringá. 


Comunicação 25

A configuração das predicações de verbos cortar e quebrar: uma amostra de análise dos multi-frames e das construções gramaticais

Autor:

André Coneglian – Universidade Presbiteriana Mackenzie – coneglian03@gmail.com

 

Resumo:

Ligado à proposta mais geral deste simpósio, que é a de voltar a atenção aos processos de constituição dos enunciados, este trabalho centra-se na constituição das predicações a fim de verificar o mapeamento de frames semânticos configurados em construções gramaticais. Esta amostra constitui os primeiros desenvolvimentos do projeto Cut&Break (Majid et. Al, 2007, 2008; Sweetser et. Al, 2014) para o português brasileiro (Coneglian, no prelo). Oferece-se uma análise da configuração sintático-semântica das predicações de verbos de separação, que são classificados em dois grupos, o grupo dos verbos do tipo cortar, tais como cortar, rasgar, romper, entre outros, e o grupo dos verbos do tipo do quebrar, tais como quebrar, estilhaçar, despedaçar, entre outros. A análise se conduz a partir do exame de uma amostra de 100 ocorrências provenientes de córpus (SEC – Sketch Engine Corpora) para cada um dos verbos, no sentido de identificar os frames semânticos evocados e as construções gramaticais deles configuradoras. Os frames identificados, com base nas anotações providas e sistematizadas em FrameNet-Berkeley e em FrameNet-Brasil, são – não exaustivamente – separar, cortar, quebrar (os três mais gerais), estragar, remover, modelar, abrir uma superfície, tornar-se não funcional. Quanto às construções gramaticais identificadas – que também não esgotam a classe – são a causativa e a incoativa. Nesse sentido, a análise estabelece os frames semânticos evocados por esses verbos bem como as construções gramaticais nas quais se configuram essas predicações. Mais especificamente, faz-se um cotejo entre os diferentes frames que tais verbos evocam e as relações que se estabelecem – se é que isso ocorre –entre os frames evocados por cada um desses dois grupos verbais.

Palavras-chave: predicação; frames semânticos; construção gramatical; construção causativa.

 

Minibiografia:

É Graduado em Letras Português-Inglês pela Universidade Estadual de Maringá (2012). É Doutorando em Linguística pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. O principal interesse de pesquisa é o tratamento cognitivo-funcional da interface sintaxe-semântica-pragmática na descrição gramatical.


Comunicação 26

O sintagma verbal em português: um novo olhar sobre as construções perifrásticas e não-perifrásticas

Autora:

Danytiele Cristina Fernandes de Paula – Universidade Estadual Paulista – unesp_dany@yahoo.com.br

 

Resumo:

A presente comunicação tem como proposta esclarecer a natureza das construções perifrásticas e não-perifrásticas da língua portuguesa, por meio da ordem de constituintes do sintagma verbal, focalizando em seu processo de constituição. Para tanto, toma-se como aparato teórico a Gramática Discursivo-Funcional, desenvolvida por Hengeveld e Mackenzie (2008), assumindo uma perspectiva funcional para a ordenação de constituintes e para a análise das construções verbais em português. Como universo de pesquisa são tomadas ocorrências reais de uso extraídas do corpus oral organizado pelo Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, em parceria com a Universidade de Toulouse-le-Mirail e a Universidade de Provença-Aix-Marselha. A partir da análise de ocorrências reais, busca-se um tratamento diferente do oferecido pela gramática tradicional, questionando as classificações canônicas de construções perifrásticas e propondo um novo olhar sobre o fenômeno. Nesse contexto, a ordem de constituintes se mostrou essencial para a definição das construções perifrásticas e não-perifrásticas em português, visto que revela a impossibilidade de tratar construções tradicionalmente definidas como perifrásticas no domínio do Sintagma. Os resultados ressaltam a característica auxiliar dos verbos ter, haver, ir e estar, mostrando que estes possuem fortes restrições quanto à inserção de elementos na adjacência entre auxiliar e verbo pleno, configurando uma construção perifrástica cuja ordenação ocorre na camada do Sintagma. Já as construções consideradas tradicionalmente como perífrases aspectuais e modais introduzidas pelos verbos como começar, acabar, continuar, passar, poder, querer, costumar, etc. não apresentam restrições quanto à inserção de elementos na adjacência dos verbos envolvidos na construção compostas por dois verbos plenos, núcleos de duas Propriedades Configuracionais, em uma relação de subordinação, cuja ordenação ocorre camada da Oração. Portanto, as ocorrências de uso reais refutam a classificação fixa tradicional e proporcionam a discussão do processo de constituição das unidades verbais a partir de uma nova perspectiva.

Palavras-chave: Sintagma verbal; Perífrase; Gramática Discursivo-Funcional; Ordem de constituintes.

 

Minibiografia:

É Doutoranda em Estudos Linguísticos pela UNESP, São José do Rio Preto. Trabalha com a teoria funcionalista, investigando a transparência em línguas indígenas da família maku. Mestra pela mesma universidade, desenvolveu pesquisa sobre as construções perifrásticas e não-perifrásticas da língua portuguesa a partir da ordenação de constituintes do sintagma verbal. Graduada em Letras português-francês. 


Comunicação 27

Notas sobre a Descrição do Verbo em Cinco Gramáticas Brasileiras do Século XIX

Autor:

Ricardo Cavaliere – Universidade Federal Fluminense – ricardocavaliere@id.uff.br

 

Resumo:

A gramaticografia brasileira do século XIX expressa-se em duas vertentes paradigmáticas bem distintas: o modelo racionalista, pautado na tradição da Grammaire de Port-Royal (1660), cujos princípios chegaram ao Brasil sobretudo por intermédio da Gramática filosófica (204 [1822]), de Jerônimo Soares Barbosa (1737-1816), e o modelo dito científico, pautado no evolucionismo linguístico de August Schleicher (1821-1868) e nas teses da Gramática Histórico-Comparativa. As duas vertentes, que se sucedem em linhas paralelas de descontinuidades e continuidades até pelo menos as primeiras duas décadas do século seguinte, oferecem propostas distintas para a descrição e ensino do português, ressaltando-se, nesse último aspecto, uma sensível mudança do prescritivismo radical, que a escola racionalista acolhia, para uma normatização mais coadunada com um padrão de uso culto tipicamente brasileiro na fase científica. No tocante à descrição linguística, um dos pontos mais relevantes, que põem em confronto as duas escolas teóricas, diz respeito ao tratamento do verbo, não só como parte do discurso, como também como termo sintático responsável pelas relações de predicação na construção oracional. Saliente-se, ainda, ser o verbo a classe gramatical que mais páginas requisitou dos gramáticos no plano do estudo morfossintático, algumas delas de expressivo teor idiossincrático, dadas as suas peculiaridades no conjunto das propostas conhecidas, como se observa no tratamento do pretérito perfeito do indicativo na Gramática portuguesa (1881) de Júlio Ribeiro (1845-1890). Este trabalho visa a conferir um painel sucinto sobre as propostas de descrição do verbo em gramáticas do português publicadas no Brasil dos Oitocentos, mediante especial referência a sua fundamentação teórica, à metalinguagem, às fontes doutrinárias e à sua relevância para o desenvolvimento da pesquisa linguística no Brasil. Utilizar-se-á um corpus constituído de cinco gramáticas brasileiras do período em questão, cujo tratamento se faz em consonância com os princípios da investigação historiográfica propostos por Koerner (1989), em especial quanto aos movimentos de continuidade e descontinuidade paradigmática. No campo metodológico, aplicar-se-á a proposta de tratamento do texto como fonte de investigação historiográfica constante em Swiggers (2014).

Palavras-chave: verbo; descrição; gramaticografia; século XIX.

 

Minibiografia:

É doutor em Língua Portuguesa (1997) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cumpriu estágio de pós-doutorado em História da Gramática no Brasil, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, sob supervisão do Prof. Dr. Evanildo Bechara. Atualmente é professor associado da Universidade Federal Fluminense, membro da Academia Brasileira de Filologia, membro de vários conselhos editoriais e diretor da revista Confluência.


Comunicação 28

Usos de SE em atas de reuniões de Assembleias Municipais da CIRA

Autora:

Sílvia Ribeiro – Universidade de Coimbra – sribeiro@ua.pt

 

Resumo:

Neste trabalho analisam-se os usos do clítico SE (impessoal e apassivador) em atas de reuniões de Assembleias Municipais da CIRA* de 2015, pretendendo-se aferir de que modo a opção por estas construções concorre ou não para a impessoalização do enunciado, uma das características deste tipo de textos. Adicionalmente, procura-se verificar se os usos em análise são ou não conformes àquilo que a gramática tradicional prescreve a respeito da concordância no interior destas construções. Para tal, estudam-se as alterações de diátese associadas a estes dois usos de SE, caracterizam-se os predicadores nelas presentes, descrevem-se, em termos sintático-semânticos, os SN com que coocorrem e problematiza-se o estatuto do clítico nelas presente. Com base nestas constatações, afere-se a (in)conformidade entre as ocorrências analisadas e a prescrição gramatical e verifica-se de que modo estas construções poderão ou não ser consideradas típicas deste género textual.

*CIRA – Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro (http://www.regiaodeaveiro.pt/), constituída por 11 municípios.

Palavras-chave: clítico SE; passivação; impessoalização; diátese; estrutura argumental.

 

Minibiografia:

É Doutora pela Universidade de Coimbra (2011), docente na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Águeda (Universidade de Aveiro) e faz parte do CLLC-UA e do CELGA-UC. Tem trabalho de investigação no âmbito do léxico e da formação de palavras, nomeadamente no estudo da Composição e no da interface Sintaxe-Semântica, bem como no que respeita ao estudo dos usos do clítico SE em português europeu. 


Comunicação 29

A correlação entre referente nuclear e modificadores em sintagmas nominais

Autor:

Helker Nhoato – Universidade Estadual Paulista – helker.nhoato@gmail.com

 

Resumo:

O objetivo principal deste trabalho é desenvolver um estudo analítico dos modificadores de núcleo nominal, restringindo-se aos que denotam entidades de primeira ordem ou indivíduos e entidades de segunda ordem ou estados de coisas (LYONS, 1977; HENGEVELD, 2008), com base nos pressupostos teórico-metodológicos da Teoria da Gramática Funcional (DIK, 1989; 1997) e da Gramática Discursivo-Funcional (HENGEVELD; MACKENZIE, 2008). A amostra a ser analisada é extraída do córpus Iboruna coletado pelo Projeto ALIP. A investigação aqui proposta prioriza, no SN, as propriedades pragmáticas e semânticas dos adjetivos como uma motivação para evocar um subato de referência e para estabelecer uma denotação, respectivamente nos níveis Interpessoal e Representacional, com reflexos para a constituição formal dos constituintes no nível Morfossintático.

A análise da relação que os modificadores estabelecem com esses dois tipos semânticos de núcleo nominal se baseia também na classificação proposta por Negrão et alii (2014), que separam os adjetivos em argumentais e predicadores de núcleo, ou seja, itens lexicais que saturam uma posição aberta pelo substantivo deverbal e os que abrem posições temáticas que são, por seu lado, saturadas por um substantivo-núcleo. A análise semântica dos modificadores baseia-se na tipologia postulada por Rijkhoff (2002) e por Castilho (2010). Os resultados destacam a ocorrência de modificadores predicativos qualificadores não psicológicos e quantificadores atuando como predicativos de referente e de referência do núcleo nominal em nomes de primeira ordem; enquanto os nomes de segunda ordem estabelecem relação com modificadores argumentais. Além da ocorrência de modificadores qualificadores, quantificadores e argumentais, atestam-se, entre os dados, a ocorrência de modificadores de verificação, dêiticos e modalizadores. Quando a modificação ocorre por um modificador qualificador psicológico, verifica-se a presença de modificadores de atitude subjetiva que estabelecem denotação nos níveis mais altos de análise linguística.

Palavras-chave: Gramática Discursivo-Funcional; modificadores; propriedades pragmáticas e semânticas; sintagma nominal.

 

Minibiografia:

Mestrando em Estudos Linguísticos pela Universidade Estadual Paulista. Possui graduação no curso de Licenciatura em Letras Português/francês pela Universidade Estadual Paulista; graduando em Licenciatura em Letras inglês pela Universidade Estadual Paulista UNESP/IBILCE. Desenvolve pesquisa em Estudos Linguísticos na área de Gramática Discursivo Funcional em língua portuguesa na modalidade de Mestrado; e no ensino de FLE (Français Langue Étrangère). 


Comunicação 30

A semântica das relações de parte-todo em construções gramaticais do português

Autor:

Jorge Luiz Ferreira Lisboa Júnior – Universidade Federal do Rio de Janeiro – jorgelisboajr@bol.com.br

 

Resumo:

O presente trabalho visa a discutir as relações “genéricas” de parte-todo (LYONS, 1982) em construções gramaticais do Português, a saber: as construções possessivas (ex.: o pé de João), as construções partitivas (uma das casas de João) e as construções especificativas (a casa de campo de João) em português, alinhavadas por um expediente morfossintático, a preposição “de”, em formulações nominais de genitivo [SN + de + SN]. Conforme Lyons (1982): “Poder-se-ia argumentar que a questão é irrelevante para a semântica linguística: que tudo se limita ao nosso conhecimento geral das relações existentes entre as entidades do mundo”. No entanto, nossa proposta, na ótica teórica da Semântica Cognitiva, insurge-se no sentido de argumentar que sendo a gramática motivada, deve desempenhar duas funções básicas: a simbólica e a semiológica (LANGACKER, 2008). A função simbólica é aquela que permite gramaticalizar nas línguas naturais as categorias cognitivas básicas e mais significativas do arcabouço conceptual humano. Já a função semiológica diz respeito ao caráter interativo e social da gramática, disponível para propósitos comunicativos e compartilhamento de significados em uma comunidade linguística. As relações de parte-todo convencionalizadas na gramática do genitivo em português seriam dependentes de necessidades de simbolização e semiologização da experiência comum e, nesse sentido, argumentaremos que: (a) A posse, o partitivo e a especificação constituem complexos conceptuais estruturados por Esquemas Imagéticos (experiências corporificadas) que estreitam a relação entre conhecimento linguístico e conhecimento enciclopédico (JOHNSON, 1987); (b) Construções possessivas, partitivas e especificativas embora sejam expressões metonímicas, variam esquematicamente quanto à hierarquização metonímica (LANGACKER, 2000; 2013); (c) As derivas históricas dessas funções genitivas a partir de marcadores de ablativo (CÂMARA JR, 1976; TARALLO, 1990, VIARO, 1994) justificam a discretização semântica ou a variedade das relações de parte e todo sinalizando para especializações funcionais estabelecidas na trajetória diacrônica.

Palavras-chave: Genitivo; Esquemas Imagéticos; Hierarquização Metonímica; Discretização Semântica; Deriva Histórica.

 

Minibiografia:

Graduado em Letras (Português-Espanhol) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestrando em Língua Portuguesa pelo Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sob a orientação da Profa. Dra. Maria Lucia Leitão de Almeida. Membro pesquisador do NEMP (Núcleo de Estudos Morfossemânticos do Português) sediado na UFRJ. Áreas de interesse: Linguística Cognitiva; Semântica; Pragmática. 


Comunicação 31

O papel do aspecto e da modalidade na orientação do valor da nominalização

Autora:

Leticia Marcondes Rezende – Universidade Estadual Paulista –lm.rezende@terra.com.br

 

Resumo:

Vários linguistas tentam explicar os valores (nominal e verbal) para uma mesma unidade lexical representada por uma nominalização. Assim chamam tais valores de: nominalização fixa e não-fixa; completa e incompleta; ideográfica e factográfica, etc. A polarização desses dois valores tem muito pouca importância na reflexão teórica que fazemos, apoiada na Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas, pois essa teoria trabalha com “operações” e não com “classificações. Como resultado de nossa pesquisa, apresentaremos algumas análises que apontam não apenas para os dois valores mas para um contínuo entre a “existência de uma representação estabilizada” (nome) e a “instabilidade na construção da existência de uma representação” (predicado). A teoria culioliana está apoiada nos mecanismos de determinação e indeterminação e nas operações quantitativas e qualitativas que subjazem à questão do valor nominal ou do valor predicativo das nominalizações. São a modalidade e o aspecto que sustentam a representação na sua estabilidade (existência ® nome), ou na sua instabilidade (não-existência ® predicado). Assim: A) É geralmente uma modalidade apreciativa positiva (favorável) e marcas de aspecto perfectivo do contexto encaixante ou posterior que, avaliando a classe de ocorrências de valores do contexto anterior (preconstructo), equilibram o valor da nominalização em direção à sua existência ou ao seu valor nominal; temos uma transitividade acabada e um estado resultante. B) É geralmente uma modalidade apreciativa negativa (desfavorável) e marcas de aspecto imperfectivo do contexto encaixante ou posterior que, avaliando a classe de ocorrências de valores do contexto anterior (preconstructo), equilibram o valor da nominalização. Temos uma transitividade em construção e não temos estados resultantes. C) Das oscilações dos valores nominal e verbal, temos os casos mistos. O conceito de “noção” (central na teoria) por um lado, explica esses casos, e, por outro, esses casos ilustram o conceito de “noção”.

Palavras-chave: nominalização; noção; aspecto; modalidade; enunciação.

 

Minibiografia:

É Professora titular aposentada da FCL da Unesp de Araraquara. Doutora pela Universidade de Paris 7 em 1980 sob a orientação de A.Culioli. Áreas de interesse: articulação léxicogramatical, enunciação, ensino de línguas materna e estrangeiras. 


Comunicação 32

Sintagmas nominais descontínuos

Autor:

Roberto Gomes Camacho – Universidade Estadual Paulista – camacho@ibilce.unesp.br

 

Resumo:

Este trabalho analisa um tipo específico de SN, o ‘descontínuo’ (Keizer, 2007), sujeito a uma regra de deslocamento que, em termos gerativos, é comumente denominado “extraposição”. Numa perspectiva funcional, contudo, devem-se entender SNs descontínuos como constituídos de duas ordens formalmente aceitáveis de organização morfossintática e o modo teoricamente mais adequado de explicar a complexidade da ordenação é assumir que ela é motivada por princípios em interação e possivelmente em competição. A decisão de construir SNs com constituintes fora de seus limites estruturais é motivada por princípios funcionais independentes e, quando dois ou mais princípios definem ordens conflitantes, é possível executar um ato de equilíbrio compensatório vinculado a uma dada situação discursiva. Considerando a premissa de que a produção discursiva se assenta num sistema altamente eficiente, para que sejam bem-sucedidas comunicativamente, as mensagens produzidas devem conter formas de expressão com o grau mais elevado possível de “otimidade” e a economia resultante, vista do ângulo do processamento, é regulada por complexidade formal e por estatuto informacional. Como na maioria dos SNs descontínuos esses dois requisitos interagem, a análise pretende comprovar as seguintes hipóteses: (i) a escolha de um falante de inserir fora do SN material estrutural a ele pertencente é determinada por dois princípios independentes: peso formal e peso comunicativo; (ii) na maioria dos casos, esses dois fatores favorecem a mesma ordem; (iii) quando os dois fatores favorecerem ordens em competição, é o falante que decide qual dos dois sobrepuja o outro em termos de eficiência discursiva; (iv) outros fatores independentes podem atuar relevantemente e, embora não tenham força suficiente para determinar a ordenação por si mesmos, podem constituir o fiel da balança em caso de ‘empate’; (v) a ordem final dos elementos, na situação discursiva, é a mais eficiente das disponíveis, mesmo que seja violado um princípio crucial de ordenação.

Palavras-Chave: sintagma nominal descontínuo; ordem; peso formal; peso comunicativo.

 

Minibiografia:

Livre-Docente pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2009) e pós-doutorado em Gramática Discursivo-Funcional pela Universidade de Amsterdã (2005) e pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional de Lisboa (2011). Atualmente é Professor Adjunto da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, nível 1C.