+351 916 868 984 visimelp@ese.ipsantarem.pt

Simpósio 52

SIMPÓSIO 52 – PRÓXIMOS OU DISTANTES? FORMAS DE TRATAMENTO NAS DIFERENTES VARIEDADES DO PORTUGUÊS

 

Coordenadores:

Isabel Roboredo Seara | Universidade Aberta e Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa | isabel.seara@uab.pt

Luís Antônio Silva | Universidade S. Paulo| luizs@usp.br

 

Resumo:

Dada a amplitude territorial dos países de língua portuguesa e as implicações socioculturais e psicossociais que configuram as formas de tratamento, este simpósio visa promover uma reflexão sobre a complexidade do sistema de tratamento nas diferentes variedades do português.

São múltiplos os problemas que se colocam na escolha e seleção da forma de tratamento adequada e a complexidade acentua-se nas duas variedades do Português do Brasil e do Português Europeu.

Se as abordagens dialectológicas e sociolinguísticas privilegiam as mudanças na variação linguística, o enfoque pragmático e interacional sublinha o papel fundamental das formas de tratamento no funcionamento das interações, dado serem o primeiro recurso de que os locutores dispõem para marcar, construir e regular a relação interpessoal, devendo respeitar os princípios reguladores da interação discursiva.

Por seu turno, esta reflexão sobre formas de tratamento é indissociável das questões de cortesia e agressividade verbais que têm sido recorrentemente estudadas, nomeadamente nos debates políticos, em que, por vezes, a simples seleção de uma forma de tratamento, como uma forma delocutiva in praesentia, configura uma estratégia de indelicadeza ou mesmo de agressividade.

A dificuldade de consenso relativamente à descrição dos contextos de determinados usos de algumas formas de tratamento impele-nos a uma reflexão sobre a imbricada relação entre a mudança linguística e a mudança social que decorre, na atualidade, como assinala Gouveia, fundamentalmente da “passagem de um sistema de face solidariedade de base hierárquica e deferencial para um sistema de base igualitária e de envolvimento” (2008: 97).

O objetivo deste simpósio é, pois, reunir e promover o debate sobre a complexidade do sistema de tratamento em português, a necessidade da sua sistematização, visando evidenciar, a partir de estudos comparativos e contrastivos das várias variedades do português, quer de caráter sincrónico quer diacrónico, a absoluta necessidade do seu ensino, nomeadamente a falantes não nativos da língua portuguesa.

 

Palavras-chave: Formas de tratamento, deixis social, interação verbal, variação e mudança linguística.

 

Minibiografias:

Isabel Roboredo Seara

Professora do Departamento de Humanidades da Universidade Aberta, Lisboa, em Portugal. Investigadora do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa (CLUNL) e do Laboratoire d’Études Romanes da Université Paris 8 (France). É doutorada em Linguística Portuguesa e desenvolve trabalho de investigação no âmbito dos estudos de pragmática, análise do discurso, retórica e epistolografia.

 

Luiz Antônio Silva

Professor da área de Filologia e Língua Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É pesquisador do Projeto NURC/SP e desenvolve trabalhos de investigação no âmbito da Pragmática, Análise da Conversação e Análise do Discurso.

 

 

Resumos dos trabalhos aprovados

Comunicação 1

Formas de tratamento do português e construção discursiva de relações interindividuais e sociais : variedades em confronto 

Autora:

Maria Helena Araújo CARREIRA –  Universidade Paris 8  Vincennes-Saint-Denis – helenacarreira@free.fr

 

Resumo:

A reflexão e a análise  sobre a proximidade e a distância que as formas de tratamento do português constroem serão encaradas segundo um eixo contínuo que configura gradações na regulação das relações interindividuais e sociais , enquadrando-se no  âmbito da proxémica verbal. Com base num corpus constituído por textos de imprensa e por textos literários de diferentes países de língua portuguesa, proporemos uma análise comparativa da dinâmica das formas de tratamento do português, em discurso. As variedades da língua portuguesa em confronto permitirão alargar o nosso conhecimento do sistema das formas de tratamento numa dada variedade e vislumbrar tendências de variação e de mudança.

Palavras-chave: Formas de tratamento; Proxémica verbal; Construção discursiva; Variedades do  português.
Minibiografia:

Maria Helena de Araújo Carreira é Professora  catedrática (“professeur des universités”) na Universidade Paris 8 , onde dirigiu até 2016 , data do seu emeritado, o Departamento de Estudos dos Países de Língua Portuguesa e a equipa de investigação /eixo de investigação de Linguística das Línguas Românicas do Laboratório de Estudos Românicos. Os seus domínios de estudo privilegiados são a Semântica, a Pragmática, a Comparação de línguas (Português / Francês), a Análise de discurso e de textos, o Ensino da Língua Portuguesa.


Comunicação 2

Formas nominais de tratamento no discurso parlamentar português e brasileiro

Autora:

Veronica MANOLE – Universidade Babeș-Bolyai – Cluj – Roménia – veronica.manole@gmail.com

 

Resumo:

O objetivo da nossa comunicação é fazer uma apresentação comparativa do inventário das formas nominais de tratamento (doravante FNT) usadas em debates parlamentares da Assembleia da República (Portugal) e do Congresso Nacional do Brasil. Partido da aceção mais abrangente do tratamento de Carreira (1997), analisaremos as semelhanças e as diferenças de usos quer em contextos alocutivos, quer em contextos delocutivos.

Num primeiro momento, debruçar-nos-emos sobre a estrutura interna das FNT (vejamos o exemplo das FNT institucional senhor deputado, senhora deputada em português europeu vs. deputado, deputada em português brasileiro; senhora deputada Ana Drago em português europeu vs. deputada Rebeca em português brasileiro).

Num segundo momento, analisaremos em ambos os corpora – brasileiro e português – preferências por diferentes tipos de FNT: institucionais (senhor deputado), relacional (colega, amigo, irmão), profissional (engenheiro José Sócrates), académico (Dr. Leandro), pessoal (Chico) ou genérico (os senhores) (Manole 2015), com o objetivo de identificar padrões de configuração das relações interlocutivas (locutor-alocutário, locutor-delocutário).

O corpus incluirá debates parlamentares de data recente, 2011-2017.

CARREIRA, M. H. A. (1997) Modalisation linguistique en situation d’interlocution: proxémique verbale et modalités en portugais. Louvain/Paris: Éditions Peeters.

MANOLE, V. (2015) O debate parlamentar em português (Portugal, Brasil) e romeno: abordagem pragmático-discursiva. Tese de doutoramento defendida na Universidade Paris 8.

 

Palavras-chave: formas nominais de tratamento; português europeu; português brasileiro; discurso parlamentar.

 

Minibiografia:

Doutora em Estudos Portugueses, Brasileiros e da África Lusófona pela Universidade Paris 8. Docente de língua e cultura portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Babeș-Bolyai, responsável pelo Centro de Língua Portuguesa / Camões I. P.  de Cluj. Áreas de interesse: análise do discurso, ensino do português como língua estrangeira, tradução literária (português > romeno), interpretação de conferências.


Comunicação 3

O tratamento no debate parlamentar português como fator de construção de relações interlocutivas agonais

Autora:

Ana Cristina Pereira BRAZ – Universidade Paris 8 e Universidade do Minho – ana.cristina.braz@gmail.com

 

Resumo:

O objetivo principal da nossa comunicação é mostrar como as formas de tratamento usadas no debate parlamentar português contribuem para a construção e reforço da relação discursiva agonal que marca o sub-género discursivo em questão. Num contexto interacional onde predomina o dissenso (cf. Marques, 2008) e a agressividade verbal surge como expressão do ataque à imagem do adversário político, as formas de tratamento constituem uma das múltiplas estratégias linguísticas de instituição da distância interlocutiva. A nossa análise assentará essencialmente na teoria da cortesia verbal, tal como desenvolvida por Brown & Levinson (1987) e completada por Kerbrat-Orecchioni (2010) em relação com a noção de “face” de inspiração goffmaniana, e nos estudos desenvolvidos por Carreira (1997) sobre as formas de tratamento do português europeu na perspetiva da proxémica verbal. O nosso corpus é constituído por alguns excertos de Reuniões Plenárias decorridas durante a 2º sessão legislativa (2010-2011) da XI legislatura (2009-2011). Prevemos, em consonância com Manole (2015), encontrar formas de tratamento predominantemente institucionais cujo grau de formalidade e de cortesia não se coaduna com o caráter profundamente descortês de atos de fala ameaçadores para a face positiva do alocutário que almejam a sua descredibilização. Desqualificação essa que tem como fim colocar o locutor numa posição alta relativamente aos outros oradores, cuja relação de simetria, conferida pelo próprio espaço institucional, se vê assim alterada.

Palavras-chave: formas de tratamento; debate parlamentar português; distância interlocutiva; cortesia verbal; face.

 

Minibiografia:

Doutoranda em Estudos Portugueses, Brasileiros e da África Lusófona na Universidade Paris 8 e em Ciências da Linguagem na Universidade do Minho, onde prepara uma tese de doutoramento sobre a ironia no debate parlamentar português, em regime de cotutela, sob a orientação das Doutoras Maria Helena Araújo Carreira e Maria Aldina Marques. Leciona atualmente nas Universidades Paris 2 (Panthéon-Assas) e Paris 3 (Sorbonne Nouvelle). Principais áreas de investigação: semântica, pragmática e análise do discurso.


Comunicação 4

Os pronomes de tratamento e seus efeitos de sentido no debate político

Autoras:

Ione Vier Dalinghaus – Universidade Federal  do Mato Grosso do Sul, Brasil –  ioneufms@gmal.com

Ana Lúcia Gomes da Silva – Universidade Federal  do Mato Grosso do Sul , Brasil – analucia.sc1@hotmail.com

 

Resumo:

Esta comunicação tem por objetivo demonstrar efeitos de sentido produzidos pelo uso de certos pronomes de tratamento em uma interação face a face. Para isso, analisou-se o tratamento mútuo entre candidatos brasileiros, em um debate político televisivo realizado às vésperas da eleição para a Presidência da República em 2014, em segundo turno. No decorrer de qualquer interação verbal, estabelece-se entre os interlocutores um contrato conversacional (FRASER E NOLEN). É esse contrato de direitos e de obrigações que serve de parâmetro para as interações, tendo como base a relação social que se constitui entre os interlocutores. Se em conversas amigáveis a interação é geralmente harmoniosa, nas disputas políticas a expectativa é outra, pois não se espera que os candidatos sejam corteses em relação a seus adversários. Porém, nem todo tipo de comportamento é permitido. Levando em conta esse fato, os candidatos apelam a diferentes recursos linguísticos, dentre os quais se situam os pronomes de tratamento, cujo uso pode revelar intenções de aproximação ou de distanciamento do interlocutor. Assim, saber usar adequadamente os pronomes durante o debate é determinante para o êxito dos candidatos. Por tal razão, observam-se constantes negociações no intuito de preservar as faces e demonstrar coerência com a imagem que os telespectadores têm sobre eles. Essa negociação, denominada face work (GOFFMAN), permite neutralizar os incidentes e conquistar o público eleitor. Os resultados da análise do debate entre os candidatos Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) evidenciam a predominância de uso de pronomes de tratamento que geram cortesia aparente, na busca da avaliação positiva do público telespectador. Agindo dessa forma, os debatedores diminuem aparentemente a agressividade verbal para conquistar os eleitores, ao mesmo tempo em que se atacam mutuamente, na intenção de provocar o desequilíbrio do candidato oponente.

Palavras-chave: pronomes de tratamento, debate político, interações verbais.

 

Minibiografias:

Ione Vier Dalinghaus (UFMS  – Doutora em Letras pela UPM – Universidade Presbiteriana MACKENZIE de São Paulo (2016); Mestre em Letras pela UNIOESTE, PR (2009); especialista em Língua e Literatura de Expressão Hispânica pela UNIDERP, MS (2005) e graduada em Letras Habilitação Português /Espanhol pela UEMS, MS (2002). Professora efetiva na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/UFMS/ Campus de Aquidauana, MS.

Ana Lúcia Gomes da Silva (UFMS)  – Doutora em Educação: Currículo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo de São Paulo – PUC/SP (2013); Mestre em Educação pela Universidade Católica Dom Bosco – UCDB (2005); especialista em Arte e Tecnologia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS (2005) e Graduada em Artes Plásticas pela Universidade de Marília/SP-UNIMAR. Professora efetiva na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/UFMS/Campus de Aquidauana, MS.


Comunicação 5

VÓS, um travo de anacronismo?

Autora:

Maria Aldina Marques – Universidade do Minho – mamarques@ilch.uminho.pt

 

Resumo:

Como nenhuma outra categoria discursiva, as formas de tratamento (FT) dão conta das relações interpessoais entre os membros de uma dada comunidade linguística e social. É nesta perspetiva que Kerbrat-Orecchioni (1995) as categoriza como relacionemas, isto é, elementos indicadores e construtores da relação interpessoal.

Em Portugal, e em Português, as formas de tratamento constituem um sistema complexo que regula, a partir de vários parâmetros, as relações interpessoais criadas em situação de comunicação (Carreira, 2004, Duarte, 2011, Marques, 2010, 2014, Gouveia, 2008, entre outros).

A celeridade das mudanças sociais registadas na sociedade portuguesa coloca questões prementes de uso e adequação das FT. Esta é, aliás, uma preocupação social, reiteradamente abordada pelos falantes e de que os meios de comunicação, na sua generalidade, e as redes sociais em particular, dão conta.

Centrámos a nossa investigação nas formas de tratamento do Português Europeu e, em particular, na forma VÓS. Sintetizando o que é uma heterogeneidade de opiniões e tentativas de explicação, diremos que VÓS não é FT socialmente valorizada. Se para o contexto brasileiro, a forma mereceu de Sílvio Possenti (2000) o epíteto de «o dinossauro “vós”», no Português Europeu, a sorte deste pronome não é muito diversa. As referências à questão fazem do seu uso “um erro” ou, quando muito, um uso dialetal, que não deixa de provocar no ouvinte “um travo de anacronismo” (Ciberdúvidas, 2009), por remeter para “registos arcaizantes formais” (Ciberdúvidas, 2008).

No quadro da análise dos discursos, e numa perspetiva sincrónica, complementada por um breve enquadramento diacrónico, pretendemos mostrar as particularidades dos usos de vós, que não se reduzem a usos dialetais, antes é necessário ter em consideração registos de língua, estatuto dos interlocutores e tipos de discurso. Para isso, constituímos um corpus variado, desde instrumentos de normalização da língua, como gramáticas e manuais de ensino do Português, a registos orais e escritos de diversos tipos e géneros de discurso.

Referências bibliográficas:

Carreira, M. H. (2004). Les formes allocutives du portugais européen: évolutions, valeurs et fonctionnements discursifs.

http://cvc.cervantes.es/obref/coloquio_paris/ponencias/pdf/cvc_araujo.pdf

Duarte, I. M. (2011). Formas de Tratamento em Português: entre léxico e discurso – Matraga v.18, n.28, 84-101.

Gouveia, C. (2008), As dimensões da mudança no uso das formas de tratamento em Português

Europeu. In Duarte, I.M. & Oliveira, F. (ed.) O Fascínio da Linguagem. Porto, FLUP, 91-99.

Kerbrat-Orecchioni, C. (1995). La construction de la relation interpersonnelle : quelques remarques sur cette dimension du dialogue. Cahiers de Linguistique Française 16, 69-88.

Marques, M.A. (2010) Formas de tratamento e construção da relação interpessoal em Contos da

Montanha de Miguel Torga – Revista Galega de Filoloxía, 61-78.

Marques, M.A. (2014) Formas de tratamento em Português e discurso televisivo:usos de você 62-73.

Sitografia:

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/2084.

 

Palavras-chave: formas de tratamento; análise dos discursos; relação interpessoal; variação linguística.

 

Minibiografia:

Maria Aldina de Bessa Ferreira Rodrigues Marques, doutorada em Ciências da Linguagem, em 2000, professora auxiliar do Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho, tem como áreas de investigação a análise do discurso, em especial do discurso político e dos discursos orais do quotidiano.


Comunicação 6

Formas de tratamento em intervenções políticas portuguesas e brasileiras: um estudo contrastivo

Autora:

Sara Pita – Universidade de Aveiro – saratopete@ua.pt

 

Resumo:

As formas de tratamento têm um papel fulcral no funcionamento das interações, regulando as relações entre os diversos agentes comunicativos. Como afirma Duarte (2010, p.135), “as formas de tratamento permitem perceber a subjetividade enunciativa, e através delas se valoriza positiva ou negativamente o alocutário”. Portanto, as formas de tratamento não só revelam o grau de proximidade/distância entre o locutor e interlocutor, mas também permitem compreender outras questões como o ethos, a cortesia, a preservação e/ou o ataque da face (Goffman, 1974).

O presente artigo focar-se-á na análise das formas de tratamento presentes em textos portugueses e brasileiros, a fim de compreender se o uso destas é influenciado por questões culturais, sociais e contextuais, pois, tal como Kerbrat-Orecchioni (2002) defende, estes elementos linguísticos podem indicar se uma sociedade é próxima, como a brasileira, ou distante, como a japonesa.

A partir da análise de dois corpora compostos por intervenções políticas portuguesas e brasileiras, far-se-á um estudo contrastivo das formas de tratamento utilizadas, em particular das formas nominais, pronominais e verbais (Duarte, 2010). O primeiro corpus incluirá Mensagens de Natal, proferidas por diversos agentes políticos, e o segundo conterá intervenções parlamentares. Com estes dois corpora pretende-se estudar e contrastar as formas de tratamento usadas durante a relação entre instâncias política e cidadã e entre agentes políticos adversários, sempre à luz da situação e do país.

Os resultados preliminares indicam que nas Mensagens de Natal produzidas em Portugal há uma aproximação entre as duas instâncias, como reportam as formas de tratamento “prezados concidadãos”, embora se promova um registo formal. Pelo contrário, no Brasil, o tom adotado é mais próximo, registando-se formas como “minhas amigas e meus amigos”.  Já nas intervenções parlamentares, observam-se expressões formais entre deputados, nomeadamente “Sr. Deputado” (ainda que possam ter carga irónica), bem como pronomes como “você”, com um cunho agressivo.

Carreira, M. H. (2001). Semântica e Discurso, estudos de Linguística Portuguesa e Comparativa (Português/Francês). Porto: Porto Editora.

Duarte, I. (2010). Formas de tratamento: item gramatical no ensino do Português Língua Materna. Dans A. Brito, Gramática : história, teorias, aplicações (pp. 133-146). Porto: Fundação Universidade do Porto – Faculdade de Letras. Consultado em 15 de maio de 2014, em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/8312.pdf

Goffman, E. (1974). Les rites d’interaction. Paris: Minuit.

Kerbrat-Orecchioni, C. (2002). Système linguistique et ethos communicatif. Cahiers de Praxématique, N. 38, 35-57. Consultado em 10 de dezembro de 2014, em https://praxematique.revues.org/540

Seara, I. R. (Dir. & Coord.) (2014). Cortesia: Olhares e (Re)invenções. Lisboa: Chiado Editora.

Silva, L. A. da. 2008. Cortesia e formas de tratamento. In Preti, D. (Ed.) Cortesia Verbal. S.Paulo: Humanitas, 177-192

 

Palavras-chave: Formas de tratamento; mensagens de Natal; intervenções parlamentares; interação verbal, cortesia.

 

Minibiografia:

É assistente convidada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Águeda. Colabora com o Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro no âmbito dos cursos de Português Língua Estrangeira. Doutorada em Linguística pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É membro da equipa de investigação Gramática & Texto do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa. Desenvolve investigação no ramo de Análise do Texto e do Discurso, focando-se nas marcas linguísticas do ethos.


Comunicação 7

O emprego estratégico das formas de tratamento como táticas para expressar descortesia e anticortesia verbais

 Autores:

Yedda Alves de Oliveira Caggiano BLANCO – USP – yeddablanco@hotmail.com

Ramiro Carlos Humberto Caggiano BLANCO – USP – ramirocagginob@gmail.com

 

Resumo:

As formas de tratamento e a dêixis social, conforme aponta Levinson (2007), entre outros, estão, nas línguas naturais, definidas pelas convenções sociais. Todavia, como explica Silva (2008), não é propriamente a formalidade ou a forma em si que será revestida de aspecto cortês ou descortês. Por se tratar de fenômenos pragmáticos, algumas destas formas, convecionalmente corteses, podem ser empregadas estrategicamente como recursos linguísticos para expressar descortesia, isto é, como um ataque à imagem do ouvinte nos termos de Goffman (1967[1970]) e Haverkate (1994). Do mesmo modo, formas de tratamento consideradas descorteses (insultos ou agressões), em certos contextos e entre certos interactantes, podem ser entendidas como corteses, ou seja, como estratégias de busca do equilíbrio das imagens (face); é o que Zimmerman (2005) denomina de anticortesia. O objetivo desta comunicação é analisar, especificamente, de que maneira formas de tratamento que, em princípio, poderiam ser consideradas corteses conforme a convenção social podem ser empregadas como formas de ataque à imagem pública do ouvinte, enquanto outras, consideradas descorteses pelas mesmas convenções, podem ser empregadas com a finalidade estratégica de aproximação (ou de não distanciamento) social. Considerando que as formas de tratamento expressam de modo significativo, as relações sociais, a importância do estudo delas se explica porque tanto a cortesia, a descortesia, como também a anticortesia, são atividades argumentativo-estratégicas que excedem as explicações de simetria e poder relativo (BROWN e LEVINSON, 1978[1987]), e as prescrições do socialmente convencionalizado; portanto, estas atividades só podem ser compreendidas e abordadas contextualmente, interação a interação.

Palavras-chave: formas de tratamento; descortesia; anticortesia;imagem pública (face).

 

Minibiografias:

Yedda Alves de Oliveira Caggiano BLANCO é doutoranda do curso de Letras da USP na área de Língua Portuguesa e Filologia. Possui mestrado em Literatura Portuguesa, atuou no ensino superior nas áreas de Literatura, Linguística e Língua Inglesa. Participa do grupo de pesquisa Es.Por.Atenuação/Brasil. Atualmente se dedica ao ensino de Língua portuguesa como LE.

Ramiro Carlos Humberto Caggiano BLANCO é dourando do curso de Letras da USP na área de Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americanas. Mestre em Letras na área de atenuação pragmática. Também tem especialização em ensino de Língua Espanhola para falantes de Língua Portuguesa. É autor do livro: Gramática de la lengua española: usos, conceptos y ejercicios. Atua como Professor de Língua Espanhola como LE.


Comunicação 8

Os efeitos de dominação do “Eu/Nós” e “Senhora” na entrevista política com a ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff

Autora:

Dayse Alfaia, doutoranda em Linguística – Universidade de Évora – dayseletras2003@yahoo.com.br

 

Resumo:

Pretende-se nesta comunicação proceder à análise de uma entrevista política da ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, realizada no ano de 2012, pela Revista Veja com o jornalista Ricardo Setti. A ancoragem teórica desta análise filia-se nos estudos sobre o Discurso Político, proposta teórica de Patrick Charaudeau, bem como nos elementos teóricos analisados por ele, nomeadamente as emoções, efeitos de dominação, através dos enunciados proferidos pelos interactantes da entrevista supramencionada. Em virtude dos elementos gramaticais “Eu/Nós” e “Senhora” usados, nessa entrevista política, pela enunciatária e pelo enunciador, respetivamente, verifica-se uma certa tensão, quer ao nível contextual/situacional, quer ao nível da linguagem verbal escrita. O objetivo deste estudo é mostrar, portanto, como os interlocutores, constroem as suas respetivas estratégias discursivas, em virtude do uso da Língua, como é o caso do “Eu/Nós” e “Senhora”, através dos quais pode ser verificada a construção da palavra numa interação de tratamento com o Outro, que, consoante os estudos de Charaudeau (2012, p. 252), não tem sentido fora da ação. Por meio desta ação, na realidade, busca-se o exercício de um poder. Se ainda, para o autor, discurso e ação são componentes da troca social, perguntam-se, doravante: de que modo o “ato de linguagem” é construído no seio da interação entre enunciadores de um determinado discurso? Que intenções de dominação existirá nesta entrevista com a personagem política do Brasil, Dilma Rousseff, consoante os princípios do ato de linguagem, nomeadamente os de alteridade, influência e regulação? Através dessas questões de investigação, é mister, portanto percebermos até que ponto o exercício de poder será atestado, num determinado discurso, por meio do uso da linguagem, e como atestar a forma de ação/tratamento de um determinado personagem político sobre o sujeito interlocutor e vice-versa.

Palavras-chave: entrevista política; discurso político; atos de linguagem; dominação e exercício de poder.

 

Minibiografia:

É licenciada em Letras Português pela Universidade Estadual de Montes Claros (MG) – Brasil, mestre em Ciências da linguagem pela FCSH (Universidade Nova de Lisboa). Atualmente é doutoranda em Linguística na Universidade de Évora e tem-se dedicado a diferentes congressos nos quais profere comunicações no âmbito de sua especialização, nomeadamente a entrevista política e o discurso de posse presidencial.


Comunicação 9

As formas verbais de tratamento no ensino de PLE: análise comparativa e proposta didática

Autoras:

Andreea Teletin – Universidade de Bucareste (Roménia) – andreea.teletin@lls.unibuc.ro

Isabelle Simões Marques – Universidade Aberta & CLUNL –Isabelle.marques@uab.pt

 

Resumo:

Este trabalho propõe uma análise das formas verbais de tratamento do português europeu e brasileiro e a sua abordagem no ensino de PLE. Num primeiro momento, faremos algumas considerações sobre o sistema das formas verbais de tratamento nas duas variedades do português, consideradas como o “grau zero da cortesia” (Carreira, 1997, 2001). Interessa-nos estudar igualmente os valores de alguns tempos e modos verbais no âmbito da cortesia linguística, nomeadamente o imperfeito e o condicional. Num segundo momento, apresentaremos um estudo comparativo do inventário dessas formas em quatro manuais de PLE publicados em Portugal e no Brasil. Por último, faremos uma proposta didática com exercícios adequados a cada nível do QECRL e às competências de receção e de produção.

 

Referências bibliográficas:

CARREIRA, Maria Helena Araújo (1997), Modalisation linguistique en situation d’interlocution / proxémique verbale et modalités en portugais, Louvain-Paris: Peeters.

CARREIRA, Maria Helena Araújo (2001), Semântica e Discurso. Estudos de Linguística portuguesa e comparativa (Português/Francês), Porto: Porto Editora.

DUARTE, Isabel Margarida (2010), “Formas de tratamento: item gramatical no ensino do Português Língua Materna” In Ana Maria Brito (org.) Gramática: história, teorias, aplicações, Porto: Universidade do Porto, 133-146.

HAMMERMUELLER, Gunther (2004), “Adresser ou éviter, c’est la question… Comment s’adresser à quelqu’un en portugais sans avoir recours à un pronom ou à une autre forme équivalente”. Disponível no sítio do Instituto Cervantes de Paris:  http://cvc.cervantes.es/ obref/coloquio_paris/ponencias/pdf/cvc_hammermueller.pdf (consultado a 26/10/2013)

SILVA, Luiz Antônio da (2008), “Cortesia e formas de tratamento” In Dino Preti (org.) Cortesia verbal, São Paulo: Humanitas, 157-192.

(2001), Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas: aprendizagem, ensino, avaliação, Porto: Edições Asa.

 

Palavras-chave: Português língua estrangeira; didática; formas verbais de tratamento; cortesia linguística; proposta didática.

 

Minibiografias:

Andreia Teletin é docente de português na Universidade de Bucareste (Roménia). Defendeu a sua tese de doutoramento intitulada “Organização e funcionamento do discurso publicitário análise comparativa entre o português, o francês e o romeno” em 2008 na Universidade Paris 8 em cotutela com a Universidade Bucareste sob a direção de Maria Helena Araújo Carreira e de Sanda Ripeanu. Os seus eixos de pesquisa são a Análise do Discurso, a Pragmática e a didática do Português Língua estrangeira.

Isabelle Simões Marques é Leitora de francês na Universidade Aberta. É doutorada em Études Portugaises/Linguística-Analíse do Discurso pela Université Paris 8 e pela Universidade Nova de Lisboa (em cotutela). É Investigadora Doutorada do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa. Desenvolve a sua investigação nas áreas da Análise do Discurso e da Didática. Tem publicado vários trabalhos sobre o plurilinguismo, as questões das migrações e das representações.


Comunicação 10

Tu como marca interpessoal de superioridade e de distância em Português Europeu

Autor:

Carlos A. M. Gouveia – Faculdade de Letras da ULisboa/ CELGA-ILTEC, Univ. de Coimbra – carlos.gouveia@letras.ulisboa.pt / carlosgouveia@uc .pt

 

Resumo:

No quadro descritivo da Linguística Sistémico Funcional, as formas de tratamento, enquanto marcas linguísticas de expressão de relações sociais e dos papéis a elas associados, são parte relevante da componente interpessoal das gramáticas das línguas. Em tal quadro descritivo, as relações interpessoais são codificadas linguisticamente em conjunto com a ideação e a textualidade – componentes gramaticais com as quais a componente interpessoal interage na expressão de significado – pelo que, embora fortemente motivado pelas relações sociais tidas entre os participantes, o uso e, portanto, a escolha, de formas de tratamento, reflete também necessidades ideacionais e textuais. Fazendo uso de parâmetros de codificação linguística das relações sociais, como hierarquia (poder/solidariedade), distância social e afeto, as formas de tratamento podem, por exemplo, ser definidas com um relativo nível de pormenorização (delicacy) no âmbito das Relações do Registo (register tenor), em função do sistema de escolhas linguísticas que as determina (Poyton, 1990).

Tradicionalmente tratada como forma de tratamento de proximidade, desde os textos seminais de Gilman e Brown (1958) e de Brown e Gilman (1960), o pronome de segunda pessoa do singular – tu – raramente é  encarado como manifestação de superioridade  e, consequentemente, de distância. Nesta apresentação, serão focados aspetos do uso do pronome de tratamento tu em Português Europeu denotadores de manifestações de superioridade e de distância social caracterizadores de grande parte das novas relações sociais – multiculturais, multilinguísticas e multiétnicas – do Portugal contemporâneo.

Referências bibliográficas:

Gilman, Albert & Brown, Roger (1958). Who says “tu” to whom. ETC: A Review of General Semantics. 15: 169-174.

Brown, Roger & Gilman, Albert (1960). The pronouns of power and solidarity. In Style in Language, ed. Thomas A. Sebeok. Cambridge, Mass.: M.I.T. Press. 253-276.

Poynton, Cate M. (1990). Address and the Semiotics of Social Relations. A systemic-functional account of address forms and practices in Australian English. Unpublished PhD Thesis. Sydney: University of Sydney.

 

Palavras-chave: formas de tratamento; componente gramatical interpessoal; relações; poder; distância social.

 

Minibiografia:

Carlos A. M. Gouveia é Professor Associado com Agregação da Faculdade de Letras da ULisboa, onde leciona desde 1986, e investigador do Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada-Instituto de Linguística Teórica e Computacional (CELGA-ILTEC) da Universidade de Coimbra, onde coordena investigação sobre Discurso e Práticas Discursivas Académicas. Atualmente é diretor do Programa de Pós-Graduação em Português LE/L2 da Faculdade de Letras da ULisboa.


Comunicação

Polidez, saudações e formas de tratamento: dificuldades de japoneses aprendizes de português

Autoras:

Kazue Saito Monteiro de BARROS – Universidade Federal de Pernambuco / CNPq / Nelfe – kazuesaito@uol.com.br

Alice Tamie JOKO – Universidade de Brasília / Universidade Federal de Pernambuco / Nelfe – jokoalice@gmail.com

 

Resumo:

O termo (im)polidez linguística refere-se a práticas ativadas em situações de interação em qualquer comunidade linguística categorizadas pelos participantes como (in)adequadas ao evento comunicativo em curso. Os fenômenos que podem ser agrupados sob tal rótulo variam de cultura para cultura e envolvem estratégias interacionais que vão muito além da aplicação de normas de boa educação. Este trabalho tem como objetivo identificar dificuldades de japoneses aprendizes do português no emprego de saudações e formas de tratamento em conversas com brasileiros nativos. Trata-se de resultados parciais de um projeto maior sobre como o ensino de estratégias de (im)polidez é abordado em cursos de português para estrangeiros no país. Os dados incluem dez interações entre brasileiros e seis japoneses estudantes de português brasileiro, das Universidades de Tóquio e Quioto, com idades entre 20 e 30 anos. Os alunos estudaram a língua portuguesa em seus locais de origem e, no Brasil, estão no terceiro ou quarto ano do curso de Português para Estrangeiros da UnB. As análises também incluem dados de entrevistas sociolinguísticas realizadas com os alunos no período entre 3 e 6 meses após sua chegada ao país. Teoricamente, o estudo apoia-se em conceitos e pressupostos da etnometodologia e da sociolinguística interacionista para construção de aparato próprio de análise. Os resultados demonstram que, não obstante o bom conhecimento das regras gramaticais do português, os alunos sentem muita dificuldade em identificar formas e funções pragmáticas de saudações e formas de tratamento no português do Brasil. Tais dificuldades são interpretadas à luz de diferenças nas convenções de contextualização envolvendo estratégias de envolvimento e distanciamento nas duas culturas envolvidas. Os resultados indicam, também, que é de fundamental relevância o tratamento de (im)polidez em aulas de português para estrangeiros, para tanto partindo de uma perspectiva sociopragmática.

Palavras-chave: saudações e formas de tratamento; (im)polidez e ensino; português para estrangeiros.

 

Minibiografias:

Kazue Saito Monteiro de Barros  – Pesquisadora ID do CNPq, professora associada 4 da Universidade Federal de Pernambuco, membro titular do Comitê de Assessoramento de Letras e Linguística do CNPq (2013 – 2016), membro da Câmara de Pesquisa da FACEPE (períodos 2008 – 2010, 2010 – 2012, 2014 – …). Professora da Pós-graduação em Letras / UFPE tem experiência nos seguintes temas: interação verbal, discurso científico e pedagógico, produção textual, estudos da polidez.

Alice Tamie Joko – Possui graduação em Letras (Português – Japonês) pela Universidade de São Paulo (1977) e mestrado em Lingüística pela Universidade de Brasília (1987). Atualmente faz doutorado em Linguística na Universidade Federal de Pernambuco. É professora adjunta 4 da Universidade de Brasília, atuando principalmente nos seguintes temas: ensino de japonês como LE, formação de professores de japonês como LE, desenvolvimento de material de ensino de japonês como LE, estudos japoneses no Brasil.


Comunicação 12

Você, tu ou o senhor? Sistemas de tratamento em contacto em Cabo Verde

 

Autor:

Tiago MOUTA – Universidade do Mindelo – Cabo Verde – tiagomouta17@gmail.com

 

Resumo:

A variedade cabo-verdiana da língua portuguesa emerge, naturalmente, dentro do triângulo linguístico constituído pelo crioulo de Cabo Verde, língua materna (L1) do arquipélago, pelo português europeu (PE), língua segunda (L2), e pelo português brasileiro (PB), variedade fortemente enraizada nas ilhas. À imagem do que se observou anteriormente com o português de Moçambique (Gonçalves 2015) e de Angola (Inverno 2009), há investigadores que se centram agora no emergente português de Cabo Verde (PCV) (Jon-And 2011, Lopes 2011, Alexandre 2014, Mouta e Swolkien 2016). Devido à ecologia linguística do arquipélago (Thomason 2001, Matras 2009), será natural que as descrições do PCV se façam acompanhar de resultados de pesquisas em crioulística (Quint 2009, Lang 2014, Swolkien 2015).

Não obstante o interesse generalizado pelas variedades do português, os seus sistemas de tratamento, vertentes morfossintáctica e semântico-pragmática, permanecem marginalizados. Parte-se, assim, da literatura acerca do PCV e, fundamentalmente, de um vasto corpus escrito em PL2 – textos de simulação de interacções do quotidiano produzidos por estudantes universitários do Mindelo – para a descrição e análise do sistema de tratamento do PCV, área crítica que, devido à sua profunda transversalidade, se reveste de maior relevância.

A comunicação centrar-se-á em traços semântico-pragmáticos relativos ao uso de você, forma de tratamento pronominal de utilização não problemática no PB, de inúmeras inibições no PE, e que, sob influência da L1, parece cristalizar outros matizes no PCV. Para tal, utilizar-se-á um quadro clássico de análise de erros dos dados do corpus, e de análise contrastiva com estruturas do crioulo de São Vicente, variedade dialectal em foco, e com construções análogas em PE e PB.

Sublinhe-se ainda que a descrição e análise do sistema de tratamento do PCV visam, sobretudo, a concepção de linhas de acção e de ferramentas que ajudem a construir uma metodologia adequada de ensino-aprendizagem do PL2 em Cabo Verde.

Palavras-chave: contacto linguístico; crioulo cabo-verdiano; português de Cabo Verde; sistema de tratamento, você.

 

Minibiografia:

Tiago Mouta concluiu a licenciatura em Língua e Cultura Portuguesas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Desde 2009, lecciona várias unidades curriculares de língua portuguesa em universidades do Mindelo, Cabo Verde. Entretanto, inscreveu-se no mestrado de Estudos de Língua Portuguesa: Investigação e Ensino, na Universidade Aberta, finalizando, agora, a sua dissertação acerca do sistema de tratamento do PCV, sob orientação da professora doutora Isabel Roboredo Seara. Em 2014 e 2016, participou em seminários internacionais do GELIC e da ACBLPE realizados na Praia.


Comunicação 13

As Formas de Tratamento em Português Europeu: propostas de didatização

 

Autora:

Sara Alexandra Pinto Pratas – Universidade de Coimbra – sara.pratas@uc.pt

 

Resumo:

Abordar as Formas de Tratamento (FT) em Português Europeu Contemporâneo (PEC) implica refletir sobre uma das questões mais complexas da Língua Portuguesa e que, portanto, mais dúvidas coloca a aprendentes de Português Língua Estrangeira/Língua Segunda (PLELS), mas também a aprendentes de Português Língua Materna (PLM).

Nesta comunicação, tendo em conta o Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas (2001), atribui-se um papel de destaque ao desenvolvimento da competência comunicativa, sem com isto desvalorizar a aquisição de outras que com ela atuam. Para um aprendente não nativo não basta conhecer as FT em PEC. O desafio não é tanto de natureza léxico-gramatical, mas antes de natureza pragmática.

Sensíveis a essa dificuldade, propomos um conjunto de materiais didáticos suscetíveis de desenvolverem a proficiência comunicativa dos aprendentes, de modo a que possam fazer da língua um instrumento de integração.

A aprendizagem de uma língua é sempre mais eficiente quando se aposta no contacto com situações/materiais autênticos, privilegiando-se uma relação equilibrada entre aprendizagem e uso.

Do nível elementar ao avançado, apresentamos um conjunto de atividades que convocam diferentes competências linguísticas, em articulação com diferentes metodologias.

Palavras-chave: Didatização, Competência Comunicativa; Formas de Tratamento (FT); Português Europeu Contemporâneo (PEC); Português Língua Estrangeira/Língua Segunda (PLELS).

 

Minibiografia:

Sara Pratas é assistente convidada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Águeda (Universidade de Aveiro). Encontra-se a terminar a tese de Mestrado em Português Língua Estrangeira/Língua Segunda sob a orientação da Professora Doutora Ana Cristina Macário Lopes, na FLUC.


Comunicação 14

FORMAS DE TRATAMENTO EM PERSPECTIVA

Autor:

Luiz Antônio da Silva – Universidade de São Paulo (Brasil) – luizs@usp.br

 

Resumo:

A linguagem é um veículo para a interação com outras pessoas, por isso é utilizada diariamente e, muitas vezes, as pessoas não reconhecem o quanto ela é importante. Como não se pode desvincular a linguagem da sociedade, é preciso conhecer o conjunto de normas que regulam o comportamento adequado dos membros de um meio social. Por isso cada sociedade estabelece regras que regulam esses comportamentos. As formas de tratamento fazem parte dessas regras sociais que sancionam determinados comportamentos como adequados ou inadequados.

Quando duas ou mais pessoas conversam, uma pode dirigir-se à outra empregando um nome ou um pronome, que cumprirão a função de apelar ou chamar a atenção do interlocutor. O tratamento é, pois, um sistema de significação que contempla diversas modalidades de dirigir-se a uma pessoa. Trata-se de um código social que, quando se transgride, pode causar prejuízo no relacionamento entre os interlocutores.

Por formas de tratamento designamos tanto os termos que se referem ao par falante/ouvinte, como os vocativos usados para chamar a atenção do destinatário. Com efeito, as formas de tratamento abrangem tanto os chamados pronomes pessoais de tratamento quanto as formas nominais, isto é, uso de nomes próprios, títulos, apelidos e outras formas nominais que identifiquem a pessoa referida.

O objetivo deste trabalho é fazer algumas considerações sobre as formas de tratamento no português brasileiro à luz das teorias que abordam o tema da cortesia.

Para levar a cabo os objetivos deste trabalho, analisamos peças de teatro, do dramaturgo brasileiro Nélson Rodrigues, escritas no século XX.

Palavras-chave: interação; cortesia; tratamento; formas de tratamento.

 

Minibiografia:

Professor da área de Filologia e Língua Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É pesquisador do Projeto NURC/SP e desenvolve trabalhos de investigação no âmbito da Pragmática, Análise da Conversação e Análise do Discurso.


Comunicação 15

Comunicação : usos de “Você” nas linguages da proximidade e da distância comunicativas

 

Autora:

Denise Durante – Universidade de São Paulo – denisedurante@uol.com.br

 

Resumo:

O objetivo geral da pesquisa é refletir sobre as funções gramaticais do pronome você em interações orais. A forma você é tradicionalmente classificada como pronome de tratamento no Português do Brasil, mas também pode ser classificada como pronome pessoal e pronome indefinido. Considera-se, nesta pesquisa, a hipótese de que, ao assumir, em concomitância, essas diversas funções no discurso oral, você pode propiciar a obtenção de efeitos expressivos específicos da oralidade ou da chamada “linguagem da proximidade” (Koch; Öesterreicher, 1990), entre os quais se inclui o envolvimento interacional. O corpus analisado corresponde a textos orais produzidos pelos chamados “falantes cultos” (Preti, 1997). Trata-se de textos veiculados em entrevistas televisivas, os quais são transcritos conforme as regras convencionadas pelo Projeto de Estudo da Norma Linguística Urbana Culta (Projeto NURC-SP). Utilizam-se, na pesquisa, o método indutivo, a análise qualitativa dos dados e as pesquisas bibliográfica e documental. Analisam-se os usos de você, na perspectiva sincrônica, à luz dos conceitos de linguagem da proximidade e da distância comunicativas, desenvolvido pelos teóricos alemães Koch e Öesterreicher (1985; 1990). Adotam-se igualmente pressupostos da Sociolinguística e da Análise da Conversação, bem como os estudos de Marcuschi (1986; 2000) e Urbano (2006; 2011; 2013), cujas pesquisas retomam o referido modelo teórico alemão, ao enfocarem a questão do meio e da concepção textual das mensagens orais e escritas. Os dados coletados e analisados confirmam a hipótese de que você, ao cumprir simultaneamente variadas funções gramaticais na comunicação oral, atua como recurso discursivo para ampliação do envolvimento interacional. Verifica-se o emprego recorrente de você, sobretudo como estratégia para indeterminação do sujeito.

Palavras-chave: oralidade; pronome; Português do Brasil.

 

Minibiografia:

Denise Durante – Professora Doutora em Filologia e Língua Portuguesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo. É Mestre em Língua e Literatura Italiana e Bacharel em Letras por essa mesma universidade, onde atualmente desenvolve pesquisa de Pós-Doutorado sobre os conceitos de oralidade e escrita na perspectiva de Koch e Öesterreicher. Desde 2009, atua como professora no curso de Letras, da Universidade Paulista.


Comunicação 16

De tratamento à  pessoalidade: Um estudo sobre o uso do pronome Você em textos orais do português da Amazônia Paraense

Autoras:

Ediene Pena Ferreira – Universidade Federal do Oeste do Pará – ediene.ferreira@ufopa.edu.br

Adriana Cristina Lopes Rego – Universidade Federal do Oeste do Pará –  gelopa.stm@gmail.com)

 

Resumo:

Este trabalho é o resultado de uma pesquisa de campo realizada no município de Santarém, localizado a oeste do estado do Pará, norte do Brasil, na Amazônia Paraense – com o objetivo de descrever e analisar o uso do pronome você, bem como a alternância você/tu em textos orais de falantes santarenos. Os dados foram coletados por meio de observações assistemáticas. Utilizamos pressupostos teórico-metodológicos da sociolingüística, mais especificamente, da teoria da variação linguística. Referendamos nossa pesquisa com dados de alguns trabalhos sobre o tema que contemplam várias cidades brasileiras, demonstrando o uso variado dos referidos pronomes no Brasil. Nossos dados são constituídos por 110 (cento e dez) ocorrências de tu, você, e a variante , produzidas por 21 informantes. Foram consideradas em nossa análise as variáveis, sexo, faixa etária e relação entre os interlocutores. Constatamos, em nosso corpus, que o pronome você indica formalidade e polidez, ao passo que o pronome tu é preferido pelos falantes santarenos para expressar intimidade e solidariedade entre os falantes.

Palavras-chave: pronome você; alternância entre você/tu; polidez; intimidade.

 

Minibiografias:

Ediene Pena Ferreira é professora da Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA. Doutora em Linguística. Líder do Grupo de Estudos Linguísticos do Oeste do Pará – GELOPA. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa e Linguística, atuando principalmente nos seguintes temas: funcionalismo linguístico, variação, mudança, norma e ensino. Realizou pesquisa pós-doutoral no Instituto de Linguística Teórica e Computacional – ILTEC em Lisboa, sob orientação de Lachlan Mackenzie.

Adriana Cristina Lopes Rego é graduada em Letras pela Universidade Federal do Pará (UFPA).


Comunicação 17

Mudança nas formas de tratamento no domínio familiar: análise de um espaço geográfico concreto

Autor:

Manuel Duarte João Pires –  Universidade de Sun Yat-sen, Cantão, China – mdjpires@hotmail.com

 

Resumo:

Num tempo em que o pronome “tu” se tem vindo propagar incessantemente e se apresenta quase como a única forma de tratamento a usar em sociedade (Biderman, M.T.C, 1975) ainda há alguns espaços geográficos que por estarem mais afastados do poder aglutinador dos grandes meios urbanos mantêm algumas diferenças ou variações diatópicas reflectidas nos seus falares locais ou regionais (Cunha, C. & Cintra, L., 1985). Mas será que essas diferenças continuam assim tão acentuadas a nível das formas de tratamento? Qual o seu papel no domínio familiar? Foi para responder a estas e  outras perguntas que decidi efectuar um pequeno estudo numa localidade do interior nordeste de Portugal na qual contactei com pessoas de diferentes gerações para tentar compreender um pouco melhor o uso e a importância das formas de tratamento no âmbito familiar ao longo das décadas mais recentes. Para analisar estas mudanças além da teoria de alguns autores como Lindley Cintra ou Maria Teresa Camargo Biderman, menciono também Cláudio Basto, autor de uma pequena separata da “Revista Atlântica” de nome Formas de tratamento em português, elaborada em 1932 e que nos dá uma ideia das formas de tratamento mais correntes à época e dos diferentes contextos em que se utilizavam. À distância de quase um século podemos verificar quais os modos de tratamento que se usavam então e que perduraram até à actualidade, mas também outros aspectos como as variantes geográficas de uma mesma forma ou o registo das expressões mais usadas no Brasil e em Portugal. Com esta comunicação pretendo poder contribuir para uma discussão profícua sobre mudanças linguísticas e culturais e o modo como as pessoas usam as formas de tratamento tendo como referência um espaço geográfico definido.

Palavras-chave: Formas de tratamento; mudança linguística.

 

Minibiografia:

Leitor de Português na Universidade de Sun Yat-sen (Cantão, China) desde 2012, estudante de doutoramento em Estudos Portugueses na Universidade de Macau desde 2015, licenciado e mestre em Língua e Cultura Portuguesa (LE/L2) pela Universidade de Lisboa, membro da “American Organization of Teachers of Portuguese”, consultor linguístico na escola “IberiaContigo” (Cantão, China), colunista do “Jornal do Nordeste” (Bragança, Portugal).


Comunicação 18

As formas de tratamento como atividade estratégica e como índice de categorização de sociedades de aproximação ou distanciamento

 Autores:

Ramiro Carlos Humberto Caggiano  BLANCO – USP (Brasil) – ramirocagginob@gmail.com

María Zulma Moriondo  KULIKOWSKI – USP  (Brasil) – mazumo@usp.br

 

Resumo:

O objetivo desta apresentação e descrever as semelhanças e diferenças nas formas de tratamento entre universitários das cidades de Córdoba (Argentina) e São Paulo (Brasil), na formulação de atos não corteses, na categorização de Haverkate, que favorecem o emprego de cortesia extrínseca (1994:116). Analisaremos, especificamente, as formas nominais, pronominais e vocativos, empregados em atos diretivos em benefício próprio (pedidos) e respostas não preferidas (rejeições) como estratégias de atenuação pragmática. Enquanto estratégias discursivo-argumentativas, analisaremos de que forma elas servem aos propósitos de aproximação –ou de não afastamento- social dos interactantes, numa busca pelo equilíbrio das imagens. Por se tratar de um corpus formado por enunciados de estudantes universitários, as formas de tratamento com as quais trabalharemos serão as informais correspondentes a cada uma das comunidades de fala, você (São Paulo, Brasil) e vos (Córdoba, Argentina); também serão apontadas as diferentes fórmulas que transitam entre a gradação de maior ou menor coloquialidade em cada uma das cidades. Estas diferenças e semelhanças nos permitirão apontar dados importantes para a categorização de cada uma das comunidades de fala no continuum proposto por Havekate (2004) e Briz (2007) de sociedades de aproximação e de distanciamento. Ressaltamos que este trabalho é parte de uma pesquisa intercultural desenvolvida dentro dos parâmetros metodológicos do projeto Es.Por.Atenuação, o qual estabelece o quadro teórico para a realização tanto de estudos comparativos entre o espanhol e o português, como das diferentes variantes regionais de cada uma destas línguas.

Palavras-chave: formas de tratamento; cortesia; imagem pública (face); atenuação pragmática.

 

Minibiografias:

Ramiro Carlos Humberto Caggiano  BLANCO é dourando do curso de Letras da USP na área de Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americanas. Mestre em Letras na área de atenuação pragmática. Também tem especialização em ensino de Língua Espanhola para falantes de Língua Portuguesa. É autor do livro: Gramática de la lengua española: usos, conceptos y ejercicios. Atua como Professor de Língua Espanhola como LE.

María Zulma Moriondo  KULIKOWSKI é doutora em Linguística pela Universidade de São Paulo (1997), mestre em Letras (Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americanas) também pela Universidade de São Paulo (1990). Atualmente é professora doutora efetiva da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Língua Espanhola, atuando principalmente nos seguintes temas: Língua Espanhola, estudos sobre (des)cortesia, oralidade em textos literários, Roberto Arlt, Manuel Puig.


Comunicação 19

Do [eʒmu] ao Excelentíssimo em PLNM

Autora:

Isabel Maria Matos Ramos Castilho – Doutoranda em Linguística do Texto e do Discurso na FCSH, UNL e colaboradora do CLUNL – isacastilho@gmail.com

 

Resumo:

Em qualquer interação humana em situação de comunicação são produzidos textos que põem em jogo factores sociais, culturais e históricos. Cada agente da comunicação reproduz, mais ou menos, modelos textuais que relaciona com a diversidade das práticas sociais cujas características sociocomunicativas são variáveis de acordo com as necessidades humanas (Bronckart; 2012:101-103) e que, por sua vez, mobilizam mecanismos linguísticos tidos como eficazes para realizar a ação de linguagem.

Neste trabalho, toma-se como foco a realização linguístico-textual das operações da interpelação do outro e da referência ao outro (re)conhecidas como formas de tratamento, em função da noção de géneros de texto, perspetivada pelo Interacionismo Sociodiscursivo.

Apresenta-se um dispositivo didático das formas de tratamento para a disciplina de Português Língua Não Materna (PLNM), destinada a falantes não nativos da língua portuguesa, a partir das contribuições de Dolz, Noverraz e Scheneuwly (2004, 82; 2001), construído para operacionalizar os objetivos do domínio da Oralidade das Metas curriculares de Português para o Ensino Básico e Secundário, numa perspetiva de progressão, que aposta na audição e na leitura de textos de géneros diversos em que as formas são mobilizadas, de modo a observarem-se as regularidades e a induzirem-se as regras dos usos em Português europeu.

Os resultados da experiência, em curso, apontam para a utilidade de considerar o ensino explícito do conteúdo também nos domínios da Leitura e da Escrita com vista ao desenvolvimento das capacidades sócio-discursivas dos alunos, e de criar dispositivos de ensino que viabilizem a sua aprendizagem em interdisciplinaridade, no quadro das línguas estrangeiras que constituem oferta educativa curricular em Portugal, nomeadamente, as disciplinas de Francês, Inglês e Espanhol.

Palavras chave: atividades, géneros, textos, formas de tratamento.

 

Minibiografia:

É docente de português no ensino secundário e formadora do centro de formação Novafoco. É Mestre em Linguística – Linguística Aplicada, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Desenvolve investigação em Linguística do Texto e do Discurso, encontrando-se na fase de investigação conducente à apresentação da tese intitulada Géneros e Estilos. Análise Linguística dos Textos Escritos por José Saramago para o blogue O Caderno. Transposição Didática dos Géneros Textuais Memórias, Diário, Autobiografia e Carta. É colaboradora do CLUNL.


Comunicação 20

Atenuação e formas de tratamento em perguntas metadiscursivas no português brasileiro falado

Autora:

Lara Oleques de Almeida – Universidade Presbiteriana Mackenzie – S.P. (Brasil) – lara.oleques@gmail.com

 

Resumo:

A atenuação linguística é uma estratégia discursiva de minimização da força ilocucionária dos enunciados e do papel dos participantes da enunciação com vistas à eficácia argumentativa. Neste estudo, trataremos de um recurso atenuador específico, a saber, a impessoalização, que se caracteriza pela ocultação do eu ou do tu enunciativos, do qual o falante se vale para evitar assumir a responsabilidade por suas palavras. Interessa-nos averiguar em que contextos interacionais a impessoalização estará presente quando o falante (documentador) formula perguntas metadiscursivas (autorreflexivas com referência ao código em uso) ao seu interlocutor (entrevistado), dirigindo-se a este por meio de formas de tratamento nominais, pronominais ou sem utilizar nenhuma forma de tratamento. Portanto, o objetivo deste estudo é, sob a perspectiva da Linguística Interacional e da Teoria da Enunciação, descrever e analisar as estratégias discursivas de atenuação por impessoalização presentes em perguntas metadiscursivas quando o documentador emprega ou não formas de tratamento. Para a análise, exploramos inquéritos do Projeto NURC/BR (Projeto de Estudo da Norma Linguística Urbana Culta do Brasil), segundo uma abordagem eminentemente qualitativa, mas sem descurar da análise quantitativa quando esta aponta tendências ou sustenta conclusões. Resultados parciais indicam que o recurso da ocultação do tu se manifesta nas perguntas metadiscursivas, em diferentes frequências de ocorrência e graus de atenuação, tanto quando o documentador utiliza formas de tratamento para dirigir-se ao entrevistado como quando não as utiliza.

Palavras-chave: atenuação; formas de tratamento; metadiscursividade; interação face a face.

 

Minibiografia:

Mestranda em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie; Especialista em Aprendizagem de Línguas Estrangeiras pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos; Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Tradutora no par de idiomas português-espanhol; Professora universitária.


Comunicação 21

Estudo das Formas de Tratamento no Diálogo de Jovens no Português Brasileiro

Autora:

Leonor Lopes Fávero –  USP e PUC/SP – lplfavero@uol.com.br

 

Resumo:

O trabalho objetiva o estudo de  formas de tratamento em conversações espontâneas (registro semiformal e coloquial) de jovens, no Português Brasileiro em diversas situações: com outros jovens, com familiares e com professores e outras autoridades da escola. A partir de uma perspectiva pragmática, busca-se examinar não só as formas de tratamento utilizadas por esses jovens, mas também como se dá a cortesia, observando-se como se instaura o jogo interpessoal em contextos sociais diversos. A cortesia é aqui concebida como um conjunto de normas sociais que cada comunidade estabelece para regular o comportamento adequado  de seus membros, ajustando atitudes às normas. O corpus, objeto de estudo do trabalho, foi obtido na cidade de São Paulo e,  embora a cortesia seja universal, pode variar de uma cultura a outra  (Kerbrat-Orecchioni, 2005). Na análise, dá-se especial atenção ao fenômeno da descortesia fingida (Briz, 2014; Alba-Juez, 2008), quando, especialmente no registro informal (conversação entre amigos), é desrespeitada a intenção de se manter a imagem positiva do enunciador, sem que o enunciatário se ofenda, isto é, procura-se mantener los lazos de amistad (Alba-Juez, op.cit., p. 218). A pesquisa está fundamentada nas propostas da Análise da Conversação e nos estudos sobre a cortesia.

Palavras-chave: formas de tratamento em conversações espontâneas; cortesia; descortesia fingida.

 

Minibiografia:

Titular de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) e titular de Língua Portuguesa da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC/SP). Fez doutorado na PUC/SP, livre-docência na USP e pós-doutorado na Universidade de Paris VII, sob supervisão de Sylvain Auroux. Pesquisadora do CNPq, tem experiência na área de Linguística com ênfase em Teoria e Análise Linguística. Desenvolve e orienta pesquisas em Linguística Textual, Análise da Conversação, História das Ideias Linguísticas e Ensino e Aprendizagem da Língua Materna. Autora de diversos  livros, além de inúmeros  capítulos de livros e artigos publicados  em periódicos no Brasil e no exterior.


Comunicação 22

Você é estrebaria ou você é finesse? A polarização e os diferentes valores de ‘você’ em Português Europeu

Autora:

Isabel Roboredo Seara – Universidade Aberta e CLUNL  –Isabel.seara@uab.pt /  irseara@gmail.com

 

Resumo:

A expressão “você é estrebaria!”,  que se usa como réplica para evidenciar que esta forma de tratamento “você” não é recomendável, atesta que a forma de tratamento “você” era (é?) no Português Europeu conotada negativamente e que o seu uso não era (é) permitido/recomendado em situação de interação, em determinados contextos sociais. A referência à estrebaria remete, aliás, para a forma que era usada com serviçais, pessoas numa posição hierarquicamente  inferior na estrutura social.

Esse é valor é corroborado por Celso Cunha e Lindley Cintra que sublinham que “(O valor) de tratamento igualitário ou de superior para inferior (em idade, em classe social, em hierarquia) e apenas este, é o que “você” possui no português normal europeu, onde só excepcionalente – e em certas camadas sociais altas – aparece como uma forma carinhosa de intimidade” (1984: 294).

Serão focados, nesta apresentação, os distintos usos da forma de tratamento “você”, em situação de alocução, com base nos trabalhos de Carreira (1997), Lapa (1973), Hammermueller  (1980) Ricardo Marques (1988), Duarte (2011), Gouveia (2008), Marques (2010)  e Medeiros (1985) para circunscrever os valores de proximidade e distância social que pode assumir: desrespeito, igualdade, superioridade, afastamento, rotina, cortesia e, ainda, o valor não descrito e com uma curiosa expressão diastrática, o valor de afetação.

A complexidade do sistema de tratamento em português que, como sublinha Carreira (2002: 174), contrariamente ao que se passa em outras línguas, não pode restringir-se aos paradigmas clássicos de Brown & Gilman (1960), suscita muitas hesitações, quer aos falantes nativos do PE, quer aos falantes das outras variedades do português, quer, evidentemente, aos que desejam aprender o português como língua estrangeira. Face a esta dificuldade colocada pela seleção da forma “você” referir-se-á ainda o morfema verbal de terceira pessoa conjugado sem o pronome “você” como uma forma consagradamente usada como forma de evitação.

Referências bibliográficas:

Biderman, Maria Teresa Camargo (1972-73). Formas de tratamento e estruturas sociais. ALFA, 18/19, pp. 339-381.

Brown, Roger & Gilman, Albert (1960). The pronouns of power and solidarity. In Style in Language, Thomas A. Sebeok (ed).  Cambridge, Mass.: M.I.T. Press, pp. 253-276.

Carreira, Maria Helena Araújo (2004). Les formes allocutives du portugais européen: évolutions, valeurs et fonctionnements discursifs.

http://cvc.cervantes.es/obref/coloquio_paris/ponencias/pdf/cvc_araujo.pdf (consultado em dezembro de 2016)

Carreira, Maria Helena Araújo (1997). Modalisation linguistique en situation d’interlocution . Proxémique verbale et modalités en portugais. Paris -Louvain , Peeters, Collection Bibliothèque de l’Information Grammaticale , 1997.

Cintra, Luís Filipe Lindley  (1972). Sobre « Formas de tratamento na Língua Portuguesa. Lisboa: Livros Horizonte.

Cunha, Celso & Lindley Cintra, Luís, Nova Gramática do Português Contemporâneo. Lisboa: Edições Sá da Costa.

Duarte, I. (2010). Formas de tratamento: item gramatical no ensino do Português Língua Materna. In Ana Maria Brito (org.), Gramática : história, teorias, aplicações (pp. 133-146). Porto: Fundação Universidade do Porto – Faculdade de Letras. Disponível em :  http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/8312.pdf (consultado em dezembro de 2016)

Duarte, Isabel Margarida (2011). Formas de Tratamento em Português: entre léxico e discurso – Matraga v.18, n.28, 84-101.

Gouveia, Carlos (2008), As dimensões da mudança no uso das formas de tratamento em Português Europeu. In Duarte, I.M. & Oliveira, F. (ed.) O Fascínio da Linguagem. Porto:  FLUP, 91-99.

Hammermüller, Gunther (1980), “VOCÊ é estrubaria?”, Iberoromania 12, pp. 30-40.

Hammermüller, G. 2004. Adresser ou eviter, c’est la question… Comment s’adresser à quelqu’un en portugais sans avoir recours à un pronom ou à une autre forme équivalente. Disponível em: http://cvc.cervantes.es/lengua/coloquio_paris/ponencias/pdf/cvc_hammermueller.pdf  (consultado em dezembro de 2016)

Marques, Maria Aldina (2010) Formas de tratamento e construção da relação interpessoal em Contos da Montanha de Miguel Torga – Revista Galega de Filoloxía, pp. 61-78.

Oliveira Medeiros, Sandi Michele de. (1985). A Model of Address Form Negotiation: A Sociolinguistic Study of Continental Portuguese. Ph.D. diss., University of Texas at Austin.

Ricardo Marques, Maria Emília (1988) Complementação verbal. Estudo sociolinguístico. Tese de doutoramento. Lisboa: FCSH – Universidade Nova de Lisboa.

Silva, Luiz Antônio da. (2008). Cortesia e formas de tratamento. In Dino Petri (ed). Cortesia Verbal. S.Paulo: Humanitas, pp. 177-192.

 

Palavras-chave: forma de tratamento “você”; distância social; regulação da relação interlocutiva; evitação.

 

Minibiografia:

Isabel Roboredo Seara. Professora do Departamento de Humanidades da Universidade Aberta, Lisboa, em Portugal. Investigadora do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa (CLUNL). É doutorada em Linguística Portuguesa e desenvolve trabalho de investigação no âmbito dos estudos de pragmática, análise do discurso, retórica e epistolografia.


Comunicação 23

«Para ti.» A designação do dedicatário como apresentação de si no discurso

Autora:

Isabel Gonçalves Viola – Universidade Aberta – isabel.viola@gmail.com

 

Resumo:

As formas de tratamento constituem um suporte de regulação das distâncias da interacção verbal, a par dos marcadores discursivos e da delicadeza linguística. A sua análise na situação de comunicação do género discursivo dedicatória de obra, impressa, enquanto elemento peritextual, é o objetivo do presente trabalho, no quadro da linguística textual e no âmbito das correntes enunciativas da análise do discurso. Analisam-se, por conseguinte, ao nível da superPície discursiva, as variações na estrutura prototípica da designação do dedicatário, bem como o seu dispositivo deítico e as marcas de enunciação, considerando-se o nível pragmático- discursivo, de modo a determinar-se o grau de familiaridade/ distância na relação que se estabelece entre os interlocutores, isto é, entre dedicador e dedicatário(s). Pela análise do corpus, constituído por 30 dedicatórias de obras de Picção portuguesa contemporânea, demonstra-se como a opção pela forma de tratamento marca o tipo de relação interpessoal que se pretende demonstrar, seja ela de ordem sócio-afetiva ou intelectual, expressando a solidariedade ou a deferência, a dívida ou o reconhecimento, certo é que o dispositivo da designação do outro procede igualmente de uma intenção de sedução e visa uma apresentação de si no discurso.

Palavras-chave: Dedicatória, peritexto, forma breve, homenagem, linguística textual.

 

Minibiografia:

Mestre em Estudos de Língua Portuguesa – Ensino e Investigação, Doutoranda do Curso de Estudos Portugueses, na especialidade de Linguística, na Universidade Aberta, Lisboa.


Comunicação 24

“Minha jóia querida”: uma análise linguística das formas de tratamento nas cartas da guerra de António Lobo Antunes

Autora:

Mariana Silva – CLUNL/ FCSH-UNL – mariana_msilva@hotmail.com

 

Resumo:

Nesta apresentação, pretendemos mostrar de que forma os recursos linguísticos mobilizados nas formas de tratamento do epistolar amoroso atestam a construção e/ou a evolução de relações interpessoais do seu autor.

Para tal, analisaremos uma amostra das cartas da guerra de António Lobo Antunes (ALA), escritas durante a Guerra Colonial Portuguesa e compiladas no livro D’este viver aqui neste papel descripto (2005), destacando dois períodos distintos: antes de o autor reencontrar a esposa (e ainda sem conhecer a filha) e depois de se voltar a separar da mulher e da filha.

O nosso trabalho focar-se-á, pois, e essencialmente, na descrição das estratégias linguísticas associadas às formas de tratamento do epistolar amoroso enquanto marcadores de intimidade, recorrendo, com este intuito, a contributos da teoria do epistolar – e.g.  Haroche-Bouzinac (1995), Diaz (2002) e Seara (2008) – do epistolar amoroso –  e.g. Brenot (2000) – da análise do discurso – e.g. Amossy (1998) e Maingueneau (1996) – e dos estudos discursivopragmáticos das cartas da guerra de ALA – e.g. Seara (2010).

Desta forma, e com base numa análise preliminar, prevemos:

  1. o aparecimento de formas de tratamento em diferentes partes do texto (e não só nas fórmulas de abertura);
  2. a ausência de determinantes possessivos e nomes relacionais, no primeiro período, e a presença dessas categorias no segundo período (especialmente, quando referentes à filha do casal);
  3. a ausência de nomes com valores afetivos na primeira fase, por oposição à sua proliferação na segunda fase (nos mesmos casos que em b));

A análise pormenorizada dos aspetos elencados, na amostra em estudo, permitir-nos-á sistematizar a forma como os recursos linguísticos mobilizados nestas construções permitem concluir sobre a evolução das relações interpessoais do autor, uma vez que, e seguindo Seara, se trata de “uma escrita codificada, normalizada, que releva, contudo, da expressão espontânea” (Seara, 2008: 123).

Corpus:

  1. Lobo Antunes, António (2005). D’este viver aqui neste papel descripto: cartas da guerra. 1ª Edição. Publicações Dom Quixote: Lisboa.

 

Referências Bibliográficas:

  1. Brenot, Philippe (2000). De la lettre d’amour. França: Zulma.
  2. Seara, Isabel R. (2010). “A confissão intimista na correspondência amorosa de António Lobo Antunes; estudo pragmático”, Trabalho apresentado em Actas do II Simpósio Mundial de Estudos em Língua Portuguesa (SIMELP). In A Língua portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas, Évora.

 

Palavras-chave: António Lobo Antunes; Género Epistolar; Formas de Tratamento; Relações Interpessoais.

 

Minibiografia:

É professora assistente da Escola Superior de Educadores de Infância Maria Ulrich, professora de português na Escola Profissional de Pedagogia Social e tutora de uma pós-graduação e-learning do departamento de Linguística da Universidade Nova de Lisboa (UNL). É doutoranda em Linguística do Texto e do Discurso na UNL e membro do Centro de Linguística da mesma Universidade. A sua investigação atual foca-se, fundamentalmente, em questões discursivo-textuais nas cartas da guerra de António Lobo Antunes.


Comunicação 25

Cartas pessoais no português brasileiro: um  estudo das formas de tratamento no português brasileiro

Autora:

Maria Lúcia da Cunha Victório de Oliveira Andrade  – Universidade de São Paulo  (Brasil)  – maluvictorio@uol.com

 

Resumo:

Tomando como corpus a correspondência pessoal de Machado de Assis, organizada por Rouanet (2009) e a obra Cartas da Biblioteca Guita e José Mindlin, editada por Paris (2008), buscamos identificar e analisar as formas de tratamento utilizadas pelo autor e seus interlocutores, seguindo as propostas de Kabatek (2006) – Tradições Discursivas – e da História Cultural, especialmente Chartier (1990).  Para tanto, selecionamos cartas escritas por sujeitos que mantinham relações de amizade estreita com o enunciador  e outras em que se percebe uma relação menos intima e mais voltada para situações profissionais.  Buscamos observar a dialogicidade inscrita nas cartas por meio de marcas específicas, selecionadas pelo enunciador a partir das formas de tratamento e de escolhas lexicais organizadas de tal modo que a sintaxe desse discurso revele um uso significativo da língua nas últimas décadas do século XIX (cartas de M. Assis) e  no século   XX (coleção de Mindlin). A organização permite historiar esse continuum no grau de proximidade/distância entre os enunciadores, que auxilia a descrever os usos de acordo com a situação comunicativa estabelecida, através de padrões discutidos a partir da teoria de Poder e Solidariedade (Brown & Gilman, 1960). As hipóteses levantadas para este trabalho são elaboradas, de um lado, com base nos resultados encontrados em outros estudos, que revelam dados significativos sobre o uso  majoritário de tu, forma recorrente no  século XIX e  início do XX, que será suplantado por você por volta dos anos 30, evidenciando que são as mulheres as enunciadoras que mais utilizam esse pronome (Lopes e Machado, 2005, Pereira 2012) e, de outro lado, em algumas das gramáticas mais utilizadas nos séculos XIX e XX, como a de João Ribeiro (1887) e a de Eduardo Carlos Pereira (1907), avaliando como esses autores tratam do pronome em suas obras.

Palavras-chave: formas de tratamento; cartas pessoais; relações de poder e solidariedade; dialogicidade.

 

Minibiografia:  

Possui graduação em Letras pela Universidade de São Paulo (1977), mestrado em Língua Portuguesa pela PUC-SP (1990), e doutorado em Linguística pela Universidade de São Paulo (1995). Fez estágio pós-doutoral na Universitat Pompeu Fabra (Espanha) em Análise Crítica do Discurso, sob  supervisão do Professor Teun Van Dijk (2010-2011) e em 2014-2015 sob a supervisão da Professora Montserrat Ribas-Bisbal, na mesma universidade. Atualmente, é professora assistente doutora  da FFLCH-Universidade de São Paulo, na área de Filologia e Língua Portuguesa.. Desde 2011 é coordenadora do Projeto Temático de Equipe – História do Português Paulista  II  (FAPESP- USP), no subgrupo Gêneros Jornalisticos Impressos: constituição e mudança numa perspectiva critico-discursiva


Comunicação 26

Eu, tu , ele, nós, vós, vocês, eles… Je, tu, il, vous, nous, ils… a tradução de formas de tratamento : substituição, equivalência, adaptação?

Autora:

Catarina Vaz Warrot – Faculdade de Letras da Universidade do Porto – CLUP / FCT (bolseira pós-doutoramento) – catarinavazw@yahoo.fr

 

Resumo:

A tradução literária é um trabalho exigente que solicita um grande número de competências por parte do tradutor. Este deve fazer face a diferentes dificuldades: lexicais, linguísticas, culturais, entre outras. A partir do «corpus» do nosso trabalho de pós-doutoramento (16 romances lusófonos contemporâneos), apercebemo-nos da existência de «zonas de fragilidade» (retomando o termo de Maria Helena Carreira), nomeadamente no que diz respeito à tradução das formas de tratamento em português. Com efeito, os modos de exprimir, por exemplo, as relações sociais variam de uma língua para a outra. Como estabelecer numa outra língua, o mesmo nível de cortesia/descortesia, de proximidade /afastamento da língua de partida? Será que o tradutor dá prioridade à interpretação, tentando encontrar o equivalente na língua de chegada ou será que efetua uma transposição correndo o risco de criar um discurso artificial?

Esperamos que este estudo permita, através de uma análise comparativa entre o português e o francês, identificar quais as formas de tratamento que são mais ambíguas e que colocam mais dificuldades na sua tradução.

Palavras-chave: formas de tratamento, tradução, literatura contemporânea.

 

Minibiografia:

Catarina Vaz Warrot foi leitora do Instituto Camões em França de 2009 a 2012. Defendeu a sua tese de doutoramento «La création romanesque chez António Lobo Antunes: des clés d’écriture aux clés de lecture», na Universidade de Paris 8 (sob a direção de Maria Helena Araújo Carreira) e em cotutela com a Universidade Nova de Lisboa (sob a direção de Fernanda Menéndez). Atualmente é bolseira da FCT em pós-doutoramento na Universidade do Porto (CLUP) e trabalha sobre «O papel do tradutor literário : entre cooperação e recriação textual». A sua obra Chaves de leitura e chaves de escrita nos romances de António Lobo Antunes foi publicada em 2013 (Lisboa, Leya, Texto Editora, coleção «ensaio», sob a direção de Maria Alzira Seixo, 253pp.)


Comunicação 27

Papéis sociais, status e formas de tratamento no diálogo de ficção

Autora:

Fabiana Meireles de Oliveira – USP (Brasil) – fabi.meireles@hotmail.com

 

Resumo:

É importante considerar que a forma mais comum de se analisar a linguagem falada é por meio de gravações de conversa entre pessoas. No entanto, de acordo com os estudos de Tannen (2003) as gravações nem sempre contribuem para um diálogo real, pois ao saberem que estão sendo gravados, os informantes não agem com naturalidade, o que se reflete na fala. Para que isso não aconteça, seria necessário fazer gravações secretas, mas sabemos que é uma medida que, além de não ser ética, encontra impedimentos legais. Diante dessa dificuldade de se fazer gravações, escolhemos analisar os diálogos construídos da obra Meu destino é pecar de Nelson Rodrigues, sob a ótica dos pronomes e formas de tratamento. Essa escolha foi possível a partir do momento em que percebemos que cada indivíduo ocupa uma posição dentro de um grupo do qual faz parte. Dessa forma, este trabalho pretende analisar os papéis sociais, status e formas de tratamento, apoiados nos estudos de Goffman (1967) e Robinson (1977) a fim de analisarmos o status que o indivíduo ocupa na sociedade, dependendo do papel que ele irá desempenhar, uma vez que a sociedade possui normas e estas devem ser preservadas. Ainda assim, os indivíduos desempenham diferentes papéis, o que também está ligado às formas de tratamento que , segundo Preti (1984), podem revelar intimidade, solidariedade, afetividade, reverência, hierarquia e poder.

Palavras-chave: formas de tratamento; status;  papéis sociais; interação.

 

Minibiografia:

Doutoranda no curso de doutoramento em Estudos Portuguesas na Universidade Aberta. Especialista e mestre em Língua Portuguesa pela PUC- SP. Bacharelado e licenciatura em Letras. Especialista em Mídias na educação pela Universidade Federal de Pernambuco. Atualmente professora de fundamentos de comunicação em Língua Portuguesa- FCE, Linguagem trabalho e tecnologia no CEETEPS.


Comunicação 28

Formas de tratamento e (des)cortesia na rede social Facebook

Autora:

Katiuscia Cristina Santana – FFLCH/USP  (Brasil) – kathycris@gmail.com

 

Resumo:

O presente trabalho propõe um estudo das formas de tratamento que expressam a (des)cortesia na rede social Facebook. Kerbrat-Orecchioni (1990) entende que as formas de tratamento são o conjunto de expressões que o locutor dispõe para designar seu interlocutor. Salienta, ainda, que essas expressões têm, geralmente, um valor dêitico e servem para estabelecer um tipo de elo social. Neste sentido, as formas de tratamento contribuem na interação social, indicando a aproximidade ou a distância nas relações sociais e, por conseguinte, expressam também a cortesia. A noção de cortesia se desenvolveu com base no conceito de face introduzido por Goffman (1967) e aprofundado mais tarde por Brown e Levinson (1987). Salienta-se que o ritual de cortesia é um aspecto fundamental no processo de interação, visto que os interactantes procuram evitar qualquer tipo de agressão em relação ao outro. Na rede social Facebook, no entanto, observou-se o uso constante das formas de tratamento em interações descorteses. No âmbito desta pesquisa, entendemos que as formas de tratamento são “palavras ou sintagmas que o usuário da língua emprega para se dirigir e/ou se referir à outra pessoa”, tal como define Silva (2003, p.170). O uso de diferentes formas de tratamento não é indiferente e implica múltiplas relações entre os vários status sociais e os consequentes papéis para desempenhá-los. Levando em consideração as pesquisas já desenvolvidas a respeito da cortesia e das formas de tratamento, a pesquisa busca embasamento teórico na Análise da Conversação, na Pragmática e na Sociolinguística Interacional para a análise do corpus escolhido para o estudo. Para tanto, serão analisados excertos de conversa de grupos brasileiros e de sites de entretenimento na rede social Facebook.

Palavras-chave: formas de tratamento; (des)cortesia; rede social; análise conversacional.

 

Minibiografia:

Doutoranda na área de Filologia e Língua Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Mestra em Letras pela mesma instituição. Atualmente, desenvolve pesquisa sobre a descortesia na rede social Facebook. Atua no âmbito da Pragmática, Análise da Conversação e Análise do Discurso.


Comunicação 29

Formas de tratamento, tradições discursivas e proximidade comunicativa em cartas de amor pernambucanas do século XX

Autores:

Valéria Severina Gomes  – Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE – lelavsg@gmail.com

Cleber Alves de Ataíde – Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE – cleberataide@gmail.com

 

Resumo:

A presente pesquisa consiste no estudo sobre o tema que vem sendo desenvolvido por equipes de vários estados brasileiros, com o intuito de contribuir com dados referentes ao estado de Pernambuco acerca do emprego dos pronomes de tratamento no português brasileiro. Para contribuir com a compreensão de como se deu a difusão de você em Pernambuco, o presente estudo abordará, nas cartas de amor pernambucanas da primeira metade do século XX: i) a relevância do conceito de Tradição Discursiva na explicação das mudanças ocorridas no sistema de tratamento pronominal do português brasileiro; ii) a parte constitutiva da carta em que as formas de tratamento são empregadas; iii) os contextos sociopragmáticos que favoreciam o emprego das formas você e tu como sujeito na produção escrita dos amantes pernambucanos (1949-1950); iv) a observância dos diferentes contextos morfossintáticos em que as formas relacionadas ao paradigma de você e/ou tu ocorrem na amostra em análise; v) as marcas de proximidade comunicativa na relação estabelecida entre os missivistas.    Para este estudo, tomou-se como aparato teórico a teoria do Poder e da Solidariedade (BROWN e GILMAN, 1960), a Teoria da Polidez (BROWN e Levinson, 1987), a Tradição Discursiva (KABATEK, 2006) e a Sociolinguística Histórica (CONDE SILVESTRE, 2007). O procedimento de análise adotado contempla a perspectiva da Tradição Discursiva e da Sociolinguística Histórica, com ênfase na verificação das variações do sistema pronominal de tratamento do português brasileiro. Os resultados apontam para o favorecimento do paradigma do tu em diferentes contextos morfossintáticos na composição das cartas de amor pernambucanas da primeira metade do século XX.

Palavras-chave: formas de tratamento; tradição discursiva; cartas de amor.

 

Minibiografias:

Valéria Severina Gomes – Professora do Departamento de Letras da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Coordenadora Regional de Pernambuco do Projeto Para a História do Português Brasileiro (PHPB), pesquisadora do LEDOC – Laboratório de Edição e Documentação Linguística de Pernambuco. É doutora em Linguística e desenvolve trabalho no âmbito da Linguística Histórica, Tradição Discursiva, Gêneros Textuais e Linguística Aplicada.

Cleber Alves de Ataíde – Professor do Departamento de Letras da Universidade Federal Rural de Pernambuco (Unidade Acadêmica de Serra Talhada – UAST). Pesquisador da equipe de Pernambuco do Projeto Para a História do Português Brasileiro (PHPB), Coordenador do LEDOC – Laboratório de Edição e Documentação Linguística de Pernambuco. É doutor em Linguística e desenvolve trabalho no âmbito da história e descrição do português, tradição discursiva, gramaticalização, variação e mudança linguística, construções verbo-sujeito e aspectos semântico-pragmáticos do ensino de língua.


Comunicação 30

Relações de simetria e o uso deformas de tratamento de segunda pessoa em cartas baianas escritas a partir de 1930

Autoras:

Priscila Starline Estrela Tuy Batista  – Universidade Estadual de Feira de Santana/UEFS – priscilatuy@gmail.com

Zenaide de Oliveira Novais Carneiro – Universidade Estadual de Feira de Santana/UEFS – zenaide.novais@gmail.com

Mariana Fagundes de Oliveira Lacerda – Universidade Estadual de Feira de Santana/UEFS – marianafag@gmail.com

 

Resumo:

O quadro dos pronomes pessoais no Português Brasileiro (PB) apresenta algumas inovações em relação ao Português Europeu (PE), como, por exemplo, o progressivo uso do tratamento inovador você, vindo de Vossa Mercê – concorrendo com o tu canônico –, chegando a ser a única forma de referência ao interlocutor em determinadas regiões do país; no PE, o pronome tu, além de continuar como forma predominante de referência ao interlocutor, aumentou sua frequência no decorrer do século XX (DUARTE, 1993; LOPES, 2009; MACHADO, 2011).  À medida em que as formas nominais adquiriam traços de pronomes – Vossa Mercê > Você –, assumiam também diferentes posições sintáticas, a exemplo da posição de sujeito (cf. BRITO, 2001; MACHADO, 2006; LOPES, 2009). Soto (2001) aponta que, em cartas brasileiras do século XX, a forma você é produtiva e divide seu cenário de uso em relações simétricas íntimas com o pronome tu. Este trabalho analisa o uso das formas de tratamento tu e você na posição de sujeito pleno, em cartas pessoais escritas por baianos pouco escolarizados entre as décadas de 1930 e 1980, em contextos de mais intimidade (familiares e amigos íntimos), apresentando um estudo contrastivo com outros estados brasileiros. Trata-se de 106 cartas, inéditas, que fazem parte do Acervo da Família Estrela Tuy (106 cartas, 12 bilhetes e 2 cartões). Os dados foram analisados de acordo com os princípios da Sociolinguística Quantitativa (LABOV, 1994), com apoio do software Goldvarb X. Considerou-se também a Teoria da Polidez de Brown & Levinson (1987), para quem se deve levar em conta a preservação da face entre os interactantes. Os resultados encontrados apontam o uso de Você na documentação epistolar em questão, em contextos de maior e de menor intimidade; o emprego de Tu, por outro lado, só se deu nas cartas de maio intimidade.

Palavras-chave: A variação tu/você; Cartas pessoais baianas; Relações simétricas.

 

Minibiografias:

Priscila Starline Estrela Tuy Batista – Possui Graduação em Letras Vernáculas (2013) pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Mestre em Estudos Linguísticos (2017) pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos pela mesma instituição. Integrante do Projeto Corpus Eletrônico de Documentos Históricos do Sertão da Universidade Estadual de Feira de Santana.

Zenaide de Oliveira Novais Carneiro – Possui graduação em Letras com Inglês  (UEFS, 1988), mestrado em Letras e Linguística  (UFBA, 1996), doutorado em Linguística (UNICAMP, 2005), pós-doutorado em Linguística de Corpus  (UNICAMP, 2010). Atua como professora Plena da UEFS, como colaboradora no Programa de Pós-Graduação em Língua e Cultura da (UFBA) e como professora permanente no Mestrado em Estudos Linguísticos, na UEFS.  Integra a Comissão Nacional de Corpora do Projeto Para a História do Português Brasileiro (PHPB), a Equipe do PHPB-Bahia (PHPB-ba), a do Banco de Dados do Programa Para a História do Português (BIT-Prohpor-UFBA) e a do CE-DOHS (disponível www.uefs.br/cedohs).

Mariana Fagundes de Oliveira Lacerda – Possui Graduação em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (2002), Mestrado (2005) e Doutorado (2009) em Letras e Linguística pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da mesma instituição, com estágio de doutoramento no Centro Linguístico da Universidade de Lisboa. Atua como professora permanente no Mestrado em Estudos Linguísticos. É pesquisadora do Projeto Corpus Eletrônico de Documentos Históricos do Sertão, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), onde é Professora Adjunto B da subárea de Linguística Histórica.