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Simpósio 12

SIMPÓSIO 12 – FIGURAS DO CONTATO ENTRE LÍNGUAS NA LITERATURA

 

Coordenadoras:

Silvana Matias Freire – CEPAE/UFG – silvanamatiasfreire@gmail.com

Tarsilla Couto de Brito – FL/UFG – tarsillacouto@gmail.com

 

Resumo:

Na introdução a uma entrevista realizada com J. Derrida intitulada “Essa estranha instituição chamada literatura” (2014), o escritor Evandro Nascimento contextualiza o ambiente bilíngue em que se deu a entrevista. Derrida não só respondia em francês às perguntas formuladas em inglês por Derek Attridge, como retomava, literalmente em inglês, palavras, sintagmas e frases de seu interlocutor. E. Nascimento indica, ao descrever esse contexto, que há sempre um bilinguismo em causa, uma relação com a língua do outro, principalmente quando se trata de literatura. O sintagma derridiano “mais de uma língua” (plus d’une langue), citado por Nascimento, mostra que a língua é contaminada por aquilo que ela não é, seu exterior, ao qual se relaciona inelutavelmente. O contexto acima descrito inspira este simpósio cujo principal objetivo é discutir os modos como a literatura representa, apresenta, formaliza, modela, faz aparecer ou silencia o contato entre línguas e, consequentemente, entre povos, entre grupos, entre pessoas de origens e histórias diferentes. Este problema abarca desde as odisseias da antiguidade, as crônicas dos viajantes do “Novo Mundo”, as ficções da colonização, as narrativas de emancipação, as utopias e distopias, as memórias do exílio, os relatos de imigrantes, e, ainda, os esforços e estudos de tradução – enfim, toda sorte de figurativizações de deslocamentos capazes de oferecer a dimensão do contraste e da diferença pelo contato entre línguas, pela relação que só se realiza através de “mais de uma língua”. Serão bem vindas diferentes perspectivas, metodologias, abordagens para que o problema da alteridade seja observado, sob diversos aspectos, como uma arena de conflitos interlinguísticos.

 

Palavras-chave: Narrativa. Tradução, Deslocamento, Contato linguístico.

 

Minibiografias:

Tarsilla Couto de Brito: Professora de Teoria Literária e Ensino de literatura na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás (UFG). Mestrado e Doutorado em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (2005, 2013). Integrante do grupo de pesquisa “Crítica e Tradução do Exílio”. Entre os problemas de pesquisa destacam-se: compreensão dos modos de representação do Outro na ficção; o pensamento sobre mímesis nos estudos literários brasileiros; ensino de literatura a partir das experiências da identificação e do estranhamento.

Silvana Matias Freire: Professora de Língua Francesa no Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação da Universidade Federal de Goiás (UFG). Mestrado em Linguística Aplicada e Doutorado em Linguística na Universidade de Campinas (1998, 2007). Integrante do grupo de pesquisa “Crítica e Tradução do Exílio”. Pesquisa na área de aquisição de linguagem: língua materna e estrangeira. Linha de pesquisa: linguagem e psicanálise.

 

 

Resumos dos trabalhos aprovados

Comunicação 1

Português como língua de acolhimento no processo de tradução

Autora:

Alice Maria de Araújo Ferreira – UnB-PosTrad-IL – malice4869@gmail.com

 

Resumo:

No processo de tradução opera-se uma transformação do texto estrangeiro, ao mesmo tempo que, ao nos abrirmos para acolhe-lo, produzimos língua. Entre as diversas concepção de tradução, discutiremos a poética do traduzir de Henri Meschonnic (1999) que desloca a questão da tradução da língua para o discurso. Esse deslocamento teórico-metodológico nos leva a uma concepção de tradução, não mais como passagem entre dois sistemas fechados, mas como lugar crítico-criativo do encontro como renúncia (Benjamin, 2008; Glissant, 2005) eprática mestiça (Nouss, 2001). Para nossa discussão apresentamos trechos da tradução de dois textos: uma peça de teatro, À petitespierres de Gustave Akakpo, e um ensaio de antropologia, Je, nous et lesautres de François Laplantine. Ambos, foram escritos em francês e foram traduzidos para o português. A partir dessas experiências propomos discutir de que maneira a língua que traduz (aqui o português) renuncia ao ser para acolher o estrangeiro e se deixasendo. Nessa perspectiva, traduzir é produzir poéticas latentes ativadas pelo/no contato (tensão/fruição das línguas nos discursos). Na tradução dos dois textos, a experiência do encontro ao produziruma fronteira, desafia seus limites. Em outros termos, ao mesmo tempo que lemos e reconhecemos o português, sentimos a presença do diferente que força seu ser-língua para entrar no sendo-discurso. O traduzir, com a migração e o encontro de textos que produz através o mundo, constituiu uma República das Letras (CASANOVA, 2007) em que o traduzir é contemporâneo dos movimentos da sociedade e das relações geopolíticas que marcam seu fazer historicamente, poeticamente, eticamente. Cabe à nossa discussão questionar a relação que estabelecemos com o diferente quando o traduzimos. Que relação se instituiuentre literaturas de mundos diferentes através a história? Qual a relação que po-eticamente produzimos ao traduzir o outro? Que relação estabelecemos com nos-mesmos ao assumir que não somos meros usuários da língua mas produtores dela?

Palavras-chave: Tradução; estranhamento; ser-língua; sendo-discurso; língua portuguesa.

 

Minibiografia:

Alice Maria de Araújo Ferreira é doutora em Linguística pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professora de tradução no Instituto de Letras e no programa de pós-graduação em Estudos da Tradução da Universidade de Brasília. Coordena o grupo de pesquisa Tradução etnográfica e poéticas do devir (Cnpq). Desenvolve pesquisas nas áreas de Tradução, Terminologia e Etnoterminologia.


Comunicação 2

Tempos ritmos e vozes de línguas em tradução

Autora:

Viviane Veras – Unicamp – viveras@iel.unicamp.br

 

Resumo:

Do ponto de vista ético, talvez seja possível pensar o saber-fazer do tradutor como uma espécie de soma de saberes acumulados no trajeto de suas experiências no campo da tradução. Por outro lado, talvez essa forma de saber não baste. Talvez seja preciso correr o risco de entrar na trama de cada escrita e contar com o estranhamento que ela encena, com o que nela nos inquieta até o ponto de sentirmos no corpo o que reverbera, ressoa de uma língua em outra, fazendo-nos provar o derridiano “só tenho uma língua, não é a minha” (1996, p. 13). A proposta deste trabalho é levar em consideração que entre línguas em tradução, entre tempos e contratempos, precisamos nos pôr à escuta do que nelas – tanto na língua dita original quanto em sua tradução – dá lugar a equívocos, resiste à compreensão, reivindica sua opacidade. Esse outro saber-fazer exige um manejo dos tempos, uma marcação dos ritmos, uma escuta e uma disposição ao imprevisto, ao inaudito, ao improviso. Se traduzir é uma escrita que deixa fora o corpo de outra, ela precisa, também, recriar esse corpo, fazer que se escutem – nesse contato sempre cuidadosamente regulado – as vozes recriadas em outras sintonias, e, se possível, que se partilhem os silêncios que se entremeiam nesses cantos, de cada vez, originais.

Palavras-chave: tradução; tempo;  ritmo; escuta.

 

Minibiografia:

Mestra e Doutora em Linguística pela Unicamp. Professora do Departamento de Linguística Aplicada no Instituto de Estudos da Linguagem – Unicamp. Pesquisadora do grupo Outrarte: psicanálise entre ciência e arte; do grupoLinguagem e identidade: abordagens pragmáticas; do grupo MultiTrad, abordagens multidisciplinares da tradução. Revisora e tradutora.


Comunicação 3

O curioso parque das traduções impróprias

Autor:

Luís Fernando Protásio – Unicamp – luisfprotasio@gmail.com

 

Resumo:

Ao capturara tradução numa estrutura mítica ao mesmo tempo dentro e fora da linguagem,Roman Jakobson (1959) aposta numa noção de movimento pendular assentada em um mundo que precisa prever elementos concretos, estáveis e constantes para se realizar: o mundo do significado, do sentido do qual a comunicação é o fato linguístico concreto. Esse gesto, ao mesmo tempo linguístico e político, entabula uma gramática que vai desde então definir as regras para o jogo dos estudos da tradução. Segundoessa gramática, asjogadas que a colocam em xeque, como aquelas concretizados pela autotradução, pela pseudotradução e pela poesia, são deslocadas para um espaço de exceção (um limbo) reservado pelaestruturapara padrões inadequados – um grande depósito de exemplares “com defeito”, um curioso parque de traduções impróprias que pode ser visitado desde que o objetivo, pedagógico, seja aprender e ensinar o que, em todo caso, não é,propriamente, umatradução. Das visitas guiadas a esse parque advém, por exemplo, a mania de subordinar a autotradução a algum nível de bilinguismo, de relacionar a pseudotradução a um projeto literárioextravagante e deatrelara poesia à hipóteseromântica do gênio da língua. Ocorre, no entanto, queparece ser justamente nessasjogadas que colocam a gramática da relação em xeque que a tradução, entendida aquisegundo Barbara Cassin (1990; 2005) como um“efeito-mundo”, coloca em circulaçãotoda a potência de sua plasticidade de móbile para operar o ato político condensado no sintagma derridiano “mais de uma língua” (plus d’une langue). Tendoessas considerações em vista, proponho, a partir da jogada realizada pela tradutora e escritora canadense Nancy Hustonem seu curioso livro Limbes/Limbo (1998), apreciar os efeitos no mundo quando as traduções impróprias ultrapassam os limites do parque em que foram arquivadas e ganham as ruas enfim.

Palavras-chave: autotradução; estrutura; pedagogia da tradução; política; jogo.

 

Minibiografia:

Doutorando em Linguística Aplicada na UNICAMP na área de Teoria, Prática e Ensino da Tradução, trabalhando com os seguintes temas: teorias e práticas da tradução em interface com a pedagogia da tradução, diálogos entre filosofia, psicanálise e teoria literária e relações entre atos de fala, autotradução e narração. Tradutor profissional no segmento editorial.


Comunicação 4

Casulo de poesia: a tradução do retábulo de santa joana carolina para o japonês

 

Autor:

Cacio José FerreiraUniversidade Federal do Amazonas caciosan@hotmail.com

 

Resumo:

Para Walter Benjamin, “a finalidade da tradução consiste em expressar o mais  íntimo relacionamento entre as línguas”. Nesse sentido, o presente trabalho evidenciará a força e a dificuldade que a poética da tradução apresenta no momento da tradução para o japonês da narrativa o Retábulo de Santa Joana Carolina, de Osman Lins. A urdidura da escrita poética, como o tradutor adentra a essa caverna escura da escritura osmaniana e como ele percebe (e traduz) esse jogo textual, mediando o voo de um pássaro em uma sala sem janelas, apenas com frestas poéticas, também serão discutidas ao longo do trabalho. A beleza do texto, a palavra escrita por meio do fio de prumo, a tessistura densa e racional são elementos que compõem a força de traduzir uma narrativa de Osman Lins.  É como se no traduzir do texto osmaniano existisse “um Anchieta pregando, com alegria e desespero, o seu evangelho” (LINS,1979, p. 7). A dificuldade exige um preparação constante do tradutor em busca de uma compreensão mais justa da escritura. Nesse mesmo caminho, as dificuldades também se avolumam. O ímpeto da compreensão não repensada pode levar o texto traduzido para direções inesperadas. No entanto, ter riscos é arranhar o próprio corpo do texto para que o outro entenda a dor que ali se encontra. Henri Meschonnic (1989, p.247), por exemplo, ao falar da poética da tradução, afirma que ela é a “forma de vida que transforma tudo em linguagem. Ela só nos acontece se a própria linguagem se torna uma forma de vida. Por isso ela é tão inquieta. Pois ela não cessa de trabalhar sobre nós”. Portanto, o contato entre a poética do texto osmaniano e a língua japonesa no momento da tradução consituirão as postulações deste trabalho.

Palavras-chave: tradução; contato; língua japonesa; Osman Lins; poética da tradução.

 

Minibiografia:

Professor de Literatura Japonesa da Universidade Federal do Amazonas, mestre em Literatura e Doutorando em Estudos Literários Comparados (UnB). Participa do Grupo de Pesquisa Estudos Osmanianos: arquivo, obra, campo literário (UnB), Estudos Japoneses (UFAM) e Observatório de ensino de línguas (UFAM). Organizou o XI Congresso Internacional de Estudos Japoneses e foi presidente da Associação Brasileira de Estudos Japoneses no Brasil – ABEJ (2014-2016). Atua principalmente nas seguintes linhas: língua, literatura e cultura japonesas, língua portuguesa, linguística, linguística aplicada, tradução, representação literária, fábulas, imigração e questões sobre leitura e escrita.


Comunicação 5

Contato entre línguas: a alteridade em questão

Autora:

Silvana Matias Freire – Universidade Federal de Goiás – silvanamatiasfreire@gmail.com

 

Resumo:

O livro Mégapolis: les derniers pas du flâneur (2009) da escritora franco-canadense Régine Robin é uma obra que favorece uma reflexão sobre as “figurativizações de deslocamentos capazes de oferecer a dimensão do contraste e da diferença pelo contato entre línguas, pela relação que só se realiza através de ‘mais de uma língua’”. Nesse livro, Robin relata sua travessia, à moda de um flâneur,  por cinco megalópoles: Nova Iorque, Los Angeles, Tóquio, Buenos Aires e Londres. Escolhemos para a presente comunicação percorrer Tóquio, seguindo os passos da autora, tendo como perspectiva o desafio que o contato entre línguas nos propõe. Dentre as cinco megalópolis, a opção por Tóquio foi feita por acreditarmos que tal desafio aí se potencializa em função do idioma oficial. A língua japonesa se distancia muito das linguas ocidentais, fazendo emergir, para nós, uma alteridade linguística radical. Segundo Robin, a poesia contida nessa megalópole começa justamente onde o sentido (significado/direção) desaparece, onde os signos são ilegíveis. A autora se serve do olhar da cineasta Sofia Coppola, no filme Lost in translation, traduzido em português por “Encontros e desencontros”, para tratar da poesia que surge na opacidade do signo. Esse filme coloca, desde o título (original), a questão do conflito entre línguas implicado na tarefa de tradução. Discutiremos o que aparece nesse filme como tensão/fruição pelo confronto entre línguas. O livro “O império dos signos” (2007) de Roland Barthes e o artigo “O estranho” (1919 [1996]) de Sigmund Freud serão utilizados para fundamentar nossas discussões.

Palavras-chave: Contato entre línguas; Alteridade; Tradução.

 

Minibiografia:

Graduação em Licenciatura em Letras Português Francês pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1991), mestrado em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (2001) e doutorado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (2007). Atualmente é professor Associado I da Universidade Federal de Goiás. Trabalha na linha de pesquisa linguagem e psicanálise.


Comunicação 6

O tradutor e as vozes ambivalentes em O último voo do flamingo, de Mia Couto

Autora:

Natasha Magno Francisco Dos Santos – UNICAMP – natasha.mfs@gmail.com
Resumo:

O presente trabalho se propõe a pesquisar, a partir da teoria crítica pós-colonial, a representação do tradutor na obra O último voo do flamingo, do autor moçambicano Mia Couto. Nela, busca-se identificar e analisar, no texto ficcional, a figura do tradutor, que incorporado no italiano MassimoRisi, buscou ao longo da narrativa decifrar uma sociedade intraduzível e que muito foi transformada pela prática colonial.

Trabalharei a temática da guerra civil em Moçambique, sob a perspectiva de como a memória, o esquecimento e as relações afetivas são elaborados literariamente, desvelando sombras e assombrações da história, para que, por meio dessa chave, seja possível desconstruir a figura do tradutor. A resistência à prática colonial consolidou-se de maneira mais efetiva após a independência de Moçambique, na qual a preocupação passou a ser a da reconstrução de uma identidade nacional, e, outra vez, a literatura teve papel fundamental nesse processo, pois a língua portuguesa, antes ferramenta de dominação do colonizador, se transformara em um instrumento de comunicação. Assim, o contexto cultural pós-colonial, no qual O último voo do flamingo está inserido, permite a construção de pontos de encontro entre diversas culturas e olhares, inclusive dos mortos. Tal hibridismo cultural mapeia as experiências históricas de Moçambique e contribui para um movimento de busca à identidade, que se fortalece por meio do resgate à memória. Esse resgate surge muitas vezes em obras pós-coloniais, principalmente via representação de fantasmas e tradutores entre mundos e línguas, que, devido à impossibilidade de reescreverem sua história, surgem, como uma espécie de farol, para guiá-los e alertá-los sobre possíveis rumos futuros a serem percorridos.

Palavras-chave: Literaturas africanas em língua portuguesa; Literatura Moçambicana; Literatura e estudos pós-coloniais; Literatura e Memória; Deslocamentos.
Minibiografia:

Natasha Magno é bacharel em Estudos Literários, Mestranda em Teoria e Crítica Literária, ambos pela Unicamp. Atualmente, desenvolve sua dissertação de mestrado na área de Literaturas Africanas e nos Estudos Pós-Coloniais, sobre a representação do fantasmagórico na obra do autor moçambicano Mia Couto. É professora de Língua Portuguesa, no ensino médio e superior e tem como principais interesses os diálogos entre tradução e literatura, literatura e memória, testemunho e as literaturas africanas em língua portuguesa. Também foi fundadora e faz parte da coordenação do GELCA ( Grupos de Estudos de Culturas e Literaturas Africanas do IEL).


Comunicação 7

Contato entre línguas no livro ilustrado Trudi e Kiki, de Eva Furnari: um “convite” para a criação

Autor:

Newton Freire Murce Filho – UFG –  newtonmurce@yahoo.com.br

 

Resumo:

Este trabalho constitui um recorte de um percurso de pesquisa no campo da literatura infantil, particularmente no que diz respeito a livros ilustrados. No campo da literatura infantil, partimos de uma discussão que concerne à dicotomia tradição/inovação, assumindo uma perspectiva conforme aponta Kimberley Reynolds (2007), segundo a qual a literatura infantil constitui um espaço cultural curioso e paradoxal: ao mesmo tempo altamente regulado e negligenciado, ortodoxo e radical, didático e subversivo. No campo dos livros ilustrados, partimos de uma discussão a respeito dos significantes que compõem esse tipo de literatura (textos verbais e imagens visuais) e que fazem com que alguns desses livros se destaquem como inovadores ou mesmo subversivos. Mais especificamente, analisamos o livro brasileiro Trudi e Kiki, de Eva Furnari, em que a autora narra o divertido e curioso “encontro” de duas garotas que se parecem, mas nem tanto, uma sendo de uma família de bruxos e a outra não, uma que fala “bruxês” e outra que fala “biribês”. No confronto entre culturas diferentes e línguas diferentes, inclusive com tradução para o português, evidentemente, Furnari apresenta ao leitor diversos e espirituosos jogos de palavras, brincadeiras com os significantes, com a oralidade e a escrita, com a mistura entre línguas – ao que se acrescenta o francês e o inglês –, jogos estes que acabam por constituir um certo – e atraente –  “convite” para a criação ou para a invenção por parte daquele que lê e se diverte com a obra. Nesse trabalho apresentamos como se dá a criação e o funcionamento linguístico-discursivo desses jogos de linguagem na obra da autora, que constitui um adorável exercício de alteridade linguística e de inovação.

Palavras-chave: livro ilustrado; Eva Furnari; língua.

 

Minibiografia:

Newton Freire Murce Filho é professor da UFG, Brasil, e tem se dedicado a pesquisar o campo da literatura infantil, especialmente livros ilustrados publicados em português e inglês. Foi contemplado com bolsas de estudo do governo canadense, pesquisando na instituição The Centre for Research in Young People’s Texts and Cultures, e do governo alemão, pesquisando na International Youth Library.


Comunicação 8

Aldino Muianga e as especificidades da modernização da narrativa moçambicana

 

Autora:

Ludmylla Mendes Lima – UNILAB – ludmyllalima@unilab.edu.br

 

Resumo:

O modo de representação das tradições escolhido por Aldino Muianga em obras como os contos “A noiva de Kebera” (A noiva de Kebera, Editora Kapulana, 2016) e “O filho de Mussassa” (Xitala Mati, Alcance Editores, 2013) traz elementos que ajudam a refletir sobre as especificidades da modernização da narrativa moçambicana de língua portuguesa. Muianga opta por seguir uma norma relativamente estável do português moçambicanizado, com poucas alterações sintáticas e, ao mesmo tempo, incluir um léxico que faz parte das línguas locais de Moçambique, com a presença de palavras ronga ou changana. O autor imprime, desse modo, à linguagem do quotidiano uma dimensão poética, através de múltiplas recriações e combinações. O objetivo desta comunicação é lançar um olhar analítico sobre este processo, que favorece a reinvenção literária da oralidade, sem perder de vista as questões relacionadas ao deslocamento das formas literárias em sua relação dinâmica com a historicidade.

Palavras-chave: narrativa; deslocamento; formas literárias.

 

Minibiografia:

Professora de Literaturas em Língua Portuguesa na UNILAB (Bahia); doutora em Letras pela USP; desenvolve pesquisa nas seguintes linhas: Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa e Crítica Literária Dialética.


Comunicação 9

Os diálogos e as rasuras entre Antônio Vieira e Inês Pedrosa

 

Autoras:

Jeane Freitas dos Reis – Universidade Estadual de Feira de Santana/UEFS -jeane_freitas@gmail.com

Alessandra Leila Borges Gomes – Universidade Estadual de Feira de Santana / UEFS – allexleilla@gmail.com

 

Resumo:

A Literatura é palco de constantes e crescentes diálogos entre obras. E, dentro dessa proposta, o texto que é corpus desse trabalho – o romance A eternidade e o desejo (2008) – compreende um diálogo entre a narrativa da escritora portuguesa Inês Pedrosa com os sermões do Padre Antônio Vieira. Utilizando-se da metáfora da cegueira como dificuldade de percepção do real, Pedrosa constrói sua personagem principal cega (sem luz), característica que se configura como a abertura para conhecer um mundo novo, ambientado em Salvador, Bahia, onde ela encontrou o amor e perdeu a vista, sob a luz do eco da voz de Vieira. Lidos dentro de um universo contemporâneo, os sermões do padre barroco aparecem sob a forma de fragmentos descontextualizados e, por vezes, destituídos de harmonia e hermenêutica para a consecução da lucidez da protagonista diante dos alumbramentos que a visitam: a noção de desejo como experiência de eternidade, o obscurantismo da nossa era, os sabores e dissabores da colonização portuguesa, o simbolismo do Candomblé e, em especial, o confronto da linguagem – a língua do Padre com o português contemporâneo, e o português do Brasil com o de Portugal. Atento a essas nuances, o presente estudo destaca os contrastes desses sermões com a cena contemporânea, a partir da análise da narrativa em questão, à luz dos estudos de teóricos como: COSTA LIMA (2003); AUERBACH (1976); BAKHTIN (1988); FOUCAULT (1999); KRISTEVA (1976); MACHADO & PAGEAUX (1989) entre outros afins.

Palavras-chave: Inês Pedrosa; Antônio Vieira; diálogos; rasuras.

 

Minibiografias:

Jeane Freitas é graduada em Letras com Língua Inglesa pela Universidade Estadual de Feira de Santana (2012); Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários (PROGEL / UEFS); no qual desenvolve o projeto de dissertação “Uma leitura dos laços afetivos-culturais em Inês Pedrosa”.

Alessandra Leila Borges Gomes é doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (2008). É professora adjunta de Literatura Portuguesa da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e professora de Tópicos da Narrativa no Programa de Pós-Graduação Estudos Literários (UEFS).


 Comunicação 10

A pesquisa em tradução no Coletivo de teatro Na classe e em cena

 

Autora:

Maria da Glória Magalhães dos Reis – Universidade de Brasília – gloriamagalhaes@gmail.com

 

Resumo:

O Coletivo Na classe e em cena, criado em 2010 na Universidade de Brasília, traduziu, do francês para o português, três peças do dramaturgo togolês Gustave Akakpo: Catarse [Catharsis], Tac-tic na rua dos Pinguins [Tac-tic à larue dosPingouins] e A mãe cedo demais [La Mèretroptôt]. A tradução de uma peça de teatro traz consigo alguns desafios. Segundo Henri Meschonnic, em sua obra Poétiquedutraduire  (1999), o processo de tradução implica na superação do dualismo entre forma e sentido levando à percepção da significância do texto. O autor enfatiza que a tradução para o teatro deve “caber na boca do ator” [c´estbien em bouche] (p.233), ou seja, a palavra apresenta, no teatro, uma dimensão corporal que passa pelo corpo e pela voz. Em nossa experiência com as traduções de textos de Gustave Akakpo, esses aspectos são potencializados no uso que o autor faz de falares e expressões de vários países da África tais como: Costa do Marfim, Congo e outros. O texto teatral, esse “tumulto organizado”, segundo o diretor brasileiro Gerald Thomas,envolve uma pluralidade de enunciadores e co-enunciadores: de um lado o autor, o diretor, o ator, o iluminador e vários outros dependendo da produção do espetáculo. E, de outro, o público, o leitor, e, mais uma vez, o ator, o diretor etc. Nesta complexa rede de enunciações, o tradutor percebe-se em uma posição de tomada de decisão: traduzir o texto para um público leitor de dramaturgia oupara uma companhia que quer encená-lo?   Em nossa comunicação pretendemos discutir essa intenção de tradução que traz consequências para o processo tradutológico e alguns elementos das traduções das peças no âmbito das pesquisas de mise-en-scène do Coletivo Na Classe e em cena.

Palavras-Chave: Teatro togolês; Tradução; Corpo.

 

Minibiografia:

Professora Adjunta IV da Universidade de Brasília. Coordenadora dos Grupos: GEDLLE e Na classe e em cena. Atua na Pós-Graduação de Literatura – Pos-Lit. Pós-Doutorado em Teatro e Educação – ECA – USP. Doutorado em Língua e Literatura Francesa – FFLCH – USP. Mestrado em Língua e Literatura Francesa – FFLCH – USP.


Comunicação 11

A relação dialética entre Bakhtin e Todorov: uma tradução comentada

 

Autora:

Débora Lucas Duarte – PIBIC/CNPQ – G/UFG – duartedebora03@gmail.com

 

Resumo:

A partir das questões que se apresentam dialeticamente entre o ato tradutório e sua implicação nas escolhas e reflexões sobre como traduzir, este trabalho se propõe a mostrar o resultado de uma tradução comentada que emergiu da escrita de Todorov sobre Mikhail Bakhtin. O objetivo desta proposta é avaliar a hipótese das transformações provocadas em Todorov pela leitura de Bakhtin, justamente pela transição da escrita de Todorov dos estudos estruturais para os estudos culturais. Pensar essas transformações é pensar também a implicação que surge do contato entre línguas. Nosso objeto de pesquisa é o livro Mikhaïl Bakhtine, le principe dialogique (1981), em que Todorov deixa claro que reconhece uma “unidade de cultura” bakhtiniana na atividade discursiva, lugar de encontro entre duas vozes – este seria o “princípio dialógico” que dá título ao livro. Não se trata aqui de traduzir um texto literário, mas sim de encontrar a partir da tradução comentada uma forma de fazer emergir na teoria o que também pode ser conflituoso na tradução desses textos. O trabalho se fundamenta nas orientações historiográficas e teóricas oferecidas por Henri Meschonnic em seu Poétique du traduire (1999) e de Tzvetan Todorov, tanto o livro Le principe dialogique (1981) na tradução de seu último capítulo, quanto A Conquista da América (1982).

Palavras chave: Tradução; Dialogismo; Todorov; Bakhtin.

 

Minibiografia:

Graduanda em Licenciatura-Francês, pela Universidade Federal de Goiás, bolsista PIBIC/CNPQ, e pesquisadora nos projetos: A leitura de poesia em aulas de francês língua estrangeira (FLE): uma experiência estética” (CEPAE/UFG) e “Tradução etnográfica e poéticas do devir” (UNB).


Comunicação 12

Um andar entre línguas: pelos caminhos da tradução de etnografias

 

Autora:

Rita Elena Melian Zamora – Unicamp – melzam19@gmail.com

 

Resumo:

Com este trabalho pretendo aprofundar uma reflexão, a partir dos estudos de tradução em diálogo com o mundo das narrativas etnográficas da antropologia, sobre os modos em que essas narrativas – sempre preocupadas com mostrar o Outro e o seu mundo – apresentam, transcrevem, transliteram, transformam e reconfiguram esse Outro por meio de processos tradutórios que perpassam a tradução textual. Para isso, parti inicialmente dos contextos mexicano e estadunidense de literatura híbrida ou de fronteira, examinando as concepções que dão suporte ao projeto tradutório da escritora e antropóloga Ruth Behar em uma das suas primeiras obras: “Translated Woman: Crossing the Border with Esperanza’s Story” (1993) e a sua ‘destradução’ para o espanhol (2003). Feita essa análise, proponho aqui pensar na possibilidade de uma tradução dessa narrativa para língua portuguesa. Nesse sentido, trago à tona algumas problemáticas inerentes ao processo tradutório, dentre elas, a língua da qual partiríamos para traduzir: partiríamos do livro dito ‘original’, escrito de forma híbrida transitando entre o inglês e o espanhol, ou da sua ‘destradução’ para o espanhol, que apresenta supostamente as palavras ‘originais’ da protagonista? Quais as implicações dessa escolha? Como lidar com a questão das fronteiras entre as línguas? O trabalho coloca ainda como perguntas norteadoras as seguintes questões: como pensar as traduções de narrativas etnográficas de maneira que não sejam silenciadas as alteridades? Isto é, traduções que contemplem ou que repliquem as histórias de vida daqueles sujeitos silenciados que habitam o limiar do mundo; e o que essas vozes periféricas teriam a sugerir ou a oferecer como contribuição (estratégias, movimentos textuais, etc.) ao tradutor interessado em trasladar essas vozes para uma língua como o português?

Palavras-chave: tradução; alteridade; literatura híbrida; etnografias; fronteira.

 

Minibiografia:

Possui Licenciatura em Língua e Literatura Inglesa e Língua Alemã, e graduação em Língua Portuguesa, pela Universidade de Havana (UH), Cuba (2008). Doutora em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas/Unicamp (2016). Realizou estágio de doutoramento na University of Michigan (MI, EUA) no College of Literature, Science, and the Arts, sob supervisão do professor Dr. Bruce Mannheim. Atua no campo de ensino de línguas e de tradução e interpretação. Tem experiência na área de locução e tradução de programas televisivos. Foi tradutora, narradora e locutora da Agência de Imprensa Prensa Latina Televisión, Cuba. De 2008 a 2011 foi professora de Interpretação Bilateral (Inglês-Espanhol), de Inglês e Português na Faculdade de Línguas Estrangeiras da UH.


Comunicação 13

Análise das escolhas tradutórias dos provérbios no par de obras ensaio sobre a cegueira, de josé saramago, e blindness, por giovanni pontiero

Autora:

Joyce Fernandes – Universidade Hebraica de Jerusalém – joycesfernandes@hotmail.com

 

Resumo:

Ao utilizar-se de estratégias de escrita que buscam a semelhança com a oralidade e a apropriação de formas mais comumente empregadas em contextos de fala, como os provérbios, Saramago se aproxima do leitor e desenvolve uma reflexão sobre os limites da significação das palavras. Tais particularidades tornam-se desafios ao tradutor, principalmente porque se depara com decisões difíceis ao analisar o que priorizar em suas escolhas. É relevante conhecer e estudar obras literárias traduzidas de maneira a observar o estilo do tradutor e as tendências decorrentes de suas escolhas, conscientes ou não, que modificam a obra em diversos níveis. O presente estudo tem como objetivo principal analisar os procedimentos tradutórios presentes no par de obras Ensaio sobre a cegueira ([1995] 2009) e Blindness(1998), traduzida por Giovanni Pontiero. Como objetivos específicos, propõe-se observar e refletir sobre as escolhas feitas pelo tradutor, que apresentou uma tendência para conferir fluência ao texto no que diz respeito à tradução dos provérbios; identificar modalidades tradutórias caracterizadoras das soluções encontradas por Pontiero e a recorrência de uma ou mais modalidades no estilo do tradutor. A análise foi fundamentada nos conceitos metodológicos interdisciplinares da literatura comparada, definidos por Carvalhal (2005 e 2006) e Coutinho e Carvalhal (1994); dos estudos de tradução referentes à aplicação das modalidades tradutórias realizados por Vinay e Darbelnet (1958) e Aubert (1998); além dos estudos sobre o texto proverbial, desenvolvidos por Lopes (1992), Lacerda e Lacerda (2004), Tagnin (2005) e Manser (2007), e da fortuna crítica de Saramago, aqui composta por Bloom (2005), Reis (2008) e Ornelas (2011). Com a análise realizada foi possível verificar as  modalidades mais recorrentes e identificar que o tradutor teria procurado fazer modificações suficientes apenas para adaptar a linguagem utilizada por Saramago às regras da língua inglesa, sem alterar o sentido geral.

Palavras-chave: estudos de tradução; modalidades tradutórias; provérbios; José Saramago.

 

Minibiografia:

Professora de língua portuguesa como língua estrangeira e de literatura em língua portuguesa na Universidade Hebraica de Jerusalém, mestre em Letras pela UNIOESTE, possui especialização em Língua Inglesa pela UDC e graduação em Letras Português/Inglês pela UNIOESTE. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em ensino de línguas estrangeiras modernas (português e inglês), literatura e treinamentode professores.


Comunicação 14

Estereótipo e representação do diálogo entre falantes de PE e PB na literatura lusófona contemporânea

Autora:

Vanessa Castagna – Universidade Ca’ Foscari Veneza – castagna@unive.it

 

Resumo:

Numa altura em que os estudos linguísticos agudizam a consciência da diversidade entre variedades nacionais da língua portuguesa – sobretudo entre PE (português europeu) e PB (português brasileiro) – regista-se na literatura produzida tanto em Portugal como no Brasil a ocorrência de várias tentativas de representação linguística do outro em diálogos entre personagens portuguesas e brasileiras.

Se, por um lado, esse tipo de ocorrência descerra um interesse pela diversidade e a consciência de que essa diversidade existe,  por outro lado, pelo menos uma parte dessas narrativas, ao apresentar o diálogo na diversidade, acaba por estereotipar as recíprocas identidades.

Nessa perspetiva, a comunicação cruzará o domínio da sociolinguística e o da crítica literária, como intuito deanalisar a representação do contacto entre PE e PB em obras da literatura lusófona contemporânea, patenteando processos de normalização e estereotipização recorrentes.

Palavras-chave: estereótipo linguístico; preconceito linguístico; tradução interlinguística – PE/PB; narrativa contemporânea.

 

Minibiografia:

Vanessa Castagna doutorou-se em Estudos Ibéricos e Anglo-Americanos pela Universidade Ca’ Foscari de Veneza, onde atualmente é Investigadora de Língua Portuguesa e Brasileira – Língua e Tradução. As suas áreas de interesse e investigação abrangem o ensino do português como língua estrangeira, a tradução como prática e como objeto de teorização e a intercompreensão entre línguas românicas.


Comunicação 15

Retórica da alteridade: “mais de uma língua” na construção do outro

 

Autora:

Tarsilla Couto de Brito – Faculdade de Letras UFG – tarsillacouto@gmail.com

 

Resumo:

O romance moderno experimentou diferentes formas e figuras para a construção de suas personagens. Este estudo dedica-se a observar e discutir as personagens que não regem a narração, mais especificamente as personagens que constituem um universo cultural diverso e alheio. Uma breve avaliação dos modos historicamente desenvolvidos pelo gênero romance para representação do outro permite perceber que há uma espécie de retórica da alteridade: o personagem Sexta-feira d’As aventuras de Robinson Crusoé erige-se no silêncio da barbárie, ele não tem voz própria nem linguagem; os personagens caipiras, os matutos, os jagunços da literatura regionalista ordinariamente apresentam falas pitorescas molduradas por um narrador culto, como podemos ler em Tropas e boiadas de Hugo de Carvalho Ramos; em Desmundo de Ana Miranda a personagem indígena com quem a narradora trava relações mantém sua língua originária. Tal fato literário impõe estratégias de representação específicas ao gênero romance. A pergunta que fazemos aqui é: como a presença de “mais de uma língua” afeta essa retórica da alteridade no romance contemporâneo? As obras analisadas respondem diferentemente à pergunta; a forma estética como cada uma responde carrega problemasinerentes à dialética entre cultura e história. Imperialismo britânico, processo de modernização do interior brasileiro e colonização portuguesa no Brasil, quando experimentados literariamente, lançam mão de procedimentos miméticos que, ao deformarem a realidade de que emergem, traduzem contradições políticas e sociais pouco evidentes. Dessa análise imanentistadas representações de personagens supostamente alheios à episteme dominante pretende-se, portanto, desdobrar uma discussão que, partindo do pressuposto de que o contato entre línguas pode ser entendido como metonímia de uma longa história de violência, exploração e dominação, pretende contribuir para as reflexões pós-coloniais inauguradas por Edward Said.

Palavras-chave: Alteridade; Romance; Representação.

 

Minibiografia:

Professora de Teoria Literária e Ensino de literatura na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás (UFG). Mestre em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas com dissertação sobre o poeta brasileiro Murilo Mendes (Unicamp-2005) e doutora pela mesma instituição (Unicamp-2013).


Comunicação 16

 As ilusões do viajante e seus relatos

Autora:

Mônica Fiuza Bento de Faria – Universidade Federal Fluminense e Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Professora de Língua francesa e Literaturas francófonas – monicafiuzabf@gmail.com

 

Resumo:

Nosso trabalho propõe reflexões sobre a literatura de viagem de dois viajantes franceses, Charles Expilly e Francis de Castelnau que vieram ao Brasil na primeira metade do XIX.  Esses autores apresentam, em seus relatos, diferentes maneiras de ver o povo, a natureza, os costumes do Brasil, deixando, em seus diários, testemunhos que nos permitem estudar o cruzamento de olhares entre os dois países, França/Brasil. Pretendemos também abordar algumas questões a respeito desse gênero, da tradução e das questões linguísticas encontradas durante o trabalho do tradutor.

Palavras-chave: relato de viagem; viajantes franceses; tradução.

 

Minibiografia:

Professora Doutora de língua francesa e literaturas francófonas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e Universidade Federal Fluminense, atua desde 2011 nos cursos de graduação em Letras, Licenciaturas Português/ Francês, ministrando aulas de Língua, literatura, literatura comparada e tradução. Além das aulas, coordena o setor de francês do Laboratório de tradução da UFF. Cursa a Pós-graduação em Psicanálise e Ciências humanas, na Universidade Cândido Mendes (Rio de Janeiro). Participa dos  Projetos de pesquisa :  Olhares sobre o Brasil e Paradoxos do olhar do outro: relatos sobre o Brasil.


Comunicação 17

A Literatuta Brasileira Diaspórica e os Hibridismos Culturais e Linguísticos

 

Autora:

Lucênia Oliveira de Alcântara Carvalho – Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg  –  info@brasil-recht.de

 

Resumo:

A Literatura Brasileira Diaspórica e os Hibridismos Culturais e Linguísticos No Brasil, ao fim dos anos 90, com a equiparação do Real ao Dólar, a expansão de programas públicos de financiamento de mestrados e doutoramentos no exterior e a internacionalidade advinda da globalização, muitos brasileiros, um público de diferentes níveis de escolaridade, escritores e outros profissionais emigraram para a Europa e América do Norte. Do convívio em diáspora surgiu uma produção literária ímpar, imbuída de hibridismos culturais e a heterogeneidade linguística como reflexos da alteridade, que é um reflexo da interação do indivíduo, de sua expressão verbal e escrita com o meio onde ele se encontra. A língua Portuguesa, em razão do expansionismo comercial advindo das Grandes Navegações, é uma língua repleta de elementos estrangeiros. Muitos vocábulos advêm de culturas exóticas, por causa do comércio na Idade Moderna, bem como consequência da ocupação árabe na península ibérica. No contexto colonial brasileiro, por exemplo, em muitos nichos sociais,o Português  foi e ainda é considerado uma língua estrangeira. Na História brasileira, a representação dos imigrantes europeus, ao lado dos indígenas, dos africanos e do colonizador português, teve um lugar significativo como parte da constituição do povo brasileiro e da formação da variante brasileira da língua portuguesa. Os imigrantes europeus e africanos (se é que se pode falar de imigração no caso da vinda forçada dos africanos para o Brasil) entraram no país e trouxeram as suas línguas maternas ao país, outros contextos, outras ideologias, criando novos vocábulos e alterando os já existentes, criando-se assim as várias nuances que caracterizam o fenômeno da alteridade e do hibridismo na Língua Portuguesa. Neste trabalho serão expostos exemplos de alteridade diaspórica na língua portuguesa e na literatura brasileira dispórica nos EUA, na Alemanha, como também serão citados exemplos de hibridismos na Língua Inglesa, Alemã e Portuguesa, em razão do fluxo migratório hodierno do Brasil para os EUA, Reino Unido e Alemanha. O objetivo desta exposição é sensibilizar para as interações provocadas pelos falantes da língua portuguesa no exterior e para as consequências ortográficas e literárias deste fenômeno.

Palavras-chave:  Alemão; Português; brasileiros; Hibridismo; literatura diaspórica.

 

Minibiografia:

Lucênia de Alcântara Carvalho é mestre em Direito na Friedrich-Alexander-Universität, em Erlangen, Alemanha, onde trabalhou como docente até o ano de 2012. Venceu o concurso literário Assis Brasil em 1993, do departamento de Letras da UFPI, com o conto “A Terceira Venda”. Em dezembro de 2016, publicou o livro bilíngue Histórias Sombrias da Realidade (Dürstere Geschichten der Wirklichkeit). Participou de congressos internacionais de literatura, como o Culture e Letterature in Dialogo: Identità in Movimento, no Centro de Estudos Comparados Ítalo-luso-brasileiros da Università degli Studi di Perugia, na Itália e do IV World Conference of Brazilian Writers Abroad e III Seminar on the Literary Expressions of the Brazilian Diaspora. Bibliografia utilizada: VIEIRA, Nelson. Hibridismo e alteridade: estratégias para repensar a história literária. In: MOREIRA, Maria Eunice (Org.). Histórias da literatura: teorias, temas e figuras. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2003. p. 95-114. BERGMAN, M. P. Nasce um povo. Petrópolis: Ed. Vozes, 1977. (Passim)


Comunicação 18

O regionalismo no sistema literário brasileiro

Autor:

Fernando Cerisara Gil – Universidade Federal do Paraná – fcgil61@gmail.com

 

Resumo:

O objetivo da comunicação é examinar o surgimento da noção de regionalismo no sistema literário brasileiro, tentando captar e compreender as razões históricas, culturais e literárias da sua emergência, bem como identificar possíveis variações e oscilações do termo ao longo do tempo. Expressões como regional, regionalismo e derivadas parecem ter data de nascimento específica assim como condições históricas e sociais não menos particulares para serem tornadas moedas correntes de explicação de parte do nosso sistema literário e cultural. A naturalização de tal conceito na crítica e na história da literatura talvez tenha feito perder de vista as condições e os processos histórico-culturais envolvidos em sua aparição. A hipótese que queremos expor para a presença desse conceito em nossa vida mental se vincularia a uma rede complexa e intrincada de relações e causalidades históricas, sociais e culturais de longo prazo. Tal rede se originaria numa matriz histórica de larga amplitude histórica, proveniente de um forte movimento de centralização do poder nos anos 30 do século XIX, no período da Regência, mas agudizada ao longo do Segundo Império; passa ainda pela percepção da “formação dicotômica” do país entre cidade/campo e cidade/província, no final do século XIX, até a compreensão do país com uma grande “herança rural”, para utilizar a expressão de Sérgio Buarque de Holanda, como vínculo ao passado rural patriarcal, com toda a carga de retrocesso e de atraso que este espaço social representaria para parte da Inteligência brasileira. É nesse momento, ali nos anos 20/30, que a noção de regionalismo se consolida nos estudos literários brasileiros. Discutir alguns estágios deste percurso é o nosso objetivo.

Palavras-chave: Regionalismo; regional; crítica; literatura brasileira.

 

Minibiografia:

Fernando Cerisara Gil é professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Paraná e Pesquisador do CNPq. Publicou os livros O romance de urbanização (PUCRS/UFG), Do encantamento à apostasia (UFPR) e Ensaios sobre a formação do romance brasileiro (UFPR).